15.11.09

Mínima Enciclopedia - Tutsis e Hutus:

A primeira é uma etnia (tribo) africana, minoritária na Ruanda, país Centro-Africano, que sofreu, em 1994, terrível massacre da etnia rival, os Hutus, A impressa ocidental falou em 800 mil mortos, porém a imprensa ocidental não merece muito crédito nesses dados, porque costuma exagerar para mais e para menos. Mas que o massacre existiu, não há dúvida e nada ficou a dever em ferocidade ao que os turcos perpetraram contra os armênios em 1915.
A segunda, os Hutus, é também uma etnia centro-africana, mais concentrada em Ruanda, que praticou, em 1994, o terrível massacre contra a etnia rival, os Tutsis, com quem dividia o país (criado artificialmente pelo colonialismo, diga-se de passagem). A impressa ocidental falou em 800 mil mortos, porém a imprensa ocidental não merece muito crédito nesses dados, porque costuma exagerar de acordo com seus esquemas e interesses. Mas que o massacre existiu, não há dúvida.
Hoje, no Brasil, onde existe um acentuado esforço não para acabar com o nosso hipócrita e disfarçado racismo, mas para acentuá-lo e torná-lo ressentido e violento, como ocorre em muitos outros países europeus e, inclusive, em muitos países africanos, o verbete, hoje apresentado na nossa Mínima Enciclopédia, é uma exemplo triste, e, por isso, deve ser motivo de preocupação de todos os brasileiros honestos – independente de cor, credo ou condição social.
É preciso que, ao ouvirmos falar de racismo, sem deixar o nosso coração encher-se de falsas ironias, devemos perguntar: Qual racismo, Cara-Pálida?

24.10.09

Mínima Enciclopedia - Little Big Horn:

Ou Little Bighorn River, nome de uma localidade onde se deu a batalha em que o exército dos Estados Unidos, comandado pelo arrogante general George Armstrong Custer, foi derrotado por uma espécie de confederação guerreira de várias tribos dirigidas pelo cacique sioux Touro Sentado.
Há um belíssimo filme de Artur Penn, “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man), de 1970, em que é tratado tema de forma admirável, enfocando a questão daquela batalha do ponto de vista dos índios.
E já que me refiro ao tema índios tratado no cinema, mui raramente, de forma honesta, da década de 70, mais precisamente em função da guerra contra o Vietnã – quando os pés de barro do ídolo foram mostrados – alguns filmes sobre esse assunto foram realizados, entre eles destaco o filme de Raph Nelson, “Quando é preciso ser Homem” (Soldier blue), também de 1970.

10.10.09

Mínima Enciclopedia - roman à clef

A expressão francesa roman à clef, cuja pronúncia, segundo informação da internet, é “romanaclê”, e a tradução seria “romance com chave”, está relacionada com as obras em que o autor, por uma razão ou por outra, narra, em forma de ficção, fatos ocorridos em seu tempo usando nomes fictícios no lugar dos nomes reais. A chave (clef) é decifrada por quem, por qualquer motivo, identifica nos nomes forjados dos personagens verdadeiros, seja por ter sido contemporâneo dos fatos seja por ter sido co-partícipe deles. Na maioria das vezes essa tarefa é facilitada pelo próprio autor que escolhe nomes “falsos” muito parecidos com o dos verdadeiros protagonistas dos fatos. Entretanto, mesmo que não se identifique pessoas com personagens, a obra terá o seu valor literário correspondente.
Na fonte que encontrei na internet há como um dos exemplos clássicos, a obra de Coelho Neto, “A Conquista”, “onde ele mostra a vida boêmia e literária do Rio de Janeiro durante a Campanha da Abolição. Alguns personagens históricos aparecem sob seu próprio nome, como José do Patrocínio. Outros, sob nomes mal disfarçados: “Otávio Bivar” é Olavo Bilac, “Paulo Neiva” é Paula Nei, e assim por diante. Outros, como “Anselmo Ribas” e “Ruy Vaz”, são pseudônimos que o próprio Coelho Neto usou na vida literária, e parecem corresponder a diferentes facetas do próprio autor.” Cita também que outro exemplo clássico estaria no obra: “Lucrezia Floriani, em que a escritora George Sand liberou as mágoas contra o ex-amado, o pianista polonês Frédéric Chopin. Sand rebatizou o compositor de Karol de Roswald, mas a sociedade européia do século XIX entendeu o recado”.
É citada ainda como uma obra que seria um roman à clef a “Valsa Negra (Companhia das Letras; 244 páginas; 32 reais)”, da escritora Patrícia Melo, cuja trama se relaciona com uma dúvida que incomoda aos afeiçoados da música erudita no Brasil.
Diz ainda o autor dessas informações que “Patrícia Melo teve a idéia de uma história de ciúme protagonizada por um maestro anos atrás. Começou a pesquisar o mundo da música clássica no Rio de Janeiro, mas então foi apresentada ao regente John Neschling, diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, que lhe franqueou os bastidores da instituição. Ela e Neschling começaram um namoro no fim do ano(?) passado, e estão juntos desde então. Embora o maestro e a orquestra de Valsa Negra sejam desprovidos de nome, suspeita-se que muitas histórias reunidas pela escritora nas coxias da orquestra paulista tenham ido parar nas páginas de seu livro. As coincidências, é bom que se enfatize, estariam nos detalhes, e não no enredo central, que envolve inclusive um assassinato.” Mais além de que a vida particular da escritora não seja relevante para este verbete, cito porque sempre se deve citar as fontes. Uma vez que a coisa mais abominável que pode existir é pirataria, plágio ou “chupada” (de idéias alheias), é claro.
Já em outra fonte, da mesma internet, encontrei outro autor que diz mais ou menos a mesma coisa, acrescentando que o autor do “romance com chave”, recorre a esse expediente, o da “chave”, por diferentes motivos. “Às vezes o cara quer descrever o espírito de uma época, os tipos humanos que a caracterizaram, e quer utilizar episódios reais; mas ao mesmo tempo quer ter liberdade suficiente para dar uma ajeitadinha nos fatos, fazer com que ocorram de uma maneira mais interessante do que realmente ocorreram; em suma, copidescar a História. Aí, em vez de um relato autobiográfico, faz um romance-com-chave onde personagens e fatos são alternadamente reais e inventados.”

24.9.09

Mínima Enciclopedia - Burca

“[...] Foi durante o regime do rei Habidullah, entre 1901 e 1919, que a burca foi introduzida (no Afeganistão). Ele impôs às duzentas mulheres do seu harém o uso da burca, para que não tentassem outros homens com seus belos rostos quando estavam fora dos portões do castelo. O véu que cobria tudo era de seda com bordados, e as princesas de Habidullah tinham até burcas bordadas com fios de ouro. Assim, virou traje para a classe alta, para protegê-las dos olhares do povo. Nos anos 1950, o uso da burca estava difundido no país inteiro, principalmente entre os ricos.” O que nos leva a concluir que a burca foi uma moda inventada pelo rei, que as mulheres dos ricos adotaram-na, o que levou ao povo imitar e ao regime Talibã, bem mais tarde, a institucionalizá-la... Interessante, não? (Isto é dito por Åsne Seierstad, In O Livreiro de Cabul, Editora Record, Rio de Janeiro/São Paulo, tradução de Grete Skevik, 6ª edição, 2006, pág. 112/113). Este livro, aliás, muito incensado no Ocidente, carece de objetividade. E está repleto de preconceitos. O mais interessante, porém, é que durante o regime Talibã – sob todos os ângulos possíveis execrável –, a imprensa Ocidental vivia mostrando o absurdo que era o uso da burca. Entretanto agora, durante as eleições fajutas no Afeganistão – ocupado pelos Estados Unidos e pela OTAN – todas as mulheres que apareceram nas filas de votação estavam com a burca... Por que será? Costume de um povo ou opressão de um regime tirano?

17.9.09

Mínima Enciclopedia - Henri Christophe

Escravo haitiano (Henrique Cristóvão), um dos líderes da Independência do Haiti, que, depois de ter derrotado definitivamente os franceses, governou como rei Henri I, entre 1811 e 1820, mas dominou somente o norte da ilha. Cristophe foi um tirano dos mais sanguinários, cujo conceito de governo seguia os suntuosos padrões europeus, construiu palácios luxuosos, mas acabou por se suicidar quando se viu isolado, após uma conspiração.
A história de Henri Christophe serviu de base para o excelente romance de Alejo Carpentier, El Reino de este Mundo (O Reino Deste Mundo), talvez o único livro latino-americano completamente identificado à escola literária de origem grega conhecida como “Real Maravilhoso”.
Com este verbete termino a séria sobre o Haiti.
₢ Araken Vaz Galvão

11.9.09

Mínima Enciclopedia - Jean-Jacques Dessalines:

Escravo nascido na Guiné, África ocidental, por volta de 1758, Dessalines que proclamou a independência, em janeiro de 1804, coroando-se, a seguir, imperador, tinha sido escravo na parte francesa de Hispaniola quando aderiu à revolução negra que eclodiu na ilha em 1791, sob inspiração da revolução francesa. Partidário e lugar-tenente do líder Toussaint L’Ouverture, com quem colaborara na formação do estado negro. Com a prisão de Toussaint L'Ouverture, a qual aceitou sem opor resistência, liderou um exército negro, juntamente com Henri Christophe, e derrotou os franceses em 1803. A 1º de janeiro de 1804, declarou a ilha independente, a qual deu o nome: Haiti (ahiti, na língua aruaque, “terra alta ou montanhosa”). Dessalines, que foi assassinado dois anos depois, foi ele quem mandou, antes de morrer, exterminar últimos 3 mil brancos que restavam na ilha. Na ocasião, Dessalines afirmou: “Para escrever a Ata da Independência precisamos da pele de um branco por pergaminho, seu crânio por escrivaninha, seu sangue como tinta e uma baioneta como pluma”. A independência só seria consolidada em 1825, com o reconhecimento, pela França, do novo país. O mundo havia assistido a uma das experiências políticas mais complexas, radicais, racistas e trágicas da história. Sucedeu-o Henri Christophe, que em 1811 se proclamou imperador, mas dominou apenas o norte.

3.9.09

Mínima Enciclopedia - François Toussaint-L’Ouverture:

Líder revolucionário do Haiti, cujo nome verdadeiro era François-Dominique Toussaint, conhecido como L’Ouverture, (abertura), devido à facilidade com que abria brechas nas tropas inimigas, nasceu em Bréda, Saint-Domingue, hoje Haiti, por volta de 1743. Ex-escravo, que viveu entre 1743 e 1803, que foi cognominado de o “Bonaparte Negro”, Toussaint, que já era alforriado na época da rebelião, em 1791, inclusive era um homem de posses, pois chegou a ter 15 escravos, os quais trabalhavam para ele, naquela época, em uma plantação. Ao “aderir aos grupos rebeldes depois do começo da insurreição, logo galgou os principais postos políticos e militares. Após derrotar os brancos da ilha, Toussaint dizimou grande parte da população mestiça, matando, em 1800, 15 mil mulatos em combate.” O seu cognome de “Bonaparte Negro”, entretanto, não lhe serviu de muito, pois, ao ser capturado, foi colocado, por ordem de Napoleão, em uma prisão no interior da França, em Fort-de-Joux, França, em 7 de abril de 1803, onde terminou seus dias em condições desumanas.
Falamos sobre o Haiti no verbete anterior. Damos, assim, continuidade ao tema, não só por existir tropas brasileiras nas Forças de Paz da ONU, como também com o objetivo de fazer conhecer um pouco da História daquele sofrido país. Continuaremos nas duas próximas semanas.

28.8.09

Mínima Enciclopedia - Haiti

País situado na parte oeste da ilha de São Domingos (ou Hispaniola, como a chamou Cristóvão Colombo) – cuja capital é Porto Príncipe (Port-au-Prince), fundada pelos piratas franceses –, compartindo com a República Dominicana território daquela ilha. É independente desde 1791, e foi, por muitos anos, considerada a mais rica das colônias francesas. Seu nome atual vem da aruaque – idioma dos índios que nela habitavam (desaparecidos desde o final do século XVI devido aos maus-tratos e às doenças procedentes da Europa) – Ahiti, terra alta – foi o segundo país a se declarar independente nas Américas. No dia 24 de agosto de 1791, os escravos se rebelaram e a escravidão foi abolida a 4 de fevereiro de 1794. Em 1795, pelo Tratado de Basiléia, o resto da ilha passou à França. Em 1801, Toussaint L'Ouverture, antigo escravo (pois já era livre, inclusive tinha propriedade, onde trabalhavam 15 escravos), tomou o poder e se proclamou governador-geral. Toussaint, que fora cognominado “Bonaparte Negro”, ao aderir à rebelião logo no seu início galgou logo todos os principais postos políticos e militares, após derrotar os brancos (somente nos dois primeiros meses da rebelião, que acabou por levar à independência, mil brancos tinham sido mortos, 15 mil escravos tinham desaparecido, duzentos engenhos de açúcar foram destruídos, isso em um total de 793 que existiam. Em um total de 3 mil fazendas de café, mil e duzentas tinham sido destruídas, a maioria dos canais de irrigação e quase todo o gado fora dizimado), massacrou a maior parte da população mestiça do país, matando 15 mil pessoas, em 1800. O exército do general francês Charles Emmanuel Leclerc, enviado para restaurar o controle, derrotou as tropas do governador. Toussaint foi preso e enviado à França, onde morreu em 1803. Com a prisão de Toussaint, um exército negro liderado por Jean-Jacques Dessalines e Henri Christophe derrotou os franceses em 1803. A 1º de janeiro de 1804, a ilha se declarou independente, aí, então, é que dotou seu nome aruaque: Haiti. Dessalines se proclamou imperador e foi assassinado dois anos depois. Henri Christophe (Henrique Cristóvão) governou a parte norte da ilha com o título de rei Henrique I, entre 1811 e 1820, tendo se suicidado em função de uma conspiração. A história do Haiti se confunde com violência. Como os brancos sobreviventes tinham fugido para os Estados Unidos e Cuba, com a subida de Dessalines ao poder – como rei, Jaques I – mandou exterminar os últimos 3 mil brancos que restavam na ilha. Na ocasião, Dessalines afirmou: “Para escrever a Ata da Independência precisamos da pele de um branco por pergaminho, seu crânio por escrivaninha, seu sangue como tinta e uma baioneta como pluma”. A independência só seria consolidada em 1825, com o reconhecimento, pela França, do novo país. O mundo havia assistido a uma das experiências políticas mais complexas, trágicas e sangrentas da história.

21.8.09

Mínima Enciclopedia - Algonquins

Índios que viviam na ilha de Manhattan, os quais a teriam vendido aos judeus, que tinham sido expulsos de Pernambuco (1648) quando da derrota dos holandeses, a citada ilha por dez dólares, dinheiro que logo gastaram com bebidas. Entretanto é preciso não se tirar conclusões apressadas dessa transação. Os índios, todos os índios, não tinham noção de propriedade, achavam, mais bem, que eles pertenciam a terra e nunca que a terra pertencia a eles. A venda da ilha de Manhattan, pois, pode significar duas coisas: os índios achando que eram espertos, vendendo para os brancos aquilo que não eram deles. Ou: os brancos sendo espertos, comprando dos índios algo valioso por dez-réis de mel coado.
Este verbete deveria chamar-se: Diversidade cultural. Afinal, esse conceito tão propagando em nossos dias – mas tão pouco compreendido e praticado – enquadra-se perfeitamente nessa transação. Havia ali duas concepções diferentes sobre algo que seria sagrado para os homens em nossos tempos. O conceito da propriedade e ausência dele.
₢ Araken Vaz Galvão

13.8.09

Mínima Enciclopedia - Miguel Unamuno

Unamuno, Miguel de (1864-1936):
Escritor, poeta dramático, e filósofo espanhol, um dos expoentes máximos da chamada geração de 98, cuja obra externava uma acentuada preocupação sobre a certeza da imortalidade e reflexões em torno da essência nacional espanhola. Miguel de Unamuno y Jugo nasceu em Bilbao, no País Basco, em 29 de setembro de 1864 e morreu em Salamanca – amargurado e cético – em 31 de dezembro de 1936. O pessimismo e a melancolia de seus últimos anos muito se deveram ao choque havido com Franco, quando Unamuno, desafiando o regime, protestou frente com o general Astray, ao ouvir deste o insensato grito de ¡Viva la muerte!, em Salamanca, onde era reitor, do dia 12 de outubro de 1936, o dia da raça, na Espanha e na América Hispânica.
Autor de vasta obra, Unamuno, que sofreu influência do dinamarquês Kierkegaard – por isso é indicado como pertencente aos “inconformistas isolados” –, também é considerado um precursor do existencialismo, foi autor de importantes obras, com destaque para os romances Névoa e Abel Sánchez, pois foi este gênero que melhor serviu de veículo para que ele expressasse seu pensamento. A Unamuno pertence o famoso tratado filosófico Del Sentimiento Trágico de la Vida en los Hombres y en los Pueblos, lançado em 1913, muito citado e, na maioria das vezes, ignorado autor e o seu verdadeiro conteúdo.
Quando ouviu o gen. Astray gritar: ¡Viva la muerte! – Unamuno disse que não poderia calar-se frente a tanta insensatez, por que: ‘Há momentos que se conservar calado equivale a mentir’. Ou seja, A veces quedarse callado equivale a mentir.
Curiosidade inócua: Em maio deste mesmo ano, 1936, nascia na fazenda Santa Maria, próximo ao povoado da Pulga do Campo, distrito de Aiquara, município de Jequié, Estado da Bahia, o anódino autor dessa Mínima Enciclopédia, cujo sentido trágico da vida é uma evidência desde que nasceu ainda que, na época, não tivesse consciência dessa verdade inconteste.

9.8.09

Mínima Enciclopedia

Fruta-de-Conde ou Pinha?


A Fruta-de-Conde, cujo nome científico é (Anona reticulata L.), é originaria da América Central, é conhecida entre nós com esse nome por ter sido introduzida no Brasil pelo conde de Miranda, Diogo Luís de Oliveira, que a trouxe para a Bahia em 1626. Ele também trouxe na mesma época a pinha, (Anona squamosa L.) a qual recebeu essa denominação devido ao fato de se assemelhar, aos olhos dos portugueses que aqui viviam, com o fruto do pinheiro europeu. Essas frutas vieram da América Central. Há quem confunda a “Fruta-de-Conde”, com a pinha, como ocorre no sul e no sudoeste do país. Para nós, baianos, a fruta-de-conde é aquela que possui a casca ligeiramente lisa – como a fruta-pão – tendo os ressaltos apenas marcados. Já a pinha – entre nós, é claro – possui os ressaltos perfeitamente definidos, parecidos ao da jaca, sem ter, contudo, a forma aguda, mas boleada. Já o araticum (Anona crassiflora), fruta do nosso sertão. Cujo nome vem do tupi, para designa uma fruta nativa do cerrado, também da família das anonáceas, cujos frutos, enormes bagas múltiplas, doces, perfumadas e agradáveis ao paladar, chegam a pesar 2 quilos, e cujas flores são amplas e coriáceas. São chamadas, em algumas regiões do Brasil de araticum-cortiça, marolo. Ainda pretendentes a essa vasta família, temos o Biribá, fruto do Biribazeiro árvore frutífera, da mesma família das anonáceas (Annona lanceolata), originária da América Central e cultivada no Brasil, de folhas lanceoladas e pilosas, flores trímeras e grandes, e cujo fruto, baga múltipla, rica em polpa saborosa e doce, contém numerosas sementes. Já a Ata de Lima – por ser originária do Peru – é também chamada de Jaca de Pobre, que é da mesma família das anonáceas, seu nome científico é: Anonas muricata, foi introduzida por Manuel da Mota da Siqueira, no Pará, em 1750 e é originária da Jamaica.
Muito popular no Peru, sendo considerada quase como um símbolo nacional, a cherimólia, cujo nome de do quíchua, chirimoya, é o fruto de um arbusto da grande família das anonáceas (Annona cherimolia), de flores solitárias aromáticas, amareladas, e cujo fruto é sincarpo globoso, com protuberâncias arredondadas, e polpa branca, doce, saborosa, comestível crua, e que dá excelente licor. Esse tipo de anonáceas começa a ser cultivada entre nós, sendo já encontrada nos bons supermercados.

7.8.09

Mínima Enciclopedia

SOBRE AS PALAVRAS DEGRINGOLAR E GRINGO

Ao contrário do que muitos pensam a palavra degringolar nada tem a ver com o termo gringo, tão usado em relação aos estrangeiros em geral e, em particular, referindo-se aos cidadãos dos Estados Unidos. Essa palavra é um galicismo, isto é vem do francês, dégringoler, que significa “Descer precipitadamente de alto a baixo; rolar, cair”. No sentido figurado significa “Cair em rápida decadência; arruinar-se. Desorganizar-se, desordenar-se, desarranjar-se.” Isso, segundo o Aurélio. Já o Houaiss, que também o assinala como galicismo, diz que os puristas sugerem o uso, em seu lugar, dos termos: cair, rolar, descer, arruinar-se. Diz ainda que a sua matriz francesa, dégringoler, que tem sua datação de 1662, significando “cair rapidamente”, e que é derivada de gringoler, termo do século XVI, vindo do holandês kringeln, que significa “fazer uma curva ou círculo, cair em círculo”. O meu amigo Dom Gregório Paixão, erudito e ser humano da melhor qualidade, e também confrade do CEC, informou-me que kringeln tinha o significado de “tombo, queda, rodopiar”, o que não difere muito da informação extraída dos dicionários citados.
Por outro lado, a palavra gringo – cuja datação é do século XVIII, segundo o Houaiss –, e que tem sua origem relacionada a vários “folclores”, todos baseados na ciência do “achismo”, como, por exemplo, aquele que reza ter a sua origem no termo inglês green go, de uma canção estadunidense, cantada pelos soldados daquele país durante a guerra de anexação de parte do território do México ao seu vizinho, a qual os mexicanos aglutinaram, transformando-o em “gringo”. Daí teria nascido também o sentido pejorativo da palavra. Entretanto a palavra gringo é a corruptela da palavra espanhola griego (grego), que era usada em relação a todo estrangeiro, isto é, em relação a todo aquele que não se expressava bem na língua espanhola, ou seja, indicava – quiçá pejorativamente – uma pessoa vinda de fora e que não se enquadrava dentro dos padrões de comportamento do cidadão espanhol comum. Na América hispânica essa palavra era usada em relação aos vendedores andarilhos ambulantes, os bufarinheiros(*) que percorriam aquelas regiões vendendo suas bufarinhas.
O certo, porém, segundo o Aurélio e o Houaiss, é que o termo degringolar e a palavra gringo não têm nenhum parentesco, uma vez que possuem origens diferentes, além de terem surgidos em épocas diferentes, a primeira é do século XVI, entanto a segunda é do século XVIII.

28.7.09

Mínima Enciclopedia

Mirtilo (Vaccinium myrtillus), planta silvestre da família das mirtáceas, de fruto comestível. Fruta azul escura muito pequena que serve para doces, geléias e licores. O Aurélio registra que “o extrato das folhas é considerado antidiabético” e diz que o nome veio do francês, myrtille. Entretanto, esta fruta é muito popular nos Estados Unidos, de onde creio que é originária, onde tem o nome de Blueberry (espero que o nome esteja escrito corretamente), sendo uma planta rasteira. É cultivado no Brasil em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul e tem a forma arbustiva, com mais ou menos dois metros.

O mirtilo não deve ser confundido com o Cassis (Ribes Nigrum), de origem francesa ou, pelo menos, muito popular naquele país, também usada para se fazer licores, doces e geléias. O licor de Cassis francês é famoso e muito saboroso. No Brasil esta fruta é conhecida por groselha preta.

6.7.09

Mínima Enciclopédia - retomando

Degrigolar (e, por extensão, gringo):
Ao contrário do que alguns pensam a palavra degringolar nada tem a ver com o termo gringo, tão usado em relação aos estrangeiros em geral e, em particular, com os cidadãos dos Estados Unidos. Esta palavra é um galicismo, isto é vem do francês, dégringoler, que significa “Descer precipitadamente de alto a baixo; rolar, cair”. No sentido figurado significa “Cair em rápida decadência; arruinar-se. Desorganizar-se, desordenar-se, desarranjar-se.” Isso segundo o Aurélio. Já o Houaiss, que também o assinala como galicismo, diz que os puristas sugerem o uso, em seu lugar, dos termos: cair, rolar, descer, arruinar-se. Diz ainda que a palavra francesa dégringoler, que tem sua datação de 1662, significando “cair rapidamente”, é derivada de gringoler, termo do século XVI, vindo do holandês kringeln, que significa “fazer uma curva ou círculo, cair em círculo”.
Por outro lado, a palavra gringo – cuja datação é do século XVIII –, tem sua origem relacionada a vários “folclores”, como, por exemplo, os ligados às relações do México com os Estados Unidos (como aquele que sugere como vinda do termo green go, de uma canção estadunidense, cantada pelos soldados daquele país durante a guerra de anexação de parte do território do México ao seu vizinho). Esta palvra vem, na realidade, do espanhol griego (grego), cuja corruptela fez-se gringo e que, na Espanha, era empregada em relação a quem não se expressava bem no idioma espanhol. Ou seja, todo e qualquer estrangeiro, até o bunfarinieros. Essas informações são do Aurélio e do Houaiss. O certo, porém, segundo esses autores, é que o termo degringolar e a palavra gringo não tem nenhum parentesco, uma vez que possuem origens diferentes. Além de que a primeira é do século XVI, enquanto a segunda é do século XVIII. As aparências, pois, enganam, conforme reza o lugar-comum...

©Araken Vaz Galvão (arakenvaz@gmail.com)

25.5.09

Manual de Americanalhice ou...

Última – Lição Extra ou Special lection...

1º PS.: Tudo bem. Você não quer ser um WASP, deseja tão-somente ser um imigrante limpa-bosta, que ganha o suficiente para mandar uns trocados para a família comprar uma casa, um carro e outras utilidades eletrônicas e elétricas. Sonha até em voltar um dia, depois de ter vivido a ilusão do seu sonho americano (dos Estados Unidos) e você não vê nenhum mal nisso. Tudo bem. Concordo. Eu também não vejo mal nenhum. Mas tem um pequeno problema. Vivendo como cidadão de segunda classe no paraíso capitalista do Primeiro Mundo, quando você descobrir que o buraco é mais embaixo e sentir aquela saudade crazy do seu chiqueiro ao sul do rio Grande, nunca mais poderá dizer, cheio de desprezo, “isso é coisa do Terceiro Mundo, no Primeiro não tem disso, não”...

2º P.S.: Estava já terminado este livro, quando vi uma chamada na televisão sobre o primeiro programa exclusivamente sobre negros da TV brasileira. Disse com meus botões: Obá, os brasileiros negros, sempre os piores colocados na escala econômica e social, estão conquistando espaço. Que bom! O velho racismo disfarçado está perdendo terreno. Mas minha alegria durou pouco. O nome do programa era Black TIVI... My God!
Só me resta confessar que talvez seja inútil você ir para lá. Você já pode ser americano (dos Estados Unidos) aqui mesmo.

3º P.S.: Quando é dito americano, não se está referindo aos nacionais dos inúmeros países deste vasto continente que os geógrafos convencionaram chamar de “do Norte”, “Central” e “do Sul”, ou seja, a todos nós, e não apenas aos privilegiados que, não contentes de terem surrupiado o gentílico continental, desejam também se apossar de toda a riqueza das outras duas partes da América. E o primeiro passo para que tal se concretize ou termine de se concretizar (a imposição da cultura deles para provocar a anulação da nossa identidade nacional), aumenta dia a dia, talvez, você esteja sendo conivente... Se estiver, não tem importância, segundo palavras do Sermão da Montanha, bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o reino dos céus. E, agora, citando um autor paulista, “nunca será, porém, o reino em sua própria Pátria.”

Valença, BA, 8 de julho de 1997.


© Araken Passos Vaz Galvão Sampaio

Em tempo: Vejo-me na obrigação de fazer uma singela citação aos imbecis e idiotas pobres de espírito e desprovidos de senso de humor, que amam os Estados Unidos sobre todas as coisas. Que continuem amando. Não concordo com eles, mas respeito o direito que eles têm de amar a quem bem entenderem. Jamais desejei que pensem como eu. Ademais, não desejo ver meu pensamento assimilado ou compartido por imbecis e idiotas pobres de espírito e desprovidos de senso de humor.

Fim

24.5.09

“Caparaó” vai à escola

Por José Caldas

Na próxima semana, entre os dias 26 e 28 de maio, estarei fazendo uma das coisas que mais gosto: compartilhar minha experiência com os mais jovens. Na terça-feira, dia 26, no Darwin de Laranjeiras, na quarta no Darwin de Guarapari e na quinta-feira no Darwin de Campo Grande, em Cariacica.

Perguntaram-me o que espero dessas palestras sobre meu trabalho em “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura”, e respondi que espero, apenas, corresponder aos anseios dos alunos secundaristas que ali estarão, em busca de subsídios para compreenderem melhor esse negócio de nossa Serra do Caparaó deixar de ser apenas uma referência geográfica para tornar-se uma referência histórica.

É a primeira vez que tenho essa oportunidade em minha própria terra. Normal. Antes, pude compartilhar, intensamente, a experiência de produzir o premiado “Caparaó” com públicos de intelectuais e universitários do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Em Manhuaçu, tivemos uma seleta platéia numa faculdade local. No Espírito Santo, boas oportunidades com os alunos da Faculdade de Filosofia de Alegre (Fafia) e em Cachoeiro, ao lado de Boris Casoy, para os alunos de comunicação da São Camilo.

Nesses últimos dois anos, desde o lançamento do livro, nada me comoveu mais do que um público que tive em Alto Caparaó, MG, onde fui a convite da Prefeitura da cidade. Colocaram-me a falar de guerrilha do Caparaó para um “bando” de crianças de 11 e 12 anos. Gelei, confesso. Mas eles me surpreenderam pela curiosidade e logo fiquei à vontade. Foi meu melhor público, talvez. Sabe lá Deus que boas influências pude ter para aqueles pré-adolescentes.

Gosto da idéia de falar para estudantes secundaristas. Eles têm, hoje, uma realidade muito diferente de seus iguais de 40 anos atrás. Talvez lhes faltem ideais, razões pelas quais lutar. Talvez. Quem sabe não possa despertar-lhes, pelo menos, o desejo de escreverem um livro, como aconteceu comigo quando subi a serra do Caparaó pela primeira vez!!! Afinal, minhas palestras fazem parte de uma preparação para a excursão que eles farão à região.

Sabem de onde partiu a idéia??? De um professor de Geografia, sempre eles. Fico ainda mais feliz, porque é a área em que também me formei. Mas esse professor, Paulo Sérgio Zucolotto, tem uma história muito interessante. Era motorista da Rede Tribuna, quando eu lá estive também, em minha última passagem pelas redações. Paulo estudou Geografia na Ufes e hoje brilha nas salas de aula do Darwin. Ele “vendeu”, e bem, a idéia e, felizmente, o Darwin a “comprou”. Boa!!!

Tomara que possamos, a partir de agora, levar mais o “Caparaó”, por inteiro, para as salas de aula. E recuperar o tempo perdido. Que essa meninada, e seus pais, entendam o que houve ali e não pré-julguem os que ousaram lutar, mas entendam que cada um de nós precisa encontrar sua própria missão de vida. E cumpri-la.

José Caldas da Costa é jornalista, escritor, licenciado em Geografia. Autor de “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura”, livro que ganhou, em 2007, o Prêmio Vladimir Herzog e, em 2008, foi finalista do Prêmio Jabuti.

José Caldas publica no blog O Patim, de onde retiramos este texto.

1.5.09

Manual de Americanalhice ou...

Oitava Lição

Estas aulas, escrevemo-las propositalmente pequenas para você que não tem tempo, já que o emprega, full time, justamente no esforço titânico de lograr o objetivo máximo de sua vida, aquele que lhe permitirá a tão sonhada ascensão primeiro-mundista. Porém, esperamos que nelas, por estarem condensada tão-somente em oito partes, digo, em oito lições repletas de preciosas dicas, você encontre o necessário para se tornar um americano (dos Estados Unidos) legítimo, ou seja, um WASP. Caso você não consiga e só consiga ser apenas parte daquela legião de clandestinos que lava pratos, recolhe lixo e limpa a boa bosta gringa, não se desespere. Escreva um livro contando em detalhes sua odisséia fracassada de ser americano (dos Estados Unidos), caso o livro seja um best seller, duas coisas sucederão:
Você ganhará rios de dinheiro e...
Você será aclamado como um vencedor e, portanto, digno de ser aceito como imigrante. Pode até acreditar que será mesmo um americano (dos Estados Unidos) e transformar-se em classe média. Nesta hipótese, uma coisa é verdade, como classe média lá você viverá melhor do que muito rico no Brasil.
Se você não sabe como escrever um livro, não tem importância, como já lhe expliquei, lá existem profissionais capacitados para essas tarefas, que desejam apenas um pouco de sua fama, mas existem também outros, igualmente capacitados, não ávidos por fama, mas por money, os ghostwriters, que saberão resolver esse pequeno problema, mediante uma participação no resultado das vendas do seu livro, com a vantagem de permanecerem nas sombras, como o nome indica, deixando a fama só para você. Porém, é preciso muito cuidado na hora de negociar com esses profissionais, porque eles são loucos por money. Ainda que, para negociar, seja fácil, basta você proceder desta forma: ele diz “setenta, trinta”. Isto significa que ele leva setenta e você trinta, obviamente. Então você inverte e grita, “trinta, setenta”. Este jogo pode durar horas e horas, “sessenta, quarenta”. Retruque, rápido. “cinqüenta, cinqüenta”, e assim sucessivamente. Você pode conseguir uns oitenta (para você) e vinte (para ele).
Bem, grato por sua atenção (e por seu dinheiro, já que estas aulas serão cobradas por um meio do qual você nem imagina. Ou então será impressas em forma de livro e você só terá de comprá-lo)... O que é agora? Você não sabe o que é um WASP? Inacreditável!... Como você quer ser um americano (dos Estados Unidos), se não sabe o que é WASP? Se você não sabe mesmo, não vou lhe dizer, porque então você não é digno de ser um autêntico americano WASP.

14.4.09

Manual de Americanalhice ou...

Sétima lição


Um dos dogmas básico do American way of life é ter sucesso, ser famoso. Vamos lhe indicar o caminho das pedras para você chegar lá. Treinar para ser jogador de basquete e participar em um torneio da ENEBIEI. Neste caso só há dois inconvenientes, você não ser um daqueles negrões de quase três metros de altura e não ter começado a praticar cestas ainda no berço. Ir para Holywood, nem pensar, sem ser loiro. Com essa sua cor morena, suas chances são mínimas, a época do latin lover já passou, o máximo que você conseguirá é fazer papel de chicano, índio e bandido mexicano, em todos os casos você morre logo nas primeiras seqüências. As suas chances de se destacar sendo artista, seja qual for o ramo, são nulas. Ser famoso através dos esportes seria uma possibilidade. Atletismo, por exemplo, derrotar o Carl Lewis e tornar-se um herói nacional; mas aí também há alguns obstáculos: Não ser negro e, ademais, ser portador daquela desnutrição nacional atávica, da qual a maioria dos brasileiros é campeã. No futebol deles é o mesmo empecilho, o raquitismo. O beisebol, quando você aprender todas aquelas regras complicadas, já terá recebido uma bolada na cabeça e... báu-báu... Acabou-se. Seu american dreen foi prá’o brejo.
Por exclusão, depois de percorrer todas as possibilidades de ser famoso, restar-lhe-á a opção de ser serial killer. Os americanos, do norte, adoram um bom serial killer, é uma relação de amor e ódio, a bem da verdade. Ainda assim ser um serial killer é o caminho mais curto para a fama. Comece matando negros – pelo menos nos estados do sul tal atividade é vista com grande simpatia – vadias e gays, dependendo do grau de conservadorismo da cidade, pode resultar em aplausos silenciosos e secret. De qualquer forma tal quefazer, além da fama, resulta no ganho de muito dinheiro, o que, em última análise, implica mais fama e mais dinheiro. Como? É muito simples. Quando você for preso – fatalmente você o será um dia – faça declarações bombásticas, do tipo de defender os valores americanos, cristãos e ocidentais, ou seja, cause polêmica, seja bem reacionário, retrógrado. Fale de uma conspiração de vadias e gays e blacks que deseja destruir o American way of life e, depois de condenado à morte (porque deste destino você não escapará), escreva um livro, enquanto espera no tal do corredor da morte, contando suas idéias e mostrando que elas são iguais as de Nixon, Reagan, Clinton, et caterva, só que você foi mais coerente com elas, transformando-as em ações. O livro venderá como chuchu, será adaptado para o cinema e você morrerá milionário. Mas não será logo, o seu dinheiro permitirá que mil ações na justiça atrasem ao máximo o dia de sua execução. Caso você, como a maioria dos brasileiros de classe média, sofra de livrofobia (com perdão do neologismo), não se avexe, existem profissionais loucos por uma oportunidade de ficarem famosos pegando carona na fama alheia e que são capazes de escreverem verdadeiras obras-primas. Você já ouviu falar de Truman Capote? Não? Deixa pra lá... Outra forma fácil de se ser famoso é se fazer travesti, dar a sorte de receber uma carona de Eddie Murphy ou – quem sabe? – entrar no carro de um ator inglês e ser surpreendido pela polícia. Nesta hipótese, só há um inconveniente, caso você não seja bicha, é que você terá que ser flagrado fazendo uma coisa que se chama felação. Se você não sabe o que significa, olhe no dicionário e comece a praticá-la, com bananas ou lingüiças, sem tardança. Neste último caso, se você caprichar na felação e der declarações espirituosas, poderá ser convidado(a?) a vir ao Brasil como um(a?) VIP, fazer comerciais, dar entrevistas e ainda faturar um boa grana.

