16.3.14

Sobre o Esquecimento e outras Necessidades Vitais

Para o meu amigo, o escritor
Alfredo Gonçalves de Lima Neto

Certa feita, conjeturando sobre a existência ou não da alma – mas não ocultando completamente a certeza de que não a possuía –, externei a conclusão de a alma(1) (ou seu simples conceito) levava-nos sempre a uma grande confusão, fosse qual fosse o ângulo que abordássemos o tema. Agora, porém, ao ler no livro do José Eduardo Agualusa, “Teoria Geral do Esquecimento”, e ter encontrado uma afirmação instigante sobre as almas, eu – que ocultava a certeza de não a possuir, repito – comecei a ver aquela certeza claudicar.
Devo, porém, fazer um pequeno intervalo para externar minha convicção sobre a completa vanidade existente na tarefa a que se possa impor um escritor ao tentar escrever uma teoria geral sobre o esquecimento, devido ao fato de que dediquei boa parte da minha vida em busca deste objetivo, sem muito – melhor confessar de vez –, sem nenhum sucesso. E hoje, quase no fim da vida, penso que por mais que se escrevam tratados sobre este tema; que se desenhem mapas; que se elaborem guias; que se indiquem direções, jamais se consegue esquecer aquilo que mais se necessita apagar da mente – por mais desesperado que seja o esforço desprendido.  
Essa elucubração deu-se em minha mente antes de ter lido o livro de Agualusa. Ao lê-lo, minhas convicções não mudaram, apenas descobri que o objetivo do escritor angolano era em outro sentido, não aquele que tanto me lancinava, ou seja, não estava relacionada com a necessidade que uma pessoa pudesse ter (e na maioria das vezes, e ao longo de sua vida, o tem) de simplesmente esquecer aquilo que lhe era indispensável; pois acreditava que somente se alcançando aquele objetivo conseguir-se-ia, de verdade e sem mortificação, lograr um pouco de paz para se continuar vivendo sem dores. Sabia que existia o mal de Alzheimer, mas este era uma deformidade genética (creio). Ademais, este método radical imposto de forma cruel pela própria natureza, por ser tão severo, havia momentos em que se podia imaginar se ele não seria a antecipação do próprio inferno nos sendo imposto enquanto tínhamos um resto de vida, quiçá ainda útil, para um tardio arrependimento. Hipótese que, se real, configurar-se-ia em uma maldade ainda mais insana. Por isto me questionava se não seria um absurdo, se seria humanamente plausível, caso minhas constatações estiverem corretas, fazer-nos esquecer daquela forma tão pungente, dolorida e carente de significação para a nossa comum concepção de castigo.
Por outro lado – mesmo com o risco de ser repetitivo –, devo frisar ainda que se esquecer por meio desta terrível enfermidade, a qual – se não me falham as informações, só aparece na velhice (justamente a parte da vida em que já se praticou de tudo, certo ou errado, ficando espaço para se prestar contas e pagar dívidas), até mesmo porque na velhice não se tem futuro, então tudo já é um fato consumado, o que não é nosso, deste autor, o objetivo ­–, por isso não teria validade, para o sentido que se deseja dar a este texto, porque esquecer por esse meio significaria apagar (“deletar”, como diriam os que receberam mamadeira por meios eletrônicos ou virtuais) tudo que, em nossas vidas, fora feito com culpas, pois o esquecimento que desejo realçar – o que desejo insistir na necessidade de descartá-lo – pertence àquele tipo de ações cujas lembranças, são tão nefastas, que nos é imperioso (pero, no mucho, como se diria em espanhol), tirá-las da mente (para o todo e sempre), pelo simples fato de pertencer àquela classe de recordações – que, por alguma razão desconhecida –, necessitamos, de vez em quando, voltar a lembrá-las, ainda que seja apenas para sofrer só mais um pouquinho.
Bem, era um mistério que estava longe da minha capacidade de compreensão. Melhor: uma esfinge que podia devorar o que ainda restava de mim, nesta fase como veem que sei, resta-me ainda muito pouco de vida. Então, melhor seria dizer que o livro de Agualusa é muito bom. Uma leitura muito agradável. Isto feito... Continuar.      
