Interrompo a Mínima Enciclopédia para publicar algo sobre aquele que foi uma grande cantor e, ao que parece, não foi um bom cidadão. A interupção é em termos, já que trata-se de informação, que é o objetivo daquela Mínima...
Simonal
Vejo agora n’ A Tarde(1) uma matéria sobre o cantor Wilson Simonal e sobre o filme que fizeram sobre sua trajetória de artista talentoso que foi. O artigo parte de algumas informações contidas no livro de Mário Prata “Esquecemos de Anistiar o Simonal”. E, talvez por se pautar em informações tendenciosas ou incompletas, há na matéria algumas imprecisões. Sobre as quais tomo a liberdade de especificar: A principal delas está implícita nos períodos: “A derrocada (de Simonal) começou ao chamar amigos policiais – integrantes do DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) – para dar uma coça no contador, o que aconteceu na delegacia.” É preciso esclarecer que coça é uma palavra muito leve para se caracterizar sevícia ou tortura, que era o que se praticava nos porões do regime militar, em particular no DOPS. Seria também de causar assombro que os amigos de Simonal fossem agentes do DOPS...! Ainda que tal não o configure como dedo-duro. Isso para não falar do censurável fato de chamar – na calada da noite (com perdão do lugar-comum) – os beleguins da ditadura para espancar desafetos... Ainda que isso também não o configure como dedo-duro, só como um homem que – a exemplo de alguns coronéis do sertão, e na Bahia, ou poderosos do de todo o mundo – gostam de agir dessa forma, ou seja, ao arrepio da lei.
E segue o texto com outras imprecisões que dão lugar a interpretações dúbias: “O fato foi descoberto pela imprensa e Simonal se afirmou como homem ligado ao regime militar. Foi um prato cheio para que a mídia esquerdista começasse a espalhar que (ele, Simonal) era um delator, falha grave naqueles duros anos.” Mais além de que “naqueles duros anos” de ditadura não existisse mídia esquerdista. Toda a grande impressa apoiava ou tolerava o golpe, inclusive A Tarde e outros jornais do eixo Rio-São Paulo. Sem esquecer o fato de que ser delator, ou seja, informante como o foi Silvério dos Reis e Calabar – salvo melhor juízo – é uma falha grave em quaisquer tempos, pelo menos o é para as pessoas de caráter. Porém, isso não é só o que há de incongruência no texto. Senão vejamos o que é dito a seguir: “E o público, que sofria na pele a rigidez do golpe militar, trocou as costumeiras palmas pelas vaias (...)”
Agora vamos aos fatos, conforme publicado por todos os grandes jornais do Rio de Janeiro na época (e não na mídia esquerdista, que não existia): Simonal contratou policiais do DOPS para espancar seu contador, que ele julgava que o roubava. O contador – que não devia ser flor que se cheirasse – deu queixa e, ao que parece, acusou Simonal de ser esquerdista, uma vez que era um artista e quase todos os artistas estavam contra o golpe militar, e quem estava contra o golpe era comunista. O caso foi parar na justiça. No julgamento Simonal (ou seu advogado) apresentou como testemunha um policial do DOPS. Este declarou em depoimento, isto é, sob juramento, que Simonal tinha amigos esquerdistas (Leia-se: comunistas), mas não era de esquerda, porque tudo que os artistas falavam ele informava ao DOPS...
Ora, quem falou isso – conforme se pode constatar nos jornais da época, inclusive na revista Veja – foi um seu amigo, policial do DOPS, a quem ele apresentara como testemunha, em juízo, contra o contador que o estaria roubando, e a quem ele mandou dar uma surra.
Frente a isso, os primeiros a execrarem-no foram os artistas de quem ele ouvia e informava ao DOPS, segundo o próprio policial seu amigo. O que me parece uma justa indignação. O público mais politizado realmente o vaiou, porém ele já estava “queimado” – como se dizia na época – e a sua decadência foi uma conseqüência natural, até mesmo porque os produtores culturais deram-lhe as costas.
Se ele era ou não delator, dedo-duro ou informante, não sei. Os arquivos do DOPS podem confirmar ou desmentir este fato. Que ele era um artista de talento, não há nem nunca houve dúvida. Porém, só pelo seu comprovado talento não pode ser apagado o que fez de errado. E pelo menos uma coisa fez: Mandou surrar um desafeto, ignorando a lei. Apresentou como seu amigo e testemunha um policial ligado ao pior aparelho de tortura da ditadura, o qual o “delatou” como informante.