24.3.09

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Sexta Lição


Para ser estadunidense da gema há uma grande vantagem para quem é beat, da geração teen, que tem o seu point no Mac Donald, que é chegado em um Bic Mac, com muito chatchup e mostarda, acompanhado com Coca-Cola e batatas fritas; ou então um Mac Fish, bem crocante, com molho tártaro e uma Fanta. Se você é dessa generation já é meio caminho andado. Também contam pontos, ser ligado em um carrão, de preferência importado, mesmo sem tê-lo; gostar de um rock pauleira, heavy metal, rap, essas coisas; possuir muitas informações sobre vídeo clip; andar com o seu pager, para estar conectado com a mother e, mais modernamente, estar sempre grudado ao celular, não com a morher, mas com os amigos; navegar na INTERNET em busca de pornografia ou outras baboseiras que grassam nela; e ter como objetivo básico na vida, consumir, consumir, consumir. Porém, ainda assim, ou seja, mesmo instrumentado com esse arsenal de dicas, não se iluda, é muito difícil você conseguir ser um americano (dos Estados Unidos) perfeito. Até mesmo imperfeito. E mais difícil ainda será você entrar lá, principalmente se eles desconfiam de sua (má) intenção de sê-lo. Antes, no tempo da Guerra Fria, você tinha a chance de ir para Berlin Oriental, disfarçar-se de alemão, pular o muro e pedir asilo. Era aceito na hora. Só tinha um inconveniente – mesmo assim não era sempre – o de eles pensarem que você era um espião comunista, aí a coisa apertava. Mas apertava mesmo. Interrogatório da CIAEI e do FBIAI era dureza. E ainda o é. Não esqueça que foram eles que ensinaram tortura “científica” às nossas polícias nos tempos da ditadura, hoje chamada pele elite de “ditabranda”... Porém, isso são coisas do passado, quero dizer, que o comunismo já era... Contudo, há algo que você, em desespero de causa (ou de conseguir visto de entrada), pode tentar. Se disfarçar de cubano, cometer um atentado contra Fidel Castro e pedir asilo na Base Naval de Guantânamo, que é americana. Aí, você mostra mesmo que é durão e será recebido como herói. Como você vê, por este método é fácil, muito fácil. Só há um porém: se você for confundido com um árabe... Aí, fodeu. Mesmo! Agora se você quer mostrar mesmo que é o durão dos durões, não se esconda na Base de Guantânamo, seqüestre um avião e siga direto para a Líbia, prenda Kadafi, faça-o cantar Glory, glory, aleluia, vestido com uma cueca com as cores da bandeira americana, depois lhe arranque o fígado. Sem perda de tempo, passe pelo Oriente Médio, localizes um terrorista (é fácil, há em todas as esquinas), arranque-lhe também o fígado. Nem lave as mãos, com os dois fígados nelas, dê uma passada por Tel Aviv, para um beijo rápido na careca do primeiro ministro de Israel ou de qualquer um daqueles políticos de lá, que são sempre muito direitistas, depois voe direto para Washigton, onde será recebido como um verdadeiro herói americano (dos Estados Unidos) e terá direito a desfile, em carrão aberto, pela avenida Transilvânia, perdão, Pensilvânia. Só não me pergunte como é que você vai realizar essas tarefas, se vai ter sucesso e, muito menos, como vai sair de Havana, passar por Trípoli e Teerã ou Pyongyang... Mas eu sou capaz de apostar que você vai conseguir...

22.2.09

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Quinta lição

A primeira coisa que você deve dizer, assim que chegar nos States, é perguntar: Você fala a minha língua? (Do you speak my language?) Você pode trocar a palavra língua por idioma, dá no mesmo. Agora, tenha cuidado, não se deixe trair pelo hábito. Não vá dizer isso em português... Pega mal e ninguém entende. Para mostrar que você é um bom cristão protestante, diga, a todo momento: Meu Deus! (my God, na língua deles, perdão, ela já é sua também, ou quase...), para que você não esqueça, esclarecemos que Deus em inglês, é cachorro (dog) ao contrário, pois dog é igual ao inverso de God... My God! Agora não vá se confundir e entrar em uma igreja e dizer: My dog!
Não se esqueça da palavra secret, porém ela tem hierarquia, top é o máximo; contudo, você pode colocar a mão de sua girl frend sobre o seu pênis e dizer: este é o nosso secret, aí três coisas podem ocorrer. Ela ficar indecisa e perguntar: “Isto é uma espécie de piada?” Neste caso, cabe a você tirar a dúvida. Pode dizer, por exemplo, isto é business seu. Se ela se assustar e ficar de boca aberta e não disser nada, não se preocupe, ocupe o espaço, nas próximas horas ela estará tão ocupada que não poderá fechá-la. Mas ela poderá dizer: “Vou ter de conviver com isso de alguma forma.” Responda, rápido: Yes. E complemente: “Isso acontece o tempo todo.” Excepcionalmente pode ainda ocorrer outra coisa, ela muito distraída, pois já está com o seu pênis na boca, ficar aparvalhada e você, ansioso e impaciente, perguntar: “O que é que você está fazendo, girl?” Porque ela lhe dirá: “Isso não business seu.” Seja original e responda: “Era, agora é todo seu.” Se ela não gostar de você o ter colocado onde o colocou, aí você dançou, porque logo aparecerá a polícia e a coisa ficará preta. Pior mesmo só se ela for uma ninfeta, pois você pode ser preso como tarado, destes que molestam crianças. E tarado lá não é louco, é tarado MESMO! E de nada adiantará você dizer que não teve escolha ou que o seu ato é apenas uma espécie de piada.
Não se iluda. Nada nos Estados Unidos da América é fácil, possivelmente você não consiga uma namorada. Como conseguir se ao se aproximar de uma mulher você já está cometendo um delito... de assédio sexual? Mas essa não será a única dificuldade, há outras. Convidar uma mulher para ir ao seu AP, ouvir música, nem falar. Veja o que ocorreu com o Mike Tyson... Convidou uma e se deu mal. Pegou cana e ficou crazy e hoje anda mordendo orelhas por aí... Outro cuidado que você deve ter se convidar, por algum descuido, alguma mulher para ir a algum lugar fazer alguma coisa, assegure-se de que você não tem nenhum sinal particular em algum lugar mais particular ainda. Se tiver, disfarce-o! Vê o que está aconteceu com o presidente Clinton? Por todas essas razões, e muitas outras, o mais certo é que você dificilmente terá uma sweetheart, salvo se for uma latina, como você o foi, porque você já não o é. Como nos dias de hoje está muito difícil um boy se aproximar de uma girl, sem ser preso por assédio sexual, você não deve, para não transgredir a lei, elogiar a mulher, nem convidá-la para nada... Para nada, não, senão não rola nada. Você terá que ter algum truque, senão pode passar toda a sua vida resolvendo esses problemas com as mãos; algum dia você terá que convidar alguma para alguma coisa. Convide-a para sair na porrada, os americanos (dos Estados Unidos) estão sempre resolvendo suas pendências com murros. Convidando uma mulher para tal você está exibindo a sua masculinidade e ela pode se interessar por você e acabar lhe dando. Este negócio de quebrar o pau, desde que seja no sentido figurado, é legal. Só tem um problema – como sempre – se ela for dessas malhadas de academia e aceitar e quebrar o pau mesmo pra valer e não no sentido figurado, deixe que ela lhe encha de porradas, se alguém quiser apartar, grite: “fique fora disso!” E continue levando porradas, mas finja que se defende e, ao atacar, erre todas. Bater em mulher, além de dar cana da pesada, dá aquelas chatíssimas passeatas das feministas. Deixe-se, pois, bater, que você não vai perder nada. Se ela aceitou o desafio no duro, amoleça, porque ela é sapatão e, de qualquer forma, não ia lhe dar mesmo; depois, justifique-se: “ela não me deu nenhuma chance”... Mas se ela aceitou de mentirinha, só para quebrar o pau ao duro, digo, no duro, e no sentido figurado, não amoleça, deixe que ela se encarregará disso. Agora se você tem aquele sinal particular, já sabe que terá que disfarçá-lo; mas se não o tiver, o melhor mesmo é forjar um falso, mas bem feito, que ela não note; como prevenção, para confundi-la. Assim se ela disser, no tribunal que você tem alguma pinta em alguma parte íntima do corpo, você abre a braguilha, tira algo, mostra aos jurados e diz: “O meu pinto não tem pinta”. Solta uma sonora gargalhada. Pronto, está salvo. Dependendo do clima no júri, você traduz, por certo eles vão morrer de rir. Os americanos (dos Estados Unidos) riem com as piadas mais bestas e ainda se dão ao trabalho de explicá-las, porque senão ninguém entende. Não estou dizendo que eles são retardados. Um povo que construiu um país daquele não pode sê-lo. É que eles são meio lentos, demoram a compreender algo que não é deles. Detalhe: ao traduzir a piada faça-o com cuidado para que eles não descubram que você é brasileiro; mostre-se erudito, você conhece português porque estuda línguas exóticas.
Você não pode esquecer ainda das palavras muito usadas, mesmo que lhe pareça muito difícil a pronúncia, tais como: coffee, que significa café; café, que significa coffee house (café casa), ou seja, café mesmo, o lugar onde vendem cafezinho bem ralo que, lá, é servido em umas caneconas imensas; music, que significa música; dance, que significa dança; surprise que significa surpresa; question, que significa (aí você dançou), quase sempre significa pergunta; crazy, que significa louco, maluco. (Você já pensou o sucesso que você pode fazer, gritando em um estádio de beisebol: Ah! Eu tou crazy! Ah! Eu tou crasy! Você pode ter o seus quinze minutos de glória e ficar rico). Stupid, palavra que você poderá ouvir muitas vezes, significa, estúpido ou, se você preferir, idiota. Não tranque nunca as portas de sua casa – caso more em uma – assim seus amigos, visitantes, o carteiro, assaltantes e demais strangers(?) poderão entrar e dizer: “Como a porta estava aberta”... Deste detalhe da porta você nunca pode esquecer, senão ninguém entra em sua casa. E, quem sabe, não entra uma woman pelada? Pelada, não, de calcinha e sutiã. Se elas, até para transar, ficam sempre com essas indumentárias...
Um detalhe muito importante. Se você é nordestino migrado para São Paulo, ou seja, se é um “baiano” – como os paulistas nos chamam cuspindo entre dentes – e, portanto, possuidor do vício de linguagem de trocar o e pelo i, tenha cuidado, esta woman que entrar pelada em sua casa pode chamar-se Keller, não confunda as bolas nem as letras, chamando-a de Killer, pega mal e ela pode ficar possessa. Já pensou você, querendo mostrar cultura cinematográfica, lembrar-se do velho filme de John Ford e fazer a paráfrase: my darling Killer...
Agora se você for baiano, radicado há muito tempo em São Paulo e, portanto, já portador do dream paulista de ser americano (dos Estados Unidos), tenha cuidado com a palavra miss, ela não significa “grampo para o cabelo das mulheres”, como o é no interior da Bahia, significa senhorita. E por falar em Bahia, seria interessante que vocês, filhos do sul ou lá residentes, que desejam ser americanos (dos Estados Unidos) procurassem um certo percussionista da good land, dono de um espaço, perdão, uma(?) square, pois ele conseguiu o prodígio de, sendo um black man, americanizar-se, e o fez a tal ponto, que hoje é um blonde man, inclusive já possui um filho white, e quem disser que o rebento é mulato, o avô processa. Ele, o percussionista e não o avô, tem muito a ensinar.

31.1.09

Manual de Americanalhice ou...

Quarta Lição

Caso você não tenha encontrado os primeiros capítulos da novela da Globo (em Valadares são vendidas cópias piratas em todas as esquinas) e, ademais, ainda não saiba inglês suficiente para entender a pronúncia impecável dos atores daquela rede de TIVI que citamos, damos as principais frases que um americano (dos Estados Unidos) precisa para se fazer entender, devidamente traduzidas, para que você saiba o que está falando no momento oportuno. São elas: “Macacos me mordam! Você vai precisar de um plano. Bom menino (menina). Você vai (não vai) conseguir. Estou querendo dizer que... Acho que você precisa de ajuda. Eu posso explicar tudo. Me dê uma razão para eu fazer isso por você. Você está querendo dizer que... Fique fora disso. Não há nada de errado comigo. O que faz você pensar isso? Alguém precisa fazer alguma coisa.” Agora a palavra chave do inglês, dos Estados Unidos, é chance. Pelo menos nos filmes eles estão sempre dando ou pedindo uma segunda, o que se subentende que já deram a primeira. Porém isso não significa que eles lhe vão dar uma única de ser um americano WASP. Outra palavra também muito importante, quase mágica é “especial”. Uma pessoa não é importante, é especial. Não é marcante, é especial. Até as pessoas ordinárias são especiais. Porém, tenha cuidado, ordinário lá é comum. Não se esqueça que trabalho é algo nobre lá, tanto é assim que a frase que você mais irá ouvir é: I’m doing my job, cuidado com os seus vícios nacionais. Eles acham que preguiça e indolência são coisas de latino. Lá não existe maré mansa para os americanos (dos Estados Unidos) neófitos; por isso, por mais desagradável que seja o seu labour, é muito importante você esclarecer, logo e antes, que está fazendo o seu business, que aquele é o seu negócio, mesmo se você estiver estrangulando alguém (principalmente, se estiver) diga logo que é o seu trabalho, ou seja, repita a frase acima: I’m doing my job. No caso da police aparecer com todo aquele aparato que você vê no movie – mil carrões, sirenes, centenas de revólveres, carabinas com mira telescópicas e escopetas apontadas pra você – não se avexe, diga, para mostrar que está de mau-humor: “estou fazendo o meu maldito trabalho”. Perdão, não o faça em português, diga: I’m doing my damned job. Ou então, se quiser ser lacônico, olhe-os com ar de man muito ocupado, que não pode perder tempo e diga, levantando os ombros e fazendo beiço, apenas: my busines. Só isso. Eles, os policiais, pedem desculpas e vão embora. Juro que vão. Pode até aparecer algum tira mais curioso, que pergunte qual o seu truque para estrangular tão bem. Agora... se você quiser viver todas aquelas emoções que você vivia vendo TIVI, é só escolher um policial, que é – quase sempre – um negro... Perdão, perdão... Um afro-americano, e dizer-lhe, só para radicalizar, entre dentes, quase cuspindo a frase: fuck you niger! Vai ser a última coisa que você dirá entre dentes... Perder-los-á todos. Logo a seguir, você ouvirá aquelas frases que fizeram a sua cabeça, levando-o a desejar ser americano (dos Estados Unidos), lembra-se delas? “Você tem todo o direito de permanecer calado, qualquer coisa que disser poderá ser usada contra você... etc., etc., etc.”... Aí, então, você será algemado, o policial o conduzirá delicadamente até a viatura, colocará a mão sobre sua cabeça, para que você não se machuque ao entrar, e o levará para passear em um daqueles carrões que você sempre sonhou passear um dia. Assim, um dos seus sonhos, nesse momento, já terá se realizado. Tudo se desenrolará igualzinho ao cinema, com uma única exceção: Se eles descobrirem que você é latino disfarçado de gringo... Aí eles fazem como qualquer polícia daqui e do mundo faz: enchem-lhe de porrada. E não tem emenda da Constituição deles que te salve... É porrada da grossa mesmo.

8.1.09

Manual de Americanalhice

Terceira Lição

É fundamental você ser, no mínimo, loiro – ruivo conta mais pontos – ter olhos azuis ou verdes, falar inglês (para isso você já decorou as falas das novelas e comuns no jornalismo do Sul Maravilha) e ser capaz de passar a vida comendo hot dogs, hamburgers, chikens fritos e batatas idem. É bom já ir treinando a comer cereais e bacon frito pela manhã, é importante ainda saber fazer eggs mexidos; como também, comer e gostar desses maravilhosos, e únicos, pratos da variada culinária americana (dos Estados Unidos). Lá chegando, não se meta com vadias, elas são fontes inesgotáveis de encrencas, a lei dos gringos costuma ser muito dura com quem se mete em encrencas, principalmente com os que desejam ser gringos também. Comece a admirar, à distância, peitos grandes. Esqueça que mulher tem bunda, americano (dos Estados Unidos) não gosta de bunda. O máximo que um gringo admite é traseiro, assim mesmo quase sempre para aplicar patadas ou beliscões. É primordial aprender a transar de roupa, as gringas – pelo menos no cinema – não tiram a roupa para transar, na melhor das hipóteses, ficam de calcinha e sutiã. Deduzo que chegam o fundo da calcinha para o lado (acho que é por isso que elas – as calcinhas – de tão folgadas, parecem mal confeccionadas). Agora como se dá a penetração, sem que o turkey cock fique esfolado, para mim, é um mistério...Justificar
Não me pergunte como, mas comece a entender as regras do beisebol e do futebol, porém nunca diga que este é americano. Não esqueça que o único football que existe no mundo é o deles (no caso, já seu também), e esqueça o nosso, e dos ingleses, velho soccer. Se o dinheiro der, aprenda a beber Jack Daniels, a só tomar beer quente e na lata ou na long neck, pelo gargalo diretamente. E se quiser ter glamour, pratique com o Martini e não se esqueça da azeitona. É muito importante saber prepará-lo para os amigos... Diga adeus à rústica picanha, passe a fazer churrascos em umas churrasqueirazinhas esféricas, de metal, donde saem deliciosos hamburgers chamuscados. Como nessas alturas você já é um gringo autêntico e assumido, se encontrar algum outro americano (dos Estados Unidos) pela rua, coisa que, se supõe, não deve ser difícil, pergunte-lhe displicentemente, só para mostrar que você é mais autêntico que ele: O que você faz aqui, ô stranger? E, para mostrar que não tem preconceito em relação às minorias, comece a comer chinaise food in box, macarronada in box, e... Pizza in box! As pizzas têm a consistência de sola de sapato velho, mas são o máximo. Eles entregam em sua home, desde que você não durma na calçada, e são muito econômicas. Beautiful! Se você morar em New York, cuidado com a 46º street, você pode encontrar brasileiros. Aquela rua está cheia deles, ser reconhecido pode significar que todo o seu esforço de americanizar-se irá para o brejo.

14.12.08

Manual de Americanalhice ou...

Manual de Americanalhice ou Seja Americano do Norte (ou seja, dos Estados Unidos), digo, estadunidense, em Oito Lições (e alguns adendos...)

Primeira Lição


Para ser americano (dos Estados Unidos), o sujeito precisa – além de ter um bom plano, pois todo americano (dos Estados Unidos) sempre o tem – nascer nos Estados Unidos e, para tal, deve alertar os pais (e/ou a cegonha) – antecipadamente – para que tomem as providências cabíveis. Não pode esquecer que nos Estados Unidos só se é americano da gema se for um WASP, isso significa que o melhor lugar para se nascer são os estados da Pensilvânia e de Massachussetts, as cidades de Filadélfia e Boston são consideradas o fino do fino. Não sendo possível, nascer em qualquer uma das antigas 13 colônias inglesas é importante. O sul (profundo) não conta tanto, há muito coloured, e se você é brasileiro, com a possibilidade de seus ancestrais terem (sempre têm) um pé na senzala, é um perigo. O oeste, como você sabe é terra de cowboys (que recentemente se descobriu que eram gays...), ou seja, de gente rústica, o que sempre é um ponto a menos, ainda que seja melhor do que nada. A Califórnia, embora seja muito rica, caso você não tenha de berço o destino manifesto para surfista, hippie ou gay ou lésbica, é um perigo; possui muitos orientais e... hispânicos. A única coisa que você não pode é ser confundido com um hispânicos. Melhor ser confundido com um dog. Nem pensar em nenhum outro estado que tenha fronteira com o México, ali o perigo é maior e você poderá ser chamado de cucaracha. Contudo, esses estados são importantes como trampolim, pois servem para se entrar clandestino, porém você não quer ser tal coisa, seu dream é ser gringo puro sangue, com pedigree e tudo. Há uma coisa que você não pode esquecer, seja onde for o lugar onde você nascer (lá), é que você tem que ser durão e provar isso a toda hora.

Agora, o básico, o fundamental, o decisivo, o que jamais pode ser esquecido, é que os americanos (dos Estados Unidos), ou seja, os estadunidenses, se dividem em três grandes grupos: os perdedores, 71%; os políticos, 5%; e os vencedores, 14% da população, mais ou menos. Os vencedores são os Mellon, os Du Pont, os Ford, os Rockefeller, os Dillon, et caterva. Os que ficaram ricos construindo impérios no fundo do quintal ou na garagem, do tipo Bill Gates, são emergentes – igual que aqui – mas contam muito e muito mais. Os políticos, são aqueles que, servindo aos vencedores, estão – lá, como aqui – sempre por cima da carne seca. Os perdedores, os 71% da população, são a fortíssima classe média que ganha o suficiente para pensar que é vencedora, e é justamente neste grupo social que você deve sonhar ingressar. Ah! Você fez as contas e notou que a soma dá 90% da população e pergunta: onde estão os 10% restantes? Estão na Máfia, ou melhor, nas máfias, a italiana, a mais forte e numerosa; a judia; a polonesa; a irlandesa; a negra; a russa, a mais nova, a alemã e assim sucessivamente. O que sobrar desses 10%, se sobrar, está nas prisões.

Com um plano bem estruturado e tomadas essas elementares providências, você terá uma grande surprise. Para ser um autêntico WASP, o seu tetravô teria que ter ido para as colônias inglesas da América do Norte no Mayflower, ou ali por volta de 1664, o mais tardar, um pouco antes de 1775, para ter tempo de participar do primeiro Independence Day; mas se seu tetravô veio como degredado para south American, então a coisa se complica e você já começou no prejuízo – como diz o americanófilo (pró-states) locutor esportivo da TV Bandeirantes – (ainda que só um imbecil corra atrás de prejuízos... Porém se uma pessoa deseja ingressar no American way of life só pode ser um) e terá que correr muito para superá-lo.

Aguarde a segunda lição, enquanto isso desejo a todos um Feliz Natal.
Vou para o Espírito Santo – Vitória – ver meus netos
Até breve.

28.11.08

Manual de americanalhice ou...

Explicação

Em homenagem a uma amiga distante, de nome Ane Brasil, começo a publicar um pequeno manual por razão de tudo que ela não representa.
Explico.
Ane, cujo sobrenome (ou pós-nome), é Brasil, que em sua sensibilidade aguda, em sua ternura sem fim, em seus textos loucos e poéticos, traz o Brasil na alma, pode ter muito bem o seu nome associado a este manual – que já tinha sido dedicado faz algum tempo a minha filha – cujos capítulos, de forma intermitente, passo a publicar.

Manual de Americanalhice

ou

Seja Americano do Norte,
(ou seja, dos Estados Unidos),
digo, estadunidense,
em Oito Lições
(e alguns adendos...)


Para Rachel

Todos sabemos que a opinião pública brasileira, aquela que conta mesmo, é publicada no eixo Rio-São Paulo. Fora desse eixo, seja qual for o veículo, o que há é reflexo dela. Isso significa, na prática, que a opinião que não é publicada na mídia daquela região, não é pública. Esse monopólio implica, muitas vezes, em grandes injustiças, principalmente para com a opinião não pública dos outros Estados (e até a opinião não pública daqueles Estados). Para exemplificar, vou falar de um caso não muito recente. Refiro-me a grande celeuma que a opinião puta, perdão, pública do supracitado eixo fez em relação ao “fenômeno Valadares”, cuja característica mais importante, e única, era o desejo exacerbado de ser americano (dos Estados Unidos), ou seja, estadunidense. Que americanos somos todos nós...

Ora, todos também sabemos que este é um desejo nacional quase unânime – com destaque para justamente o povo eixo Rio-São Paulo – com maior destaque ainda para o pessoal de São Paulo –, e não é apenas um privilégio do esforçado povo de Governador Valadares. Visto por esse ângulo, nada justificaria, pois, o indignado estardalhaço que a imprensa hegemônica daquele eixo fez sobre o assunto, ridicularizando-o.

Ledo engano.
Quem apostar nesta hipótese perde, porque o espalhafato justifica-se plenamente. Senão. Vejamos.

O pessoal daqueles dois Estados – a classe média paulista disparada na frente – sempre sofreu de um mal, cujo nome é Síndrome da Americanidade não Adquirida (ainda), também conhecida como ANAS (deveria ser ANAL, digo, deveria ser SANA, se não tivesse sido invertida para imitar o inglês), por isso, ficou furioso, pois o “fenômeno Valadares” – que nada mais era do que uma epidemia aguda do mal – se produziu naquela cidade mineira e não no eixo Rio-São Paulo. A celeuma – e a indignação – tinha, acaso, uma justa razão, pois significava que o pessoal do leite passava a perna no pessoal do café (e no do carnaval), coisa que não era de se estranhar, porque os mineiros trabalham em silêncio, sempre trabalharam.

Foi frente a este episódio perigoso, posto possuir um certo gérmen desagregador, passível de colocar em perigo a unidade nacional (provocando outro 32), que tivemos a idéia de escrever um livro de auto-ajuda, “Seja americano (dos Estados Unidos) em oito lições” (com uma introdução e três PPSS), visando evitar possíveis semeaduras de futuras cizânias entre irmãos nacionais. Este livro será, ademais de pequeno, bem pequeno, o primeiro de dupla auto-ajuda. Explico: É de auto-ajuda em dois sentidos. Entendido? Não? Ficou ainda mais complicado? Pois então, lá vai! O livro ajuda a quem quer ser americano (dos Estados Unidos) e, como são quase todos os brasileiros que têm este desejo, ajuda também (assim espero) o seu autor (eu) a descolar uma boa grana e ter um padrão de vida americano (dos Estados Unidos) aqui mesmo.
Dados os esclarecimentos, vamos às lições.

23.11.08

Hepa!

Hepa! Exclamação tupi que significa cuidado. Hepa!, é o que Ane Brasil deve estar dizendo que ler estes meus verbetes. Virou dicionarista...

Cajaíba: Palavra tupi que era escrita originalmente cajahyba, significa “árvore do cajá”, ou seja, cajazeira, na forma aportuguesada. Por outro lado, cajá, (Spondias lutea L) que se escrevia na sua forma em tupi acaiá ou acã-ia, significa, mais ou menos, “fruto que é quase só caroço”.

Cairu: Possivelmente seja a corruptela da palavra indígena, língua tupi, aracajuru, para uns e, para outros, ela é a contração das palavras ara (sol), cá (casa), puru (vaso), em ambos os casos poderia ser traduzida figurativamente por “morada do sol”. Sem embargo, Sampaio registra ara como “o dia, o tempo, o mundo, o que está no alto”, entre outras coisas, mas não o registra especificamente como o sol. Como também não registra cá como casa e sim como “a folha, a planta, a erva, o vegetal em geral”. Sua forma correta é Caá. Quanto a puru, ele simplesmente não registra. Já outro autor atribui à palavra a seguinte derivação de origem guarani e não tupi: “[...] de CAÁ (mata) + RU (negro, escuro), significando ‘o escuro da mata, a tarde’.” Diz também que o vocábulo pode vir de “CAUY + YRU, ‘o recipiente de cauim’.” Como última opção, diz que a palavra pode ser derivada de “CAÁ + JURÚ, ‘boca da mata’.”

Sobre esta palavra, ver PACHECO, Antônio de Sousa, Cairu e suas tradições, possível edição do autor, sem data e sem demais informações bibliográficas. E FALCÃO, Márlio Fábio Pelosi – Pequeno Dicionário Toponímico da Bahia, Gráfica Santa Helena, Salvador, BA, Pág. 169/70, 2001. Este último autor cita ainda, como referência, Luís Calda Tapajó.

Caiçara: Cerca de pau-a-pique ou paliçada, usada para defesa. Por analogia, aquele que fica fora da aldeia. Nesse sentido é que deve ser usado na região litorânea de São Paulo em relação aos mestiços ou àqueles que são moradores antigos da região, os caboclos (caá-boc), palavra que, por sua vez, significa “tirado ou pertencente ao mato” (Sampaio).

Teodoro Sampaio (O Tupi na Geografia Nacional, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1987) registra-a como “Caá-içara, a estacada, o tapume, o cercado, a trincheira”.
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2.11.08

Acrônimo, Siglônimo e Sigla

Acrônimo: Diz-se da palavra formada pela primeira letra – pode ser de sílaba ou de mais de uma letra de cada uma – das partes sucessivas de uma locução ou pela maioria dessas partes. O exemplo mais popular na língua portuguesa é embora, formada da locução “em boa hora”. Na capital da Bahia há um bairro, uma praia, que se chama placafor. Foi formada pela alusão popular a uma grande placa (cartaz), pintada em chapas de zinco – naquela época não tinha ainda outdoor – onde se lia, na placa, o nome dos carros da Ford.

No livro Punhalada no Escuro, de Lawrence Block, pág. 74, há referência a alguns bairros de Nova Iorque cujos nomes nasceram desse fenômeno lingüístico, tais como Tribeca, de Triangle Below Canal e Soho, de South of Houston.

Quando eu era criança, morando na fazenda Veneza, do meu avô paterno, isso na década de 40, em um povoado próximo, Aiquara, tinha um cidadão que se chamava Osvaldo Costa Fonseca, que inventou um acrônimo para ele que o fez famoso: OSCOFON. Era o nome do estabelecimento comercial dele, talvez uma loja.

Siglônimo: Quase o mesmo que Acrônimo, que também pode ser chamado de sigla, sendo esta a formação léxica resultante da justaposição das iniciais de uma forma siglada própria. (Ver Acrônimo)

Em inglês há vários casos, tais como sonar, formado da expressão inglesa sound navigaion ranging, de onde saiu so-na-r, instrumento de navegação marítima. (Ver silônimo e sigla)


Em medicina também é comum esse recurso lingüístico: Ex.: Becegê = Bacilos Calmette Guärin, ou seja, BCG.

28.10.08

Bildungsroman

Termo alemão, cunhado pelo filólogo Karl Morgensten, que foi traduzido, no Brasil, por “romance de formação”, mas que, segundo Marcelo Backes (Entre Livros, nº 28, s/d, pág.48 e seguintes), seria melhor traduzido como “romance de desenvolvimento”, está relacionando com um tipo de romance em que o tema principal é o desenvolvimento do próprio autor quando jovem, suas impressões do mundo, da vida e das pessoas, seja no terreno intelectual, sentimental, moral e político. Seria como uma biografia, porém escrita em forma de romance.

Este gênero tem como antecedente ou precursor o Entwiklungsroman que existe desde tempos muito antigos.

O Bildungsroman teria, entretanto, uma espécie de subgênero, o künstlerroman cuja tradução do alemão seria “romance sobre artista”. Neste caso específico, segundo estudiosos, o tema do romance busca mostrar “especificamente ao amadurecimento artístico de um personagem, e sua passagem de diletante ao autor de verdade O maior e mais brilhante exemplo do gênero é sem dúvida ‘O Retrato do Artista Quando Jovem’, de James Joyce, mas também se poderia citar ‘Doutor Fausto’ de Thomas Mann.” O modesto filme “Encontrando Forrester” (Finding Forrester), dirigido por Gus Van Sant, 2000, seria um bom exemplo desse caso aplicado ao cinema.

Ainda relacionado com Bildungsroman, encontrei, na Internet, a informação que se segue: “[...] literalmente esta palavra quer dizer ‘romance de construção’.” Porém, isso é (ou será) relativo, pois é preciso se ver o sentido que o termo possui dentro das diferentes nuances que o idioma oferece. E dá ainda esses exemplos: “Os Anos de Aprendizado” de Wilhelm Meister”, de Goethe; “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens; “Demian”, de Hermann Hesse; e “O Apanhador Nos Campos de Centeio”, de Sallinger.”

O termo künstlerroman é citado pelo crítico Silviano Santiago na orelha de “A Idade da Paixão”, de Rubem Mauro Machado, Ed. José Olímpio, 1985.

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20.10.08

Kitsch

Palavra de origem alemã, de que o Aurélio diz: “Refere-se ao estilo ou material artístico, literário, etc., considerado como de má qualidade, em geral de cunho sensacionalista ou imediatista, e produzido com o especial propósito de apelar para o gosto popular.” Nos últimos anos está sendo usada com significado similar à palavra brega que, na Bahia, está relacionada com zona de prostituição, ou seja, o próprio lugar das prostitutas. Nesta acepção, está implícito que é dado como certo que as prostituas têm um tremendo mau gosto.

Pode ser o mesmo que cafona, de mau gosto. No Peru, para as coisas de mau gosto, há o termo local: Guachafo, uma bela palavra, com mais ou menos o mesmo sentido. Entretanto em espanhol culto, com esse sentido aproximado, o termo é cursi. Paulo Francis disse que Milan Kundera dá, em “A Insustentável...”, a melhor definição do que é kitsch. Embora possa ser comparada a cafona, há quem identifique uma sutil diferença (Veja, 20/12/00, pág. 14) “cafona é a aberração, o mau gosto levado ao pé da letra, aquilo que dói aos olhos.” – diz o arquiteto paulista e decorador em evidência José Antônio Sig Bergamin – “Kitsch é o brega assumido, mas com toques de bom humor.”

Há uma bebida fermentada alemã – aliás, muito saborosa – cujo nome é: “kirsch”, com erre em vez de tê. Não confundir, principalmente se beber da dita em excesso.

13.10.08

Quibebe

Embora o Aurélio registre que a palavra quibebe (tanto com o é aberto; ou com o ê fechado) tenha sua origem no idioma africano quimbundo: kibebe, definindo-a como um termo da culinária, “Papa de abóbora”; ou, ainda, “Prato preparado com grelos de aboboreira.” É preciso se registrar que a aboboreira e, conseqüentemente, seu fruto, a abóbora, é originária do Brasil (ou do continente americano), sendo que já era conhecida, e comida pelos índios, muito antes de os brancos (e os negros) aqui aportarem. Tanto é assim que no principal idioma dos índios, o tupi, existe a palavra kibebê, que define um pirão feito de abóbora, ou seja, aquilo que a língua dos brancos (ou a língua dos brancos falada pelos negros) chamou de quibebe.

Longe deste cronista do sertão, refugiado no litoral da Bahia, a intenção corrigir o mestre Aurélio. O registro é feito porque a ele, o cronista, pareceu insólito que uma comida feita com um vegetal brasileiro, e feito antes mesmo da chegada dos brancos (os brancos que trouxeram os negros) tenha um nome vindo de um idioma africano...

Por outro lado é preciso também registrar que os grelos ou brotos dos bulbos, rizomas e tubérculos das plantas, em tupi são chamados de geremas, ou seja, algo assim como embrião. É desta palavra que veio, em português, a palavra jerimum (em tupi: Gerumú), como em alguns estados do nordeste brasileiro são chamadas as abóboras.

₢ Araken Vaz Galvão

11.10.08

Albbéricus:

Nome latino (ou seja, Alberto) daquele que ficou conhecido como Américo Vespúcio. Os índios Maias e os Chontais – América Central – chamavam nosso continente de América, “terra dos ventos”, talvez pelos furacões. Sendo assim, não foi Vespúcio quem deu o nome ao continente e sim o continente que deu o nome a ele.

Fonte: Lessa, Barbosa, A Era de Aré – Raízes do Cone Sul, Ed. Globo, São Paulo, SP, 1993, pág. 129/130.