Escrevera aquele autor(2) – cujas sentenças poéticas trazem certos fumos de verdade similar a dos patriarcas religiosos de antão –, que “Deus pesa as almas numa balança. Num dos pratos fica a alma, no outro as lágrimas dos que a choraram. Se ninguém a chorou, a alma desce para o inferno. Se as lágrimas forem suficientes, e suficientemente sentidas, ascende para o céu”.
Esta afirmativa perturbou-me sobremaneira. Mais além de que o escritor angolano deixa implícito, quiçá apenas de forma poética, que acredita na existência de Deus, ademais no das almas, conclusão que surpreende e intriga aos ateus (e também aqueles que não aceitam a existência das almas), como é (melhor seria escrever: são) meu caso, o que me levou a indagar qual o número de pessoas que chorariam por mim, quando do meu passamento. Poderia dizer: desta para o forno crematório.
E ao confessar que desejo este destino para os meus restos mortais (ainda que imagine que imortais, em mim, nunca houve ou haverá), se não estaria, por um possível ato falho de minha, talvez, surrupiando, àquele que os crentes julgam o Criador, o trabalho de mandar-me, com ou sem lágrimas, de vez para o inferno. O quinto dos... Por certo.
Feita, porém, esta pueril divagação, retorno o curso da narrativa.
 Agualusa diz ainda, no parágrafo seguinte que “Vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros.” Já tinha notado que este autor, em outras anteriores passagem do seu livro, tece algumas considerações sobre a alma, porém cito a que mais me intrigou.
E – mudando um pouco de direção – não foram poucas as coisas que me deixaram pasmo. Inclusive deparei-me com algumas palavras, por ele usadas, comuns, não sei se em Portugal ou em Angola, ou ainda, se em ambos os países. Uma delas, a qual logo me identifiquei –, pelo menos senti-me próximo neste momento de minha vida, cujo pessimismo e lamentações tanto preocupam aos meus bons companheiros. Digo desta forma: bons amigos, não por buscar – como sou contumaz em fazer – relação com um filme sobre mafiosos(3), mas por força de expressão, conforme reza o lugar-comum. Bem – dizia –, que com uma delas logo me identifiquei, e esta palavra foi alforreca.
Esta palavra, a qual nunca tinha ouvido falar ou visto escrita, vinda do árabe – como sucede com muitas outras, consequência da longa dominação muçulmana na península Ibérica. Sobre ela constatei, ao consultar o dicionário, que possui dois significados intrigantes: “aquilo que não tem firmeza, solidez ou consistência”. Ou, em forma figurada, “pessoa que tem muitas habilidades, ou (é) competente em muitas atividades”. Esta é, pois, a sua definição como substantivo. Como adjetivo, porém, não diferencia muito: “diz-se de coisa ou material sem firmeza ou sem solidez”. E ainda “diz-se de pessoa com muitas aptidões”.
Com ambas as definições identifiquei-me. Pelo menos me identifiquei devido a esta fase pessimista pela qual estou passando – a qual, sei, somente a superarei, escrevendo, fazendo-o sem nenhum pudor, com a exposição completa das vísceras – e por não ter pejo de colocar, de modo explícito, em tudo aquilo que escrevo, para irritação daqueles meus bons amigos.
A verdade, porém, é que já fui uma pessoa de muitas aptidões – poderia mesmo dizer que, similar ao palhaço da música O Circo, de Sidney Miller(4), já fui tudo –, inclusive desfrutei uma vida bastante variada, tendo conhecido algumas situações bastante aristocráticas; ou exercido outras profissões bastante plebeias, como, por exemplo, ter sido fazendeiro (filho e neto). Mas também office-boy (vulgo mensageiro), ajudante de serralheiro, soldador industrial, militar, revolucionário, vendedor de jornais, artesão, micro-empresário e... Intelectual aposentado. O que mais? Não me lembro. Sei que também fiquei velho e fui perdendo a pertinácia, ou seja, fui ficando, pelo menos fisicamente, “sem firmeza ou sem solidez”.