No mais, quase tudo que está escrito no artigo d’A Tarde é verdadeiro. Quase...
O que aqui afirmo, ainda que não tenha a mão os jornais da época, está em minha memória. Por isso repito: Um sujeito que contrata uns bandidos para aplicar uma surra a um seu desafeto... Perdão. Um cantor famoso contrata um policial da Polícia Política para aplicar um corretivo em um seu desafeto... E esse, o policial, vai depor em juízo – leia-se, sob juramento – e diz que o acusado, no caso Simonal, é informante desta mesma polícia, por isso ele, Simonal, cai em desgraça e a culpa é da “esquerda”, tenha paciência!!! A culpa de ele ter caindo em desgraça foi de ter dito amigos como o policial que o denunciou em juízo. Aliás, Simonal não precisaria ter inimigos na “esquerda” para ser destruído, destruiu-o sua falta de caráter, de dignidade. Admito que ele, apesar do incomensurável talento, podia não passar de um simplório, um ingênuo ou mesmo mais um desses brasileiros que, com dinheiro, acham que estão acima da lei e do direito mais comezinho(2) e, por isso, manda aplicar corretivo em quem lhe é persona no grata.
Mais tarde, quando todos lhe viraram as costas – e isso está na revista Veja(3) –“Simonal brandia documentos do Serviço Nacional de Informação que provariam sua inocência”. Seria o mesmo que um carcereiro, do mais baixo nível hierárquico, de campo de concentração de Auschwitz, por exemplo, mostrasse aos tribunais de Israel, documentos assinados por Himmler que provariam sua inocência. Infeliz do sujeito que tem que brandir documentos comprovando que é honesto, ainda mais oriundos de onde ou de quem...
Mas como sei que A Tarde jamais publicaria meu texto – tampouco estou interessado que o faça – publico aqui mesmo, em ValençaAgora, para que uma notícia tendenciosa não fique sem resposta. Ainda que esta resposta se restrinja ao povo da nossa região.
A. Vaz Galvão
Valença, Ba, 19 de outubro de 2008
(1) Caderno 2, domingo, 19/10/2008, págs. 1 e 3. Salvador, Bahia. Os textos são assinados por Lucas Cunha.
(2) Agora, 8/7/10, ao reler essa crônica com vistas a publicá-la em meu blog, a mídia estava fervendo com o monstruoso crime da prostituta – vulgo garota de programa – relacionada com o goleiro do Flamengo, então fiquei matutando quantos anos seria necessário passar para que algum jornal – e algum jornalista babaca – viesse a público indagar algo similar ao que pedem para Simonal, ou seja, quando irão indultar Bruno, caso seja ele verdadeiramente o mandante daquele horroroso crime.
(3) “Veja”, 5/7/200, pág. 123, sem indicação do autor.
4 comentários:
Uma vez numa diversificada roda marxista, falávamos sobre os atuais destino brasileiro em meio as costumeiras baforadas. Um militante vindo do Sul, aparentando ter uns 30 anos começou a cantarolar trechos da canção "Limão, meu limoeiro." (sic), foi prontamente advertido por jovens de 20 anos e poucos. Não houve réplica, e nunca mais ouviu-se falar dele no nosso núcleo. Assim como assassinaram Dom Hélder Câmara em vida, o fizemos também com ele enquanto viveu.
Olhe que o ano era 2006, e eu apenas com 20 anos já sabia da dimensão do Simonal.
Araken, meu caro, que bom ler teu texto.
Até hoje me incomoda toda a história de Simonal - tanto sua vilania do passado como algumas tentativas duvidosas de "reabilitá-lo".
Agora, mesmo que um canalha fosse, "meu limão, meu limoeiro" e "samarina" são músicas tão lindas que transcendem seu autor
Sorte e saúde pra todos!
Oi Ane, tudo bem?
Você tem razão, a obra transcende o autor, bastaver Celine e Borges.
Ainda que "Meu Limão' seja propriedade do povo brasileiro, ou seja, folclore.
Beijão
Araken
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