Curiosidade: No livro de Mario Puzo, O Poderoso Chefão, há um personagem, italiano, naturalmente, com o nome de Amerigo, que é quem abre a narrativa tanto do filme como do livro. Seria interessante saber em que época (datação) o pré-nome Amerigo surgiu no italiano...

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17.8.08

Lembranças das Prisões e do Exílio

A Fortaleza de Santa Cruz III


Falei, em crônica anterior, que retornava ao assunto Fortaleza de Santa Cruz, devido a uma inesperada mensagem recebida, assinada por uma pessoa de nome Luciana. Como abundam vírus – inteligente obra de desocupados filhos da tal globalização – ia apagá-la sem a ler. Porém ao levantar o cursor, apareceu a primeira frase da dita mensagem e pude ler parte da frase: “Lembras dos artesanatos de bolsas, feitos com carteira de cigarro???” Arrisquei e surpreendi-me com que vinha depois. Lá estava:
— “Em tuas algemas, estava escrito USA...”
— “As pescarias...”
— “Lembro que fumavas cachimbo...”

Seguia a mensagem propriamente dita:

“Caro Araken,

Meu nome é Luciana e é um prazer imenso, estar escrevendo a esse ilustre senhor!

Sou filha de José Salvino Valério, conhecido como Baixinho (apelido dado por você). Estiveram juntos, na Fortaleza de Santa Cruz, lembras?

Estávamos num jantar, recordando fatos do passado, e seu nome foi lembrado com grande estima. Foi então que sugeri resgatarmos dados sobre aquela época na internet e de alguma forma, localizarmos seu endereço eletrônico e escrevermos ao senhor.

Ocorre que meu pai é extremamente resistente, ao mundo virtual. Mas não negou o fato de estar curioso com minha idéia. Como prova, estão os questionamentos acima grifados.

Fiquei então, responsável por essa tarefa... Será que terei sucesso??? Ficaria imensamente agradecida, se tivesse um retorno! Afinal, ver o sorriso do meu pai, é sempre um presente maravilhoso!

Grande abraço!!!

Luciana.”

Na verdade nunca tinha esquecido do Baixinho, pois ele, mesmo sendo preso comum – era acusado de assassinato, o qual, ao que parece, nunca foi comprovado – era uma pessoa de caráter superior, além de solidário e humano. Devo confessar que, embora o lembrando, não mais recordava seu nome. Foi ao lê-lo que lembrei que era Valério. E recordei-me de um conflito havido entre o tenente Nilo Silveira e o comando do presídio. Era uma pendência que dizia mais a nós, presos políticos, por Nilo, mesmo tendo sido condenado por um assassinato, cometido anteriormente, estava envolvido com Brizola, de quem era amigo e tinha sido preso quando, prófugo, executava tarefa política para o amigo. Ora – todos sabemos –, os crimes políticos sobrepõem-se aos comuns. Por isso, embora a ditadura não aceitasse, nós considerávamos o tenente Nilo Silveira como preso político também, ainda que ele fosse mantido separado de nós, no outro pavilhão – como já disse – o dos presos comuns.

Quando o conflito envolvendo o Nilo chegou a seu ponto crítico e que a direção do presídio mandou colocá-lo na solitária, o Baixinho solidarizou-se e foi punido também. Isso fez com que a simpatia que tínhamos por ele, mas fruto do seu bom humor (e pelo “segredo” que prometi revelar) transformou-se em admiração. Pois, constatamos, o Baixinho era um bravo – como se diz no Exército.

Antes de revelar o “segredo” do Baixinho (sei que ele vai me odiar por fazê-lo) desejo falar de um velho preso comum – um civil que, ao que constava tinha carcereiro em um presídio. A quem todos suspeitavam ser dedo-duro – dos mais curiosos. O seu nome perdeu-se em “algum lugar do passado”, como o título do filme – ainda que essa citação seja inapropriada – ademais, lembrá-lo não vale a pena, pois ele era umas das pessoas mais contraditórias que já conheci. Sua falta de caráter fazia-me evocar o Ibrahim – aquele que deu a volta ao mundo em oitenta prisões, de quem falei na série de crônicas sobre a ilha das Pedras Brancas, já publicadas – mau caráter e falso. Costumava jactar-se que seu melhor prazer era ganhar a confiança de uma pessoa e depois apunhalá-la pelas costas. Eu, que naquela época tinha tendências para posições radicais, o adverti que nunca se aproximasse de mim por trás porque eu o jogaria nas pedras que tinha debaixo da mureta, sobre as águas da baía. Ele, que era aquilo que é chamado nas prisões de “cadeieiro” velho – entendendo com esse neologismo como portador de grande experiência de cadeia – ao se aproximar de mim gritava: “Vou passar.” Nunca se esqueceu do aviso. E, sem querer me jactar, apenas admitindo sobre o estado de agressividade do meu espírito, sou obrigado a admitir, mesmo a contragosto e com muita vergonha, que ele só saiu de lá vivo por aqueles gritos cautelares.

Entretanto, esse crápula tinha lá seu lado humano. Quando a mulher de Nilo, uma uruguaia valente e determinada, ficou sem ter onde morar e em situação de quase penúria, foi esse sujeito quem lhe ofereceu guarida na sua casa, com a sua família, em um longínquo subúrbio da Central da Brasil, no Rio de Janeiro.

Claro que muitos de nós pensamos que aquela seria uma das formas com a que ele julgava poder se informar de conversas que Cristina – este era o nome da mulher de Nilo – deixasse escapar em seu desespero, as quais ele, via interrogatório de sua família, poderia delatar ao diretor do presídio. Se isso era ou não verdade nunca se soube, nem nunca se poderia saber. O certo é que Cristina foi muito bem tratada. Com o tempo, o tenente Nilo, além de grato, passou a ter certa amizade por ele, reduzindo a nossa prevenção. Eu, jovem e radical, continuei sem o permitir aproximar-se de minhas costas sem prévio aviso.

De todas as lembranças que a mensagem da filha do Baixinho trouxe a minha mente, uma já estava completamente olvidada. É a que está consubstanciada na frase “Em tuas algemas, estava escrito USA...” é que naquele tempo, além de jovem e bastante radical – hoje seria dito xiita – eu tinha pretensões a poeta. A frase em questão devia constar de algum libelo libertário, cujo teor original não me lembro, mas que devia conter algo assim como: Em teus punhos tinha algemas/ E nas algemas estava escrito Made in USA.” É que naquela época até para algemar os rebeldes a ditadura – que recebia ordens diretamente dos States – importava também as algemas.
Afortunadamente hoje – como as injustiças sociais continuam candentes – nós mesmos fabricamos nossas próprias algemas... Felizmente.

Agora é chegado o momento de revelar o “segredo”, que era o motivo da popularidade do Baixinho nas duas alas do calabouço. É que ele era o maior flatulento que se possa imaginar. Se alguma pedisse: Solta dez peidos aí, Baixinho. Ele, prontamente, estando sentando, inclinava-se um pouco, levantando uma das nádegas e, contando-os em voz alta, soltava os dez flatos. Se a platéia, no mesmo instante, pedisse mais cinco, ele prontamente atendia.

Para terminar, peço que me perdoes, Baixinho, por revelar essa faceta do teu aparelho digestivo. E se, ao fazer, te envergonhe frente aos teus familiares, perdoa-me duas vezes, mas é que tu, em matéria de flatos, eras um fenômeno único.

A. Vaz Galvão
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4.5.08

Lembranças das Prisões e do Exílio

A Fortaleza de Santa Cruz II


Meses passados, talvez no ano passado, falei da Fortaleza de Santa Cruz – fabulosa construção militar em Niterói, a qual, junto com o Forte Coimbra e o Forte Príncipe da Beira, esteja entre as mais belas construções coloniais portuguesas. Digo isso porque quem desejar conhecer mais sobre aquele belo monumento histórico (ou sobre os outros dois) pode pesquisar via internet, pois não é meu objetivo falar sobre a arquitetura deles. Interessa-me, sim, falar da primeira depois que foi transformada em Presídio Militar durante a ditadura.

Na ocasião que falei da Fortaleza, referi-me mais a minha fuga, pois lá estive preso certo período, com outros brasileiros que não se conformavam com a ignomínia do golpe. Alguns eram nomes de destaque na cultura nacional ou políticos importantes com quem tive o duvidoso privilégio de conviver naquele belo local; outros, simples brasileiros com dignidade suficiente para protestarem ou rebelarem-se contra aquela infâmia.

Na crônica anterior disse que os presos ilustres, aqueles que tinham curso universitário, ficavam alojados na parte superior, onde antes eram as moradias dos oficiais. Nós, os sargentos, como era o caso dos combatentes da malograda guerrilha do Caparaó, ficávamos na parte inferior, em um calabouço dividido em duas alas – que o tenente Nilo Silveira apelidou, externando sua irônica amargura, de Buraco dos Ratos. Em uma das alas ficavam os militares que tinham cometido crimes comuns; no outro ficávamos nós, os presos políticos. A frente de ambas as alas dava para um átrio, sob a vigilância de um sentinela, postado no alto de uma guarita, fora do perímetro do pátio do calabouço. Nesse átrio, passávamos boa parte do tempo, pois, durante o dia, os portões permaneciam abertos. Dali, sob uma mureta que o protegia, via-se as águas, ali limpas, da Baía de Guanabara, situadas a uma altura de uns 12 metros. Dessa mureta, sempre sob o olhar atento do guarda, alguns presos pescavam ou tentavam pescar.

Nesse átrio eram também realizadas umas violentas partidas de futebol. E, posso dizer, que nunca esse tipo de jogo mereceu tanto o nome pelada. Entretanto, essa afirmativa merece alguns esclarecimentos. Nunca vi nenhum gesto de violência de um preso contra outro. A violência era – por incrível que pareça – autopraticada. Explico. As seculares pedras do piso eram irregulares, os calçados eram velhos e, muitas vezes, remendados ou com solados reforçados com jornais, ao término das partidas os hematomas e feridas eram abundantes, ou seja, os dedos dos pés e as canelas estavam virtualmente peladas. E esses autoferimentos – chamemos assim – eram mais graves quando os presos estavam tensos. E particularmente violentos aos domingos, depois das visitas dos familiares.

Com o registro do fato, deixo aos psicólogos a análise dessas constatações. Vou ater-me apenas ao dia-a-dia daquela prisão. O ambiente entre as duas classes de presos era cordial. Nós, os presos políticos, passávamos, nos momentos de intenso calor – a maioria das horas do dia – na ala dos presos comuns. O motivo era que eles estavam lá há mais tempo e, por tanto, possuíam melhor estrutura – ainda que precária – de sobrevivência, do tipo de primitivos aquecedores elétricos para preparar água para café ou chá e até rudimentares fogões elétricos onde se podia fritar uma lingüiça ou um ovo eventualmente levados pelas visitas.

O portão da nossa ala dava diretamente para o átrio, o que criava um problema: se não fosse aberto até as nove horas, mais ou menos, nos dias de verão, só poderia ser aberto à noite, pois o sol aquecia as grossas barras de ferro, dilatando-o, e não havia força que as movesse. O portão dos presos comuns ficava na lateral, sob o piso do andar superior, o qual era alcançado por um corredor de uns três metros de largura e uns seis de comprimento, no fundo do qual ficava a cela de castigo, a solitária. Nesse corredor, frente ao portão geral, o que comunicava o calabouço com o restante da fortaleza, era a nossa sala de reunião e de trabalhos manuais. Mas não eram todos os que possuíam habilidade nesses misteres, a maioria nada fazia, só conversava. O barulho e as brincadeiras eram intensos. Os que desejavam ler, como era o caso de Amadeu Felipe e o meu, quando tínhamos livros, éramos obrigados a procurar sítio mais sossegado para esse fim. Na área de trabalhos manuais, lembro-me que o tenente Nilo Silveira fazia maquetes de casas, copiadas diretamente de revistas populares de arquitetura. Eu – que desde criança sempre tive muita habilidade manual – fazia um tipo de artesanato com papel de maço de cigarro. Eram bolsas para senhoras e porta-lápis, principalmente. Mais de quarenta anos depois, visitando uma velha amiga, ela mo mostrou um daqueles porta-lápis.

Os presos comuns, talvez uns 17 ou mais, eram de vários tipos, nenhum se destacava em particular, salvo o Baixinho, por um motivo – imagino – que ele não gostará que seja lembrado aqui. Claro que isso é dito excluindo as neuroses típicas de prisão. E nesse campo específico, lembro-me de Ramon, um gaúcho, que era facilmente sugestionável. Amadeu Felipe descobriu-lhe essa faceta e sempre que chegava um preso político novo, seu conhecido, como ocorreu comigo, ele narrava o fato e o levava para uma demonstração prática.

Ia até o pavilhão vizinho e, com aquele jeito simpático e hábil que o caracteriza até hoje, localizava Ramon e falava:
“Meu peixe – Amadeu sempre chamava as pessoas de meu peixe(1) – você está com algum problema de saúde? Dormiu bem? E antes que Ramon respondesse: Você está pálido. Olha teus olhos... Hum... Põe a língua p’rá fora. Não disse. Melhor você deitar, ficar de repouso. Nesse ponto, chamava a pessoa para quem estava dando a demonstração (eu, no caso). Olha aqui, meu peixe, o Ramon não está com cara de doente?” Pronto. Estava formado o quadro. Podia até suceder que Ramon evocasse a opinião de alguém próximo. Todos, que já sabiam da troça do Amadeu Felipe, confirmavam: “Estás péssimo, Ramon, bem que eu ouvi que tu te mexias muito esta noite na cama. Teve hora que te ouvi gemer.” Minutos depois Ramon estava deitado ardendo de febre. Porém a solução, digo, a cura, era simples. Amadeu pegava umas folhas quaisquer, podia até ser de capim, que brotava por entre as gretas da junção das pedras, fazia um chá. Levava até o enfermo dizendo-lhe: “Com isso tu vais levantar em um instante. É um chá que minha avó me dava. É tiro e queda.” Em segundos Ramon estava curado.

Entre os presos comuns, entretanto, tinha um febiano(2) obeso, que dava golpes na praça, comprando com carteira de identidade falsa, a quem chamávamos de Senador, cuja conversa era sempre sobre sexo e golpes. Mais tarde, depois que fugi da Fortaleza e estava exilado em Montevidéu, soube que ele tinha sido assassinado pelo DOI-CODI, naquelas ações que eram atribuídas ao Esquadrão da Morte. Indiretamente ele colaborou com minha fuga, pois mo apresentou a um sargento que, quando o escoltava para ir ao fórum ou ao médico, mediante algum dinheiro, o levava também a um prostíbulo. Foi com esse sargento que, em uma das vezes que fui levado ao médico no Rio de Janeiro, em um descuido ($) seu, aproveitei para fugir.

Sobre minha fuga falarei depois, agora devo dizer por que retornei o tema “Fortaleza de Santa Cruz”. O motivo foi uma mensagem eletrônica que recebi passados mais de 40 anos, justamente relacionada com o Baixinho, José Salvino Valério – cujo nome só lembrei ao receber uma mensagem de sua filha –, a senhorita Luciana Valério.

Sobre esse companheiro de prisão e sobre a gentil mensagem de sua filha falarei na próxima crônica, prometendo revelar um seu segredo, por sinal bem hilário.

A. Vaz Galvão
arakenvaz@gmail.com
(1) Peixe, meu peixe é a forma como, no Exército, são chamados aqueles que são protegidos – em particular pelos superiores hierárquicos –, ou seja, os que gozam de algum tipo de privilégio não-regulamentar.
(2) Febiano. Diz-se daquele que esteve na Itália, que serviu na Força Expedicionária Brasileira – FEB.

28.1.08

Lembranças das Prisões e do Exílio

Três Presidentes

Creio que me adiantei aos fatos na crônica anterior, ainda que não tenha nenhum compromisso com cronologias. Além do mais, mesmo não estando escrevendo uma autobiografia devo, entretanto, obedecer a certa ordem.

O Exército tinha, no meu tempo, uma Escola de Sargentos das Armas (EsSA), na cidade de Três Corações, em Minas Gerais (e ainda a tem); havia também dois outros centros de formação de sargentos, ambos no Rio, a Escola Instrução Especializada (EsIE), no bairro do Realengo, e a Escola de Moto-Mecanização (EsMM), mais tarde transformada de Escola de Material Bélico (EsMB), em Deodoro. Havia ainda outras importantes escolas, como a de Saúde, a de Equitação, a de Veterinária e a de Educação Física. Dessas, porém, não falarei nessas crônicas, devido ao caráter particular e peculiar de cada um delas.

Mas, para que não pensem que o nosso Exército é um exemplo de perfeição, devo dizer que, na tropa, ou seja, nos quartéis, havia cursos de formação de sargentos, onde poderiam ser formados profissionais dos quais o Exército estivesse necessitando, e que as suas escolas não estavam fornecendo. Existia, porém, muitas restrições a essa maneira de se formar sargentos, devido principalmente a que o conteúdo desses cursos, via de regra, deixava muito a desejar, o que criava uma grande diferença de nível entre os saídos das escolas e os sargentos formados na tropa. Havia também o fato de que esses cursos serviam também para se fazer ascender muitos apadrinhados, incompetentes e puxa-sacos contumazes.
Bem, mas isso não nos interessa para essa crônica.

Eu, que nasci em 1936, iniciei o Serviço Militar no ano de 55, em janeiro, quase com 19 anos. O Exército revelou um mundo novo para mim. Novo, estranho e contraditório. Falava-se muito em Pátria, mas aquele discurso, saído da boca de alguns oficiais (não da de todos), não chegava a me convencer muito. Fora criado ouvindo as mais severas pregações nacionalistas, meu pai era um patriota exaltado. Apesar da sua morte prematura – talvez por isso mesmo – suas palavras deixaram marcas indeléveis em minha alma.

Mas eu, como disse, era soldado. Na metade do ano, por ter um curso técnico civil foi enviado a EsMM para que o meu diploma fosse reconhecido pela Diretoria de Ensino do Exército. No exame, teórico e prático, que prestei consegui a nota superior a 9, se não me falha a memória, e, em razão dessa aprovação, fui promovido a cabo especialista. Entretanto, nunca tinha passado por minha cabeça permanecer no Exército, fazer carreira, como dizemos. Uma crise política nacional, indiretamente, levou-me a tomar outra decisão.

Refiro-me ao 11 de Novembro de 1955, como ficou conhecido o movimento militar liderado pelo Marechal Lott(1) para assegurar a posse dos eleitos em 1955.

Com o suicídio de Vargas, assumiu a presidência o vice Café Filho, político nordestino de longa atuação como advogado defensor de militantes de esquerda. Por isso, Café Filho era tido também como homem de posições, no mínimo, progressistas, para não dizer esquerdistas. Mas, ao assumir a presidência acercou-se do que havia de mais reacionário na política brasileira – aquela parte mais retrógrada da UDN. O seu chefe da Casa Militar era o ex-tenente Juarez Távora, o qual era também uma das eminências pardas do novo governo. Dizem – falou-se muito na época, quero dizer – que Café Filho perguntou-lhe qual general poderia ser indicado para o então Ministério da Guerra. Ao que Juarez teria dito que deveria ser um general totalmente apolítico, e falou no nome de Henrique Batista Duffles Teixeira Lott. Nunca na História do Brasil um general apolítico fez tanta política. Poder-se-ia também dizer que o general Juarez Távora, como assessor político e como observador de homens era uma completa nulidade. Aliás, se excluirmos sua comprovada bravura, Juarez era uma nulidade em tudo.

A posse de Café Filho fazia parte de um plano maior de impedir extra-legalmente a posse dos eleitos em 1955, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Lott, que ao assumir o Ministério iniciou uma verdadeira revolução administrativa – da qual falaremos mais adiante –, desde o primeiro momento mostrou-se um legalista incorruptível. Enquanto os bacharéis da UDN inventavam fórmulas para invalidar o resultado das urnas, Lott não só montava um esquema militar para garantir a posse, como dava declarações onde seus propósitos eram demonstrados de forma inequívoca.

Existem vários livros que falam desse período, por isso quero ater-me apenas aos fatos que vivi sendo cabo do Regimento Escola de Artilharia.

Por essa época eu já era leitor contumaz da seção política dos jornais. Acompanhara a crise que resultara no suicídio de Vargas, a campanha eleitoral que resultou na vitória da aliança PSD/PTB, bem como as articulações feitas pelos udenistas encastelados no governo do ex-esquerdista Café Filho para fraudar o resultado das urnas. Em determinado instante, não se sabe se por obra da providência ou se por manobras palacianas, Café Filho adoeceu – alegando ter algo nunca muito bem explicado no coração – e licenciou-se do cargo, o qual foi assumido pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz. Com essa providencial doença as articulações para impedir a posse dos eleitos entraram em fase de execução, ou seja, a do golpe militar propriamente dito. A primeira providência de Luz – notório direitista, um dos responsáveis pelo fechamento do Partido Comunista, como Ministro da Justiça do governo Dutra – foi afastar Lott do Ministério da Guerra. O pretexto surgiu em função de um discurso pronunciado pelo coronel Mamede durante as cerimônias de sepultamento do General Canrombet Pereira da Costa, o qual Lott considerou uma transgressão disciplinar e, como tal, desejou punir o coronel. O presidente Luz não concordou e Lott pediu demissão. Na noite de 10 para 11 de novembro – segundo os jornais noticiaram – o comandante da guarnição do Rio, o general Odílio Denys, articulou um contragolpe e, depois de colocar antecipadamente toda a guarnição em rigorosa prontidão, convenceu Lott a liderá-lo. Quando entrei no quartel na manhã do dia 11 soube, pelo sentinela do Portão das Armas, que naquele dia, às 16 horas, não sairíamos do quartel, estávamos de prontidão, ou seja, em condições de sermos deslocados para qualquer lugar onde nossa presença se fizesse necessária. Passamos o primeiro dia com os Obuseiros 105 apontados para o quartel da Aeronáutica, no Campo dos Afonsos. A ordem era não permitir que nenhum avião da FAB levantasse vôo. Nesse dia, e nos que se seguiram, fiquei chefiando uma guarnição de metralhadora (ponto 50), a qual eu, por ser especialista, não sabia muito bem como manejar. Mas, como se diz no Exército, para ser chefe basta saber chefiar, além do mais, soldado se vira. E cabo também.

Respondia pelo comando da Bateria de Serviços, à qual eu era subordinado, o tenente Bellian – com todas essas explicações, nota-se que a estrutura de comando até o patamar de bateria, era deficiente, pois essa função é reservada aos capitães. Em determinado momento, ao ter oportunidade, comentei assim como quem não quer nada: hem, tenente, essa confusão toda só vai terminar depois que os eleitos tomarem posse, não é mesmo? Ao que ele respondeu: posse, qual posse... Durante esse período de aquartelamento não foi muito fácil conseguir jornais, porém o motorista que levava alguns oficiais em rápidas visitas as suas famílias, nunca deixou de me trazer. Era sempre “Última Hora”, por ele pude acompanhar o desenrolar da crise. Quando as tropas foram postas nos pontos estratégicos da cidade o Congresso apressou-se em decretar o impedimento do presidente interino, Carlos Luz, colocando no governo o terceiro na linha sucessória, senador Nereu Ramos, vice-presidente do Senado.

Os golpistas tentaram ainda uma jogada desesperada: colocaram o presidente Luz no Cruzador Tamandaré junto com o notório conspirador Carlos Lacerda, o caricato Almirante Pena Botto e outros reacionários civis e militares, entre eles um major do meu Regimento, e deslocaram para o Porto de Santos, na esperança de serem apoiados pelo governador de São Paulo, Jânio Quadros. A saída da belonave da Marinha da baía de Guanabara foi tumultuada, o general Lott autorizou o Forte Copacabana a bombardear o navio, ao que parece foram dados alguns tiros de advertência, ou propositadamente com má pontaria, o certo é que o Tamandaré saiu e, ao chegar a Santos, Carlos Luz já não era mais presidente legal do país, e todos tiveram que negociar a rendição e exílio.

Essa mudança, manu militari, foi aceita, a contragosto ou não, pelos oficiais golpistas do meu Regimento. Inclusive receberam e cumpriram a ordem de deslocar o Grupo de Obuses para acantonar na Quinta da Boa Vista. Mas a UDN, que se sentia no poder com a conivência de Café Filho, articulou uma saída, a qual consistia em uma rápida e providencial melhora da saúde do presidente licenciado e sua posse novamente, permitindo assim a demissão do incômodo ministro Lott. Anunciada a volta do pusilânime presidente, instalou-se nova crise. Os militares, liderados por Lott, sentiram a manobra, recusaram-se a aceitá-la. O Congresso, mais uma vez, encontrou uma saída legal: declarou o presidente Café Filho também impedido de reassumir e, em seu lugar, colocou até o final do mandato o senador Nereu Ramos, o qual passou o governo para Juscelino. Enquanto essa solução era engendrada o meu Regimento, que tinha recebido ordens de se deslocar da Quanta da Boa Vista para proteger o Palácio do Catete, desobedeceu a ordem e retornou quase em debandada para o quartel, em Deodoro, onde se amotinou, na esperança de que outras unidades lhes acompanhassem. As Unidades Escola(2) eram todas situadas na Vila Militar e estavam reunidas em uma Grande Unidade, o Grupamento de Unidades Escola – GUEs – cujo comando pertencia ao general Ladário Telles Pereira – oficial que, mais tarde, durante o golpe de 64, tentou convencer o presidente João Goulart a resistir em Porto Alegre.

O general Ladário, conhecido por sua intolerância em relação a toda e qualquer indisciplina, ordenou ao Regimento Escola de Infantaria – o REI – a cercar o meu quartel e deu um ultimato aos oficiais para que se rendessem. No quartel os oficiais, que tinham dado ordens para que nós cabos e soldados permanecêssemos no alojamento, foram surpreendidos pela inusitada atitude dos sargentos, os quais se reuniram e decidiram abandonar o quartel em forma, isto é, marchando e comandados pelo subtenente mais antigo, a se apresentarem ao general Ladário, declarando-se não conformes com a atitude dos seus comandantes. Antes que tal sucedesse, os oficiais se renderam. Uns ônibus militares estacionados no Portão das Armas, levaram todos eles presos para o GUEs. A maioria foi punida, alguns poucos voltaram para o Regimento, depois que foi nomeado um novo comando fiel a Lott. Durante algumas horas, no intervalo da rendição e arresto dos oficiais, o Regimento ficou sendo comandando pelo subtenente mais antigo, fato inusitado na nossa História militar.

Aqui cabe um parêntese, para melhor esclarecer toda essa mudança de comandantes e deslocamento de tropas.

O comandante do Regimento era o coronel Pedro Geraldo de Almeida, o qual fora promovido a general, passando a unidade a ser comandada interinamente pelo subcomandante. Porém, os três oficiais mais importantes na hierarquia do quartel estavam passando para a reserva. O novo comandante efetivo nomeado foi o então coronel Ernesto Geisel. Com ele vieram dois oficiais que também iriam ter papel de destaque no golpe de 64: o tenente-coronel César Augusto Montagna e o major Milton Câmara Senna. O primeiro teve uma participação espalhafatosa na ocupação do Forte Copacabana; o segundo – que possuía curso de Estado Maior – foi Adido Militar em Montevidéu e teve grande influência no interamento de Brizola no balneário de Atlântida. Porém, Geisel demorou pouco, pois foi nomeado superintendente da refinaria de Cubatão, voltando aquela importante unidade militar à situação de ter novamente um comandante interino, com o agravante de este, o comandante interino, o Ten-cel Assunção, estar aguardando a passagem para a reserva. Na prática, o regimento era comandado por aqueles dois outros oficiais citados, notórios golpistas, como dizíamos na época.

Disse, linhas acima, que com o contragolpe de 11 de novembro deu-se um inusitado fato de um subtenente comandar, ainda que por horas, um regimento de artilharia. Porém não foi somente esse o episódio insólito a suceder naquela crise político-militar. Quando o general Lott se rebelou contra Carlos Luz, deu-se também um fato inusitado, o Brasil ficou tendo um presidente legal, Café Filho, ainda que licenciado; um presidente de direito no exercício do cargo, Carlos Luz, ainda que fugindo em um navio de guerra; o general Lott, que era um presidente de fato, até que o Congresso oficializou a deposição de Carlos Luz e entregou o poder a Nereu Ramos.

Com isso teve o Brasil, em determinado momento, três presidentes ao mesmo tempo e quatro em um espaço de poucos dias.


Valença, BA, 4 de dezembro de 2007
Araken Vaz Galvão

arakenvaz@katrakanet e arakenvaz@hotmail.com ou
arakenvaz@gmail.com,
www.olobo.net


(1) Sobre esse admirável soldado, ver o livro de Wagner William “O Soldado Absoluta – Uma biografia do Marechal Henrique Lott, Editora Record, Rio de Janeiro, 2006.
(2) Um esclarecimento técnico: Unidade Escola não é o mesmo que Escola (de ensino) Militar. Enquanto aquelas são também unidades de combate, estas são apenas de ensino técnico. As unidades escola podem ser companhias, batalhões ou regimentos escola.

4.12.07

Lembanças das Prisões e do Exílio

Os Presidentes e Eu.


A primeira vez que ouvi falar a palavra presidente foi na fazenda Veneza, do meu avô paterno, aonde cheguei aos quatro anos, órfão de pai. Estávamos na década de 40, tinham mudando a moeda nacional, o mil-réis (informa-me, uma enciclopédia, que foi em 1/11/1942), nunca soube por quê. Nunca me interessei em saber. Mais tarde, na década de 80 (27/2/1986), depois de uma séria de mudanças para sobreviver à desvalorização, mudaram-na outra vez, e eu senti a segunda sensação real de perda, perda de identidade, afinal o cruzeiro era parte de minha vida, quase toda. Nada de pilhéria ao falar de real...

Pessoa disse algo assim que “minha pátria é minha língua”. Ele, que tinha duas, Pátrias, e falava outras mais, línguas, devia saber o que afirmava. Embora estivesse muito jovem, devo ter registrado no inconsciente aquela minha primeira perda de identidade. Continuei perdendo-a, pela vida afora, como disse outro poeta, mas isso não vem ao caso. Meu propósito é falar de presidentes, presidentes do Brasil.

Ouvi esta palavra, conforme estava dizendo, quando mudaram nossa moeda, o mil-réis, e introduziram o cruzeiro. Lembro-me que ouvi meu tio Pedro, já falecido – e falecido com mais de 80 anos, que nós, os Vaz, não gostamos de deixar este horroroso mundo muito cedo –, comentar algo sobre a sagacidade do nosso presidente, devido a sua efígie estar estampada em uma nota de valor muito baixo, a dez cruzeiros. Uma nota de baixo valor é também de grande circulação, figurando nela, nosso presidente (Vargas) fica cada vez mais conhecido – concluiu meu tio. Grifo a palavra por tê-la ouvido pela primeira vez. Até então só ouvira e gravava palavras como caju, carambola, laranja de umbigo, coco, abacate, umbu, cajá, jaca, jambo, jabuticaba, essas frutas que nos, nordestinos gostamos. Assim, eu, depois do dia 1º de novembro de 42 – estando com seis anos – descobrira que o Brasil tinha um presidente! Nunca dei muita importância ao fato e a descoberta – paguei caro. Por isso, registro com um lugar-comum.

Mais tarde ouvi vagamente meu avô contar como tinha sido a eleição (a de 45) em Salvador – que os ventos do voto direto, tão prezado à democracia, não chegara ainda até a fazenda Veneza, embora ali os adultos fossem alfabetizados e, portanto, tendo o direito de votar. O que ainda guardo na memória, de tudo que meu avô falou ou deve ter falado, é que o número dos votantes da UDN era exíguo, enquanto os do PSD – o partido que ele votara – era muito elevado. Dos outros candidatos ele não falou, inclusive nada disse sobre Yedo Fiúza, candidato dos odiados comunistas, nada disse.

Bem, registrado o fato de o Brasil ter um presidente, não lhe dei maior importância. A vida seguia seu curso e eu crescia solto na fazenda, desfrutando de uma vida que, só muito mais tarde, descobri que era maravilhosa(*). Nesse passar do tempo, meu avô morreu e, depois de uma série de peripécias, fomos para no Rio de Janeiro. Ao chegarmos lá, o presidente era outra vez Getúlio Vargas. Tinha uns 14 anos e isso não significou nada para mim.

Antes da morte do meu avô, minha mãe, preocupada com aquela vida bucólica em que vivíamos na fazenda, longe da escola, ainda que bem perto dos livros, tomou uma decisão inusitada: enviou uma carta ao presidente explicando sua condição de “viúva sem recursos, com sete filhos para criar”, e solicitando colégio. Não demorou muito chegou a resposta assinada por um secretário do Vargas. Dizia – grosso modo – que o presidente “leu a sua carta, está ciente da sua situação, e enviou instruções para que o Interventor da Bahia, Dr. Landulfo Alves, tomasse as providências cabíveis”. Era a primeira vez que eu ouvia a palavra cabível. Também não demorou muito, chegou a carta do secretário do Dr. Landulfo Alves. Nesta dizia – também grosso modo – “que recebera as recomendações do presidente e gostaria muito de atender, porém...” Minha mãe, por sincera e honesta, cometera um erro crasso, colocar o nosso sobrenome por extenso. A carta dizia que jovens descendentes de uma das famílias mais ilustres do sertão baiano, os Vaz Galvão Sampaio, não podiam necessitar de escola pagas pelo Estado. Não esqueceram de acrescentar, “mesmo filhos de uma viúva, pois vemos que ela também pertence a outra das famílias ilustres da Bahia, a qual pertenceu o insigne desembargador Albertino Passos. Cujo nome figura em uma das ruas da nossa capital”. Minha mãe era Passos. Uma das minhas irmãs perguntou o que era e quem era esse desembargador. A resposta de minha mãe, cujo rosto demonstrava tristeza e decepção, foi: “É tio do seu avô, meu pai”. Com essa resposta, e com a carta, fiquei sabendo três coisas: nossa família era ilustre, tanto de parte de pai, como de parte de mãe; tinha um parente ilibado, um desembargador do Estado; passei a conhecer a palavra insigne. Tudo isso me deixou muito feliz. E a felicidade era maior porque a idéia de ir estudar não me agradava nada, ainda mais por saber que seria em colégio interno.

E assim foi o início da minha tomada de consciências sobre a existência da figura de um presidente no Brasil. Mas esse aprendizado demorou ainda muito tempo...

Aliás, ter um presidente e começar a indagar-me a razão de sua existência, só criou corpo em meu pensar em 24 de agosto de 1954. Não pelo impacto do suicídio, afinal algo teria que acontecer, naquela época já lia jornais e acompanhava aquilo que era chamado de crise política, na qual Carlos Lacerda tinha um papel primordial. Nunca soube por que nunca simpatizei com Lacerda, talvez porque sua pregação fosse quase unanimidade na imprensa do Rio, com a única exceção de “Última Hora”; talvez por certo instinto, o qual sempre me levava a estar ao lado mais fraco, não sei. Sei, sim, que me impressionaram alguns fatos que me pareciam sintomáticos. Aqueles que pediam a cabeça de Vargas, com seu suicídio, ou desapareceram ou mudaram de opinião, porque uma multidão incontrolada saiu às ruas protestando, quebrando e incendiando os órgãos que eram identificados como responsáveis pela morte do presidente.

Eu estava com 18 anos, trabalhava em uma fábrica de “Jóias e Bijuterias”, na rua Frei Caneca. Pouco antes das dez horas o patrão achou por bem nos mandar para casa. Qual nada! Fomos – a maioria – para as ruas. Eu – digamos assim – tive naquele dia o meu batismo de fogo político. Nunca vi tanta gente junta, nunca vi tantas pessoas indignadas, nunca vi tantas pessoas chorando o choro sentido da dor e da raiva. Eram todos pobres. Naquele dia, ainda que de forma muito confusa, descobri que havia duas nações: a da elite – embora não atinasse com essa nomenclatura – e a do povo.

Iniciou-se naquele dia a minha luta para irmanar-me mais com os membros da segunda nação... Afinal, embora fosse descendente de uma família ilustre, era pobre e, portanto, pertencia a segunda parte de nação. Enquanto isso, a primeira nação, embora ressabiada, recompunha-se do susto e continuava segurando o timão. Depois de uma sucessão de crises, inclusive uma série de tentativas de impedir a posse do presidente eleito, Juscelino Kubitschek de Oliveira, o JK, foi frustrada graças a intervenção do General Lott, em 11/11/1955. Nessa época já prestava o serviço militar e a movimentação de tropas do General Lott ensejou o ingresso, por assim dizer, na História do Brasil, porque a partir daquele fato participei de todos os movimentos políticos pelos quais o Brasil passou até o fim da ditadura militar.