     Valença, BA, 7 de março de 2014

© Araken Vaz Galvão



(1) VAZ GALVÃO, Araken. “O Conto Brasileiro Hoje, Vol. XXIV”, R&G Editores, São Paulo, 2013, pág. 31. É onde está o conto que contém as reflexões sobre a alma.
(2) No capítulo “Um pombo chamado Amor”, págs. 155/160, do livro lançado pela Foz Editora, Rio de Janeiro, 2012. 
(3) Somente à guisa de informações, quiçá inócua, o filme em questão, chamou-se justamente “Os Bons Companheiros (Goodfellas) e foi dirigido por Martin Scorsese no ano de 1990.  
(4) O verso ao qual me refiro desta bela música de Sidney Miller (1945-1980), com o qual sempre me identifiquei, diz: “Faço versos pro palhaço que na vida já foi tudo/ Foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo/ Sem juízo e sem juízo fez feliz a todo mundo/ Mas no fundo não sabia que em seu rosto coloria/ Todo encanto do sorriso que seu povo não sorria”. 

24.2.14

Viver não dói

Viver não dói – encontrei, em meu velho arquivo, na parte de duvidoso material recebido via internet, um texto atribuído(1) a Carlos Drummond de Andrade, com este título – o que me levou a pensar: Só dói quando se vive. Ou seja, quando, ao viver, se ama e, ao se amar, não se é correspondido. Afinal, como diz a canção do meu tempo: “Amar é viver/ é um doce prazer embriagador, invulgar”. Ora, se amar é viver, não se conseguindo dar amor a quem se ama(2), sofre-se. Fora dessa situação, viver realmente não dói. O único problema é que, se o que a canção diz é verdade, a falta de amor muitas vezes causa uma dor dos diabos...
Foi pensando sobre isso, então, que me lembrei da moça da farmácia – aquela que fica na esquina da rua Visconde do Monte Santo e da rua da Fonte do Boi, no Rio Vermelho, em Salvador, na Bahia, minha amada terra. Mas quem fica na dita esquina, claro, é a farmácia. Que nenhum leitor desavisado vá pensar que seja a moça em questão citada quem ali fica, balançando a bolsa – no exercício daquilo que o lugar-comum classifica como o mais antigo dos ofícios –, já que a moça fica apenas dentro do também citado estabelecimento comercial, trabalhando como balconista, e não na referida esquina, ofertando ilusórios instantes de amor, se é que ao se comercializar o sexo a ele seja possível acrescentar algo de sentimento. Assim sendo, ela, além do trabalho atendendo no balcão, tem todo o ar de quem é casada, por estar aparentando gravidez, ainda que isso não signifique nada além de já ter copulado, uma vez que, em nossos dias, para se praticar tal atividade, não mais se necessita dos sagrados laços do matrimônio, que os tempos são outros bem diferentes daqueles existentes quando fui jovem. Mas, dirão meus eventuais leitores, o que a moça – que deve ser uma senhora – tem a ver com a vida doer ou não?
É que fui comprar um medicamento; e me atendeu outra moça, que se atrapalhou ao ler a receita.  Aquela atendente, a que estava grávida, para ajudar  à colega, disse gentilmente:
— É para o coração – completando, para ser bem clara – É um remédio para o coração, não é mesmo, senhor? – Esta última frase evidentemente dirigida a mim.
Naquele dia acidentalmente, estava de bom humor. Tinha saído da reunião semanal do Conselho Estadual de Cultura, Bahia, passara na farmácia, com intenção de ir depois ao supermercado comprar algo para merendar no hotel. E junto com as compras da merenda, tencionava levar também um litro de uísque. Beberia umas duas doses e, no outro dia, traria a sobra para minha casa, onde, no fim de semana, amenizaria o peso da vida que já não dói tanto, porque, com a idade, o que mais me atormenta são as articulações, principalmente as do joelho, ainda que isto também faça parte de vida. Porém, tudo isto são divagações. Estava na farmácia e de bom humor, então lhe respondi:
— O remédio para o coração, senhorita, é o amor – não tinha notado ainda sua incipiente gravidez, por isso não a chamei de senhora – Os remédios são para corrigir os males causados, ao coração, pelo amor.
Ela, e outros dos seus colegas de trabalho, olharam-me com evidente surpresa. “Esse velho é maluco” – devem ter pensando. Ao que fui obrigado a esclarecer, do alto dos meus 74 anos, à guisa de amortecer o impacto de minhas palavras:
— No meu tempo era assim. Não sei nos dias atuais...
 Fez-se um longo segundo de perplexidade. Um outro balconista, esse do sexo masculino, quebrou-o – o silêncio, é claro –, dizendo, um tanto sem propósito:
— Já estão até querendo instituir o dia do sexo, não é mesmo?
— Não estou bem seguro se sexo tem algo a ver com amor, ou vice e versa... – Acrescentei – No entanto, sempre tendo por base o meu tempo, quando todo dia era dia de sexo (e não de índio, salvo se os índios...); bem, fico a matutar o quão desagradável seria a instituição desse único dia...
Sabia que estava falando um português pouco popular, e que grande parte do ar de perplexidade, que via estampada no semblante dos atendentes daquela farmácia, devia-se ao meu linguajar. Porém, minha intenção – filha do meu inesperado bom humor – era justamente usar dele, o linguajar, para caracterizar o meu tempo. Por isso acrescentei;
— Imagino que iriam colocar uma câmara, dessas de segurança, para fiscalizar a observância dos preceitos legais.
Continuava usando construções de sintaxes “jurássicas”, como “fiscalizar a observância dos preceitos legais”, em vez de monitorar a aplicação da lei. Continuei.
— Já pensaram a pessoa estar em sua casa e, de repente, bate à porta um fiscal. “O senhor não tem praticado sexo ultimamente, senhor”. E o cidadão, meio sem jeito, justifica-se: “Bem... Quero dizer... O tempo anda curto. Muito trabalho... Quando se volta à casa tem-se o computador, a internet, os bate-papos virtuais... Os amigos ligam... o celular... Um joguinho, sabe como é...” E o fiscal: “Compreendo perfeitamente, Mas é preciso observar o que prescreve a lei. Dê-se por advertido”.
E o cidadão, muito a contragosto, olha para a mulher, que se encontra assistindo a novela, e diz: “É, meu amor, melhor a gente obedecer, eles podem proibir os jogos on-laine, cortar o nosso crédito do celular e até bloquearem as novelas. Vamos ter que fazer o sacrifício de... Você já tomou banho?”
Mas aí, já me encontrava no táxi, a caminho do hotel, no bairro da Pituba (em Salvador, é claro), com planos de, antes, passar em uma delicatessen, vulgo loja de conveniências, para comprar a bebida que os escoceses legaram ao mundo para que os homens suportem as dores da vida...