Durante o governo JK, depois de freqüentar a então Escola da MotoMecanização – atual Escola de Material Bélico – fui promovido a terceiro sargento. Foi nessa época que se consolidou o meu aprendizado de cidadania – como se diz hoje – pois passei a freqüentar o Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército (CSSE). E, com relação a minha vida, durante o governo JK, apenas sucederam dois fatos importantes. Ser co-participante da assembléia do CSSE que pressionou por um aumento de vencimentos (salários) mais equânime, em relação aos oficiais, para os subtenentes e sargentos. O clube ter – ainda que com alguma relutância e timidez – liderado essa luta, a qual tinha clara conotação sindical, fez-me ver da importância de se atuar em conjunto e não individualmente. Aquele aumento foi um mais importante, o melhor que recebemos nós, os sargentos, em todo o século XX, pois tivemos um considerável aumento de soldo. Como conseqüência dele, entre outras coisas, passei a comprar livros e a lê-los com sofreguidão. Minha atuação na assembléia do clube foi mais que modesta, mas era um início, um bom início e um começo daquilo que chamávamos na época de politização. Posso mesmo dizer que todo o meu futuro de militante de esquerda começou aí.

Esse melhor poder aquisitivo que me permitia comprar livros, permitiu-me também ler publicações periódicas – jornais e revistas – que abriam meus horizontes. Dois desses veículos de politização, já citei em outra crônica, “O Semanário” e a “Revista Brasiliense”.

O segundo episódio, ao qual me referi, foi uma viagem a Brasília – recém-inaugurada – junto com uma pequena comissão do Clube. Por esforços do sargento Carlos Machado Correia, Presidente do CSSE, alguns sargentos do Exército tinham sido convidados para conhecer a nova capital. Fomos em um avião da FAB e, não sei por qual motivo, voltamos de ônibus até Belo Horizonte e, daí, no trem o “Vera Cruz”, até o Rio.

Brasília resumia-se aos principais palácios, uns poucos ministérios e uma única avenida, a W3, onde estava situado o pequeno comércio e alguns escritórios. Havia apenas uma Escola-Parque pronta e funcionando. Nada mais, nem a Catedral existia. Havia uma estranha poeira vermelha, fina como talco, da qual trouxe um pouco em um frasco, como lembrança. Fora isso, tinha apenas o Núcleo Bandeirante, com toda a aparência de uma daquelas cidades dos filmes de faroeste, onde havia um arremedo de vida noturna, uns cabarés decadentes, exibindo shows decadentes, com putas mais decadentes ainda. Isso penso hoje.

Claro que aquele mundo surrealista e belo impressionou-me, como também veio a impressionar-me na volta a rodovia Brasília-Belo Horizonte, com suas retas infindáveis. Porém, o que mais me assombrou na nova capital, foi um episódio trivial, ao qual assisti por acaso. Muita coisa na cidade fora improvisada para a inauguração, passada esta trataram de consertar as improvisações. Uns operários estavam cavando valas e assentando manilhas, colocando sobre estas umas tábuas – para permitir a circulação das pessoas na calçada –, enquanto outros operários iam passando fios, de linhas telefônicas ou elétricas, talvez. Uma senhora tropeçou, quase caiu e, indignada, reclamou, ao que o operário, muito compenetrado, levantou-se da vala lhe falou: “A senhora não está vendo que ainda não acabamos de construir a cidade”.

Naquele momento não tive dúvida de que o Brasil estava começando a mudar e que essa mudança seria profunda.

O único problema dessa constatação é que cri ser a mudança anunciada fruto natural da revolução que, fatalmente, viria. Porém, o que veio foi a contra-revolução, na forma de um golpe de estado em 1964, um infame golpe militar... Mas, felizmente, as mudanças, ainda que sutis, quase imperceptíveis, vieram e continuam vindo. Afortunadamente... Porque, uma coisa – pelo menos –, creio inexorável, o Brasil, apesar dos políticos corruptos, apesar da nossa passividade, ou seja, apesar de nós mesmo – cujo orgasmo maior é ser pessimista e poder falar mal do Brasil –, apesar da social-democracia universitária paulista, o Brasil está se transformando. E está se transformando para melhor...

Entretanto, mesmo com esta constatação, esta crônica está ficando muito longa. Paro. Sobre os Presidentes e eu, falarei em outra oportunidade, ainda...

Valença, BA, 12 de janeiro de 2002
© Araken Vaz Galvão
arakenvaz@katrakanet e arakenvaz@hotmail.com ou arakenvaz@gmail.com , www.olobo.net

(*) Sempre que me lembro dessa fase maravilhosa de minha vida, compreendo com mais acuidade, não só a beleza do poema “Meus Oito Anos”, de Casimiro de Abreu, como também o que Ataupho Alves quis dizer com “Eu era feliz e não sabia”...

8.11.07

Lembranças das Prisões e do Exílio

Marconi Leal e o Exílio



Marconi é um jovem e talentoso escritor pernambucano que, por uma dessas fatalidades relacionadas com sobrevivência, mora em São Paulo, mas que nada tem a ver com o período negro da ditadura porque, naquele nefasto tempo, ele devia ter uns três ou quatro anos. Por isso é justo dizer, portanto, que só o conheci nos tempos atuais, em que eu ando a remir reminiscência de prisões e do exílio. Então – indagará, com muita razão, o eventual e perspicaz leitor –, que diabos ele faz nesta crônica?
Simples. Sendo ele um nordestino de cepa (e sendo obrigado a viver em São Paulo onde, diga-se de passagem, todo nordestino é “baiano”) sente uma falta terrível daquelas coisas que fazem de nossa região um inferno com sabor de paraíso. Com essa afirmação radical desejo dizer que o paraíso – todos sabemos! – só pode estar localizado no sul maravilha. Entretanto, o “nosso inferno” é uma espécie de paraíso porque possui características ímpares, as quais somente nós conhecemos e admiramos. Dito, posso continuar... E continuo perguntando:
Como um nordestino pode viver sem comer, vez por outra, feijão de corda ou carne-de-sol? No caso específico de Marconi, ele não pode viver sem queijo de coalho – o qual deve ser deglutido em tiras colocadas em um espeto e aquecidas na brasa. (quem já visitou o nordeste sabe do que estou falando). Contou ele, via internet, com voz de bebê chorão, que, muitas vezes saía de sua casa, em Moema, zona sul de São Paulo, e ia até o mercado da Lapa em busca dessa iguaria, para voltar frustrado, pois o que lá encontra não passava de um arremedo daquele manjar dos deuses do sertão.
Comovi-me com seu padecer por lembrar-me do que significava quando, em Montevidéu, por exemplo, chegava um familiar de algum exilado com um quilo de feijão e um pedaço de jabá. Para nós, nordestinos, contava ponto um quilo de farinha-de-guerra ou manteiga de garrafa.
Algumas vezes – quando a saudade fazia-se mais aguda, normalmente próximo ao final do ano –, alguns exilados arriscavam-se em furtivas incursões na fronteira, por exemplo, na cidade de Santana do Livramento – sempre apinhada de policiais da ditadura e de dedos-duros ao seu serviço –para comprar coisas assim como duas garrafas de guaraná. Duas porque o dinheiro era curto e garrafas porque ainda não existia em lata.
Certa ocasião, com o jornalista mineiro, Carlos Olavo – na kombi em que ele ganhava o pão de sua família mostrando aos turistas as belezas do Uruguai –, fui até aquela cidade e de lá trouxe, além do guaraná, feijão, charque, bombom “Sonho de Valsa”, castanha de caju e um litro daquele rum que tinha um pirata com um papagaio no ombro. Festejei a solidão do fim de ano tomando rum – pois nunca gostei muito de cachaça – e comendo castanhas. Os bombons ficaram para o outro dia, o feriado. Com esses pedaços do Brasil passei a mais desolada das festas.
Relacionado com saudade e com o Uruguai, lembro-me também das feijoadas da casa do advogado gaúcho, Eron Araújo, das quais participavam: Marco-Aurélio Garcia e sua, hoje já falecida, esposa Elisabete Souza, além de Renata Ferraz e Wilson Fava, respectivamente Amarela e Amarelo; Hilda Fadiga e seu esposo Fernando. Serafim do Pinto Cal e outros. Entre os outros eu comparecia amiúde. Na casa de Araújo também eram ministrados os cursos de marxismo e se assistia aos jogos da Copa do Mundo, no México, pois ele possuía televisão.
Mas tarde, quando já me encontrava no Peru, assisti a mais insólita demonstração da saudade das coisas do Brasil. Um grupo, do qual participava um artista plástico cujo nome só me lembra que era Vicente; Elsa Lobo e outros, mostrou o que era saudade. Esse grupo passou um fim de semana na casa de uma socióloga brasileira, de nome Leila, fazendo farinha. Isso mesmo. Cada um comprou uma pequena quantidade de yuca – nome peruano da nossa mandioca –, um quilo talvez, e depois de cumpri todas as etapas da elaboração de farinha, ou seja, descascando as raízes, ralando-as em ralador manual, espremendo a massa em um pano, revezando a cada hora, mexendo em um frigideira para fazer a massa atingir o ponto de farinha, ou seja, ficar quase torrada.
Em termo de esforço humano – que acho que se chama homens-hora – foi o maior já desprendo em toda a história da humanidade, não tenho dúvida, para no fim do domingo, cada um sair feliz e cansado com uns poucos punhados – menos de um quilo, seguramente – de algo muito parecido com aquilo que os nossos índios chamavam farinha-de-guerra, mas que é mais conhecida como farinha de mesa, sem a qual não se pode fazer uma boa farofa.
Por certo, o impaciente leitor voltara a indagar: E o que é que o escritor Marconi Leal tem a ver com tudo isso? Explico...
É que me condoeu saber do seu sofrimento por não encontrar, em São Paulo, queijo de coalho com gosto de queijo de coalho. Doeu-me também saber que ele, que estava quase chorando, tem como ponto algo o humor, bom humor, em tudo que escreve e fala. Mas, talvez tenha mais me doído porque me fazia lembrar de como a insidiosa saudade se manifestava nos corações dos exilados. Na maioria das vezes não se sente falta dos amigos e dos parentes apenas, desejava-se sentir o sabor de algo que nós julgávamos ser bem brasileiro, por estar relacionado com nossa infância com nossa região, com nossa vida...
Por isso, pois, por saber o que significa o “suplicio de uma saudade”, tomei a liberdade de colocar em uma caixa de isopor um pedaço de dessa maravilha da inventiva do nosso homem: queijo de coalho. Claro que não foi um pedaço muito grande – que atravessamos tempos duros. Ou, como disse o poeta, “tempos partidos, tempos de homens partidos...” Porém tive a sensibilidade de acrescentar alguns fragmentos de queijo de cabra, de dois tipos; queijo da roça, da minha cidade baiana, também de dois tipos. Acrescentei como complemento, algo que só existe na região onde moro (Valença, Baixo-Sul da Bahia), um pedaço de carne de suíno defumada, que aqui se chama de “Mantinha”. Prodígio alimentício que os vegetarianos jamais conhecerão... Tudo isso, via sedex, mandei para Marconi. Mas, não foi só. Para que as poucas iguarias não chegassem deterioradas, saímos às cinco da manhã e fomos a Salvador, mais de 270 km, com o objetivo de coolocar no Correio antes das 10 horas, para que chegasse ao menor prazo de tempo possível.
Agora aqui estou ansioso, aguardando a notícia do recebimento. Sabendo que proporcionei a Marconi uma das maiores felicidades que um desterrado pode sentir, porque eu também já vivi situações análogas...
Por isso – em uma canhestra citação de John Donne – não me pergunte o porquê do meu gesto. Porque mandei para mim...


Araken Vaz Galvão


Valença, BA, 30 de outubro de 2007

27.10.07

Lembranças das Prisões e do Exílio

Sindicatos e Sindicalistas




Os jovens esquerdistas da minha geração e que viveram aqueles anos conturbados das décadas 60/70, sentiam uma grande admiração pelos sindicatos e pelos sindicalistas. Claro que todos nós sabíamos que existiam dois tipos de sindicatos, os dirigidos pelos pelegos e os sindicatos propriamente ditos, aqueles que eram dirigidos por sindicalistas, ou seja, por autênticos filhos da classe operária, pessoas abnegadas que dedicavam suas vidas – muitas vezes sacrificando suas famílias e a si próprios – em embates desiguais contra o caráter desumano do capital, para reduzir a exploração do homem pelo homem.
Isso, com maior ou menor grau de ingenuidade, pensávamos. Pouco importava que houvesse muito de idealização nesta visão que tínhamos, quando se é jovem necessita-se com avidez da auréola dourada com que se adornam os mitos, os sonhos, as utopias, sem a qual a vida não faz sentido.
Entre nossos mais brilhantes companheiros, dois sobressaíam naquilo que ficou conhecido como o Movimento dos Sargentos. Um deles, Manuel Raimundo Soares – mais tarde assassinado em Porto Alegre pela ditadura militar –, dono de uma oratória inflamada e vibrante, muito irrequieto, por iniciativa própria, já vinha desde algum tempo fazendo contato com intelectuais de destaque e com a liderança da UNE(1). Esses contatos objetivavam uma troca de informações, intercâmbio de experiências, essas coisas que hoje seriam chamadas de integração. Entre os primeiros, lembra-me das conversas que ele manteve com dois expoentes do ISEB(2), o erudito professor Álvaro Vieira Pinto e com o cativante e gentil desembargador Osni Duarte Pereira, em cuja casa acompanhei-o algumas vezes.
Outra área em que Soares buscava contatos era a estudantil. Lembra-me particularmente um estudante da direção da UNE, Vinícius Caldeira Brant, um mineiro simpático e muito vivaz, para não usar o termo esperto que pode ter conotação pejorativa. Outro líder da UNE, com quem encontrávamos em reuniões era o atual governador de São Paulo, José Serra, o último presidente daquela Entidade em seu período glorioso. Embora ele fosse de porte reduzido, mais para aquilo que o povo chama de baixinho, ostentava certa elegância, e estava sempre com o cabelo muito bem penteado graças a uma boa dose de Gumex, Serra exibia também uma constante postura discreta e certo ar aristocrático, um pouco tirado para a petulância, dependendo do ângulo que se olhasse, talvez por isso nunca cheguei a trocar nenhuma palavra diretamente com ele, apenas participamos de algumas reuniões políticas da Frente de Mobilização Popular.
Se não me engano, traído pelos anos, foi um outro importante líder dos sargentos, o catarinense Amadeu Felipe da Luz Ferreira, que teve a idéia de buscar contatos sistemáticos e previamente agendados com alguns líderes sindicais de projeção nacional.
Porém, ao falarmos de sindicatos, antes de espraiarmos sobre a experiência que resultou da iniciativa de Amadeu Felipe, cumpre o dever de esclarecer – quiçá às novas gerações – o que significava o termo pelego. Esta palavra, cuja origem vem do espanhol pellejo, que significa pele, em particular a de animal ou mesmo a casca de uma fruta, é um gauchismo. No Brasil passou a designar a pele curtida do carneiro a qual se deixou a lã; dessa forma, embora possa ter vários usos, como, por exemplo, o de tapete, é mais empregada referindo-se a ela quando é usada nos arreios para amortecer o peso da sela ou do cavaleiro sobre a sela. No sertão da Bahia, quando é usado sob a sela é chamado de baixeiro, quando sobre ela, para tornar o assento mais confortável nas cavalgadas, é conhecido pela palavra cocholilho (possivel aportuguesamento grosseiro da marca de uns tapetes franceses, feitos de algodão). Bem... Por amortecer o contato dos fundilhos do cavaleiro com a sela, ganhou um sentido depreciativo no Brasil, depois da Revolução de 30, passando a designar os agentes mais ou menos disfarçados do Ministério do Trabalho nos sindicatos operários. Por extensão, pessoa subserviente, capacho.
Feita essa longa e, talvez, desnecessária explicação, voltemos à iniciativa do sargento Amadeu Felipe. Ao contrário de Soares, que era muito emotivo, além de sonhador inveterado, Amadeu, era racional e pragmático, quiçá um pouco frio. Sua idéia de buscar contatos com lideranças sindicais visava ampliar os horizontes políticos dos sargentos, tirando-os da rotina estreita da caserna, fazendo-os conhecer um mundo ao que poderia vir a ser mobilizado para reprimir em algum momento de crise.
Entre as principais lideranças operárias situadas no Rio de Janeiro, figuravam dois nomes como grandes estrelas, pelo menos era isso que diziam os jornais da direita, o primeiro deles era eles o líder dos ferroviários da Leopoldina, Demóstenes Batista, conhecido como Batistinha, o homem que podia parar aquela estrada de ferro em cinco minutos, pelo menos era isso que a imprensa alardeava. O outro nome de projeção era o de Osvaldo Pacheco, líder dos estivadores. Foi com essa lenda viva do sindicalismo que Amadeu nos levou para uma conversa na Federação Nacional da categoria.
O contato com Batistinha, se houve, não participei. E, ademais, nunca indaguei o Amadeu Felipe se tal sucedera. Mais tarde, já no exílio encontrei com o aguerrido líder sindical ferroviário em Montevidéu, mas nunca conversei com ele, sei apenas, por um amigo comum – marinheiro Amaranto Jorge Moreira – que morava na mesma pensão que ele, que Batistinha era uma pessoa séria, muito solidária com os companheiros e que se esforçava para retirar os jovens marinheiros do Uruguai e enviá-los, com bolsa-de-estudo, para estudar nos países socialistas – tudo conforme a linha política do PCB – evitando, assim, que esses jovens “embarcassem em alguma aventura mais radical, do tipo luta armada”, como de fato alguns se meteram, e como foi o caso do meu amigo Amaranto que retornou comigo ao Brasil e, comigo participou da guerrilha do Caparaó, a qual era comandada justamente por Amadeu Felipe.
Mas, estou a adiantar-me à cronologia dos fatos, por isso volto a falar do encontro que tivemos com Osvaldo Pacheco.
A cantora capixaba Maísa apareceu na música popular brasileira com canção romântica, cujo título era “O Meu Mundo Caiu”. Por mais de mau gosto que posa parecer, tudo que eu idealizara sobre os abnegados líderes da classe operária ruiu no momento em que conheci o líder dos estivadores. Pacheco era o protótipo do burocrata – daquele burocrata que (descobrimos mais tarde!) o stalinismo gerara. Arrogante, pretensioso, cabotino, insincero e até, ingênuo, pois pensava que com jactância podia nos impressionar.
Minha ilusão sobre a integridade da espécie humana, sobre uma suposta pureza dessa espécie hibernando sob a casca corruptora do capitalismo começou a desmoronar a partir daquele momento, embora eu apenas admitisse que ele – aquele sindicalista – me decepcionara. Tempos depois, um outro líder, no caso estudantil – Brandão Monteiro, ex-presidente do CACO(3), mais tarde, Secretário em um dos Governos Brizola, quando faleceu precocemente – que também me decepcionara, falou-me de Pacheco, classificando-o de “pelego de esquerda”.
Devo confessar que não dei maior importância ao que me dissera Brandão, gostava muito dele naquela época, mas sabia-o um “livre atirador”, ou seja, era uma jovem liderança da esquerda independente – como se dizia –, pois não pertencia a nenhuma organização de esquerda, mas registrei a expressão, pelego de esquerda. E devo ter, inconscientemente, começado a suspeitar que os ídolos do sindicalismo stalinista tinham os pés de barro, não sei. Infelizmente constatei depois que Brandão acabou por ficar igual a Pacheco...
Mas, como de Brandão Monteiro já falei, continuo com minha experiência som os líderes sindicais de esquerda, sempre lembrando que estamos falando da década de 60.
Existia, por aquela época, um problema, ao qual os jornais – todos contra a esquerda – faziam um grande escarcéu. Era o caso dos “bagrinhos”. Tratava-se da mais descarada exploração de um grupo de operários por outro melhor organizado e dotado de forte espírito de corpo. A indecência funcionava assim, o sindicato, controlava o serviço de estiva, distribuindo o trabalho entre seus membros. Essa prática tinha justas razões históricas, evitava-se que pessoas estranhas ao serviço tomassem o lugar de quem tradicionalmente trabalhava nele. Mas o que fora no passado uma importante conquista sindical, transformou-se – pelo menos isso se deu no porto do Rio de Janeiro – em algo odioso. O trabalhador sindicalizado – cujo salário era mais alto – recebia sua senha e alugava-a a um estivador não-sindicalizado. Este realizava o trabalho, o sindicalizado recebia as diárias e pagava ao “bagrinho”, ou seja, àquele que não pertencia ao sindicato, uma diária irrisória. Ilustremos com um exemplo: digamos que as diárias somassem 100, o estivador sindicalizado em embolsava 80 e pagava 20 ao “bagrinho”.
Amadeu Felipe questionou essa prática e Osvaldo Pacheco, com toda sua empáfia e suposto conhecimento de causa, tentou justificar.
Mais tarde, ali por volta de 63, travei relações com dois líderes sindicais, os quais me impressionaram, sobre eles falarei em outra crônica.


Valença, BA, 2 de janeiro de 2006


© Araken Vaz Galvão
(1) União Nacional dos Estudantes.
(2) Instituto Superior de Estudos Brasileiros.
(3) Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, lendário e aguerrido grêmio dos estudantes da Faculdade Nacional de Direito.

Lembranças das Prisões e do Exílio

11.9.07

Lembraças das Prisões e do Exílio

Soledad Barret



O meu propósito ao escrever essas memórias em forma de crônicas, foi de ordem prática. Nenhuma destas crônicas passariam das três páginas, o meu desejo era, e é, o de facilitar a leitura de quem, porventura, deseje conhecer a experiência de vida deste velho sertanejo baiano, que pertenceu ao Exército.
Experiência, diga-se de passagem, de vida política, que de vida vivida não há muito que possa a interessar a quem quer que seja. Nem a mim mesmo.
E quando falo de vida política, quero dizer que, tendo vivido em um período crucial de nossa História – do Brasil, da América Latina e do mundo – não estive indiferente ao meu tempo. Não fui como o jovem personagem de Stendhal (o marquezinho ignorante) nem como a Carolina, do Chico, que deixou o tempo passar frente a janela sem vê-lo, fui participante. E se não fui o protagonista, tampouco fui apenas figurante.
Dito isso, desejo falar de uma pessoa que conheci no exílio.
Aliás, ao falar de exílio, devo sentenciar – não sem um pouco de pretensão – que acredito ter pertencido à última geração de exilados. Porque – não tenho dúvidas – não mais haverá desse espécime. Fomos os últimos. Doravante não haverá mais exilados, salvo os que o serão em suas próprias pátrias. O alvorecer do século XX conheceu as levas de imigrados (exilados) russos. Talvez os mais trágicos, os mais patéticos. Também os mais criativos, os mais loucos, os mais românticos. Tivemos os espanhóis e ainda as vítimas da perseguição do nazi-fascismo, mas nesse grupo tive mais vítimas que exilados, já que no nazi-fascismo, ao declarar adrede as pessoas como seus inimigos, eliminava-os em suas terríveis câmaras de gás, privado-os das inócuas perseguições e... da vida. Mas nenhum grupo político nacional sofreu um exílio mais longo que os espanhóis. Por outro lado foram os espanhóis – com o heroísmo e o inaudito sacrifício com que lutaram pela liberdade (com o auxílio de jovens de todo o mundo) – que criaram a maior mística e auréola sobre essa condição miserável e terrível que é a de não se ter pátria, por força de uma usurpação: A apropriação da pátria por apátridas, normalmente ao serviço de outros países cuja noção de pátria foi apropriada por uma elite sem entranhas. Não podemos esquecer dos irlandeses, todo um povo fugitivo da fome, todo um povo que se exilou para fugir da fome e do... Império Britânico.
Sem embargo, falando de exílio – esse ferrete que queima ad perpetuam a alma daqueles que sonharam (sonham?) com um mundo menos injusto – e, por isso, talvez, lembrei-me de pessoas as quais nele conheci.
Foram vários. Mas hoje desejo falar de uma só pessoa. Uma mulher.
Seu nome: Soledad Barret.
Foi o Eduardo Terra quem a levou a minha casa, em Montevidéu. Morávamos, minha mulher e eu, en Acevedo Díaz, casi Rivera. Nossa filha – Márcia – acabara de nascer. Eduardo Terra, que atualmente mora na Venezuela, era o que hoje chamam de promotor cultural. De sua vida pessoal só sei que era casado com Inés – uma bela jovem, jovem como ele – de quem também fui amigo e de quem ainda guardo belas recordações. Fora isso, sei apenas que ele era diretor da Cinemateca do 3º Mundo(1). Devo dizer ainda, antes de fazer o parágrafo, que naquela época não se fazia perguntas, curiosidade era uma dos piores males.
Quem pergunta quer informar! – esse era um anátema ao qual todo revolucionário procurava fugir.
Terra foi muito previdente. Soledad, mesmo sendo paraguaia, era muito conhecida no Uruguai, nada mais seguro do que hospedá-la na casa de um não uruguaio. Um estrangeiro que, mesmo sendo visado por ser exilado, nada sabia sobre ela. Ademais, para mim, Soledad foi apresentada como o nome de Alicia, de nacionalidade argentina.
Muito tempo depois, bem mais tarde, quando ela foi assassinada no nordeste, é que soube um pouco quem era Soledad Barret. Seu pai, um dos mais importantes líderes da esquerda paraguaia – quiçá o mais importante em sua época – viveu muitos anos exilado em Montevidéu. O Uruguai era um país com uma situação econômica muito favorável, logo, podia se dar ao luxo de tolerar uma liberdade a qual nem mesmo os próprios uruguaios sabiam que existia. Não sei se tinha outros irmãos, sei apenas que Soledad ali passou a adolescência e estudou até, acho, o secundário – que lá é chamado de preparatórios – e como não podia deixar de ser, naquela época teve participação substantiva nos movimentos a que os estudantes de todo o mundo são comumente protagonistas.
Não sei se por suas atividades como estudante, se pelo passado do seu pai ou se, ainda, pelas duas coisas, certa feita Soledad foi seqüestrada por um grupo da direita uruguaia(2), em um episódio que se fez muito rumor, ficando alguns dias em cativeiro privado. Ao ser libertada tinham lhe tatuado uma suástica no glúteo. Nessa época – claro! – eu não estava no Uruguai.
Esta ocorrência, ao que me consta, nunca foi desvendada, embora todos em Montevidéu soubessem de sobejo quais foram os autores daquela infâmia. Ademais, sabia-se que elementos da polícia estiveram envolvidos no fato. Tudo isso fazia de Soledad uma pessoa muito conhecida no Uruguai, ainda que já tivesse se passando muitos anos e as modificações em relação ao físico de uma adolescente e o de uma mulher madura – que Soledad já era – fossem evidentes, justificavam-se a prudência do meu amigo Eduardo Terra.
Sem embargo, falando assim, jamais serei compreendido. Soledad era, já naquela época, uma lenda vida, não só pela importância do seu pai, mais por sua própria participação política dentro da esquerda paraguaia e de outros países da região. Porém, eu de nada disso sabia.
Sendo natural do norte argentino e chamando-se Alicia, Soledad passou alguns dias em minha casa. Uma imagem sua, a qual nunca esqueci – e jamais esquecerei –, foi a ela embalando minha filha, Márcia, recém-nascida, cantando uma canção, quase gutural, em um idioma estranho. Quanto lhe indaguei sobre a música e o idioma, ela, talvez se traindo pela emoção maternal revelada de forma tão imprevista, disse-me:
– Es una canción de cuna guaraní.
Ao que eu, também emocionado, lhe perguntei:
– Entonces tu sois paraguaya.
Ao que ela, retomando o seu equilíbrio emocional.
– En el norte de Argentina también se habla guaraní.
Fizemos certa amizade, soube mesmo que ela iria entrar no Brasil para cumprir tarefas revolucionárias e, ademais, encontrar-se com um grande amor que a vida lhe revelara em Cuba. Um brasileiro. Nunca soube o nome desse amor. Ou melhor, soube mais tarde e de forma dramática, mejor dicho, trágica.
Entretanto, falar da tragédia de Soledad dói-me como o verso de Miguel Hernández, não sei por que, talvez por ela me parecer menor que un grano de arena(3), por isso vou limitar-me a transcrever o que já escrevi em um dos meus romances. Se o coloco nesta crônica o que pertence a outra criação é para cumprir promessa feita, já a alguns anos passados justamente a Eduardo Terra, de quem continuo amigo até hoje e a quem dedico esse pequeno tijolo do edifício onírico das minhas lembranças de exílio.
Vamos à transcrição(4).
“Embora sejam originárias de termos latinos diversos, as palavras soledade e solidão são sinônimas; contudo a primeira quase não é usada no Brasil, o que é uma pena, pois é mais sonora e, por isso, é mais bela e profunda, o que torna intrigante o fato de ser desprezada em benefício de sua irmã gêmea de uso mais popular, talvez pela sua pronúncia mais rústica. Até mesmo o nome próprio, Soledade, está muito ausente do nosso falar diário. Quantas pessoas conhecem alguém com este nome? Desde que li o livro de José Américo de Almeida. “A Bagaceira”, a sua sofrida heroína chama-se Soledade. Apaixonei-me pela palavra. Certa ocasião, viajando de trem pelo interior de Minas Gerais, fugindo da ditadura militar, fui parar em uma cidadezinha cujo nome era Soledade de Minas. Lembro-me ainda de suas ruas calçadas, sombrias e tranqüilas, com seus muros de pedra, onde os musgos proliferavam com a delicadeza de artesanato oriental. Foi após essa viagem que a paixão pela palavra transformou-se em curiosidade. Fui ao dicionário e lá estava: “Soledade (do latim solitade, através do arcaico soidade), substantivo feminino, lugar muito ermo, deserto, solidão. Tristeza de quem se sente só, abandonado”. E o verbete solidão dizia a mesma coisa, mas esclarecia que a sua origem era o termo latino solitudine.
“Tempos depois, estando exilado no Uruguai, reencontrei a palavra soledade tanto como nome de mulher, como também em seu significado etimológico. Em Montevidéu conheci uma moça, com o nome de Alicia, que vinha de Cuba com o objetivo de entrar no Brasil. Trazia-me recomendações de amigos que estavam exilados naquele país e isso nos aproximou muito. Alertei-lhe sobre os perigos, havia sérios indícios de infiltração nos movimentos de esquerda e a repressão da ditadura estava bem mais eficiente. Tudo em vão. Alicia confessou-me estar apaixonada por um brasileiro, que iria encontrar-se com ele e partiu sem maiores explicações.
“Alguns meses mais tarde, leio em um jornal que aquela criatura tenra, de quem me fizera amigo, chamava-se realmente Soledad e acabava de ser assassinada em Pernambuco por obra e graça do tristemente famoso “Cabo” Anselmo, o homem por quem estava apaixonada. Segundo informações que circularam entre os meios da esquerda, Soledad estava grávida e fora assassinada a pauladas devido a sua delação e com a participação do homem a quem amava... Lembro-me o dia em que li, distraidamente, a notícia e vi o seu retrato. Foi no semanário Marcha, eu ia caminhando em direção a avenida General Flores para pegar o ônibus. Lia a notícia, olhava o retrato, e negava-me a entender ou, como dizem os uruguaios, no carburaba. Até que assimilei lentamente toda a extensão da sua tragédia, como se estivesse anabolizando uma dor integral, visceralmente. Desde esse dia a minha ligação com a palavra soledade ficou sendo mais concreta que abstrata; ficou sendo sempre associada a essa forma superior da expressão da dor humana: a tragédia. Logo eu, o homem das tragédias frustradas...”
Para se entender a tragédia de Soledad Barret seria preciso se compreender a real personalidade do tristemente famoso “Cabo” Anselmo, sua paixão, da qual ela falava em minha casa, sem citar o seu nome. Aliás, o único nome que ela me falou com mais constância foi a de Onofre Pinto, que tinha sido sargento e que eu conhecia melhor. De Anselmo falou-me pouco e vagamente, talvez porque desejasse bem ocultar sua relação com ele.
Sobre ele propriamente dito, além do que já se sabe e que foi muito comentado, posso acrescentar algo novo, relativamente novo. Porém, antes devo dizer que nunca acreditei que ele já fosse agente infiltrado na esquerda, que ele tivesse sido adrede colocado na Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil pelo serviço secreto da Marinha. Pelo menos isso é o que só posso deduzir segundo a opinião de todos os seus companheiros, dirigentes daquela associação. Todos os mais importantes, aqueles que continuaram na luta e que nunca deixaram dúvida quanto à fidelidade e dedicação aos ideais de libertação nacional, todos – sem exceção – eram de opinião que Anselmo mudou de lado bem mais tarde. E foram justamente essas opiniões que me levaram a recordar um antigo boato que correu no nosso meio, logo depois do golpe de 64, em relação a ele, Anselmo, durante sua passagem pela prisão do DOPS, no alto da Boa Vista, na Tijuca. Vamos a ele, o boato, o qual será transcrito textualmente como se encontra narrado em outro livro meu, no caso um estudo ainda inédito sobre os militares brasileiros(5).
“Usando a terminologia atual, mesmo com o perigo de contrariarmos o cretinismo do “politicamente correto”, Anselmo, ao que se sabe hoje, era bissexual. Na época se pensava que essa acusação era fruto do trabalho desagregador da direita. O temo bissexual não era usado, quiçá nem existisse fora dos dicionários, ademais havia o costume de somente se considerar homossexual o passivo, isto é, que recebia a ação da ‘monta’; ninguém considerava o ‘montador’ como homossexual. Havia até nas Forças Armadas a classificação de ‘pederasta passivo e ativo’, com isso ficava claro que alguém praticava – ativo – a ação sexual e alguém a recebia – passivo. Sodomia e sodomita eram termos nunca usados.
“Quando Anselmo se encontrava preso, em uma dependência do DEOPS, no Alto da Boa Vista, sobe-se que um marinheiro que dormia ao lado de Anselmo (todos dormiam em colchões colocado no chão) despertou, à primeira hora da manhã seus companheiros exibindo o pênis túrgido, aos gritos que tinha mantido relações sexuais com ele. Claro que o marinheiro em questão usou de termos chulos, não publicáveis, como se diz. Ademais foi considerado como elemento provocador, a serviço da 2ª Seção, já que estava difamando – assim se pensava – um dos mitos da esquerda da época. Somente, muito mais tarde, quando as perfídias de Anselmo vieram à tona, este episódio já estava esquecido, mas foi aí justamente que eu relembrei o fato e comecei a matutar sobre a personalidade de Anselmo”.
Posso dizer, não sem uma boa dose de vergonha, que o sacrifício de Soledad Barret caiu hoje no esquecimento. Volta em meia fala-se do seu assassino, mas as circunstâncias de sua morte nunca foram completamente esclarecidas. Do seu assassino, fala-se esporadicamente que ele era o que hoje é chamado de bissexual e que tinha um caso com o mais conhecido torturador de presos políticos, o excremento humano cujo nome era delegado Fleury, também assassinado por seu compassas, em uma operação conhecida nos meios delinqüentes oficiais, como de queima de arquivo.
Poucas são as pessoas, a julgar pelo silêncio que impera em relação ao seu nome, que a conheceram e privaram de sua companhia no Brasil, até mesmo porque todos os seus companheiros de lutas políticas foram assassinados junto com ele. Mas o condenável silêncio que embala sua memória, não me impede de escrever, como o fez no meu romance, já citado, que, ao evocar a sua doce lembrança, afirmar que “[...] descobri, embora tardiamente, que a etimologia também tem suas armadilhas, Soledade e saudade nasceram da mesma raiz: solitade, através do arcaico soidade...”
Ou seja, dizer que só posso concluir que também Soledad é igual a saudade.

Valença, Ba, 23 de janeiro de 2004


Araken Vaz Galvão

(1) O Uruguai tinha uma excelente Cinemateca, o que Terra fez foi criar outra, uma opção de cinema mais ligado a temas políticos e a concepções estéticas mais de vanguarda.
(2) A direita uruguaia, assim como a Argentina, diga-se de passagem, é uma das mais radicais e a que mais claramente confessa sua posição, por isso não é de se estranhar que eles não tivessem escrúpulos de escolher o seu próprio símbolo – a suástica nazista – para estigmatizar uma militante de esquerda.
(3) Talvez o poema de Hernández fale en un grano de avena. Não lembro.
(4) Do meu romance “Em Busca do Esquecimento”, cap. “Introdução a Soledade”.
(5) Vaz Galvão, Araken. O Sargento na História do Brasil, inédito.

9.7.07

Lembranças das Prisões e do Exílio

Nilo da Silveira

Im memoriam


Nilo – o Velho, como o chamávamos – era também militar, daqueles que poderia se classificado de “velha guarda”, pois já estava na casa dos 60, encontrava-se no Uruguai como fugitivo, tinha assassinado o seu comandante com um tiro na testa, em legítima defesa, conforme ficou comprovado no seu primeiro julgamento em Porto Alegre. Ainda assim, em Segunda Instância, foi condenando e expulso do Exército em uma sentença um tanto medieval, que ainda existia no Código Penal Militar.
Sendo da “velha guarda” Nilo conhecia metade do Exército, inclusive tinha servido com Garrastazu Médici, com Golberi do Couto e Silva e com João Batista Figueiredo, entre outros expoentes do golpe de 64. Apesar dessas relações profissionais, era emocionalmente ligado, como quase todo gaúcho classe-média do seu tempo, getulista, janguista e brizolista, de quem sempre foi fiel até o fim de sua vida.
Mas, o que interessa em Nilo não é sua fidelidade ao getulismo e a Brizola, mas as situações inusitadas por onde a sua vida o levou. Próximo da reforma de uma vida sem grandes destaques na caserna, já como oficial subalterno, tem um choque com um coronel autoritário e lhe acerta uma bala de pistola ponto 45 na testa. O rumor formado nos jornais de Porto Alegre em torno do crime, a polêmica que o seu advogado – o renomado Lia Pires – alimentou, o seu próprio caráter ingênuo e um tanto simplório, o colocou em uma evidência talvez maior que a sua formação suportava. De uma hora para outra, Nilo tornou-se uma celebridade, como se diz hoje. E, todos sabemos, algumas mulheres (muitas!) adoram celebridades. Assim Nilo se transformou – já no outono da vida, como se diz, enquanto aguardava, preso em uma unidade militar, o julgamento – no maior garanhão da capital gaúcha. Segundo ele próprio me contou, tanto no exílio, como em uma prisão em que estivemos juntos, aqueles anos foram os melhores de sua vida.
Nilo, porém, padecia de um grave defeito: acreditava na justiça! Morreu acreditando nela. Primeiro, antes que eu o conhecesse, acreditou que seria absolvido na Auditoria Militar, garças à eloqüência verbal do advogado Lia Pires. E foi. Mas sua alegria durou pouco, logo a seguir foi condenado no Superior Tribunal Militar. Feita a devida apelação, a sentença foi confirmada e, ao que parece, agravada, mas ele continuou acreditando em um milagre. Como o milagre não veio, fugiu e foi para o Uruguai, onde se casou com a filha de um alto hierarca da polícia local, já aposentado, talvez isso lhe tenha permitido viver naquele país por muito tempo sem ser incomodado.
Quando o conheci, em minha primeira e rápida estadia em Montevidéu, ele morava em pensão na calle Durazno, quase na esquina do Boulevard Artigas, onde também, Amadeu Felipe, Gelcy e eu, ficamos hospedados. Nessa ocasião, embora tivéssemos conversado bastante e eu me tenha sentido cativado por sua irresistível simpatia, não houve tempo para uma maior aproximação.
Retornei a Montevidéu, depois dessa primeira e rápida estadia, e ali permaneci por uns sete meses. Entrara com uma carteira de identidade falsa, depois de ser saído da prisão em que estive por uns dez meses, em Porto Alegre, a maior parte desse tempo, em um improvisado presido em uma ilha do rio Guaíba, em frente à cidade do mesmo nome. Durante esse período – do qual já falei na crônica Montevidéu IV – voltei a encontrar-me com Nilo. Como ele fosse dado a confidências, soube que tinha se separado de um casamento de mais de 30 anos. Estava casado com uma moça uruguaia, filha do policial, de quem já falei, e sobrevivia fazendo contrabando de pequeno porte – isso que hoje chamam de “sacoleiros” – do Rio Grande para Uruguai. O seu casamento, como quase tudo na última fase da vida de Nilo, tinha sido rocambolesco, a família da moça se opunha à união de um homem na casa dos 60 anos com uma jovem de casa dos vinte, ou menos. Mas o amor dos jovens, no caso o dela, é – como dizem os mineiros – igual a fogo ladeira acima e água ladeira a baixo, ninguém segura. Ademais, quanta atração não existia aos olhos de uma jovem do que uma vida acidentada como a de alguém do passado de Nilo...
Cristina, de quem fiquei amigo mais tarde, enfrentou a família e – como sói suceder nesses casos – logrou seu intento, juntou-se a Nilo em suas viagens de micro-contrabandista, atividade onde não estavam ausentes as emoções. Contou-me Nilo que, certa feita, vindo de Santana do Livramento com quatro valises abarrotadas de peças da automóvel, o ônibus foi parado para uma batida policial em busca de... justamente, contrabando. No primeiro momento ele pensou que seria preso e conseqüentemente entregue às autoridades brasileiras. Enquanto as malas dos primeiros passageiros eram abertas e revisadas, com toda aquela inevitável agitação, ocorreu-lhe a idéia de pegar as suas valises ainda não revisadas, movimentar-se entre os demais passageiros e, aproveitando o burburinho, com o maior sangue frio. “Dirigi-me ao que me parecia ser o chefe – disse-me Nilo – e lhe perguntei: Quem já foi revisado o que faz? O chefe olhou e respondeu: Passe para aquele lado. Salvei-me e foi salva toda a carga que trazia”. Exultante, no momento do fato e no instante em que Nilo me narrava, estava Cristina.
Reencontramo-nos, anos mais tarde, quando fui transferido para o presídio militar que a ditadura criara na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Nilo tinha se aventurado em uma viagem a Porto Alegre e fora preso.
Foi nessa prisão que nossa amizade se consolidou.
Nilo gostava de histórias do tempo de sua longa vida de caserna. Nesse período, o general Figueiredo era chefe do SNI, Nilo começou a alimentar a esperança de que o seu antigo chefe iria lhe conseguir indulto. Passado o Natal, sem que o tal indulto saísse, Nilo concentrou suas esperanças em uma revisão da pena. Por essa época, Amadeu Felipe – que também cumpria pena ali –, eu e ele, pensávamos em fugir. Não havia um plano conjunto, quem fosse levado ao médico no Rio e tivesse oportunidade que aproveitasse. Eu já tinha saído duas vezes e, a cada vez, sentia que mais cedo ou mais tarde dar-se-ia o ensejo. Nós três sabíamos que depois que o primeiro fugisse as oportunidades dos outros se reduziriam bastante. Quando se aproximava a minha terceira saída, ponderei com Amadeu que se eu fugisse, Nilo, que era o mais velho de nós corria o risco de não sair da prisão, talvez morrer nela, já que a sua pena era de vinte anos. “Conversa com ele” – foi o que me respondeu Amadeu. Procurei Nilo e, ao ouvir minhas ponderações, ele me disse: Se tiveres chance, Baiano, foge. Não te preocupes em me prejudicar. Te asseguro que, se minha revisão for negada, chegarei em Montevidéu antes de ti. “E tu terás que me pagar umas cervejas.”
Não aconteceu outra coisa. Fugi e pedi asilo diplomático na embaixada do Uruguai, aquela delegação diplomática estava acéfala, não tinha embaixador, respondia por ela um ministro, uma mulher insegura e de pouco preparo para se impor ao Itamaraty, a qual permitiu que eu ficasse na sede e solicitou ao seu governo uma decisão sobre o meu caso. Para encurtar a história, pois esse não é o momento de falar da minha estadia na Embaixada, fiquei um ano aguardando o salvo-conduto.
Quando finalmente fui levado ao Uruguai, Nilo já estava lá e não se esqueceu de exigir que lhe pagasse a cerveja.
Antes de narrar o que ele me contou da sua fuga, devo relatar que uma noite apareceu-me o porteiro da embaixada com um fac-símile da silhueta da cara de Nilo, perguntando-me se o conhecia, se tinha estado preso com ele, se ele era mesmo perseguido político. Não tive dúvida que o Velho tinha fugido. Sabia da sua situação de preso comum, mas sabia também que a burrice da ditadura militar, na sua ânsia de condenar a torto e a direito, tinha lhe arranjado um processo por suas notórias ligações com Brizola, como os crimes considerados políticos sobrepunham-se aos crimes comuns, não tive dúvida de testemunhar que a seu favor. Valdemar, o porteiro, disse-me que a rua Artur Bernardes estava apinhada de policiais a espera dele, não acreditava que ele conseguisse penetrar no espaço diplomático. Seria preso antes.
Naquele momento, umas nove da noite, Nilo – contou-me mais tarde – já estava em São Paulo, onde tinha alguns amigos, que lhe conseguiram dinheiro. Sem mais delongas, ele continuou viagem até Curitiba, aonde chegou de madrugada, naquela mesma noite seguiu viagem até Caxias do Sul – onde seu irmão, que era coronel do Exército e servia no SNI – lhe estaria esperando de carro para levá-lo a Porto Alegre. Coisa que sucedeu sem maiores percalços, salvo o encontro com uma patrulha do Exército que parou o ônibus ainda no Paraná, identificado os passageiros, o único que se parecia com a silhueta do fac-símile era Nilo, mas como o sargento estava procurando um foragido que vinha do Rio de Janeiro, a o ônibus em que Nilo estava vinha de Curitiba, depois de alguns instantes de indecisão, quando Nilo protestou com altivez por estar sendo incomodado, ele um passageiro de Curitiba, a viagem prosseguiu sem mais nenhum transtorno. Nilo contou-me que o sargento ainda lhe perguntou: “O senhor vem de onde”. Ao que ele respondeu: De Curitiba, é claro”. Disse-me que, quando o sargento descia do ônibus, o motorista lhe perguntou o que buscava: “Um fugitivo da Fortaleza de Santa Cruz, no Rio, um cara muito perigoso”.
Nilo era muito religioso, tinha estampas de santos em sua cela. Lembro-me de uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida, a qual eu, um incréu contumaz, por brincadeira, costumava zombar de sua fé. Nilo sempre me respondia que sairia da prisão levando a imagem com ele. Quando o reencontrei em Montevidéu, no momento das cervejas, perguntei-lhe pela santa, ao que ele, com aquela sua simpatia insuperável, disse-me que a santa ficara em seu lugar, para que ele pudesse fugir em segurança.
Aquele deve ter sido mesmo um milagre.
Depois da anistia, aproveitando o clima de liberdade, mesmo sem ter sido enquadrado nos benefícios dela, Nilo voltou ao Brasil e foi morar em São Paulo, onde nos encontramos novamente. Sua presença era sabida pelas autoridades, mas tolerada. Fui a vários churrascos em sua casa, ele era hábil nesse mister. Hábil e rápido.
Nilo continuava com Cristina, tinha uma filha, nascida no Uruguai, que já estava moça. Passei muitas tardes agraváveis em sua companhia, desfrutando de sua alegria e do seu bom humor. Ele trabalhava como gerente de uma óptica. E, para não fugir ao insólito que marcava sua vida, contou-me que em uma ocasião em que um das suas cunhadas estava de visita, ao passar pela óptica sucedeu um assalto. Nilo, não só não se assustou, como depois de conversar com o assaltante, usando a linguagem das prisões, o convenceu que ele não poderia roubar uma estrangeira, o que ela não iria falar de nosso país lá fora. E muitas outras loucuras. O certo é que o sujeito, embora relutante, devolveu o que tinha roubado e retirou-se. Claro que aquele São Paulo não é o mesmo de hoje. Naquela época existiam ladrões que se preocupavam com a imagem do Brasil no exterior. Quem diria...


Valença, BA, 21 de janeiro de 2002
© Araken Vaz Galvão
arakenvaz@gmail.com ou arakenvaz@hotmail.com

PS.: Estava escrevendo esta crônica, quando comecei a pensar que Nilo, pela idade – indaguei-me – já deve ter morrido. Com aquele pensamento a torturar-me, tentei por meio de amigos gaúchos saber notícias dele, sem sucesso. Depois me lembrei do Amadeu Felipe, também seu amigo, que vive em seu retiro em Londrina, de quem tenho o telefone, mas que não gosto de incomodar, justamente por respeito ao seu retiro existencial. Mas Nilo merecia, justificava, que eu incomodasse o amigo. Liguei-lhe no domingo, tive o cuidado de fazê-lo depois das 12 horas, sabia do seu costume de acordar tarde.
Amadeu, que é outro que te põe no bolso com sua simpatia irresistível, atendeu-me cheio de júbilo, dizendo-me, inclusive, que aquele domingo fora uma exceção, uma parente com filhos pequenos passara alguns dias em sua casa, quebrando-lhe a rotina. Acabava de chegar da rodoviária, aonde tinha ido acompanhar os visitantes.
Sobre Nilo ele sabia que estava morto, um câncer o matara, ao que parece uma morte sofrida. No fim da vida, ao sentir a morte, Nilo – como dizem dos velhos elefantes – voltou ao seio da sua antiga família para morrer. Para mim foi uma surpresa. Separara-se de Cristina, sua mulher uruguaia, e alardeada por ele como sua paixão terminal, Amadeu nada sabia, salvo que continuava morando em Porto Alegre.
Surpreendeu-me que Nilo tivesse voltado para morrer – pois Amadeu tinha certeza que ele sabia que ia morrer – em seu ninho antigo. Mas Nilo sempre me surpreendeu mesmo.

Araken Vaz Galvão
www.olobo.net

14.6.07

Lembraças das Prisões e do Exílio

Mauro Santayana e “Os Piores Anos de Nossas Vidas”



Para Mauro Santayana

Conheci o jornalista Mauro Santayana em situação bastante peculiar. Como muitos brasileiros, ele fora obrigado a sair do Brasil, pois atravessávamos os chamados “anos de chumbo”, com a ditadura perseguindo, prendendo e conclamando que deveríamos amar o Brasil (da forma depravada como eles diziam amar) ou deixá-lo simplesmente. Mauro encontrava-se em Buenos Aires por alguns desses motivos ou por todos eles e tinha o objetivo de escrever um livro sobre Perón, que retornara a Argentina e era, mais que nunca – como sempre fora –, o centro de polarização da vida política do país.
Eu, de minha parte, que morava em Montevidéu e atravessara o Rio da Prata de forma clandestina, encontrava-me em Buenos Aires em rápida visita, por fortes razões sentimentais: fora para encontrar-me com minha segunda filha, cuja mãe uruguaia, saída de uma prisão em seu país, lá aguardava para embarcar para Europa, sob a proteção de organizações filantrópicas internacionais e da ONU.
Em tudo isso, porém, havia uma outra coincidência. Semanas antes, o pequeno grupo de brasileiros que ainda permanecia exilado no Uruguai, soube que uma brasileira encontrava-se presa em San José y Yi – forma popular como os uruguaios chamam a chefatura de polícia local. Depois de alguma movimentação nossa essa pessoa foi solta. Soube, então, que se tratava de uma amiga, a qual eu já nem me lembrava mais, que estivera exilada conosco e que abandonara Montevidéu, como muitos outros brasileiros fizeram por falta de perspectivas de sobrevivência ou simplesmente por angústia provocada pela saudade. Chamava-se – o nome pela qual a conheci – Cristina, depois soube que aquele não era seu nome verdadeiro (Marília, talvez), mas isso não vem ao caso. Registremos que ela era mineira, que saíra do Uruguai e voltara incógnita ao Brasil, depois de muitas peripécias, algumas bastante desagradáveis com o que restava da esquerda engajada na luta armada, fora parar em Manaus – segundo sua versão. Ali, conhecera um porto-riquenho, com quem passou a viver, foi com ele para aquela ilha do Caribe, onde se casou legalmente, e foi vivendo a sua nova vida, estudando e cuidado da casa. Julgando-se segura, pois era esposa de um cidadão de um país (ou “país”) intimamente ligado ao império americano, resolveu voltar ao Brasil, para que seu marido conhecesse sua família.
Sua viagem transcorrera sem percalços, mas quando, na volta, ela e o marido passaram pelo Uruguai foram presos. Ele foi logo solto, o poder dos Estados Unidos prevaleceu. Ela – mesmo sendo portadora de passaporte gringo – continuou na prisão, sob a ameaça de ser devolvida ao Brasil. Não sei se por expedientes realizados por seu marido em Porto Rico, se por alguma pressão que nós, os exilados, fizemos ou se por ela não mais interessar à ditadura, terminou sendo também solta, com um pequeno prazo para abandonar o Uruguai.
Antes, durante o período que Cristina esteve exilada em Montevidéu, mantive com ela uma boa relação de amizade. Nesta ocasião, a qual me refiro em linhas anteriores, foi a segunda vez que a vi. A terceira foi em Buenos Aires e foi por seu intermédio que conheci Mauro Santayana, cuja família mineira, ao que me pareceu naquela época (ou a da sua esposa, Vânia), era amiga da família mineira de Cristina.
Minha ida a Buenos Aires, para despedir de minha filha, coincidira com a passagem da Cristina por aquela cidade. Foi o nosso terceiro e último encontro e, como era de se esperar, algumas vezes estivemos juntos, oportunidade em que ela contou-me suas peripécias de vida. Cristina estava hospedada na casa de Mauro. Foi por intermédio dela que o conheci, repito.
Nunca é demasiado repetir que o exílio aproxima as pessoas. No Brasil eu, um modesto sargento, jamais teria condições de conhecer aquele brilhante jornalista. Ali, naquele isolamento, chegamos a travar certa amizade. Mauro era uma pessoa, além de muito culta, de uma gentileza sem fim. Profundo conhecedor da obra de Guimarães Rosa, embebia-me narrando episódios relativos a ela e a vida do seu autor.
Felizmente, naquela época, eu que já freqüentava a universidade, já tinha ganhado, não digo algum verniz, mas digamos assim, algum polimento cultural. Podia ser até um brilho fosco, daqueles que a cera “Parquetina” (quem se lembra dela?) dava à madeira. Em um fim de tarde, sentados à mesa de um bar, se não me engano, no bairro de Palermo, Mauro ao explicitar o seu projeto literário, o livro sobre Perón, falou-me sobre algo o qual eu nunca tinha ouvido falar: pênis pueril. Isso mesmo, pênis pueril. Nunca tinha ouvido e jamais voltei a ouvir tal expressão. Perón tinha o pênis pueril, isto é, o tinha como o de uma criança, infantil. O significado e o alcance dessa expressão também não o soube, tampouco senti coragem de indagar, só ouvia e pensava: “que diabo é isso?” Mauro dizia também que essa constituição anatômica fora fundamental para o desenvolvimento da sua, dele, Perón, relação com Evita e da forte influência dela sobre ele.
Nunca soube se o livro de Mauro foi publicado e se nele foi analisado o caráter pueril do pênis de Perón na história Argentina. Se o foi seu autor jamais poderá retornar a Buenos Aires, os peronistas – que adoram tudo relativo ao líder, inclusive o pênis, imagino – por certo os esfolarão vivo na praça de Maio, não tenho dúvida.
Quando retornei ao Brasil, depois da anistia, morando em São Paulo, encontrei no jornal (“A Folha de...”), uma vez por semana, um texto de Mauro. Digo texto porque às vezes eram crônicas, outras eram contos. Todos da maior qualidade. Saía na forma de uma tira comprida, na primeira página do caderno “Ilustrada”, do lado esquerdo. Colecionei todos e ainda os tenho em alguma pasta do meu contumaz e inseparável arquivo.
Muitas vezes planejei ir até a sede da “Folha de S. Paulo” procurá-lo, mas fui postergando, afinal um relacionamento tão fugaz, como fora o nosso, não me dava o direito de importuná-lo, até que me mudei para o Rio, sem, contudo, deixar de ler a coluna de Mauro.
Naquele tempo a “Folha de S. Paulo” era um jornal de primeira, além de Mauro, colaboravam ainda, Gerardo de Mello Mourão, Osvaldo Peralva, Cláudio Abramo, o polêmico e, até, um pouco antipático, Paulo Francis. Era mesmo um jornal de primeira, o melhor que li, que reunia uma verdadeiramente plêiade dos mais brilhantes jornalistas, por mais redundante que possa soar. Acho que, naquela época, trabalhava lá Boris Casoy, que hoje apresenta o jornal da TV do bispo Edir Macedo, jornalista também brilhante, ainda que seja de um direitismo primário. Bons tempos aqueles...
Passado algum tempo, a coluna de Mauro desapareceu da “Folha”. Mais tarde, em casa de um conhecido, amigo de um grande amigo, encontrei-me com sua esposa, a qual já conhecia de Buenos Aires, que era amiga da pessoa, dono da casa na qual me encontrava. Germano Brum, um artista plástico, morto prematuramente e de forma triste.
Conversei com ela, depois de lhe ter falado de minha estadia em sua casa em Buenos Aires. O nome da esposa de Mauro, se não me trai a memória, era Vânia, os anos tinham passado, mas ela continuava a mesma bela senhora simpática e atenciosa. Pedi-lhe notícias de Mauro. Sem esconder que eles atravessavam por algumas dificuldades conjugais, falou dele com muito afeto e, quando lhe disse que, não só o admirava como tinha uma coleção de suas colunas, que achava melhor que ele se dedicasse exclusivamente à literatura, ela me aconselhou a escrever-lhe, dizendo-me que ele atravessava um período difícil, talvez com indecisão sobre qual rumo intelectual dar a sua vida, etc. Tinha certeza que ele ficaria feliz em receber aquele tipo de incentivo e ficou de me dar o seu endereço. A conversa entre ela e Germano foi se estendendo, não sei se foi eu ou ela quem saiu primeiro, o certo é que o endereço não me foi dado.
Não sei também se antes ou depois desse encontro, li algures que Mauro era adido cultural de uma das nossas embaixadas na Europa, depois perdi completamente suas pegadas. A morte de Germano contribuiu bastante, talvez, para que eu não procurasse o seu endereço. Germano, ao que me pareceu, era muito amigo do casal e, ao julgar pelo que ouvi da conversa dele e Vânia, quando Germano estudou na Europa eles tinham se encontrado na Alemanha ou em outro país, o certo era que as relações de amizade entre eles eram muito estreitas.
Deixei o Rio e voltei para morar na minha terra, a Bahia. O tempo, implacável, continuou passado. Um dia, ao ler um exemplar do novo Pasquim, comprado em uma banca em Salvador, vejo uma página assinada por Mauro Santayana, sob o título de “Almanaque” – sem nenhuma dúvida, uma das melhores do jornal. Esporadicamente, quando ia a Salvador, comprava aquele jornal. Certa feita encontrei um artigo de Mauro, cujo título, “Os Piores Anos de Nossas Vidas”, era um bom retrato da tragédia nacional que tem sido o governo FHC – era uma bem-humorada referência ao filme de John Ford, dos anos 50 – um daqueles filmes que os gringos faziam para ajudar a superar os estragos do pós-guerra, cujo título no Brasil era exatamente “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”.
A originalidade da idéia, a justa contundência da crítica, levou-me – data vênia – transcrevê-lo em um jornalzinho, que publicamos em Valença, “Andada”, o qual é distribuído de graça para a população. Claro que sei da minha obrigação de solicitar autorização do autor para fazê-lo, não o fiz, porém, porque pesaram várias razões. Não haveria, ao transcrevê-lo, retorno financeiro para nós; seriam citados autor e fonte; estaríamos divulgando aqui em nossa cidade, aonde não chega o “Pasquim 21”, o trabalho daquele brilhante jornalista; estávamos, dessa forma, também ajudando a alertar o povo brasileiro sobre a desventura que é ter um presidente como FHC. Por último – que Diabo! – havia entre nós, fruto daquelas conversas em Buenos Aires, algo muito importante: o pênis pueril de Peron. Importante, pelos menos, para a Evita, para a história argentina e para Maria Estela, nessa ordem. Nós longe dele, claro...
Não tive dúvida, publiquei o artigo. E já que o publiquei no nosso jornal de província, vou reproduzi-lo aqui, para encerrar e afogar a saudade que esta crônica despertou de um tempo em que nós, mesmo não sendo completamente felizes, não sentíamos pairar sobre nossas cabeças o perigo neocolonial da ALCA e o da humilhação da Alcântara, entre tantas outras demonstrações de subserviência, as quais nos indicam que, sem alcançarmos a felicidade plena, corremos o risco de deixarmos de ser uma Nação digna deste nome.
Aqui vai, pois, o texto de Mauro Santayana:
“Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. O governo Fernando Henrique já começou a acabar.
“Quando chegar o primeiro dia do novo ano, terão passado os piores oito anos de nossa vida – pelo menos até agora. A nossa geração (pelo menos a minha e a do Ziraldo) viveu o Estado Novo, o governo Dutra, os três anos e meio criativos e turbulentos do governo democrático de Vargas, os cinco fantásticos anos de Juscelino, a molecagem de Jânio, as dificuldades de Jango – e a longa ditadura militar. Depois, a esperança em Tancredo, que a fatalidade frustrou, a travessia difícil de Sarney, a pirotecnia ridícula (e dispendiosa) de Collor, o intervalo sensato de Itamar – e a demolição do Estado com Fernando Henrique. Ainda que nunca tenhamos sido realmente felizes, tínhamos a certeza de que os nossos sacrifícios para a construção do País, a afirmação da nacionalidade e o desenvolvimento cultural de nosso povo. Por tudo isso, não merecíamos a humilhação sofrida nestes oito anos. Perdemos em bens e perdemos em dignidade. Fomos espoliados pelos banqueiros internacionais, mediante os altos juros da dívida, desempregamos aqui, para empregar na Ásia (com a importação de automóveis japoneses, quinquilharias chinesas e plataformas para a exploração de petróleo, como aquela que afundou). Vivemos assustados, com a autoridade do governo confinada aos centros altamente policiados das grandes cidades, enquanto outro poder se ergue, com respeito popular que nos apavora, nos bairros periféricos. Não temos mais estado, e se essa aventura continuasse, em pouco tempo não teríamos mais Nação.
“Em tudo e em tudo, estes últimos anos foram os mais tristes de todo o período republicano. Foram os de crescimento econômico mais medíocre desde Prudente de Moraes, conforme estudo do professor Reginaldo Gonçalves, da UFRJ; foram os de maiores índices de homicídios, de mais desemprego, de maior taxa de suicídios, de mais assaltos à mão armada, de mais seqüestros e de maior consumo de droga de toda a nossa História. E de maior endividamento, sem que dessa dívida feita tenha havido qualquer benefício para o País. Onde estão as rodovias – como as que Juscelino abriu? As centrais hidrelétricas? A indústria de base? Juscelino construiu Brasília: Fernando Henrique não deixa nem mesmo sequer um povoado para marcar os seus dois mandatos. Mas deixa algumas interrogações e outros tantos escândalos, cuja investigação parlamentar foi impedida: os das fraudes bancárias, das privatizações misteriosas, da compra de votos para a emenda da reeleição, dos desvios do DNER, do TRT de São Paulo e de tantos outros, cuja relação exigiria mais espaço do que o de todas as páginas deste semanário.
“Que estes quatro meses que nos faltam passem logo. Como um personagem de Jorge Luís Borges, em El hombre de la esquina rosada, estamos ansiosos para que chegue logo o dia seguinte. Os gregos diziam que qualquer passado era melhor. Do jeito em que estamos, qualquer futuro será melhor.”
Perdoa, Mauro, se usurpei o teu texto... Mas foi por uma boa causa.


Valença, BA, 24 de setembro de 2002


Araken Vaz Galvão

16.5.07

Lembranças das Prisões e do Exílio

Três Vezes Montevidéu (IV)


Montevidéu – cidade que teria uma influência cabal em minha vida – possui, entre todas as cidades hispano-americanas que conheci características muito peculiares. A que mais me atraía era a quantidade de bares, todos muito bem instalados, onde se poderia passar horas sentado a uma mesa lendo um jornal, conversando com um amigo, tenho apenas que tomar um cafezinho. Gostava também dos cinemas – uma das minhas grandes paixões –, sempre com programações de boa qualidade.
Conheci essa cidade em 1964, lá cheguei ao final daquele ano, acompanhado por Jelcy Rodrigues Correa, um subtenente pára-quedista – o mesmo que lera o famoso “Manifesto dos Fuzis”, do qual falarei em outra crônica.
Fomos por insistência do sargento Manuel Raimundo Soares, que estava preocupado com a falta de notícias do sargento Amadeu Felipe que saíra antes do Rio com a missão de estabelecer contato com a cúpula brizolista. Eu, que já conhecia vários estados brasileiros, era a primeira vez que viajava ao exterior. Depois de nos encontrarmos com Amadeu Felipe, que chegou depois de nós, começamos as reuniões políticas com Brizola e seu grupo, cujo objetivo era a resistência ao golpe militar. Naquela oportunidade conheci um brasileiro, um gaúcho, já conhecido do Amadeu, de quem fiquei amigo para sempre e quem nunca mais tive notícias. O seu nome era Nilo da Silveira, uma das pessoas mais originais, extraordinárias, diria mesmo, insólitas que conheci. Mas, sobre ele já falei na crônica anterior. Além de Nilo, posso registrar um sargento da aeronáutica que trabalhava como segurança e motorista de Brizola, cujo nome lembre-me apenas como era tratado: Brandão.
Nossos contatos foram exclusivamente com Brizola, Neiva Moreira, Dagoberto Rodrigues e Paulo Schilling. Conhecíamos todos os três, em particular Dagoberto, que era diretor geral dos Correios e Telégrafos, no governo Jango, e Paulo Schilling, que era Secretário Geral da Frente de Mobilização Popular – FMP.
As reuniões que mantivemos com os quatro deu-se, pelo menos a mais importante, no parque Batlle, todos nós sentados na grama, em um domingo ou feriado de Ano Novo de 1965, se não me engano. Desde o primeiro momento sentimos que Brizola e Neiva não tinham clara a opção pela resistência armada através de guerra de guerrilhas – opção que era de nossa preferência – já Schilling e Dagoberto coincidiam com nossa opinião(1). Como arranjo de conciliação foi estabelecido que faríamos uma (ou mais) tentativa de levante em Porto Alegre e algumas cidades no interior, no qual esperava-se resultar no apoio da Brigada Militar e na ocupação de algumas unidades da guarnição da capital, onde se acreditava ter alguns contatos. Se essas tentativas fracassassem, partiríamos para a guerrilha rural. Mais tarde Amadeu Felipe conseguiu que as duas atividades fossem desenroladas paralelamente.
Esse plano de rebelião, como é sabido, fracassou e, nesse fracasso tive uma boa dose de responsabilidade, pois a mulher com quem vivia – e que se deslocara comigo para Porto Alegre – deu-me um tiro, cuja conseqüência foi a minha prisão quando fui ao Pronto Socorro em demanda de salvar a vida. Por sorte não morri.
Hoje sei que a opção defendida por Brizola e Neiva era totalmente desprovida de possibilidade de êxito, porém não desejo com isso fugir a minha responsabilidade pelo fracasso, pois na minha casa estavam os planos para a invasão e tomada de alguns quartéis.
Colocada a equação nestes termos, realçando que não há demérito algum na posição dos dois líderes populares, posso continuar falando dessa cidade que tanto amo e concluir dizendo que nessa minha primeira e curta viagem, não sucedeu mais nada digno de registro.
Voltei a Montevidéu em 1967, depois de ter passado quase um ano no improvisado presídio daquela ilha do rio Guaíba, do qual já falei. Cheguei para cuidar da saúde e, logo ao chegar, fui submetido a uma cirurgia de apêndice, de emergência, no Sanatório Americano. Recuperado dessa imprevista operação, submeti-me a outra, essa mais séria, uma cirurgia de reparação das seqüelas deixada pelo tiro e pelo tratamento deficiente que recebi na prisão. Em função do tratamento e por outras questões de menor monta, permaneci em Montevidéu por mais ou menos uns sete meses.
Inicialmente fiquei hospedado na casa de Neiva Moreira, passado a convalescença fui transferido para uma república situada no Boulevard Espanha, no bairro de Pocitos, mantida por Brizola, por onde passavam pessoas de extrato mais pobre – normalmente sargentos, marinheiros e eventuais operários do Rio Grande – que chegavam em busca de contatos com o grupo liderado por Brizola. Na época em que estive lá, moravam naquela república – a qual Neiva Moreira batizara com nome de Viet Cong – três marinheiros, Chico, cujo verdadeiro nome soube mais tarde ser Hélio; Joãozinho, cujo nome verdadeiro nunca soube, mas acho que era Severino; e Amarantho Jorge Moreira, que participou da nossa tentativa de guerrilha no Caparaó, e de quem me fiz amigo e, até hoje, conservo a amizade. Os dois primeiros eram nordestinos, Amarantho era carioca. Falarei deles com mais vagar oportunamente.
Nessa ocasião conheci quatro moças uruguaias, já conhecidas dos “viet congs”, as quais chegaram a realizar algumas tarefas para a nossa causa. Elas eram Negrita, Beatriz, Suzana e Rina. As duas últimas estiveram muito envolvidas conosco. Rina, cujo nome verdadeiro – o qual ela odeia – é Gladys Celina, veio a ser a mãe de minha segunda filha, e mora no Rio(2) já há alguns anos e até hoje tanto ela como seu esposo são meus amigos.
Através dessas amigas uruguaias, conheci um estudante peruano, Jorge Llosa e, por seu intermédio, todo um grupo de peruanos, alguns estudantes, outros imigrantes. Nesse grupo de peruanos havia um estudante de medicina, Ortiz, com quem fiz muita amizade. Mais tarde, quando morei em Lima, reencontrei-me com ele, que já era psiquiatra, e com Llosa, ambos casados com uruguaias, e nossa amizade continuou.
Voltei a Montevidéu após o fracasso da tentativa de instalação do foco guerrilheiro no Caparaó depois, obviamente, de quase três anos de prisão, de onde fugi, e mais o ano que fiquei na Embaixada aguardando o salvo-conduto.
Essa volta foi um tanto melancólica, não tinha mais ilusões sobre as possibilidades de vitória da nossa resistência armada à ditadura militar. Nós tínhamos perdido e eles ganhado. Era doloroso o nosso fracasso e mais doloroso ainda saber dos cartazes com os rostos dos nossos companheiros estampados, como nos filmes de faroeste. Era também doloroso ouvir a infame consigna da ditadura: Brasil, ame-o ou deixe-o.
Não há nada pior do que um homem que perde todas as suas ilusões, que vê todos os mais belos e generosos sonhos de sua juventude destruídos e que, por isso, já não se sente mais capaz de sonhar. É nesse momento que se pensa na morte.
Cheguei a Montevidéu com vinte dólares no bolso. Falava mal o espanhol, ou seja, falava como os brasileiros acham que falam bem quando confunde nadie com nada, acham que saco é a bolsa escrotal, que exquisito é esquisito, que uma moça larga é uma refinada puta de má qualidade e outras baboseiras. Não tinha propósitos mais sólidos, salvo um vago desejo de estudar e compreender melhor o meu país. Compreender em particular o motivo da nossa contundente derrota.
Daquele grupo de moças uruguaias que já conhecia, só me reencontrei com Rina, cuja solidariedade foi crucial para a minha sobrevivência em um primeiro momento e a minha adaptação para continuar vivo, não me deixando levar pelo desespero. Reencontrei-me também os dois amigos peruanos e conheci dois uruguaios, Amir Kimal e Eduardo Terra, que tiveram papel importante em minha vida. Kimal e Terra, não pertenciam àquele grupo de amigos, do qual já falei, pois daquele grupo só conheci depois, bem mais tarde, quando Rina, já participante dos Tupamaros, foi presa.
Kimal era dirigente sindical dos bancários, trabalhava no Banco Hipotecário – o qual, diferentemente dos bancos similares brasileiros, cumpre a missão de proporcionar a compra de casas à população – e, mais tarde ingressou nos Tupamaros e chegou a ocupar um alto cargo. Ficamos amigos, freqüentei muitas vezes a sua casa, ocasiões em que discutíamos a situação política da nossa América Latina ou, como dizíamos brincado, consertávamos o mundo. Nessa época, como já disse, não acreditava muito na solução de libertação por via do foco armado, embora o formidável crescimento inicial dos Tupamaros fizesse surgir em meu espírito algumas dúvidas misturadas com esperança. Ele naturalmente discordava de meu pessimismo e nossas análises das tais condições objetivas e subjetivas não tinham fim.
Muitas vezes fiquei em sua casa cuidando das suas duas filhas, procurando ser útil a sua militância, praticando uma espécie de atividade de baby-sister, ou melhor, de baby-brother, se me é permitido criar esse estrangeirismo canhestro, para que ele e a esposa pudessem exercer suas atividades clandestinas. Quando ficou claro que a repressão uruguaia tinha ganhado a parada, Kimal resolveu deixar o país. Ele, que já estava com um relacionando amoroso bastante avançado com Rina, pediu-me através dela que fosse encontrá-lo. Era um encontro muito perigoso para mim, se fosse pego com ele, um alto dirigente Tupamaro, não era difícil adivinhar meu destino. Fui, naquela época o perigo fazia parte do nosso dia-a-dia, conversamos sobre o fracasso da opção. Infelizmente eu tinha razão, disse-me ele. Foi uma despedida bastante emocionada. Ao sair ele me entregou uma quantidade de dinheiro para que eu, em uma emergência, pudesse sair do país. Só voltei a encontrar Kimal uns vinte anos depois, quando fui com minha esposa em viagem sentimental àquele país.
Eduardo Terra era homem ligado ao cinema, criara a Cinemateca do Terceiro Mundo, que funcionava ao lado ou em uma parte do subsolo do Palácio Sálvio, na praça da Independência. Nessa cinemateca assisti um dos filmes que mais me impressionou, “Malpertuis” (Idem), que o diretor belga Harry Kumel realizou em 72. Este filme que seria exibido em São Paulo em um cinema próximo a avenida Paulista, depois que voltei do exílio, por quase um ano, até hoje tenho na conta das obras-primas do cinema... Como classificar... Bem, vou chamar mesmo de psicológico, mas não desejo que confundam com os westerns assim classificados. Chamou-o psicológico, porque toda a sua trama labiríntica se realiza na mente do personagem. “Malpertuis”, o qual assisti 8 vezes seguidas, continua sendo para mim um filme ímpar, seu parente mais próximo é o também muito bom, e também quase desconhecido filme de Robert Altman, “Imagens” (Images), de 72. Um dos meus objetivos cinematográficos antes de morrer é comprar uma cópia desses dois filmes, revê-los e constatar se eles ainda me farão sentir o mesmo impacto, a mesma emoção.
Um dia Terra foi a minha casa pedindo-me que hospedasse uma amiga que estava de passagem pelo Uruguai. Não me deu maiores explicações sobre sua identidade, disse-me apenas que ela era muito conhecida em Montevidéu, que não era seguro ser vista com ele e que o seu nome era Alicia.
Este foi o nome e a forma como conheci Soledade Barret. Sobre ela, só escrevendo uma página especial.
Valença, BA, 22 de janeiro de 2002
Araken Vaz Galvão
(1) Desses quatro, Dagoberto faleceu, já faz muito tempo; Brizola, recentemente; Paulo está muito doente, já não sai de casa, em São Paulo, onde mora; e Neiva Moreira, também está bastante velho, mas goza de boa saúde, se considerarmos a sua idade.
(2) Rina, já não se encontra entre nós. Uma grande pessoa, ingênua e solidária. As outras três nunca mais soube notícias. Devem morar em Montevidéu.