Valença, BA, 3 de julho de 2010
© A. Vaz Galvão



(1) Quando digo “atribuído”, é por duas razões: tê-lo recebido pela internet – meio que não me merece muita confiança, por dispensar os revisores antes de publicar) – e por estar com preguiça de ir conferir em suas Obras Completas...
(2) Agora já estou a citar outro poeta, Thiago de Melo: “A maior dor sem foi/ e será sempre/ não se dar amor a quem se ama...”



8.2.14

A Baderna e o Batuta

Em 1851 esteve no Brasil uma cantora e dançarina italiana de nome Maria Baderna. Era o que hoje se chama pop star, ou seja, uma dessas cantoras bonitas, de comportamento social inusitado. Baderna, causou muito furor junto à juventude do Rio de Janeiro, tendo como resultado histórico — sim, porque, na ocasião, houve quebra-quebra e outras desordens, similares aos que fazem hoje os atuais rebeldes sem causa (ou aqueles cuja causa é imitar o que a internet e a TV propagam) --  que o seu nome de família tornou-se sinônimo de arruaça e outras... badernas.
O Aurélio, mesmo fornecendo alguma informação sobre essa dançarina, diz que o seu nome, Baderna, está associado a “grupo de rapazes alegres, barulhentos. Súcia, corja. Pândega, estroinice; desordem, confusão, bagunça, bagunçada”, etc.
Por outro lado, em uma rápida vista d'olhos no Google, achamos em alguma matéria ali constante a informação de que “Baderna é uma palavra exclusiva do português brasileiro que significa confusão, desordem, bagunça”, e fornece outros dados históricos. Diz ainda que a celebridade que criou, sem querer, este neologismo, chamava-se “Marietta Maria Baderna (e que era) filha do médico e músico António Baderna (e que) teria buscado o Brasil como exílio em 1849. Talentosa, logo conquistou uma legião de fãs, admiradores tanto de seus passos de dança, quanto de seu espírito rebelde e contestador. Inovadora, ela foi alvo de críticas ao introduzir elementos do lundum (dança afrobrasileira praticada por escravos) entre os passos da dança clássica (isso em) meio a uma sociedade conservadora e escravista”, do II Império.
Diz que o motivo de exílio dela (e, possivelmente, o de sua família) no Brasil, deu-se por razão da ocupação do seu país, a Itália, pela Áustria, frisando que a “(...) sociedade da época, que associou o barulho e a paixão incontida dos fãs a algo ruim”, ou seja, a falta de modos educados. Afirmando ainda, citando o Houaiss, que o termo “baderna está associado aos seus admiradores, chamados de os badernas, que entoavam o nome da musa ao final de suas apresentações”.
Hoje baderna é o ato de praticar desordens, e baderneiros são aqueles que a praticam. E poucos sabem como a baderna começou, ainda que uma expressiva fração dos brasileiros, useiros e vezeiros, não só em fazer baderna, como em falar mal do Brasil, afirme que a baderna é tão antiga quanto o próprio país.
E por falar em baderna, estão ameaçando evocar (mesmo sem saber) a dançarina italiana, para provar ao mundo que somos mesmo baderneiros natos, exercendo-a, esse mister, para diminuir o brilhantismo da próxima Copa, fazendo uma canhestra equação: Saúde, sim; Copa, não. Quando deveria ser: Saúde e Copa.
Antevejo já agora, caso saiamos vitoriosos, os débeis mentais, que pululam nas redes sociais, afirmarem que fomos campeões porque eles ameaçaram depredar o país se não fôssemos; ou, caso não sejamos, que perdemos porque eles – os débeis mentais das redes sociais impediram-no.
Alguma idiotice deste nível deve sair nos blogues, faces e tweets de pessoas faltas de cérebro como as ditas e havidas supostas celebridades televisivas que buscam promover-se pisando no rosto e na dignidade do povo brasileiro, menosprezando e difamando suas realizações e conquistas.    