9.4.07

Lembraças das Prisões e do Exílio

Montevidéu III



Vou tentar, procurando cometer poucas injustiças, falar com mais detalhes de cada um dos amigos uruguaios, alguns já citados em linhas gerais na crônica anterior.
Começo com uma amiga, Mari Irazabal. O seu nome, o qual ela detestava, era Maria Felícia. Tenho certeza que, se ela algum dia ler esta crônica vai me odiar por revelá-lo. Meu perdão antecipado. Aliás, a única coisa que deveria escrever, ao falar dela, seria perdão, pois se amor faz sofrer, nenhuma mulher sofreu mais do que ela e eu fui o causador desse sofrimento. Fiz as maiores (e vou usar o termo correto) sacanagens com Mari, as maiores canalhices, todas relacionadas com infidelidade. Ela sempre me perdoou e nunca deixou de me ser fiel e solidária até o fanatismo. Hoje, passados tantos anos, constato que a única coisa que posso fazer para, se não minorar, pelo menos não se cínico, é reconhecer que dela só recebi generosidade, carinho, compreensão, ternura – solidariedade, já falei, mas é bom repetir – e amor, muito amor. Em especial, amor carnal, particular no qual ela, embora fosse virgem quando me conheceu, tornou-se – vou usar uma palavra mui grada aos uruguaios – divina. Quando estive em Montevidéu, pela última vez, na década de 90, não consegui encontrá-la, necessitava dizer-lhe o que agora escrevo.
Antes de falar dos dois amigos do meu grupo, Marucha e Juan Manuel, que acabaram casados, para os quais fui uma espécie de Cupido, continuo citando mais três namoradas – as outras que me perdoem a não citação – como espero que os dois amigos também me perdoem, afinal – eles haverão de compreender – as damas primeiro, em especial as damas que foram minhas um dia, ou melhor, as damas a quem pertenci um dia..
E, dessa forma, destaco três amigas, as quais foram também minhas namoradas. Isa, Perla e Suzana. Interessante, não me lembro como conheci Perla... Isa – cujo nome era Isabel – foi Marucha quem nos apresentou. Susana era minha colega de faculdade. Por todas elas – embora as tivesse conhecido em momentos muito difíceis de minha vida – senti uma atração muito forte, dessas atrações que poderiam desembocar em um grande amor. Não falo paixão pela carga de sofrimento que pode estar embutida nesta palavra.
Isa era doce e suave, era como uma avezinha (em espanhol teria de dizer bichito) que necessitava proteção e ternura. Perla era prática e decidida, com uma boa dose de bom humor. Suzana era melancólica e enigmática, ainda que disfarçasse muito bem essa melancolia com um aparente ar de alegria. Tive a primazia de ter sido o primeiro homem em suas vidas. Não há nisso nenhuma intenção de contar vantagem, apenas o desejo de externar a alegria pelo destino ter me concedido esse privilégio. Ademais, não creio que tenha me saído muito bem com todas elas. Com Suzana, seguramente não. Estava por demais angustiado pela decifrar o seu enigma e poder dar-lhe toda a ternura que o seu coração melancólico necessitava. Sobre ela, posso dizer ainda que era uma moça muito inteligente e uma boa fotógrafa amadora. Quanto a Isa, embora suas necessidades fossem de outra ordem, acho que, pelo menos, algo de experiência lhe deixei, além de alguns momentos de ternura. Com Perla nunca estive muito seguro se lhe correspondi às expectativas, ela brincava muito e, dessa forma conseguia disfarçar bem as emoções que lhe iam na alma. Por isso, até hoje não sei se consegui ser-lhe, pelo menos, bom amante. Quiçá, sim. Quando estive em Montevidéu não consegui vê-la. Aliás, não consegui ver nenhuma das três, embora tivesse notícias de todas elas. Reafirmo, ainda que não deseje com isso justificar-me, que aquele foi um período em que estava muito angustiado para poder amar.
O Uruguai, naquela época vivia um dos momentos mais dramáticos de sua História Século XX, uma parte da sua juventude mais valorosa estava presa ou clandestina. Uma parcela expressiva de sua população tinha imigrado. Como nessas crises os primeiros a partir são os homens, em particular os jovens, as mulheres tinham muita dificuldade de conseguir parceiros. Há que registrar também que se os rapazes uruguaios eram tímidos e muito manipulados pelas mães, já as mulheres – mais que as brasileiras – em matéria de sexo, eram decididas, práticas e independentes, capazes de tomarem a iniciativa em uma relação, como nunca vi nenhuma das nossas moças tomarem.
Eu, como já revelei em outra crônica, sobrevivia, nessa época, vendendo jornais e revistas em uma das esquinas de 18 de Julio, a de Vasquez, onde muitas de minhas amigas passavam para me ver e conversar. Um dia, com aquele seu jeitinho suave, apareceu-me Marucha e falou-me francamente que tinha uma amiga, na casa dos vinte e cinco anos, que ainda era virgem. Essa sua amiga, que era... e aí me falou das qualidades dela e da sua beleza, ainda que fosse um pouco estrábica, estava já com um certo complexo pois nenhum homem tinha lhe ajudado a desvencilhar-se daquele empecilho. Dessa forma curiosa e inusitada, para um brasileiro de minha época, conheci Isa.
Com Perla – que estudava na Escola de Enfermagem, na Cuidad Vieja, próximo a Faculdade de Humanidades e Ciências – sucedeu também algo muito curioso, ainda que de outro tipo. A conheci, não me lembro como – isso já falei – e logo nos nossos primeiros encontros surgiu a oportunidade de irmos para cama. Ela, muito prática, avisou-me que teria que ser durante o seu almoço. Pelo horário, não dava tempo de irmos até minha casa, na calle Acevedo Díaz y Rivera, então pedi a Zélia Malusa – que morava na calle Sarandi, próximo da Escola de Perla – seu apartamento emprestado. Combinamos que ela iria a um bar e, depois, a um cinema, por medida de segurança. Vá lá – imaginava eu – que a moça resolva matar a aula e passar toda a tarde comigo.
Cheguei com Perla. Maluza saiu logo. Quando estávamos já em pleno aquecimento – tempo é curto, alertava-me Perla – Maluza entrou porta adentro, dizendo: Não parem, esqueci dos documentos (aquela época ninguém podia sair à rua sem documentos, corria-se o risco de ser levado preso para averiguações, mormente um estrangeiro) não vou olhar, não parem.
Anticlímax total. Reinício das tarefas preliminares, quando tento a penetração, dou com o famoso obstáculo. Paro e olho minha companheira, a qual eu julgava experiente no mister, e ela, com um sorriso maroto (palavra espanhola seria burlón), ao qual nunca vou esquecer, disse-me: Por eso tu no esperabas... Esse era o espírito de Perla.
Agora falo dos dois amigos, Marucha e Juan Manuel. Não me lembro como conheci Marucha, tampouco lembro como é seu nome verdadeiro. Sei que ela era uma dessas amigas com quem eu sempre contava. Estava sempre por perto com sua solidariedade, muitas vezes muda. Estava sempre disposta a ouvir-me, em meus momentos de maior angústia. Acho que ela me via como um irmão mais velho, de cuja experiência podia usufruir e, por isso, por ser uma pessoa cheia de ternura, dar-me o carinho que só se recebe de uma irmã amiga. Um dia, ela chegou ao meu quiosque pela tarde e foi logo me dizendo que Juan Manuel havia se declarado, mas ela ainda não lhe tinha respondido nada. Qual era minha opinião. Exultei, gostava muito dele, e externei minha felicidade com aquela aproximação entre os dois amigos. Ela ficou séria e me disse: “É... vou aceitar, só tem um problema. Nunca mais vou poder usar sapatos de salto alto”. Juan Manuel era baixinho, da mesma altura que ela.
Quando estive em Montevidéu, da última vez, jantamos juntos, ela, Juan Manuel, minha mulher e eu. Marucha lembrou-se do episódio, ao qual eu já quase não me recordava. Conversamos muito e lembramos dos velhos tempos, mas não lhe disse do carinho que lhe decido – que lhes dedico – de como a sua amizade foi essencial em minha vida, em um momento difícil, mas também muito importante.
Juan Manuel, se não me equivoco, conheci acidentalmente na Cinemateca, não sei por que ele se aproximou de mim. Logo ficamos amigos, formávamos um grupo que se reunia em minha casa – eu era o único que morava sozinho – para conversar. Eram conversas sobre política latino-americana, sobre cinema e literatura. Muitas vezes, saíamos do cinema e íamos para lá tomar vinho e discutir o filme. Acho que algumas vezes fui rude com ele – nunca lhe pedi desculpas, nem sei se é oportuno fazer agora – talvez porque ele tivesse um espírito muito independente e aquele – assim eu considerava erroneamente, talvez – fosse o meu grupo, no seio do qual eu, de certa forma, imperava. Algo, porém, me fazia respeitá-lo, além de estimá-lo. Juan Manuel era um jovem muito sério e estudioso. Determinado e objetivo. Talvez construir uma sólida família fosse o seu principal objetivo, ainda que não se possa dizer que fosse indiferente aos problemas de sua (nossa?) época. Bem ao contrário.
Elena, uma ternura chamada Elenita, minha colega de Humanidades. Fazia parte do grupo. Era, além de um doce de pessoa, como Marucha, também de uma solidariedade e generosidade a toda prova para comigo. Sempre me fazia uma inesperada gentileza, coisas simples como, por exemplo, um desenho feito em uma servilleta, com características propositadamente infantis, a qual ela me dava de presente quando passava no meu quiosque para me ver e conversar um pouco. Ainda tenho um desses desenhos, encontrei-o por acaso, em um dos poucos livros que se salvaram da minha estadia em Montevidéu. Fiquei profundamente enternecido ao encontrá-lo, porque depois do Uruguai andei por vários países e quis a casualidade que ele não se perdesse. Vendo-o, pensei se eu teria sobrevivido ao exílio se não fossem amigas e amigos como aqueles que tive no do Uruguai...
Desses amigos, tem a outra Susana, a de Belas Artes. Mas não estou muito seguro se ela fazia parte desse grupo ou de outro. Lembro que Puchito e Enrique eram muito seus amigos. Com ela, porém, não cheguei a estabelecer uma amizade muito forte, ainda que sempre me lembre dela com carinho e saudade. Há ainda um jovem, cujo nome, se não me engano, era Miguel, que teve uma passagem efêmera pelo grupo. Uma ocasião ele nos convidou para irmos a uma casa de campo, uma chácara, de seus pais. Não consegui estabelecer uma boa relação com ele, além do choque de personalidades, havia a diferença de idade. Não sei se já disse que eu era o mais velho do grupo. Acho também que ele era o que chamamos aqui de filhinho da mãe. Também não posso esquecer, em seu favor, do meu gênio forte e mandão. Estela, também de Belas Artes, de quem também fui novio, foi uma das minhas grandes amigas, embora não tenha muita certeza se lhe correspondi a altura tudo que dela recebi com ser humano. Mais que uma irmã, muitas vezes foi como uma mãe para mim. Como Marucha e Elena, Estela ajudou-me muito quando da única visita que recebi no exílio de minha mãe e foi fundamental para que os problemas com minha filha mais velha não destruíssem o pouco de equilíbrio emocional que ainda me restava. De vida muito sofrida, desde a infância até quando a conheci, Estela esteve um longo período em uma das prisões da ditadura do seu país. Ela era apaixonada por dança, mas tornou-se artista plástica, hoje muito conhecida e reconhecida. Tenho dois quadros seus. Presente de quando a visitei em minha rápida estadia no Uruguai, quando estivemos juntos em vários momentos, ocasião em que conheci seu esposo e sua filhinha.
Enrique era tão tímido, taciturno e tristonho, que quase não tenho o que falar sobre ele. Nada sei ou me recordo do seu passado, de sua família, nada. Além de Belas Artes e uma certa simpatia etérea pelo anarquismo – do qual havia na Escola alguns expoentes máximos – só sei que Enrique gostava muito de cinema, fazia parte do grupo e todos nós o queríamos muito, não só pela sua sutil delicadeza, mas por suas qualidades silenciosas. Era inseparável do extrovertido Puchito, com o qual formava uma dupla de opostos.
Pucho, Puchito... Que figura interessante. Foi na Escola de Belas Artes que o conheci, não me lembro em que circunstância. Porém, era comum que as pessoas se aproximassem de mim quando descobriam a minha condição de refugiado político. Já disse que ele era carteiro, já expliquei o significado do seu apelido, já disse que morou comigo, ajudando-me a pagar o aluguel, quando passei por uma situação econômica mais difícil. Antes ele morava com uns tios, na Cuidad Vieja – antigo centro da cidade, parte da cidadela dos tempos coloniais, cujas muralhas já não existem, salvo uma porta, hoje monumento. Quando ele veio morar comigo já éramos amigos. Como quase todos os membros do grupo, era afeiçoado a cinema e participava ativamente dos debates sobre filmes que fazíamos no meu apartamento. Jovem, na casa dos vinte anos, completamente imberbe, com cara de criança, aparentava um adolescente. Costumava chamar-me de ciudadano (cidadão) e gostava muito de gatos. Quando veio morar comigo, trouxe uma gata que não se adaptou comigo, coisa que eu, aliás, muito contribui, atitude que até hoje não me perdôo, pois lhe fiz algumas crueldades a pobre gata, coisa que, já não digo ela, mas Pucho não merecia. De qualquer forma, a ele e a gata, minhas tardias desculpas.
Lembro-me que um dia, com uma gravidade inusitada, Pucho me falou de uma decisão que não estava completamente amadurecida em seu interior, mas que ele estava prestes a tomar. Necessitava dar um rumo a sua vida, já tinha eliminado todas as probabilidades, só restava duas, e ele não se decidia por quais delas optar. Desejava muito ouvir a minha opinião. Perguntei-lhe quais eras as duas possíveis opções. Ouvi uma resposta inusitada: Não sei se entro para os Tupamaros ou se passo a usar drogas.
Nunca tive o susto tão grande em toda a minha vida. Jamais ouvira nada mais insólito. Não tinha nenhuma dúvida de que ele estava falando com muita seriedade. Lembrei-me de uma brincadeira que existia no Brasil – creio que há em outros países também – a qual consiste na dúvida: “não sei se me caso ou se compro uma bicicleta”. Pucho estava vivendo o dilema crucial de sua vida. Com todo o tato, com todo o respeito, descartando de in limine a opção das drogas – coisa que sempre abominei – falei-lhe do que me parecia os prós e os contras que havia na primeira opção. Ao que deduzir mais tarde, Pucho ingressou em um GAT – Grupo de Apoio aos Tuparamos. Mas, não passou muito saí do Uruguai e não soube em que deu sua militância revolucionária. Não tenho dúvida que ele, o que fez, o fez com muito desprendimento, com muita dedicação e, possivelmente, com uma boa dose de loucura.
Mais tarde soube que ele – forçado pela repressão – fugiu para a França. A última notícia que tive dele era que vivia em uma espécie de comunidade neo-hippie, como garanhão absoluto de quatro mulheres. Desejei ardentemente que ele – como é usual nesse tipo de comunidade – não tivesse se decidido tardiamente por aquela antiga segunda poção.
Ao saber da notícia das quatro mulheres, lembrei-me que, em determinado momento, cheguei a reunir em torno de mim, ainda que com um equilíbrio um tanto precário, seis “namoradas”. Um dia fizera até um jantar de confraternização em minha casa com elas. Ao lembrar-me disso, não posso negar que, em relação ao número de mulheres vivendo com ele em harmonia, senti uma ponta de orgulho, pois desconfiava em quem ele se inspirara.
O último grande amigo dessa minha fase em Montevidéu foi Mário Delgado. Mario não fazia parte do grupo. Aluno mais adiantado de Humanidades – também da licenciatura de História –, onde nos conhecemos. Descobrimos que éramos vizinhos, ficamos muito amigos por uma série de interesses intelectuais comuns e, em um dos seus aniversários, dei-lhe de presente uns livros de Eric Hobsbawn, sobre a Revolução Industrial – tema que eu tinha feito uma pequena monografia. Mário, que já estava terminado a licenciatura, escreveu a Hobsbawn, falando de sua condição e demonstrando o desejo de fazer uma pós-graduação com o célebre mestre. Na ocasião brinquei falando da utilidade que Hobsbawn daria a sua carta. Passados uns poucos dias, Mário bate a minha porta ofegante, chegara a resposta, Hobsbawn lhe oferecia uma bolsa de estudos (beca, em espanhol) para a afamada universidade de Oxford. Peguei de uma garrafa de vinho para comemorarmos. Enquanto bebíamos Mário disse-me que tinha poucos meses para viajar, só começaria a receber a bolsa depois de se apresentar na Inglaterra, e... ele não tinha um tostão para viagem. O mais grave é que não havia a menor possibilidade de consegui-lo em tão curto espaço de tempo.
Casualidade é o termo. Dois ou três dias depois, volta a minha casa o Mário ainda mais agitado. Brasileiro – gostava de me chamar assim – tu não imaginas o que sucedeu. O pai de Dinora – sua noiva – ganhou o grande prêmio da loteria. Vai nos conseguir o dinheiro. Sete mil libras! Vamos nos casar e viajamos logo. Mas eu saí de Montevidéu primeiro e não soube como os fatos transcorreram e não assisti seu casamento.
Não sei se antes desse fato, em função da comemoração dele, os seus sogros foram para a casa de praia, e Mário resolveu fazer um asado (churrasco). Além dele e de Dinora, havia duas amigas dela e eu. A casa, uma boa casa no bairro de Malvin, tinha um bem abastecido bar. Chamou-se a atenção que houvesse uma coleção imensa de miniaturas de whisky – três mil, disse-me Mário. Mas estão quase todas cheias de chá. Eu bebo-as escondido e recoloco nas prateleiras, meu sogro nunca desconfiou. Se não me engano, nesse dia tomamos mais umas garrafinhas.
Por algum tempo, por amigos comuns, recebi esparsas notícias de Mário, soube que o casal morava na França e que já tinha filhos. Quinze anos mais tarde, voltei a Montevidéu. Por coincidência Mário estava de visita aos seus familiares. Por coincidência o localizei no último momento, ele voltava à França no dia seguinte, fomos com minha mulher naquela noite na mesma casa em Malvin. Era também um churrasco, comecei a perguntar a Mário se a estripulia das miniaturas já tinha sido revelada. Não conclui a frase. Dinora me interrompeu. Até aquele momento ninguém sabia da travessura. Seu pai, o sogro de Mário, que já com a idade muito avançada, estava doente, tinha tido um derrame. E eu quase que complico a situação revelando a travessura do genro.
Passamos parte da noite juntos relembrando velhos tempos. Marcamos tomar o café da manhã, no dia seguinte, o de sua partida, em um dos bares de Montevidéu que freqüentáramos no passado. Escolhemos um em 18 Julio y Yi, Mário – como sempre sucedia – chegou muito atrasado. Quase não pudemos conversar. Dessa ocasião ficou-me dele o pedido que eu lhe enviasse o livro de Edgar Morel, “A Revolta da Chibata”, cujo exemplar que eu lhe dera – e que já não me lembrava de ter lhe dado – se perdera. Ele lembrou-me também que, quando sai de Montevidéu, a última pessoa de quem me despedi fora dele. Lembrava-me o pormenor da Kombi de um amigo brasileiro – o jornalista mineiro Carlos Olavo, também exilado – que me levava, e que, quando o veículo ia dobrar da calle Chaná para o Boullevard Artigas, eu pusera a cabeça pela janela e lhe acenei adeus...
Não me lembrava desse detalhe...



Valença, BA, 18 de janeiro de 2002


© Araken Vaz Galvão

5.3.07

Lembranças das Prisões e do Exílio

Montevidéu II
O que primeiro me impressionou em Montevidéu foram os parques. Acostumados com as cidades brasileiras onde imperava a mentalidade imobiliária de não se desperdiçar espaço com belas praças e, muito menos, com parques, assustei-me quando vi a profusão de parques que há naquela cidade de mais ou menos um milhão e meio de habitantes.
Antes de falar deles, uma pequena digressão sobres as cidades brasileiras, as que conheci ou vivi. Na mesma época a que me refiro, Porto Alegre possuía apenas o parque Farroupilha, o Rio de Janeiro, se excluíssemos a Quinta da Boa Vista e os morros ainda cobertos de vegetação, só possuía o aterro do Flamengo, construído de um pedaço roubado da baía da Guanabara durante o governo Lacerda. São Paulo – sempre sem nos esquecermos da época –, uma das maiores cidade do mundo, se excluíssemos os minúsculos Trianon, Aclimação, Ipiranga, Morumbi, ficaríamos apenas com o Ibirapuera, inaugurado por ocasião do 4º Centenário. Só bem recentemente é que São Paulo criou outros grandes espaços verdes dignos de serem chamados de parque. Montevidéu – não esqueçamos que possuía apenas um milhão e meio de habitantes – além das praças tinha grandes parques, dois deles praticamente no centro da cidade, o Rodó e o Batlle y Ordoñez, havia El Prado, dentro da cidade, ainda que um pouco afastado, e o Roosevelt, em um dos extremos, logo depois do bairro de Carrasco. Todos muito bem cuidados, onde as pessoas se reúnem aos fins de semana de tempo bom para tomar sol, namorar e passear com as crianças. Não esqueci da extremidade de Punta Carretas, no bairro do mesmo nome, porém esta era apenas aquilo que chamamos de “área verde”.
Em dois desses parques, o Batlle y Ordoñez e El Prado, estão os dois monumentos símbolos de Montevidéu: La Carreta e La Diligencia. Esculturas em tamanho natural de dois modos de transporte que imperou no país quando de sua formação. Não se trata aqui de se falar da qualidade das duas esculturas, aliás, falarei de outros monumentos, alguns deles reproduções de obras famosas – mas de seu papel decorativo das paisagens artificialmente criadas. Para citar somente alguns dos mais conhecidos, há o Obelisco na interseção do Boulevard Artigas e av. 18 de Julio, há o monumento al Gaúcho, a reprodução de Davi, de Michelangelo, frente ao prédio da prefeitura (Municipalidad), há el Entrevero, na praça entre a calle Río Negro e av. Agraciada. Um estranho condor de bronze, na extremidade de Punta Carretas. Por último, para não me alongar muito, há o irônico, além de trágico, monumento a los últimos Charruas – aos quatro sobreviventes de uma tribo de indomáveis guerreiros – extintos no final do século XIX – que dominava a margem oriental do rio da Prata, inclusive parte do território do Rio Grande do Sul.
Os cinemas. Neste campo, Montevidéu se orgulhava de dois pontos: Possuía a melhor e mais completa Cinemateca latino-americana e fora a primeira cidade do continente a exibir comercialmente autores de filmes de arte como Bergman, por exemplo. Nos cinemas uruguaios assisti filmes de diretores dos quais jamais ouvira falar no Brasil, como foi o caso de diretor indiano Satyajit Ray – cuja trilogia (em um total de quase nove horas) sobre uma família de Bengala ocidental é considerada uma das obras-primas do cinema mundial. Outra trilogia, com o mesmo tempo de duração, que assisti em circuito comercial, foi “Guerra e Humanidade”, de Masaki Kobayashi. Outros filmes importantes, Malpertuis, de Harry Kumel; “Andrei Rublev” e “Solaris”, de Tarkovskij; “Os Emigrantes” e “A Esposa Comprada”, de Jan Troell; “Elvira Madigan”, de Bo Wideberg. Assisti, na Cinemateca toda a obra de Griffith, Bergman, Buñuel; assisti filmes de diretores como Dreyer ,“Joana D’ Arc”; Robert Wiene, Gabinete do Dr. Caligari; Jacques Feyder, “A Quermesse Heróica” ; René Clair, “O Chapéu de Palha da Itália”, para citar apenas umas poucas raridades.
O clima. Outra coisa que me chamou a atenção, ou melhor, me assustou, foi o clima. As estações bem delimitadas. Um outono radiante, primoroso, bom de se viver; uma primavera com muito vento; um verão relativamente quente, relativo se compararmos com o do Rio de Janeiro; um inverno dominado por um vento que parecia trazer pequenas agulhas que se nos cravavam na face, única parte do corpo que ficava à mostra. Mas não pensem que todo o rosto era exposto àquele vento, todas as pessoas usavam uns longos cachecóis – lá chamada de bufandas – que deixavam a mostra apenas uma faixa entre o nariz e os olhos, já que até a testa era protegida por gorros de lã ou por chapéus. Às vezes a cidade sofria com os vendavais, assisti um, na década de 70, com ventos de mais de 100 km por hora, que arrancou muitas árvores de eucalipto nos parques.
Outro fato que sempre me causou espécie, eu que nasci no campo, era a ausência quase total de árvores. Praticamente só havia de três espécies, os eucaliptos, os pínus e os plátanos, estes últimos reinavam na arborização das ruas, enquanto os eucaliptos imperavam nos parques. Aliás, sobre as árvores do Uruguai, ao que parece lá não existia as de grande porte, predominava, como espécies nativas, as arbustivas de porte médio e pequeno. O umbu (não confundir com o nosso imbuzeiro da caatinga), ao que perece, um grande arbusto, é, talvez, a sua árvore de maior porte. Contudo essas não são afirmativas com base em estudo, apenas observações passageiras de leigo, nada mais.
É tamanha a ausência de árvores no Uruguai, que nada é perdido. Quando cai uma árvore ela é aproveitada até os mais insignificantes gravetos. Muito daquilo que jogávamos no lixo aqui, lá é utilizado. Como o asado – churrasco – é um prato nacional, talvez o único, se uma pessoa vê um pedaço de madeira atirado na rua, pára o carro e o recolhe. Ele servirá para fazer brasa para o churrasco de domingo. Vi muitas vezes essa cena nas ruas, até mesmo em bairros de classe média alta.
Um outro episódio digno de se registrar, relacionado com árvores, foi o esforço gigantesco que o Estado fez para arborizar toda a costa do país, desde Montevidéu até a divisa com o Brasil, no Chuí. Quem quiser aquilatar o esforço que isso significou – creio que foi realizado na década de 20 – que olhe no mapa. Essa tarefa hercúlea foi empreendida – dizem – para que o vento não transformasse os campos sem fim do território do país – a campaña – em um deserto, já que a areia que ele trazia das praias cobriria fatalmente as gramíneas de que eram formados os campos.
O povo. Não vou resumir a história uruguaia. Direi apenas que a população se mantém estacionada em 3 milhões de habitantes faz já algumas décadas. Metade dessa população mora na capital, as cidades do interior devem abrigar 90 % da outra metade, se não toda ela, já que os campos uruguaios são quase que totalmente desabitados. Prevalecem os latifúndios, onde predomina a criação de bovinos e ovinos. Dos campos uruguaios, poder-se-ia dizer – parafraseando Morus – que lá também as ovelhas, e os bois, comeram os homens.
Como minha experiência prendeu-se mais a Montevidéu, a impressão que tive era que aquele era um país de classe média, pois até os poucos operários que conheci viviam, no mínimo, iguais aos que chamamos hoje e aqui de classe média média. Aliás, viviam melhor, tinham melhor assistência médica, moravam melhor, comiam melhor – o Uruguai desfrutava de um consumo de proteína animal dos mais altos do mundo. A juventude tinha acesso generalizado à escola e esta era de boa qualidade.
E, por falar em escola, uma palavra sobre a Universidade, da qual freqüentei duas faculdades – a de Humanidad y Ciências e la Escuela Nacional de Bellas Artes. Devo, pelos menos, registrar o nome de alguns professores, não só pelo seu saber científico, como também por suas qualidades humanas. Começo com o professor Real de Azua, cuja avaliação oficiosa permitiu-me prestar um exame especial e ingressar em Humanidades. Juan Odone, titular da cátedra de História Americana II, de quem me fiz amigo e quem até hoje admiro. O professor Arturo Ardao, de Filosofia da História, culto e sóbrio, cuja filha, Alicia Ardao foi minha colega e amiga. Lucía Sala, História Americana I, cujas aulas do período colonial de “nossa América” me fez conhecer países como Haiti, a presença francesa na América do Norte – ou melhor, se me permitem – a incompetência da colonização francesa em nosso continente. Poderia citar ainda os professores Betancourt, Zuvillaga. O professor de História da Arte – um arquiteto cujo nome esqueci – sempre minucioso em suas aulas, a ele devo muitas informações sobre o Renascimento, em particular os detalhes sobre a igreja de Florença de Santa Maria de Fiori. Se algum dia for à Itália, mesmo sendo ateu farei algum tipo de prece para ele. A todos esses professores, até aos não citados por falha da memória, quero prestar o meu preito de eterno agradecido.
Antes de falar dos colegas, devo nominar um dos mitos daquela faculdade, o professor Pettit Muñoz, de quem não participei das aulas, mas que era uma lenda do ensino de História Uruguaia, ademais de ser lendário seu arquivo da história cotidiana uruguaia, extraído de jornais, fichado em servilleta, ou seja, em guardanapos, desses que ficam de pé em umas caixas metálicas, sobre as mesas dos bares e cafés. Por onde andarão as famosas servilletas do professor Pettit Muñoz?
Dos colegas, falarei apenas daqueles que ficaram meus amigos. De Belas Artes, Estela, Enrique, Susana e Puchito. Este, que era carteiro, morou em uma casa que eu tinha alugado, era tão conhecido pelo apelido – que significa guimba, no caso dele era o toco do cigarro que estava sempre preso aos seus lábios e, quase sempre, apagado – de tal forma, que infelizmente esqueci o seu verdadeiro nome. Dos colegas de Humanidades devo citar Helena, as irmãs Olaondo, Martha e Susana (esta foi mi novia), além de Alicia, de quem já falei, e Mário Delgado, que era também meu vizinho e quem devo falar a parte, Mari Irazabal, que foi durante muito tempo minha companheira, ademais de ser muito minha amiga, pois só sendo muito amiga poderia ter me aturado. Em particular ter suportado todas as minhas inúmeras infidelidades. Tinha ainda Zélia Maluza, porém essa era brasileira e também exilada, como eu.
Fora do grupo de colegas de faculdade, tinham os amigos ligados ou não ao curso que fiz na Cinemateca Uruguaia, ainda que alguns dos companheiros de Belas Artes fossem também colegas desse curso de cinema. Nesse grupo destaco Marucha, Juan Manuel, Daniel da Silveira – que se casou mais tarde com Zélia Maluza – Isa, uma bela jovem de lindos olhos, que também foi mi novia; Perla, cujo nome era Alejandra, uma belíssima mulata, coisa rara no Uruguai, que foi outra de mis novias. Aliás, estou comentando uma grande injustiça ao falar de minhas namoradas – em Montevidéu, chamadas de novias, com esse v sendo pronunciado como B – já que não cito todas porque, sem nenhum exagero, encheria muitas folhas de papel e ainda corria o risco de esquecer algumas.
Sobre esses amigos – os nomes de alguns infelizmente esqueci – só poderia escrever uma palavra: saudade. Muita saudade, mas como esta palavra não existe em espanhol. E como temo errar ao escrever que los extraño mucho, que temo ainda mais escrever essa frase de som tão feio: como los echo de menos, amigos. Por isso, vou falar de gratidão, de ternura, de nostalgia, de lágrimas, de amor, de fraternidade, de carinho, de afeto, de generosidade. Mas como nenhuma dessas palavras, ou todas juntas, não exprimem tudo que gostaria de dizer-lhe, escrevo apenas:
Muito obrigado.
Mejor dicho, gracias amigos, por los mejores años de mí perdida juventud...

Valença, BA, 17 de Enero de 2002
© Araken Vaz Galvão

17.2.07

Lembranças das Prisões e do Exílio

Montevidéu I




Jovem suburbano de baixa escolaridade e de poder aquisitivo ainda mais baixo – como se diz hoje – desprovido de informações, esse material volátil que acreditamos ser a estrutura do conhecimento, a qual chamamos de cultura geral, nunca tinha assistido a um concerto, estivera em um teatro uma única vez. Ou melhor, nunca estivera em um(1), apenas assistira uma obra teatral – As Mãos de Eurídice, de Pedro Bloch, monólogo com o ator Rodolfo Mayer – em um cinema no subúrbio de Bento Ribeiro. Para não dizer que era completamente carente de um certo verniz, gostava de ler romances – iniciei com Érico Veríssimo, Jorge Amado e José Lins do Rego, como já disse, em outra crônica –, e de ir muito ao cinema. Assistia de tudo, faroestes, dramas sentimentais, de aventuras ou musicais; filmes nacionais, desde as chanchadas da Atlântida até as pretensiosas obras da Vera Cruz e da Maristela. Era um vício atroz, passava de segunda à sexta, mais de seis horas nos cinemas, assistindo em média quatro filmes por dia. Aos domingos, quase sempre, ia novamente ao cinema. Minha adolescência gastei-a ou mal-gastei-a envolto pela penumbra hipnótica do écran – palavra francesa que já não se usa.
Aos 20 anos, em 1956, era sargento do Exército, servindo no Rio de Janeiro. Cinco anos depois já era um dos líderes de um processo político que se convencionou chamar de Movimento dos Sargentos. Mesmo exercendo intensa atividade entre os sargentos, estudava à noite, sonhando ser advogado. Em 1964, com a instalação de ditadura militar, fui expulso do Exército como subversivo e passei definitivamente à clandestinidade. Alguns anos mais tarde, depois de um ano na prisão, quase um ano no Uruguai em tratamento de saúde, mais alguns meses clandestino no Brasil, quase um ano no Caparaó, outra vez na prisão, por mais de dois anos, quase três – uma fuga por meio – retornei definitivamente exilado ao Uruguai.
Nesta crônica, desejo falar do impacto emocional e cultural que senti ao chegar pela segunda vez a Montevidéu, dessa vez, já com alguma informação cultural e experiência de vida.
O Uruguai, com seus três milhões de habitantes, dos quais a metade vivia na capital, era, entre os inúmeros paises hispano-americanos que conheci, um caso a parte. E isso era atribuído a sua formação histórica, a sua arraigada tradição democrática, a sua ainda boa – na época – situação econômico-financeira que proporcionava, a sua população predominantemente ítalo-galega, um elevado nível de escolaridade, apesar do conservadorismo renitente de sua classe média. Não era, pois, um absurdo dizer que a República Oriental del Uruguay – seu nome oficial – era fundamentalmente um país de classe média.
Segundo dados estatísticos da época, seus indicadores sócio-econômicos (termo de hoje) eram de assustar um brasileiro – e assustou a todos os quase 700 que lá inicialmente se asilaram, do mais modesto marinheiro até o presidente João Goulart – 6% apenas de analfabetos, contra mais de 40 % no Brasil. Coisa assombrosa! Não tinha favelas. Os cortiços – ironicamente chamados de Cantegril – eram em número civilizado (chamemos assim). Não tinha problemas mais sérios de habitação e, segundo Paulo Schilling(2) não cansava de frisar, somente 16% da classe média não possuía ainda sua casinha na praia. Chamavam dessa forma a margem oriental do rio da Prata que estende até o famoso balneário de Punta Del Este – este já em pelo oceano Atlântico – uma faixa arenosa artificialmente arborizada onde se via, entre românticos bosques de pinheiros e eucaliptos adrede plantados, casas ou chalés de todos os tipos e gostos.
Mas, o dado estatístico mais curioso do Uruguai para nós, brasileiros, era o que se relacionava com os elevadores – quase todos fabricados no Brasil pelas contumazes empresas internacionais. Naquela indefectível placa que adverte sobre a carga máxima em quilogramas e a lotação de passageiros, figurava um dado interessante: o peso máximo transportável era o mesmo, mas o número de passageiros era diferente. Enquanto um elevador instalado no Uruguai transportava quatro, o mesmo no Brasil, com a mesma capacidade de peso, levava seis pessoas. Isso significava que a população uruguaia era mais alta e mais gorda ou forte que a brasileira, em outras palavras, era mais bem alimentada, consumia mais proteínas. Esse simples dado – o qual já citei em outros crônicas minhas – apresentava-se aos nossos olhos como um exemplo humilhante da nossa miséria, da inoperância e descaso da nossa elite governante. Mais tarde – quando chegou a vez do Uruguai implementar seu golpe militar é que vimos que a nossa elite era até mais boazinha, pois não assassinou tanto quando a daquele paraíso democrático. Mas isso já é assunto para outra crônica, por enquanto contentemo-nos com apenas o impacto civilizador que sofri ao chegar àquele país, o qual amo como uma segunda pátria.
Chegamos, Paulo Sérgio Paraíso Cavalcanti – estudante, hoje advogado, carioca que mora na rua Baipendi, em Laranjeiras – Serafim do Pinto Cal – ex-marinheiro – eu, depois de uma cansativa viagem em um velho e lento (da II Guerra) avião militar uruguaio.
Esse pequeno grupo, mais o ex-sargento do Exército, José Alves, que viajara dias antes de nós, estivera comigo na Embaixada do Uruguai – na rua Artur Bernandes, no Catete, onde eu permanecera por um ano aguardado que a ditadura militar liberasse o salvo-conduto, sendo assim um dos perseguidos político do continente que mais tempo ficou “preso” em uma embaixada –, com quem mantive sempre boas relações, tanto em Montevidéu, como depois que voltei ao Brasil. Zé Alves foi meu amigo até a sua morte; Paulo Sérgio ainda se corresponde comigo, só Cal é que desapareceu e nunca mais mantive contato depois que ele voltou ao Brasil. Sobre a nossa vida na embaixada e no exílio espero falar em crônica específica.
Ao chegarmos, a nossa primeira recepção foi uma seção de velada humilhação no departamento de Inteligecia y Enlace, o serviço de informações da polícia uruguaia, na calle San José y Yi – o endereço mais conhecido de Montevidéu – onde fui levado várias vezes quando a polícia política – sempre em contato com a sua congênere brasileira – desejava demonstrar claramente que eu – assim como todos os exilados – não éramos personas gratas.
Logo encontramos com o coronel Dagoberto Rodrigues – ex-diretor geral dos Correios e Telégrafos do governo Jango – de quem eu já era amigo, que nos esperava e que nos encaminhou para um hotel, o Petit Lancaster, na esquina das calles Yagarón y Uruguai, mas não pensem que era um misto anglo-gaulês de luxo, era bastante modesto, bem ao alcance de nossa bolsa vazia. O proprietário, era um galego avarento e enxerido, a quem Paulo Sérgio chamava, e ainda chama de Rata, ou seja, ratazana.
A segunda pessoa que encontrei em Montevidéu foi Walter Tesch, hoje sociólogo ligado ao movimento sindical, morando em São Paulo, com quem estivera preso em Juiz de Fora e que é um dos meus grandes amigos, a quem encontrei casualmente na rua. Vieram depois José Alves, Paulo Schilling, Neiva Moreira(3), entre os que já conhecia.
Em Montevidéu conheci vários exilados, falarei de todos eles em crônicas sucessivas, por enquanto desejo falar da cidade.
O que mais me impressionou foram os bares; havia um em cada esquina da avenida principal, a 18 de Julio, e eram, de um modo geral, todos bem instalados e com um serviço de atendimento impecável, do tipo que nunca encontrei no Brasil, mesmo em lugares de elevada categoria, os quais por acaso freqüentei. Quase na mesma proporção, embora mais modestos à medida que se distanciava da 18 de Julio, os havia nas ruas paralelas, tanto as da esquerda de quem vai para a Plaza de la Independência, San José, Durazno, Maldonado, como as da direita, Colonia, Mercedes, Uruguay. O café completo de Montevidéu era um verdadeiro almoço. Tomava-se também, e bastante – novidade para muito de nós –, chá preto (Té) em vez de café, o qual podia ser com leite. O cafezinho era sempre expresso, podia ser ainda capuccino, cortado, com creme, de mil formas. Os aperitivos vinham sempre acompanhados de uma quantidade imensa de petiscos (copetín/copetines), independente de que se pedisse ou não, os quais podiam substituir um bom lanche. A cerveja uruguaia era, e é, a melhor do mundo, pena que não fosse servida bem gelada. Além dos aperitivos (aliás, aperitivo lá é o mesmo que “tira-gosto”) que existem em todo o mundo, da produção nacional havia quatro tipos de destilados: a grappa, a caña, o espinillar, um tipo de brandy, com a marca comercial Juanicó, mais um outro destilado com a denominação de uísque, naturalmente que de qualidade bem modesta, ainda que não fosse do tipo falsificado, pois a produção de todas as bebidas destiladas era monopólio estatal. Para mim, que aí chegara com apenas 20 dólares no bolso, e que gostava de um aperitivo ao fim da tarde, a bebida era a modesta grappa e, excepcionalmente, o espinillar, além da cerveja. Os vinhos, sem serem famosos como os chilenos e os de Mendonza, na Argentina, havia de vários tipos e qualidade, alguns bastante razoáveis, segundo pessoas mais entendidas. Eu, premido pela situação econômica, bebia, quando bebia, dos vinhos que no Rio Grande são chamados de “vinho de colonos”, comprados em garrafão de cinco litros. O que não significava que fossem do tipo “Sangue de boi”...
Um capítulo a aparte sobre os bares de Montevidéu eram os sanduíches, os quais, quase sempre, conservam a grafia inglesa, sandwich, mantendo na pronúncia um forte acento na sílaba san. Naquela época havia dois grandes centros de manufatura de sandwich, o Emporio e el Mundo de los... Todos os sanduíches manufaturados naqueles centros eram feitos em um delicioso pão de forma, sem casca, os quais forneciam para reuniões e festas, gelados e embalados com esmero. Nesses estabelecimentos, como em qualquer bar, faziam um sanduíche com uma pasta de milho verde, chamada choclo, que é algo digno de se provar. Nos bares são servidos outros sanduíches mais parecidos com os que nossos bares servem, cabe destacar o chivito – parente distante do bauru que os paulistas nos brindou – e o chorizo al pan – pão com lingüiça, de preferência pré-cozida ao vinho branco. Recentemente, no Brasil, esse tipo de sanduíche foi introduzido pelos uruguaios refugiados, ou seja, os que fugiram da ditadura de lá e da avassaladora crise econômica que abateu sobre aquele simpático país.
Rico em sanduíches e possuindo vinhos entre regulares e bons, além de deliciosa cerveja, os restaurantes de Montevidéu são muito pobres em variedade e, no caso dos que servem comida de origem italiana ou galega, mais pobre ainda em quantidade. Logo nos meus primeiros tempos sucedeu-me algo curioso: Com pouco dinheiro e com muita fome, entrei em um desses restaurantes e pedi canelones, o prato mais barato. Serviram-me un canelone!
A única iguaria uruguaia digna de menção especial é a parrillada – uma infinidade de carnes e miúdos de boi (vaca, como dizem lá) feitos na grelha (parrilla), ao qual se pede por pedaços ou por unidade e que vem em uma fartura pantagruélica, cujos nomes são pulpa (lombo), asado de tira (costela), chiclolines (tripa de boi que, ao se cortar, saía do interior uma estranha e saborosa massa, parecendo com creme branco, ao qual Neiva Moreira dizia que era a merda da vaca em formação, fruto de uma ração especial), choto (que muitos diziam que era o ânus do boi) e outras delícias, sem esquecermos dos chorizos e das morcillas, inclusive a morcilla dulce (doce, ou seja, com açúcar). Em um parágrafo peculiar, registremos o matambre, seja ele cozido ao leite ou assado na parrilla. Em ambas as apresentações, trata-se de algo delicioso. Registre-se, porém, que toda essa comida é muito gordurosa.
Se excluirmos a parrillada, pouco fica para ser citado como cozinha típica uruguaia e não comida italiana ou espanhola adaptadas. Aliás, as italianas – as massas em especial – não oferecem muito campo para adaptações. Das comidas de origem espanhola, temos o popular puchero, similar ao nosso cozido; a buceca – muito similar à dobradinha – (que os brasileiros fingiam confundir com o nome popular da vagina) e a cazuela, em particular a de lentilha que era muito saborosa. Outro prato delicioso, cuja origem não pude averiguar, é a pascualina, uma espécie de bolo salgado, com acelga e recheia de ovos cozidos inteiros.
Fora esses, não me recordo que outros pratos seriam dignos de registros, com a exceção das milanesas – vendidas em qualquer bar ou fiambrería (casa de frios) por unidades, para se levar, ou colocar dentro de um pão. As milanesas uruguaias, não sei se pela qualidade da carne, são inigualáveis. Não creio que em Milão se façam iguais...
Refiro-me – é claro – aos pratos mais conhecido e que se encontravam em qualquer casa de pasto, mesmo as mais modestas. Sei – e experimentei uma vez – que existe, por exemplo, o asado de cuero, delicioso churrasco feito com carne sem se retirar o couro da rês. Mas isso só há en campaña, ou seja, no campo e, mesmo assim, é muito difícil.
Das mercearias cabe citar a imensa variedade de frios – fiambres –, todos de excelente qualidade, com exceção da intragável e gordurosa butifarra, uma tripa recheada de uma espécie de patê de carne de porco e... Muita gordura! Quantos aos queijos, são de muitos tipos, todos de boa qualidade. As padarias e seus deliciosos pães, com destaque para os croissants e as media lunas bem mereciam uma crônica especial. Mas, como esta já está muito longa e enchendo-me a boca d’água... Termino por aqui, prometendo falar sobre outras coisas curiosas de Montevidéu em uma próxima crônica.



Valença, BA, 20 de setembro de 2001.



© Araken Passos Vaz Galvão Sampaio
arakenvaz@gmail.com e arakenvaz@hotmail.com
www.olobo.net

(1) Embora nunca tivesse ido a um teatro, era fundador de um teatro, o primeiro de Jaguaquara – que até hoje não possui nenhum. Explico: tinha doze anos, era um jovem irrequieto e travesso, resolvi criar um teatro. Perguntei a minha mãe como era e, usando um velho armazém abandonado, criei um, contando com a ajuda de outros meninos. Esse teatro, que ficou por muito tempo na memória da população, tinha uma proposta curiosa: não se cobrava ingresso, porém os espectadores tinham que levar, de suas casa, as cadeiras...
(2) Intelectual gaúcho de peso e de importante papel na esquerda, seja nos governos progressistas de Brizola, no Rio Grande, seja no efêmero gabinete de Brochado da Rocha, durante o parlamentarismo. Schilling foi o criado histórico do Movimento dos Sem-Terra no Sul do país. Esse movimento foi praticamente extinto com o advento do golpe de 64, sendo mais tarde recriado. Vou escrever uma crônica sobre ele, que até hoje é meu amigo.
(3) Importante político do Maranhão, membro de destaque d Frente Parlamentar Nacionalista – que foi uma das mais aguerridas trincheiras da defesa dos interesses nacionais, centro de resistência aos avanços do imperialismo – Neiva Moreira foi também, entre sua múltipla atuação na Câmara Federal, o autor de célebre (na época) Relatório da CPI sobre a indústria farmacêutica estrangeira, instalada no País. Depois do golpe de 64, Neiva foi uma dos mais importantes membros do grupo de Brizola.

2.2.07

Direitos Humanos

Para Rina, que pertence à espécie dos esquerdos humanos... In memoriam


Leio em um robusto jornal paulista(1) um artigo, na secção “Opinião”, da senhora Paula Dobriansky, sub-secretária americana para Assuntos Globais(?), sob o curioso, e irônico, título “Os EUA e a defesa dos direitos humanos”, cujas palavras iniciais são precisamente estas: “O compromisso dos Estados Unidos com os direitos humanos vem da própria declaração da independência e da fundação da nação”.

Ao ler tal embuste, lembrei dos direitos humanos dos peles-vermelha, dos direitos humanos dos negros, dos direitos humanos dos imigrantes, depois comecei a pensar na história da raposa cuidando do galinheiro, até que me veio à memória uma charge publicada num periódico de esquerda, no Uruguai, faz já alguns anos (no período que por lá estive exilado), o qual nunca me abandonou por sua fina e mordaz ironia – ironia essa só superada pela contida no artigo da sub-secretária em questão – na qual se perguntava, frente a muitos palavrórios naquela época, sobre esse mito enganoso, chamado direitos humanos, o seguinte: “Fala-se tanto em direitos humanos, por que será que sobre os esquerdos humanos nada falam?”

O texto, cujo teor literal posso ter esquecido, exprimia, grosso modo, essa idéia. Note-se que vivíamos os chamados “anos de chumbo”; ditaduras – implantadas pelos Estados Unidos – imperavam em toda a América Latina, especialistas em tortura a presos políticos treinavam policiais nativos, militares de todo o continente recebiam instruções similares e mais refinadas na famigerada escola de torturadores no Canal do Panamá(2). Mas, apesar de tudo isso ou por isso mesmo, falava-se muito em direitos humanos e a imprensa dos Estados Unidos até se dava ao luxo de condenar as ditaduras subservientes da América Latina pelos crimes que eram praticados pelos policiais que eles treinavam e, não raro, acompanhavam pessoalmente as torturas que seus alunos latinos aplicavam, como foram os casos dos tristemente famosos professores de tortura, Dan Mitrione, executado no Uruguai, depois de passagem de instrução pelo Brasil, e do capitão Chandler, executado em São Paulo por patriotas brasileiros.

Recordava-me de todas essas ironias da História, quando lembrei-me – não sei se por falar do Uruguai – de uma amiga, Cecilia García, artista plástica de Montevidéu, com quem mantive uma relação bastante íntima. Ela estava me ajudando a organizar papéis, recortes de jornais, revistas – essas coisas com as quais se formam os arquivos (uma das minhas grandes manias) – quando se deparou com uma cópia da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não sei se pela pompa do nome ou se por um ato falho zombeteiro, ela perguntou-me em que pasta arquivava aquilo, se na de folclore...

Registro que Cecilia nunca fora de esquerda, aliás era de uma das mais tradicionais e ilustres famílias(3) de Montevidéu – um dos seus tios tinha sido ministro da defesa – mas tinha a perspicácia para saber que aquilo não passava de falácia.

Assim continuei, de uma lembrança a outra, até que me recordei de uma história – quem ma terá contado?... – de uma grande crise política, dessas que nos abalam desde as nossas respectivas independências – em que alguém teria aconselhado ao prócer do momento a distribuir armas ao povo para resistir a um também corriqueiro golpe de estado, ao que o prócer teria respondido: “Se entrego armas ao povo, depois quem vai me defender do povo?”

Essa história, talvez parte integrante das anedotas que adornavam a vida do presidente Vargas, levou-me ainda a uma outra, essa me contara o comandante da guerrilha do Caparaó, o então sargento Amadeu Felipe da Luz Ferreira, e está relacionada com o folclórico (para dizer o mínimo) político paulista, Ademar de Barros.

Quando do golpe de 64, o comandante da guarnição militar de São Paulo – estado então governado por aquela singular figura – era o general Amaury Kruel. Esse general não era bem visto tanto pela esquerda, como pela direita, porém era notório amigo do presidente João Goulart. Dizem até que Kruel lhe teria telefonado no dia 1º de abril de 64, dizendo-lhe que se Jango quisesse abandonar os “pelegos” – líderes sindicais de todos os matizes que acompanhavam o presidente – ele, Kruel, o garantiria em São Paulo. Dizem ainda que Jango, mesmo sensibilizado com a lealdade do amigo, teria dito que não podia manchar dessa forma sua biografia e nem tinha condições morais para abandonar seus amigos sindicalistas. Liberando seu comandante de exército e amigo para tomar o caminho que achasse mais conveniente.

Se tal fato se deu ou não, se foi exatamente dessa forma ou não, a mim não me cabe fazer especulações – não sou historiador – meu objetivo é contar o que vi e ouvi, nada mais...

O que sei, porque os fatos assim o comprovam, é que o general Kruel aderiu ao golpe – golpe esse em que Ademar de Barros estava envolvido até o pescoço – e, dentro do cipoal de cassações de direitos políticos de quem não era de direita, ou seja, de membros da elite pensante do país, surgiu a necessidade de se dar um ar de seriedade à farsa antidemocrática do golpe, com uma pseudoperseguição aos corruptos. Assim chegou a vez de Ademar...

O homem do “rouba mas faz”, Ademar de Barros – que chegara ao poder ainda na ditadura de Vargas, como pessoa de confiança deste – era considerado, não sem razão, como um dos políticos mais corruptos do país, sendo, assim, o alvo ideal para uma campanha de “moralização”, mas Ademar, velha raposa política, que, como já foi dito, apoiou não só o golpe, como também toda a conspiração que o antecedeu – não iria aceitar sua degola política com o rabo entre as pernas, por isso, procurou se movimentar para resistir a uma cassação ou, no pior dos casos, negociar aquilo que em política chama saída honrosa ou – quem sabe – conseguir a convocações de eleições, na qual seria um dos candidatos.

Entre todas as manhas e artimanhas que empreendeu, uma apenas vim a saber, e que é o mote para esta crônica – cuja introdução deu-ma a subsecretária gringa – e foi a busca de apoio junto ao Partidão acenando a possibilidade de uma resistência armada. Embora o objetivo de Ademar fosse resistir só o suficiente para negociar, sua aproximação ao PC visava ameaçar com aquilo que os militares temiam, a chamada de baderna, conseqüência natural de qualquer aliança com comunistas.

Mas essas são especulações minhas, que participei dos acontecimentos à distância, pois fui convidado pelo sargento Daltro D’Ornellas – mais tarde deputado federal – (vários outros militares excluídos da Forças Armadas também tinham sido convidados) para me deslocar para São Paulo onde seria incorporado à Guarda Civil – força para-militar que existia na época – a qual seria comandada, nessa conspiração de resistência, pelo capitão Chuai – militar de esquerda que tinha sido ajudante de ordens de Jango.

Não cheguei a embarcar, embora tivesse ficado de sobreaviso por alguns dias, sem que nenhuma outra notícia tivesse-me chegado aos ouvidos. Um dia li nos jornais que Ademar tinha sido cassado sem esboçar nenhuma reação, muito menos armada.

Algum tempo depois, em conversa com Amadeu Felipe, soube uma história relacionada com a suposta resistência do governador de São Paulo. Segundo meu amigo, o capitão Chuai – hoje coronel reformado –, que já estava em São Paulo formando o seu Estado Maior, em uma reunião preparatória, com o próprio Ademar, teria sugerido que se poderia distribuir armas ao povo – operários em especial – para ampliar os parcos efetivos da Guarda Civil.

Frente a tal sugestão, Ademar – que era um político de usar termos duros e, até, chulos, fez como aquele político (Vargas?) citado, só que o fez com seu linguajar rústico: “Se dermos armas ao povo, estamos fodidos!”

Cheguei, assim, ao final de minhas lembranças – concatenadas pelas declarações da gringa afirmando que os Estados Unidos são (eram) defensores dos direitos humanos – cabia-me então fazer algumas deduções.

O que era que os direitos humanos, dos quais os States eram guardiões, tinham ver com ser fodido se as armas fossem parar nas mãos do povo? A resposta era simples: confiar a guarda do galinheiro a uma raposa, era coisa assaz perigosa, como sabemos todos, e como o sabe muito bem a nossa elite política.

Ora, estabelecido este elo, era-me fácil deduzir que como o povo não tem quintal, não tinha por que criar galinhas e, muito menos, confiá-las a alguém.

Isso me levava a uma nova pergunta: quem seria o povo em uma nação? Também aqui a resposta era fácil, quem não possui nem quintal para ao menos criar galinhas, só pode ser pobre. O que tornava óbvio que pobre era igual a povo. Por exclusão, quem tinha medo de confiar no povo, ou seja, nos pobres, só podia ser rico (ou pessoas que tinham algumas posses). E como esses eram quem faziam parte da elite política, estava matada a charada, ou seja, estava explicado o medo, porque essa mesma elite sabia que, certamente, estaria fodida se armas fossem entregues ao povo, ou seja, aos pobres.

Depois, seguindo por esse raciocínio, comecei a desconfiar que estava a meter os pés pelas mãos, pois ele me levava a deduzir que o povo era a raposa dos ricos. Como havia países ricos – da elite, tipo G7 – e países pobres tipo nós e o resto da humanidade, só podia concluir que o resto da humanidade era a raposa dos países ricos. Como o Estados Unidos eram o mais ricos dos ricos, porque ele defendia tanto os nossos direitos humanos?

A resposta – nesta crônica tão cheia delas – estava em outro trecho do artigo da subsecretária (o qual grifei): “Continuaremos a ser líderes na defesa da democracia e dos direitos humanos e em insistir que nossa versão sobre direitos humanos seja conhecida”.

Na versão dos Estados Unidos sobre direitos humanos estava o quid, o busílis, o xis da questão, os direitos humanos dos Estados Unidos são – óbvio! – os direitos humanos dos Estados Unidos. Nós ficamos como os “esquerdos” da piada uruguaia, sem defesa. Então só pude – finalmente – chegar a uma dedução: Enquanto os direitos humanos forem defendidos pelos Estados Unidos estaremos fodidos, todos, sem exceção.

Valença, BA, 21 de agosto de 2001
© Araken Vaz Galvão

PS.: Já estava terminada esta crônica quando assisti – estarrecido! – pela TV o noticiário sobre um terrível atentado suicida em Jerusalém, praticado por um desesperado palestino. Este atentado, no qual havia três brasileiros entre as vítimas, sendo que um deles morreu, foi fartamente noticiado pela chamada mídia eletrônica, buscando sensibilizar o espectador realçando seus pormenores sangrentos. Nada mais justo que um fato dessa magnitude fosse amplamente noticiado. E nada mais justo também que não se entre a discutir as raízes do conflito e, principalmente, o desespero de quem viu Jeová doar sua terra a terceiros. Terceiros esses que, diga-se de passagem, criaram, além de intransigência e fanatismo, raízes e razões que não podem ser ignoradas.
Bem, o certo é que um palestino “fez-se” bomba (e não verbo) e explodiu-se em frente a uma pizzaria em seu horário de maior movimento, resultado na morte de mais de 50 pessoas e ferindo muitas outras. Nada mais jornalístico – repito – que um fato como esse ou qualquer outro similar recebesse a mais ampla divulgação. E, para usar uma forma de se expressar estadunidense, muito em uso no Brasil, pergunta-se: certo? Errado – responde-se!
E por que?
Porque existem direitos humanos e esquerdos humanos...
E, outra vez, pergunto: por quê?
Porque na mesma época (na primeira quinzena de agosto de 2001) um atentado similar, ainda que não impetrado por um suicida, matou mais de 150 pessoas e feriu não se informou quantas. Ora, por que diabos um atentado de proporções bem maiores quase não foi noticiado(4) ou, pelo menos, não recebeu o mesmo destaque dado ao de Jerusalém?
Meditei um pouco e não demorei a sentir o estalo do Vieira: direitos humanos versus esquerdos humanos. Mas, para não aumentar a perplexidade de quem me lê, explico por quê?
Israel, mesmo não sendo um país do chamado 1º Mundo, é importante por vários motivos, entre os quais por gozar de uma situação privilegiada devido à riqueza dos judeus espalhados pelo mundo, em particular, nos Estados Unidos; é estratégico para os interesses militares e econômicos desse mesmo Estados Unidos, do qual recebe o que há de mais moderno em matéria de tecnologia bélica; possui também uma boa indústria de armamentos leves e uma excelente tecnologia de informação e contra-informação e, por último, conta com o grande complexo de culpa dos países ocidentais devido aos crimes do nazismo.
Quanto a Angola... Bem, Angola é um país africano paupérrimo, ainda que dono de grandes riquezas em seu subsolo, ademais é dirigido por um governo não muito simpático ao ocidente – no passado foi aliado da União Soviética (o que o classifica no grupo dos “esquerdos humanos”) – e hoje não tem nenhuma importância neste mundo pós-guerra fria e globalizado, ou seja, não é branco, rico e ocidental, não em importância estratégica, quem vai se importar com o que acontece com Angola?
E assim vemos aquilo que é chamado de dois pesos e duas medidas, um fato no coração do mundo que conta – o mundo dos “direitos humanos” – e outro, até de proporções mais graves, no mundo que não conta – o dos “esquerdos humanos”... Um é apenas citado e de passagem, o outro é farta e dramaticamente noticiado e comentado.
E por falar em tudo isso, não se pode deixar de registrar a existência de uma excrescência jurídica chamada Tribunal Internacional da ONU, em Haia, onde supostamente se julgam crimes contra a humanidade praticados em guerra (como se a guerra em si já não o fosse...). Recentemente assistimos ao julgamento do ex-presidente da Iugoslávia, enquanto isso Ariel Sharon – atual primeiro-ministro de Israel – manda demolir casas de palestinos, em Jerusalém, para construção de obras para judeus, fato esse que é considerado crime de guerra pela Convenção de Genebra, e nenhuma providência é tomada, nem sequer um protesto é feito, configurando assim aquela ironia dos “esquerdos humanos”, ou seja, o mesmo ato é considerado crime quando praticado por um e se faz ouvidos de mercador quando é praticado por outros.
Mas isso já não tem muito a ver com a globalização, é apenas um reflexo da condição humana e da hipocrisia que impera no relacionamento entre nações, em particular entre nações rica e poderosa e as pobres e militarmente fracas...

Valença, BA, 2 de fevereiro de 2007

© Araken Passos Vaz Galvão Sampaio
(1) Folha de São Paulo – Opinião, 24/06/01, pág. A 3.
(2) O nome oficial – e irônico – dessa famigerada entidade que os Estados Unidos mantiveram durante anos no Zona do Canal – era Escola das Américas.
(3) Família García Capurro.
(4) A Folha de S. Paulo, por exemplo, noticiou a tragédia de Angola na sua página A9, na edição de 14/ago./01. É possível que na edição do dia anterior tivesse sido dado um destaque maior, porém jamais similar ao que foi dado à tragédia de Jerusalém.

18.1.07

Lembraças do Exílio – Fortaleza de Santa Cruz


Aos companheiros de masmorra

Intelectual de peso, professor emérito, com o nome prestigiado nos meios universitários de várias capitais da América Hispânica e de outros continentes, Darci Ribeiro já era uma personalidade mundial quando o conheci. Talvez o verbo conhecer esteja mal empregado, conhecia-lhe o prestígio desde que o seu nome esteve associado ao do educador baiano, Anísio Teixeira, na fundação da Universidade de Brasília e, mais tarde, quando foi chefe da Casa Civil do governo Jango Goulart, mas nunca havia estado em sua presença. Até quando cheguei ao Uruguai, da primeira vez, para tratamento de saúde, não tive oportunidade de vê-lo, ouvia apenas os comentários sobre a reforma que ele estava implementando na Universidad de la República.

Quando retornei ao Uruguai, exilado oficialmente, voltei a ouvir comentários sobre seu trabalho. O mesmo sucedeu quando, anos mais tarde, cheguei ao Peru. Quero dizer que sempre ouvia, por onde passava, louvores às suas atividades acadêmicas. Por isso posso dizer que já o conhecia pessoalmente, com toda a relatividade do uso do verbo conhecer, conforme já realcei. É que antes do meu exílio oficial no Uruguai, estive preso no mesmo local em que ele já se encontrava e esse local foi justamente a Fortaleza de Santa Cruz, para onde fui depois de ter estado na penitenciária de Linhares e em quartéis de Juiz de Fora, Minas Gerais; na Polícia do Exército, no Rio; no quartel da mesma Polícia em Porto Alegre, RS, novamente na PE do Rio e, finalmente, naquela histórica Fortaleza, em Niterói.

Aliás, a minha transferência para aquele local – recém-transformado em Presídio Militar – está relacionado a um episódio até certo ponto hilário. Amante do estudo da História da Pátria sabia que ali estiveram presos vários patriotas de alto nível, e que aquela fortaleza era considerada prisão do onde era impossível fugir. Por uma bravata só explicável pelos rompantes da juventude, pedi a minha família que pleiteasse minha transferência para lá. Lembra-me bem que, ao chegar lá, conversando com Amadeu Felipe – nosso comandante na serra do Caparaó – que já se encontrava cumprindo pena ali, ao dizer-lhe porque pedira aquela transferência – a honra de pisar as mesmas pedras centenárias que os grandes vultos da nossa história pisaram – ele, com a sua ironia zombeteira e mal disfarçada descrença que o caracterizava, disse-me: “Meu peixe, só há um detalhe negativo nessa tua ‘honra’, daqui não se foge”.

Depois soube que, com as exceções dos militares ou maçons a quem os próprios guardiões deram fuga, somente um patriota fugira dali por seus próprios meios, um tenente – cujo nome nunca soube – que fugira a nado em uma noite estrelada de verão. Desse herói, sei apenas que era irmão do general Assis Brasil – aquele que foi o último chefe da Casa Militar do governo Jango – e que estivera envolvido nos episódios de 1935, possivelmente. Contou-me Amadeu Felipe, de quem ouvi um resumo dessa história, que esse bravo saltara da muralha, uns 20 metros de altura, direto no canal da entrada da baía de Guanabara, atravessara esta até a praia do Flamengo. Lá chegando, viu que havia muitos casais de namorados sentados na murada que ornava o mar, temendo ser visto e denunciado, nadara de volta, em direção a Niterói, indo sair no Saco de São Francisco. Esse gigante – cuja memória encontra-se esquecida – teria morrido lutando, ao lado dos republicanos, nas Brigadas Internacionais, na Guerra Civil Espanhola.

Para essa prisão eu pedira para ir cumprir os treze anos (onze de prisão mais dois de medida de segurança) a que fora condenado em Juiz de Fora, em Primeira Instância. Quis uma feliz casualidade histórica que o segundo(1) a fugir, estando preso ali, sem contar com ajuda externa, tenha sido eu. Porém, a minha fuga (e o digo por honestidade para com a História) não esteve – nem de longe – envolta em nenhum tipo de heroísmo. Foi apenas conseqüência de sagacidade, pois fugi quando fui levado para fazer exames médicos na Policlínica Militar do Rio de Janeiro – na rua Moncorvo Filho. Fora levado àquele centro médico três vezes, sempre urdindo um plano e aguardando uma oportunidade, quando essa se me apresentou, aproveitei-a e me asilei na Embaixada do Uruguai, na rua Artur Bernandes, onde fiquei um ano(2) aguardando o salvo-conduto que a ditadura militar se negava a conceder.

Como Presídio, a Fortaleza de Santa Cruz era tão seguro que seus carcereiros até descuidavam. Lá, como toda a sociedade brasileira, estava dividida em setores por condição social e, também, por tipo de delito. Na parte superior, onde era, no passado recente, privativo das residências dos oficiais, ficavam os presos de nível universitário, os intelectuais – chamemos assim. No calabouço, ficávamos nós, os sargentos, presos políticos, em um dos grandes salões – eram dois – no outro ficavam os militares presos, condenados ou aguardando julgamento por delitos comuns. Havia um grande pátio por onde os dois salões do calabouço se comunicavam, cercados por uma pequena mureta, que distava da água uns dez ou doze metros de altura, vigiado por uma guarita onde um sentinela dava guarda 24 horas por dia. Ali quem gostava podia jogar futebol, tomar sol ou flanar durante todo o dia, entre as 8 até as 18 horas. Era nesse pátio que se recebia as visitas aos domingos.

Soube pelos presos comuns que dali fugira um preso, depois de subir uns sete metros de muralha, mas esse não tivera muita sorte, pois fora recapturado ao tentar atravessar uma área militar, pertencente ao Forte Imbuí, pois a Fortaleza fica completamente isolada em um promontório, para se sair dela ou se passa pelo portão das armas e por uma estrada cavada na rocha, ou se tem que atravessar, em uma montanha pedregosa e íngreme, um pedaço residual da Mata Atlântica entre os dois estabelecimentos militares. Esse preso – cujo nome também não soube – conseguiu sair da fortaleza, mas não logrou sair da área militar, apesar da magnitude do seu feito e foi novamente preso.

Bem, voltando aos dois presos que agora nos interessa e que estavam lá quando de minha estadia, os professores Bayard Demaria Boiteux – nosso companheiro do esquema de cidade ligado à guerrilha do Caparaó – e Darci Ribeiro.

Sobre o primeiro – que escreveu um livro sobre sua ligação com a nossa guerrilha – pouco posso falar, salvo de sua valentia e coragem inquebrantáveis, tanto durante a fase dos interrogatórios e do andamento do processo propriamente dito, como durante o período em que esteve preso. Boiteux nunca abaixou o cangote, sempre se manteve altaneiro e otimista, apesar de ter sido denunciado por um jovem a quem dedicava um sentimento que só se dedica aos filhos. Durante todo o tempo que o vi – mesmo de longe – ele se comportava sempre com a maior dignidade. Não raro, quando já se encontrava condenado na Fortaleza, ao cruzarmos durante as raras sessões de cinema, ele, comentado a situação política nacional, nos dizia, sempre com bom humor: “Precisamos urgente de um paredón”. Alusão ao eficiente método cubano de combater corruptos e tiranos. De longe, na parte alta da muralha onde se encontrava durante os banhos de sol, movia o dedo indicador, como quem faz o sinal de apertar o gatinho, reafirmando jocosamente o que nos dizia sobre o fuzilamento de canalhas.

Ainda sobre o professor Boiteux, há um episódio digno de ser citado, senão por sua relevância, pelo menos por sua curiosidade histórica. Durante a fase de audiência na Auditoria da 4ª Região Militar, em Juiz de Fora, os advogados adotaram a tática de evocar o testemunho de figuras importantes da vida nacional que por acaso conhecesse algum dos indiciados, não sei bem com qual objetivo (como tampouco especulo sobre a eficiência de tal ardil jurídico). Sei que para testemunhar sobre o professor Boiteux foi indicada a figura já naquela época lendária do político e jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que foi, entre outras coisas presidente da ABI. Barbosa Lima mantinha notória ligação com o professor, já que ambos eram dirigentes do Partido Socialista Brasileiro. Porém, essa lenda viva, por razões nunca reveladas, recusou-se a comparecer ao tribunal alegando que não conhecia o acusado. Na audiência em que foi feita a leitura da comunicação do presidente da ABI (na época acho que era secretário) houve, a par do ar zombeteiro dos membros do Conselho Militar, um visível mal-estar na sala. Todos nós achamos aquela atitude nada nobre, para dizer o mínimo. Dito assim em respeito à memória do ilustre jornalista e político de tantos e relevantes serviços legados ao país. Só o principal interessado ou atingido com uma atitude no mínimo dúbia de quem se negou a dizer, por exemplo, “conheço e posso testemunhar apenas que ele é um dos maiores matemáticos do país, nada tendo a dizer sobre os motivos que o levaram ao banco dos réus”, nada disse. Ou melhor, quero dizer, fez pior, disse que não o conhecia(3). Que seja dito também em respeito à dignidade do professor Boiteux quando todos nós o questionávamos sobre o motivo da atitude de Barbosa Lima, ele se negava a emitir quaisquer juízos sobre o seu companheiro de partido e, ao que sei, seu amigo particular.