Lendo esta matéria, lembrei-me deste fenômeno linguístico – o de que um produto (nesse caso, uma marca comercial) ou pessoa tornar-se sinônimo daquilo que representa é comum entre nós e deve ser comum em todo o mundo.
Existia a conhecida (e antiga) lâmina de barbear cuja marca durante muitos anos tornou-se sinônimo de lâmina de barbear. Outro caso emblemático foi o da cerveja Brahma. As pessoas diziam: Vamos tomar umas Brahmas? Era o mesmo que se convidar para se tomar cerveja, qualquer cerveja. Há até uma história relacionada com um desses cartolas que imperavam (e ainda imperam) no futebol brasileiro, cujo nome foge-me à memória - acho que era um presidente folclórico do Corinthians, que em uma festa naquele clube, teria pegado do microfone e dito: Temos que agradecer ao presidente da Antárctica que nos mandou estas Brahmas. Naquele tempo as duas marcas de cerveja eram de empresas diferentes e rivais, que disputavam o mercado palmo a palmo.
Foi então que, ao recordar-me dessas histórias e – por que não? – dessas fatalidades linguísticas, que me lembrei da palavra batuta.
Resulta que, em minha infância em Jequié, era comum se ouvir pessoas fazerem uso deste termo com o sentido que não estava relacionando, para nada, com orquestras e com seus regentes.
Agora, recentemente, recebi de uma amiga um belo e erudito livro, “O Mundo Falava Árabe” – que me mantém extasiado –, tese de doutorado de Beatriz Bissio, hoje residente no Rio de Janeiro, uma pessoa a qual faz já bastante tempo que não a vejo.
Conheci Beatriz no Uruguai, país no qual nasceu, por intermédio de Neiva Moreira (1917-2012), durante os longos tempos de exílio naquele país.
Naquele tempo eu ainda era um jovem (e ainda bastante rústico, por pouco escolarizado) ex-sargento do Exército Brasileiro, perseguido pela ditadura, que sonhava com a revolução latino-americana. Mas, apenas nos conhecíamos, sem nunca termos sido amigos na acepção da palavra, significando isto que nossa relação nunca passou de rápidos contatos, devido à minha relação com seu marido, o político brasileiro Neiva Moreira.
Não sei como estabeleci contato com Beatriz. Talvez tenha recebido alguma mensagem, dessas que são encaminhadas a várias pessoas, e ter visto o nome dela. Devo ter-lhe enviado um e-mail, nascendo o novo contato. Depois ela me solicitou que lhe enviasse um dos meus livros e agora, bem recentemente, recebi um livro dela, sobre o qual já assinalei como sendo uma obra bela e erudita e que estava me extasiando.
É, pois, à raiz deste livro que escrevo esta nota. O trabalho de Beatriz versa sobre o islã medieval, onde encontrei referências a um sábio árabe de nome Ibn Battuta (1304-1368), o que me levou a relacionar a tudo que falei sobre “giletes e cervejas”, pois me lembrei que no sertão, onde nasci, quando ainda criança, era comum usar-se o termo batuta em relação à pessoa sábia, muito inteligente.
Supondo que esta referência poderia estar relacionada com o sábio em questão, pois naquela época ele viveu na península ibérica – então sobre o domínio do islã, pelo menos parte dela –, uma vez que no sertão ainda, mesmo hoje, há alguma sobrevivência de cultura medieval portuguesa, fui consultar o Houaiss, já que em seu dicionário existe indicação da datação das palavras, e lá encontrei, além da impreterível referência ao instrumento com que os maestros regem suas orquestras, como regionalismo de uso informal no Brasil: “que ou aquele que é capaz, hábil, perito em um mister”.
A palavra teria vindo para o português, através do italiano, battuta, em 1565, mas, no caso, relacionado com “bastão delgado, em geral de madeira leve, com que os regentes dirigem as orquestras, bandas, coros, etc.”