Comigo pessoalmente aconteceu exatamente o contrário. Como não levava muito a sério aquele julgamento e, ademais, tinha planos de fugir na primeira oportunidade, por instância do meu advogado, o Dr. Marcelo Alencar(4), indiquei como testemunha que pudesse atestar a minha idoneidade e integridade pessoal, não um amigo, mas o presidente do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército, o sargento Ciro Vogt, meu adversário político no Clube – o qual, ainda que fosse muito chegado ao presidente Jango, todos dizíamos que era de direita e, possivelmente, informante do Conselho de Segurança Nacional, onde servia. Ciro compareceu fardado e teceu os maiores elogios a mim, tanto como sargento, como ex-diretor do Clube, chamando-me de lutador ferrenho pelos direitos e pela a evolução social e cultural dos sargentos. Nunca pensei que Ciro fosse tão digno, em particular comigo que era dos seus mais rigorosos adversários.

Sobre o professor Darci Ribeiro, com quem só tínhamos oportunidade de conversar nas tais sessões de cinema, suas inquietações pareceram-me de outra ordem, nunca falava em paredón, sempre estava lendo – assim o víamos durante os banhos de sol – ao que parece, estava mais preocupado com a possibilidade de surgir algum preso que pudesse estar escrevendo algum diário ou mesmo algum trabalho literário. Lembro-me de um preso comum, obeso como um político corrupto, ao qual chamávamos de Senador – um febiano condenado por golpes do tipo estelionato na praça – o qual (soube mais tarde) foi assassinado pelo Esquadrão da Morte – depois que foi colocado em liberdade e voltou a aplicar novos golpes – quando o aparelho de repressão das Forças Armadas se utilizou desse execrável esgoto repressivo para encobrir os crimes que também praticavam.

Bem, o Senador, que estava escrevendo uma espécie de diário sobre suas conquistas amorosas, foi descoberto, não sei como, pelo professor Darci Ribeiro. Antes, porém, que ele, o Senador, entregasse seus originais a Darci, pediu-me que “desse uma olhada”, já que, entre os presos do “andar de baixo”, eu tinha fama de intelectual. Era um grosso caderno, desses de espiral, onde estava anotado, com riqueza de detalhes, o maior amontoado de baixa pornografia (se é que há alguma alta) que se possa imaginar. Ponderei ao Senador que talvez o professor só tivesse pedido suas anotações por educação, que ele era um homem ocupado, que estava sempre lendo e anotando coisas... Mas o Senador, que via ali uma oportunidade de demonstrar sua masculinidade exacerbada, não me deu ouvidos. Até hoje não sei qual foi a reação de Darci Ribeiro frente a tantas palavras chulas, a tantas situações grosseiras.

Logo depois surgiu uma oportunidade, fui levado ao médico fora da prisão pela terceira vez e consegui fugir. A última pessoa com quem falei, ainda na prisão, foi Darci Ribeiro, mas guardei sempre esse trivial episódio na memória por vários motivos, em particular, pelo que me disse certa feita uma amiga – Glória Rodriguez –, amiga de Darci, acerca de um comentário que ele fizera sobre o que poderia acontecer com o Brasil no dia em que a juventude, ou seja, os filhos da elite, ficasse madura e assumisse o poder político no pais, depois de ter se promiscuído com os traficantes das favelas.

Sempre que me lembro disso, lembro-me também da renúncia de um dos nossos presidentes, o qual, dizem, gostava de cheirar um pozinho, e de um outro que fumou maconha só para experimentar, das primeiras damas (com perdão da ironia implícita) que acham ser preciso “descriminalizar” a maconha, e tantas outras coisas mais...

Ainda sobre o polêmico e irrequieto professor, foi ele quem criou o termo Sambódromo, mas isso é assunto para outra crônica.

Bem, voltando a minha fuga, quando os dois membros da escolta – um sargento e um cabo, em trajes civis – me retiram do calabouço e me conduziam à viatura que nos transportaria até às barcas que nos levaria ao Rio de Janeiro, a última pessoa que cruzei – conforme já disse – foi justamente o professor Darci Ribeiro, que estava, de cabeça baixa, sentado em um banco de pedra, na parte alta da Fortaleza, com o sempre, lendo e fazendo anotações. Cheio de esperanças de liberdade pois uma certeza indizível me fazia acreditar que não voltaria mais à prisão depois daquela saída, tomei coragem e o saudei de forma bem ousada, já que ninguém, muito menos a escolta, sabia dos meus planos:
– Adeus, professor.
Ele levantou as vistas do seu inseparável livro, quiçá um pouco assustado com o tom elevado e determinado de minha voz, depois de um pequeno silêncio interrogativo, levantou a mão, acenou-me e respondeu:
– Tchau.
Nunca mais voltei a encontrar-me com a última pessoa com quem falei na prisão, antes da minha fuga...

Valença, BA, 1º de agosto de 2001

© Araken Vaz Galvão
Revista O Lobo
arakenvaz@gmail.com
ou arakenvaz@hotmail.com

(1) Segundo, em termos – diga-se também em respeito à verdade histórica – já que, conforme ver-se-á mais adiante, nesta crônica, um preso, antes de mim e muitos depois do herói da Guerra Civil Espanhola, um sargento, conseguira evadir-se daquela ratoeira, porém teria sido recapturado logo depois. Assim, embora tenha sido o terceiro, fui o segundo a evadir-se com sucesso, entre todos os que estiveram preso nela. O terceiro (ou quarto) foi o Tenente Nilo da Silveira, já falecido, um dos gaúchos mais aventureiro e folclórico (no bom sentido) que conheci e de quem fui amigo.

(2) Outro registro histórico feito não só por vaidade, mas por dever de quem se diz amante na História. Tendo permanecido mais de um ano (ou mais ou menos isso) em uma embaixada sem receber o salvo-conduto para sair do país, estou entre os perseguido políticos, da América, que mais tempo ficou nesta situação. Consta que o que ficou mais tempo teria sido o peruano Haya de la Torre – quatro anos na embaixada da Bolívia, em Lima – outro patriota, cujo nome não sei, teria ficado mais de um ano em uma representação diplomaria na República Dominicana; o célebre almirante Aragão, brasileiro, também teria ficado cerca de um ano na mesma embaixada que eu. Caso essas informações estejam corretas, a mim caberia a honra de ser o quatro nessa odiosa hierarquia.

(3) Estivesse já imperando o AI-5 e os militares teriam uma ótima oportunidade de humilhar o lendário jornalista. Era só exibir as fotos ou Atas do PSB, onde os dois figuravam como dirigentes, para desmascará-lo, bem ao gosto dos sicários, como covarde e mentiroso. O que seria lamentável, pois aquele homem público prestou relevantes serviços à causa da democracia brasileira.

(4) Aquele mesmo que mais tarde foi governador do Rio de Janeiro.

8.1.07

Lembranças do Exílio - Três Intelectuais

Para Marco-Aurélio Garcia


Embora tenham sido apenas meus companheiros de exílio no Uruguai, e por um curto tempo; embora eu jamais tenha lido nenhuma obra deles, tê-los conhecido significou uma revolução em minha vida, já em si bastante tumultuada. Mais que apenas os ter conhecido ter desfrutado da companhia e amizade deles foram momentos fundamentais na minha formação – se é que tive alguma. Foram três essas pessoas que marcaram de forma indelével minha vida política e pessoal: Eder Sader – já falecido – Elisabete Sousa (Bete) – também falecida – e, seu marido, Marco-Aurélio Garcia (com traço de união, como ele gostava de usar). Hoje todo um figurão do PT, de quem me encontro completamente afastado.

Conheci os três no exílio, em Montevidéu, onde tiveram rápida passagem a caminho do Chile, para onde me neguei a ir. E, por coincidência, os três se conheciam, não sei se eram amigos íntimos, já que Eder era de São Paulo, da USP, enquanto Bete e Marco eram do Rio Grande do Sul, não sei se da Federal ou da PUC. Sei, sim, que todos eles pertenciam a POLOP, organização de orientação trotskista formada fundamentalmente por intelectuais.

Em uma espécie de respeitosa provocação póstuma (se é que tal é possível), começarei com Elisabete. E escrevo “primeiro as damas” e ouço aquele rosto cheio de ternura forçar um endurecimento e dizer: Filha da Puta! – com maiúscula, exclamação e tudo. Bete era, além de muito inteligente, meiguice pura, associada a uma educação esmerada, a uma sutileza no falar, a uma delicadeza de gestos e atos que nos cativava ao primeiro momento. Dito isso, devo dizer também que, talvez para fazer concessões aos modismos, vez ou outra, ela falava um palavrão. Feminina, no sentido de feminidade bela e não piegas – até a raiz dos cabelos e – extrema contradição! – era militante feminista, pelo menos voltou da França, depois do exílio, assim. Todos os nossos encontros eram marcados por bem humoradas provocações minhas sobre o movimento feminista. Por isso, quando digo contradição, refiro-me a umas brincadeiras que fazia com ela, as quais, estão relacionadas com a expressão, usada no início, “provocação póstuma”. Quando conheci Bete o meu horizonte cultural era bem mais estreito do que o é hoje, muito mais. Ela, do alto de sua cultura, nunca me fez ver aquelas limitações, sempre me incentiva a estudar e escrever. Em um dos nossos últimos encontros – depois da volta do exílio esses se fizeram raros – marcado em razão dela ter lido meu primeiro romance. Ouvi dela duas coisas que até hoje estão no meu coração: Que bom, você conseguiu. Agora fica nos devendo o depoimento da sua participação, como sargento, na luta política do povo brasileiro.

Estas crônicas são uma forma de cumprir aquela sua determinação...

Não posso deixar de registrar que foi Bete quem me tornou íntimo de dois nomes da literatura, um muito importante, o alemão Thomas Mann; o outro de bastante realce na literatura contemporânea, em particular, a que começava a denunciar os pecados do stalinismo, o espanhol Jorge Semprun, nome também ligado ao cinema. Creio que foi Bete (ou ela e Marco) quem me falou, pela primeira vez, de Wilhelm Reich.

Bete, que tinha um problema em um dos joelhos, que lhe dificultava a locomoção, chegou ao Uruguai quando eu já era exilado antigo e não me lembro como a conheci. Creio que foi no escritório que Paulo Schilling tinha no tradicional semanário uruguaio “Marcha”, e que foi ele quem nos apresentou. Ela estava, naturalmente, acompanhada por Marco-Aurélio. Semanas depois, os dois organizaram uma espécie de curso, com a participação de outros exilados, sempre aos fins de semana, para se discutir – chamemos assim – teoria revolucionária. Lembra-me, em particular de um livro de uma professora chilena Marta Harnecher(?), uma ardorosa seguidora do pensador francês Althusser(1). Participavam dessas reuniões de estudo, se não omito alguém, Renata Ferraz e seu companheiro Wilson Fava; Hilda Fadiga e seu companheiro Fernando Fernandes, recentemente assassinado em São Paulo; o casal gaúcho Eron Araújo e Olga, ambos advogados; Serafim do Pinto Cal, um ingênuo rapaz do Rio de Janeiro, que esteve comigo na Embaixada do Uruguai, Pio, lembro-me apenas esse nome, um estudante de medicina da São Paulo. Marco, Bete e, naturalmente, eu. Às vezes nos reuníamos para assistir as partidas da Seleção Brasileira na Copa do México, jogos, os quais, eu no extremo do meu radicalismo, negava-me a olhar (por odiar Médici), embora morresse de vontade, trapaceando, enquanto bebia caipirinha, com rápidas olhadelas. Até hoje me arrependo daquela atitude estúpida.

Em São Paulo, assim que retornei ao Brasil, encontrei-me, entre os primeiros companheiros de exílio, com ela e com Marco-Aurélio. Fomos a um restaurante jantar. De tudo que conversamos naquela ocasião – novos sonhos e projetos para o futuro –, ficou-me gravado apenas, não sei porque, uma referência que Marco fez sobre uma música que falava dos bóias-frias. Mais tarde estive em casa deles, em Pinheiros (creio), para experimentar a famosa sopa de cebola, iguaria que o Marco era especialista a ponto de fazer inveja aos franceses, conforme dizíamos de troça. Nessa ocasião conheci o filho de ambos, Leon, nome em homenagem a David Davidovich, como convinha a bons trotskistas.

Depois dessa ocasião, fomos nos distanciando. Ainda estive em uma festa ou reunião de aniversário de Bete. Nosso encontro seguinte deu-se em situação dramática, Marco-Aurélio, forte e jovem, teve um enfarte, desses que costumam ser muito grave para os jovens. Fui visitá-lo, encontrei-a aos prantos à porta da Clínica, ele tinha acabado de sofrer uma parada cardíaca. Tenho bem viva na memória a angústia e o desespero estampado em seu semblante. Essa foi a derradeira figura que restou em mim de seu rosto meigo e percuciente. Nunca mais nos encontramos. Embora tivéssemos conversado por telefone algumas vezes, não voltamos a nos encontrar, salvo em uma rápida ocasião, depois que ela leu meu primeiro romance, “Crônicas de uma Família Sertaneja”. Ela já tinha feito os comentários dos quais falei, estava muito ocupada, e apenas passou de carro, onde eu a esperava, em uma esquina em Pinheiros, para entregar-me os originais. Nessa época eu já morava no Rio, um dia li no jornal a notícia de sua morte em um acidente de carro na Paraíba.

Eder Sader – como Elisabete Sousa ou talvez até mais que ela, devido ao fato de ser homem (porque nós, homens, somos dados a reprimir nosso sentimento. As mulheres não se cansam de nos dizer isso) – era também ternura pura! Lembra-me dele bem magro, com seu jeito tímido e com seu sorriso franco, quando bateu à porta da minha casa, na calle Azevedo Diaz, logo depois de sua chegada, em uma daquelas manhãs cinzentas de Montevidéu (não sei quem lhe deu o meu endereço), demonstrando claramente que se sentia só e que necessitava conversar com alguém. Nesse dia muito conversamos, não essas conversas cheias de confissões, tão previsível de se dar na solidão do desterro, mas uma trocar franca de idéias sobre os revezes que a esquerda brasileira vivia naquele momento.

Não me lembro qual exilado encaminhou Eder a minha casa. Possivelmente alguns dos seus antigos alunos, pois estavam também no Uruguai, alguns deles, como Hilda Fadiga que tinha sido sua aluna na USP. O marido desta, Fernando e Renata Ferraz, que eram também amigos dele, não sei se foram também seus alunos ou apenas companheiros de militância política. Sobre eles falarei em outra crônica. Aliás, foi Fernando quem colocou, em Eder, o apelido de Brilhantina, pelo qual todos nós o chamávamos.

Desde essa sua chegada inesperada a minha casa, até a sua morte, fomos amigos, muito amigos. Via-nos amiúde em São Paulo, quando conheci sua esposa, Regina, ela também professora da USP, da área de geografia. Ele morava em Moema – av. Açocê – eu no Brooklin – na Roque Pretela, bem próximo um do outro. Quando me mudei para o Rio, continuamos a amizade, eu o visitava sempre que ia a São Paulo.

Certa feita perguntei ao Eder o que ele poderia me dizer de um certo sociólogo, também da USP, de quem tinha lido alguma coisa, as quais, felizmente e por ordem expressa do próprio, tive que esquecer, ao que ele me respondeu: “É uma pessoa muito capaz, mas de uma vaidade extrema. Comenta-se na USP, com uma certa maldade, que sua maior ambição é ser Ministro das Relações Exteriores.” O sociólogo em questão – diga-se de passagem –, nessa época não devia sonhar em chegar onde, para desgraça do povo brasileiro, chegou. Talvez nem sequer sonhasse, ele que não passava de um professor universitário conhecido apenas no âmbito acadêmico, em chegar a senador da República, onde o acaso o guinou porque nenhum político profissional desejava arriscar-se em uma duvidosa eleição.

Por indicação de Eder conheci o então deputado estadual Eduardo Suplicy, por quem fui recebido, a pedido daquele, e com quem mantive uma rápida conversa em seu gabinete, o qual não me pareceu com nenhuma dificuldade de se expressar. Conversava pausadamente, mas com clareza, bem diferente do que vejo agora na TV. O procurei porque desejava fazer um filme documentário, longa metragem, sobre a ascensão de Lula na política brasileira. Suplicy não se mostrou entusiasmado com a idéia, disse-me algo assim que entendi ­– grosso modo – como “não vejo motivo para se endeusar o Lula”.

Foi Eder, tenho certeza, quem me levou a ler, estudar e fichar toda a obra de Isaac Deutscher. Possui esses livros em espanhol, perderam-se em uma das minhas mudanças e andanças pela América Ibérica e só agora, recentemente, é que consegui comprá-la novamente.

Destes três intelectuais, com quem logrei um dia gozar de alguma intimidade, o último a ser citado aqui é Marco-Aurélio Garcia, uma das pessoas mais bem humoradas que conheci. Dotado de um humor fino, rápido, mordaz e, às vezes, ferino; era também dono de uma sólida cultura, unida a uma excelente capacidade de argumentação, tudo isso associado a uma inteligência vigorosa e rápida.

Como alta figura dirigente do PT, o vi simplesmente massacrar o então presidente da FIESP, Mário Amato, em um desses debates pré-eleitorais na TV, com uma tirada de humor ferino, bem ao seu estilo.

Estávamos próximo ao período das eleições, quando Lula disputava pela primeira vez com FHC. O assunto era a infeliz declaração de Mário Amato sobre a fuga do Brasil de 700 empresários, caso Lula tivesse vencido a eleição anterior, a que disputou com Collor. Não me lembro em qual ponto do debate estavam, quando Marco, com toda a delicadeza de que é capaz, fez o senhor Amato se lembrar que não haveria mais o perigo de fuga daqueles 700 empresários citados, porque a metade deles já tinha sido levada à falência, pela política econômica desastrosa do governo Collor, que eles ajudaram a eleger.

Valença, BA, 8 de janeiro de 2007
© Araken Vaz Galvão
arakenvaz@gmail.com ou arakenvaz@hotmail.com

(1) Esse professor de filosofia francês, anos depois de termos estudado sua obra, esteve envolvido em uma situação ridícula, apesar de trágica. Casado com uma jovem aluna, creio, foi preso acusado de assassiná-la. A notícia não foi bem aceita pela comunidade universitária, não faltou quem visse ali o dedo da polícia francesa manipulando contra um nome de destaque da esquerda. Os exames da polícia técnica revelaram o lado cômico a tragédia. Pareceria que, na intimidade da alcova, ela lhe estava fazendo fellatio e, um movimento um tanto brusco, feito por ele, rompeu a traquéia da companheira. Configurando-se, assim um assassinato doloso...

23.12.06

Lembranças do Exílio - Os Intelectuais e eu


Muitos intelectuais não gostam (ou, pelo menos, em minha época não gostavam) de serem chamados dessa forma, da mesma maneira que a elite não gosta de ser classificada como elite, salvo quando vai à gafieira homônima – no caso, lá no Rio de Janeiro – mas isso nada tem a ver com a nossa crônica. Nunca entendi por qual motivo porque uma pessoa de alto coturno cultural, de vasta erudição, não gostasse de ser chamado de intelectual. Uma bela palavra, sonora, expressiva, de significado nobre. Tudo que eu desejei ser – infelizmente sem conseguir – por isso nunca entendi porque quem o era abominava o rótulo. Por quê? Mistério absoluto para mim...

Os primeiros intelectuais que tiveram algo a ver com minha vida, tomei contato a distância, isto é, não os conheci, salvo por fotografias em jornais e revistas ou, mais recentemente (na época), por aparições na TV – aparições deles, está mais do que evidente. Refiro-me aos escritores, romancistas, em particular, cujos livros lia, em busca de uma felicidade interior, a qual só muito mais tarde soube que era deleite estético. Os primeiros intelectuais da minha fase adulta, foram Érico Veríssimo, José Lins do Rego e Jorge Amado, sem que isto implique em ordem de preferência ou cronológica.

Tinha 21 anos e terminara o curso de aperfeiçoamento de sargentos – chamado internamente de CAS – na Escola de Material Bélico (na época de Motomecanização) do Exército. A escola ficava, e ainda fica, em Deodoro, no Rio de Janeiro, mas isso não interessa. Como ainda era cabo, ao terminar o curso, fui promovido, em 26 de novembro de 1956, a 3º Sargento e classificado em uma unidade técnica, de manutenção, em Triagem, também no Rio – o Parque e Depósito de Material de Engenharia. Como naquele momento histórico brasileiro não tinha aparecido ainda gente do quilate dos políticos que globalizara o Brasil, talvez para inseri-lo no mundo, especialistas em achatamento salarial, esmagamento sócio-econômico de aposentados e das classes médias, eu ingressava (naquela época, esclareço – com duplo sentido?... –, boa época!) em um círculo – médio, digamos assim – onde se era remunerado com salários relativamente compensadores. Assim, pela primeira vez pude fazer uma das coisas que mais desejava (e ainda gosto), comprar livros. Comprei-os.

Lembro-me que a minha compra inicial foram três coleções, “obras completas” – daquelas encadernadas com material que imita couro(*) – justamente daqueles três autores. Se Jorge Amado me revelava facetas novas ou ainda não pensadas de um mundo que eu conhecia muito bem e de perto, meu avô, o coronel Antônio Augusto Vaz Sampaio, sertanejo (como quase toda nossa família), tinha-se mudado para Jequié e, em um dos seus distritos – Aiquara – se estabelecera com uma fazenda de cacau. A cultura dessa amêndoa – no mais amplo e mais abrangente sentido, inclusive as suas implicações sociais e, até, o folclore que a cerca, não eram, portanto, desconhecidas minha, por isso, talvez, que a obra de Amado, em particular, “Cacau”, “Suor”, “Terras do Sem Fim” e “São Jorge dos Ilhéus”, impressionou-me. Devo confessar, porém, que o lirismo de “Mar Morto”, o qual associo até hoje a outro grande momento da prosa lírica brasileira, “Iracema”, de José de Alencar, tenha também me enternecido, embora não retratasse o mundo rústico do cacau. Há ainda um livro de Amado, que não é muito citado entre suas obras principais, que muito me impressionou, “O Pais do Carnaval”. Aquele personagem – Paulo, se não me engano – que se forma na França e, depois de várias peripécias e “bater de cabeça” em sua pátria, retorna ao país de sua formação, muito me deu o que pensar. Se ele aqui não conseguia ser brasileiro, possivelmente não conseguiria ser nada na França, salvo um exilado voluntário e rico, sem raízes e nostálgico. Vejo, hoje, em sua figura e, porque não dizer, em seu drama, o embrião e também o protótipo dos “pê-agá-dês” americanizados que imperam em nossa vida política, em especial, na econômica.
Não é por casualidade que todos esses gênios só falam inglês...

Mas, deixa pra lá... Continuo, agora com Lins do Rego. Embora não tivesse nenhuma relação com a cultura de cana-de-açúcar, pela origem nordestina do escritor, sua relação sertaneja era um elo importante a ligar-me a ele. Naturalmente que estou a dizer isso apenas para demonstrar o motivo da escolha, dando por assentado que não houve preferência por qualidade literária. Coisa, aliás, que eu nem conhecia.

Dos livros de Lins do Rego, impressionaram-me na primeira leitura – mais que quaisquer outros – “Cangaceiros” (talvez pela temática que sempre me foi muito cara) e a vida de Ricardo, que se desenrola em dois romances, “Moleque Ricardo” e “Usina”. Sempre desejei fazer um filme exclusivamente com a história de Ricardo. A sua prostituição na prisão da ilha de Fernando Noronha, para onde fora enviado por sua breve e frustrada militância sindical, seu envolvimento promíscuo com o cozinheiro homossexual é de uma crueza a toda prova. A sua morte dramática, por sua trágica beleza – um dos momentos mais pungentes de nossa literatura – muito me impressionou, vejo-a como uma situação essencialmente cinematográfica. Só mais tarde, com um pouco mais de traquejo de leitura, é que senti a beleza árida de “Fogo Morto”.

Já com Veríssimo, deu-se algo diferente. Conhecia apenas, desde minha infância, um livro seu, “Viagem à Aurora do Mundo” – obra para jovens, com um certo objetivo de divulgação científica. A leitura sistemática que fiz de todos os – creio – seus 19 livros, seguindo a ordem em que foram publicados, revelou-me um mundo diferente em dois sentidos, pelos menos. Quase todos se referiam a um universo urbano, bem diferente de Amado e Lins do Rego, e revelava-me, ademais, o mundo peculiar do Rio Grande – naquela época muito longe de mim. Surpreendeu-me “Saga”, devido à temática, o envolvimento do personagem na Guerra Civil Espanhola (iniciada no ano em que nasci), drama histórico que eu ignorava a extensão trágica. Porém, sucedeu o mais natural, o grande impacto causou-me os livros iniciais da trilogia “O Tempo e o Vento” – “O Continente” e “O Retrato”. Ana Terra e Bibiana, ao lado de Capitu e Diadorim são – em minha opinião – os personagens femininos mais belos, completos e trágicos da nossa literatura.

Demorei algum tempo para ler aqueles quase 50 livros das três coleções. Havia as responsabilidades profissionais e, sendo jovem, a vida a ser vivida, o envolvimento com moças e outras coisas intrínsecas à juventude. Sobre esse período, duas coisas devo deixar registradas, ia-me encontrar com as namoradas (naquele tempo no subúrbio namorava-se no portão e namorada não era eufemismo para encobrir a condição de amante), sempre com um livro que lia na condução – ônibus, lotação ou trem – ao chegar pedia que mo guardasse, ficando assim com as mãos desimpedidas para as tarefas acariciadoras típica dos namoros daquele tempo. Ocorreu-me também chegar algumas vezes atrasado ao quartel – falta que podia ser considerada grave, se reincidente – por distrair-me durante a viagem de trem, meia hora, e passar da estação – São Francisco Xavier – onde deveria saltar.

Posso dizer que esses foram os primeiros intelectuais – excluídos os autores lidos na infância, com destaque para Monteiro Lobato e Andersen – com quem me relacionei, ainda que à distância. É claro que minha primeira “biblioteca” não ficou só com aqueles três autores, eles foram os que comprei as “obras completas”, que não eram tão completas assim. Comprava também, por unidade, brochuras, tanto de autores nacionais como de estrangeiros traduzidos.
Pertencia ao que os estudiosos chamam de classe média baixa, morava no subúrbio de Marechal Hermes, em uma rua cujo esgoto das casas escorriam para uma vala a céu aberto Eram duas as valas, uma de cada lado, entre o meio-fio e a “pista” de lama ou poeira, conforme as estações do ano. Só não eram despejados nessas duas valas os dejetos das privadas, esses iam para fossas individuais. Os utensílios mais “modernos” de minha casa eram além do fogão a querosene, um rádio. Ouvindo rádio realizou-se outro importante capítulo da minha formação, o de ter decorado uma infinidade de letras de músicas, o que faz com que alguns amigos me considere um “memória de elefante”. Os únicos luxos eram os livros. “Livros, livro a mão cheia”, com toda a relatividade que pode caber na citação. Ao longo de 44 anos da minha vida organizei cinco “bibliotecas” que foram perdidas, seja por confisco da ditadura militar, por abandono fugindo dessa mesma ditadura, quando as obras ficavam em mãos de minhas ex-mulheres, estas sempre se vingavam do “abandono”, levando-as direto para o sebo. Até as do exílio também foram perdidas, pois eram abandonadas quando a mão invisível da ditadura chegava até onde eu estava. Uma dessas perdas foi-me significativa. Duas estantes repletas de livros em português e em espanhol e dois imensos baús de recortes de jornais e revistas, mais apontamentos pessoais – meu arquivo – foram queimados por uma ex-mulher zangada e cheia de medo da repressão uruguaia.

Por uma questão de justiça, devo dizer que algumas poucas obras – mesmo com todo o corre-corre da ditadura ou apesar da vingança das mulheres – salvaram-se e se encontram em meu poder até hoje.

Depois de ter falado de alguns intelectuais que conheci em minha vida, através de seus livros – porque o principal afazer do intelectual é justamente escrevê-los – descobri uma grande curiosidade, que existem vários tipos deles. Há o intelectual jornalista, o intelectual de botequim da zona sul do Rio, o intelectual especialista em frases, o intelectual que nunca escreveu um só livro (para não dizer “uma linha sequer”), enfim, os há de todos os tipos e para todos os gostos. Conheço até uma bizarra máxima, atribuída a Paulo Francis, segundo a qual é dito que “intelectual não vai à praia, intelectual bebe.” Uísque, de preferência, salvo o pessoal do chope, que o prefere, não sei por carioquismo ou por populismo ideológico.

Desses intelectuais, lembra-me dois, sobre os quais já falei em crônicas anteriores, Ênio Silveira e Álvaro Lins, que conheci de uma certa distância, pois participaram de reuniões da Frente de Mobilização Popular – FMP – (cujo Secretário Geral era Paulo Schilling – também intelectual e até hoje meu amigo), como representantes do Comando Geral dos Trabalhadores Intelectuais – CGTI – organização de esquerda de expressiva atuação nos anos iniciais da década de 60, antes do golpe militar. Mas, não estou muito certo se eles ficariam muito à vontade se fossem chamados de intelectuais.

Antes das reuniões da FMP, com aqueles intelectuais do CGTI, estive próximo a alguns outros de peso na esquerda, os do Instituto Superior de Estudos Brasileiros – ISEB – entidade que muito perturbou o sono dos militares brasileiros ligados a outro ninho de supostos intelectuais – esses de direita – a Escola Superior de Guerra – EsSG, em sua sigla militar – autora do projeto político-militar que resultou em mais de 20 anos de infâmia moral, de ignomínia humana e intelectual.

No ISEB só estive mais próximo de três deles, assim mesmo próximo, mas à distância, no auditório, que era o lugar de onde eu me ilustrava ouvindo suas palestras. Eles foram o general Nelson Werneck Sodré – a quem admirava muito, mas nunca troquei uma só palavra – o professor de filosofia, Álvaro Viera Pinho (ou Pinto) – homem muito educado e erudito, que, talvez por isso, tinha uma forma de se expressar muito distante do meu grau de compreensão (com perdão do mau uso da palavra) intelectual e o desembargador Osni Duarte Pereira – esse, sim, muito expansivo e comunicativo, como se diz hoje – com quem conversei muitas vezes e, inclusive, cheguei a visitá-lo em sua bela residência naquela parte alta da Tijuca (creio que a Muda da Tijuca), pois era um leitor contumaz de suas obras.

O desembargador Osni Duarte Pereira teve um papel primordial no aprimoramento do meu amor ao Brasil e ao seu povo. Quem me levou até ele foi um grande amigo, o sargento Manuel Raimundo Soares, assassinado pela ditadura no Rio Guaíba, em Porto Alegre. Sobre Soares, o Baixinho, falarei em uma crônica especial.

Tenho que citar mais outros intelectuais, antes de encerrar esta crônica, por simples necessidade de deixar o registro. O primeiro foi Roland Corbisier que, mais do que o professor Àlvaro Viera, se expressava em um idioma que, para mim naqueles idos de 62/63, soava como grego. Hoje, quando ouço o senador Suplicy falando na tribuna ou fazendo perguntas em alguma comissão do senado, pela sua “clareza” contundente e erudita, pela confusão no ordenamento das palavras, lembro-me daquele intelectual.

O professor Corbisier – segundo constava na imprensa da época – tinha sido (igual a Dom Helder Câmara) – integralista, acho que pertencente à Câmara dos Quarenta, órgão de cúpula da Ação Integralista do Brasil – AIB – os nossos fascistas caboclos. Como o arcebispo de Recife e Olinda, o professor tornou-se de esquerda, embora as más línguas (ou algum infiltrado) alardeassem que ele estava do nosso lado, apenas para nos confundir com seu linguajar hermético, mas para aramaico ou sânscrito, do que para o um português compreensível, que era o idioma que falávamos naquela época, antes de se adorar o inglês, de cinema, de índio e de cretino ilustrado ou travestido de evadido, digo, de egresso de universidades americanas. Porém, por uma questão de justiça, devo dizer que, ao contrário do professor Álvaro Viera, que possuía um linguajar erudito, o professor Corbisier o possuía arcaico, muito arcaico. Lembra-me que ele – que foi eleito deputado federal – não se referia a Zonas ou Secções Eleitorais, mas a Freguesia, uma forma vigente no tempo do Império ou na chamada República Velha. Sei que isso era apenas uma minúcia, mas serve para ilustrar o vocabulário que ela usava.

Outros dois intelectuais importantes que conheci e que, como o desembargador, marcaram minha modesta formação, foram Goudin da Fonseca e Edmar Morel – ambos de “O Semanário”, jornal dirigido por Osvaldo Costa – o primeiro escreveu um livro lendário, “O que sabe você sobre Petróleo”, uma espécie – como classificou alguém na época – de Bíblia nacionalista. O segundo escreveu “A Revolta da Chibata”, um inflamado libelo sobre a rebelião de marinheiros – liderados por João Cândido, o quase mítico Almirante Negro – que aboliu o uso de castigos corporais na Armada, mas que, infelizmente contribuiu para a perpetuação do ódio oficial aos rebeldes.

Esses dois intelectuais – que também escreviam em “O Semanário”, como já o disse – muito me ajudaram a pensar e a aprender a ser cidadão não passivo, porém nunca falei com eles, apenas lia suas obras, admirando-os à distância.

Indispensável dizer que o periódico “O Semanário”, foi o meu manual de cabeceira. Lia outros jornais, mas aquele semanário era sagrado.

Termino, esta narrativa das minhas relações com alguns intelectuais. Antes, porém, devo fazer mais uma revelação e uma promessa. A revelação é sobre as influências indiretas. Além de “O Semanário”, órgão da imprensa independente (naquela época ainda não chamada de alternativa ou nanica), já citado, cabe registrar a influência que recebi da revista “Brasiliense” editada pela editora do mesmo nome – do intelectual Caio Prado Junior (de quem já tinha lido o ensaio “História Econômica do Brasil”) – e, bem mais tarde, a revista “Civilização Brasileira” – do também intelectual, já citado, Ênio Silveira – os “Cadernos do Povo Brasileiro” e seu apêndice poético, “Violão de Rua”, da mesma editora.

A promessa consiste em escrever outra crônica sobre três intelectuais, que se não me influenciaram por suas obras, fizeram-no pela relação pessoal que mantive com eles no exílio. Sobre eles só direi, por enquanto, que foi um privilégio tê-los conhecido.

Valença, BA, 23 de dezembro de 2006

© Araken Vaz Galvão

(*) A coleção de Jorge Amado em “couro” vermelho (também, pudera...); a de Veríssimo era em “couro’ azul celeste; a de José Lins do Rego era em “couro” azul escuro. Nunca as esquecerei. E, quando as vejo em algum sebo – coisa que está ficando cava vez mais rara – sinto um desejo quase irresistível de comprá-las, mesmo quando é apenas um volume avulso.

16.12.06

Encontro comensal de escritores de Valença

Evidentemente não apenas escritores, mas também músicos, gourmets, cantoras, mímicos, poetas, dançarinas, 'gente de todas as cores, que faz este mundo acordar'.
Euzedir e Araken, os anfitriões, Helio, mestre violonista, ao fundo Moacir Saraiva, professor do CEFET e jornalista do jornal Valença Agora; ao seu lado Vidalto Oiticica, proprietário do mesmo jornal.

Professora Maria do Perpétuo Socorro (Perpetinha), nossa revisora, eu e Vidalto Oiticica.

Macária Andrade, Euzedir, no centro Franco, o italiano, diretor do jornal Valença Agora.

Hélio, Danielle, esposa do Mustafá, Perpetinha, Franco e Vidalto.

Euzedir rebolando, entre Marcos Vieira e Macária, ao lado Alfredo Lima Neto.

De pé, suely, esposa de Alfredo, ao lado deste, Mustafá Rosemberg, médico e poeta sonetista, aparecem ainda, a esquerda, Franco, o italiano e Marcos Vieira.

Eu com Celeste Martinez, poeta.

Euzedir em primeiro plano e, ao fundo dona Lane, esposa do professor de história e escritor Edgar Otacílio, ao lado o filho do casal, Apolo.

Macária Andrade, poetisa, cronista e professora, ao seu lado, Alfredo Lima Neto, poeta e contista, ao fundo Moacir Saraiva.

Alfredo Lima Neto, Marcos Vieira, biomédico, poeta e contista, Araken e um pedaço do Moacir Saraiva.

A reunião teve por lugar a sede da Fundação Cultural Euzedir & Araken Vaz Galvão, cujas obras chegam à terça parte final.