Valença, BA, 4 de fevereiro de 2014
                                                                                                        © Araken Vaz Galvão

30.12.13

O Tamanho do Oceano

De origem sertaneja, avistei o mar, nos primeiros anos da década de 40 – significando isto que eu, nascido em 1936, andava por volta dos quatro anos –, pela primeira vez em Alcobaça – pequena e muito antiga (1772) povoação praieira do sul da Bahia, transformada em cidade (1896) –, onde também comecei a conhecer, de modo descontínuo e fragmentário, é certo, os chamados percalços da vida, pois ali faleceu minha avó materna, que praticamente nos criara, a mim e aos meus irmãos. Mas, como era ainda muito pequeno, não guardo nenhuma lembrança particular do infausto. Por outro lado, tampouco me causou impacto a visão daquela massa d’água que, ao vê-la pela primeira vez, as pessoas chamam de imensidão; que o verso de Vinícius de Moraes considerou, com bastante propriedade, que não tinha tamanho.
Era demasiado pequeno – já foi dito e, agora, repetido –, faltava-me compreensão para voos metafísicos estéticos (digamos dessa forma) de maior alcance. Até a minha estatura impedia-me ter uma ideia mais cabal da lonjura da linha do horizonte e, portanto, da sua grandeza. Nem mesmo bem mais tarde, quando aquela aventura louca do meu pai, de mudar-se para Minas Gerais, perseguindo um sonho bem mais insensato de fundar uma cidade, resultara em fracasso – fracasso, aliás, que lhe custara a vida, deixando-me (e aos meus irmãos) órfão – e que, recolhido à fazenda Veneza, no município de Jequié, também na Bahia, do meu avô paterno, tomei conhecimento do verso, emblemático, de Casimiro de Abreu que fala de um “mar (como) um lago sereno”, que minha mãe – uma mulher predestinada a guardar, em sua alma simples de sertaneja, a lembrança do seu passado feliz da juventude, uma vez que, ao sair dos seus anos verdes, sua vida não lhe foi muito propícia –, talvez por sentir, com a viuvez, somente situações consubstanciadas em muita dor e trabalho, por isso não se cansava de recitar (como forma de recordar-se de tempos ditosos), e que eu, ao ouvi-la, mesmo fazendo alguma relação com aquele mar que vira, um dia, em Alcobaça, não sentia nenhuma emoção – porque o mar que conhecera naquela longínqua ocasião, visto do nível da minha visão – não esqueçamos que era muito pequeno – nada tinha de grandioso, tampouco dava ideia de infinito, pois o que eu via não ia muito além da linha da arrebentação e, até onde me lembro, a extensão que minha vista alcançava era uma faixa móvel de água barrenta que ia e vinha, sem nenhuma beleza, salvo talvez, pelas espumas, um tanto cinzentas ou avermelhadas (nem lembro direito este detalhe, porque – descobri mais tarde –, o mar daquela região baiana, carece da cor pura do litoral de Salvador, do Recôncavo e adjacências, sendo mais chegado a cor do mar do norte do Espírito Santo), que as ondas traziam ou formavam, sem que eu sequer desconfiasse que se tratava dos restos mortais (ou imortais, talvez) da Sereiazinha que Andersen, por meio de uma hábil tradução-adaptação de Monteiro Lobato, a qual me faria inundar em lágrimas – isto, tempos depois – a minha alma de pré-adolescente. Porém, isto só se deu – devo frisar bem – quando, órfão, morava na fazenda Veneza, de meu avô paterno.
Mas, naquela ocasião em que estive pela primeira vez frente ao mar (talvez em 1940), vi-o – imagino hoje – como o deve ver um pequeno caranguejo, comum às nossas praias, de nome Ocypode quadrata, que possui várias denominações populares, sendo que a mais usada é guruçá, vinda do tupi (guará-uçá, que possui os nomes populares de aguarauçá, cabeleireiro, siri-fantasma, espia-maré, grauçá, guaruçá, guriçá, cerca-maré, vaza-maré, maruim e sarará, sendo este último nome também está relacionado com alguns mulatos de cor aloirada, talvez pela própria cor do caranguejo, embora o tupinólogo Silveira Bueno diga que a palavra “sarará” está relacionada com uma “formiga que enxameia depois das primeiras chuvas” – tanajura, seria? –, “de cor arruivada, fulva”), que perambula pelas areias, cavando suas tocas com uma rapidez impressionante, ostentando dois olhinhos saltados, capazes de fazerem lembrar a uma pessoa adulta, e relativamente escolarizada, dois minúsculos e agitados periscópios, sempre a observar em todas as direções, cujo alcance – imagino –, deve ser obstaculizado por quaisquer montinhos de areia mais elevados, não devia ser muito maior do que alcance da minha visão naquela época.
Ao pensar no limitado alcance do horizonte do guruçá, lembro-me agora – em 2012, sentado à frente a um bar no largo do Porto da Barra, em Salvador – que, muitos anos antes (por certo por volta de 1990), de ter assistido o filme que Akira Kurosawa dirigiu em 1971, quando estava fortemente deprimido – tendo, inclusive, tentado suicídio, ao concluí-lo, por aquela ocasião –, cujo título original (e comercial, pelo menos em DVD), foi Dodes’Ka--Den, onde existia uma situação similar. Nela penso agora, em particular, aqui, no Porto da Barra, era uma sequência em que duas crianças correm, por entre uma vegetação de altas gramíneas – para conhecer a novidade que, para elas, era o trem –, guiados apenas pelo barulho. Mas ao chegarem ao pequeno corredor descampado próximo à linha férrea, deparam-se com o trem passando em alta velocidade, lhes permitido ver – devido às suas reduzidas estaturas – apenas as rodas, ângulo pelo qual a genialidade do diretor fez filmar a cena. E ao lembrar-me do menino que era nos idos dos anos 40, do século XX, vendo apenas a lâmina de água barrenta, ocasionalmente trazendo espuma, de aspecto sujo, lambendo a fímbria de areia, associo com a visão que imagino ter o guruçá e, por meio dele, ao que as crianças viram naquela belíssima sequência do filme de Kurosawa, o qual é responsável por todas essas associações, encontro a justificativa para não ter visto, e entendido, a vastidão do mar.
No entanto, hoje, 26 de dezembro de 2013, passado o Natal, enquanto minha mulher e eu deleitávamo-nos da insossa solidão da velhice e aguardamos o dia da chegada dos nossos netos capixabas – a neta carioca, filha da minha segunda filha, infelizmente não veio –, relendo este fragmento do meu livro (de recordações da infância) cujo título é Vestígios de uma Vida, ainda sendo escrito, cujo destino deverá ser a publicação, como crônica no jornal local Valença Agora, sou assaltado pela dúvida se a sequência lembrada (linhas passadas) é mesmo do filme de Kurosawa ou de outro, também clássico, do mestre indiano Satyajin Ray, possivelmente no primeiro filme de sua magnífica Trilogia de Apu.
Devo conferir antes de enviar ao amigo João Benicio, de RG Editores Ltda., pois ele, com a amabilidade que o caracteriza, está a pedir-me um conto para a sua coleção O Conto Brasileiro Hoje, que desta vez vou participar com uma crônica.

Araken Vaz Galvão

21.12.13

Viagem à Fronteira

Era rebelde. Sendo mais preciso, poder-se-ia dizer que era, não só rebelde, mas bastante radical. Criado em família católica, não muito praticante, tinha sido batizado, como todos os seus irmãos. Sua mãe comemorava o Natal, a moda sertaneja, Com simplicidade e parcimônia. Mas isso eram apenas lembranças dos tempos de menino.
A rebeldia chegara com a adolescência, ali por volta dos 18 anos. Frases como a “religião é o ópio do povo” – ouvira, aprendera e decorara e passara a fazer parte do seu vocabulário. Esse, e outros aprendizados, guardara em segredo, afinal, não desejava magoar a sua mãe. Mas, secretamente gostava da festa. A ceia de Natal, como era chamada.
Todos em volta da mesa – a mãe, postada à soleira da porta da cozinha, observá-los, sentindo uma felicidade muda no barulho de sua ninhada, pronta para destroçar a galinha recheada com farofa, que fora comprada viva na feira. Os perus, tão fáceis de serem cevados e sacrificados na roça, ainda não eram populares nos subúrbios do Rio de Janeiro, para onde sua família agora vivia.
Por essa época, junto com a máxima que ligava a religião ao ópio, aprendera outras, que falavam ser o “dever do revolucionário era fazer a revolução”. Sim, porque, por esse tempo, considerava-se dessa estirpe. Sabia também que “a violência era a parteira da História” e que “o poder político saía do cano do fuzil”. Foram esses aprendizados que o levaram à luta armada e – depois de uma série de percalços – às prisões e ao exílio.
Exílio, tempo de solidão. Mas também de reflexão. E, consequentemente, tempo de amadurecimento. Foi por essa época que ele redescobriu o Natal. Não como um ritual religioso – pois, continuava descrente –, mas pela confraternização implícita da festa.
Em um ano daquele longo exílio, um amigo, também exilado, o convidou para acompanhá-lo à fronteira, para fazer algumas compras. Era um risco enorme. Sabia que havia um grande número de esbirros da ditadura que caçavam os “subversivos” e que ficavam também vigiando os que procuravam sair do país.
O seu amigo escolhera a cidade uruguaia de Rivera, para arriscar-se do outro lado da fronteira, em Livramento. Tudo correu sem percalços, a ida, a volta. As compras que fizera, coisa do Brasil, que a saudade tornara idealizadas, foram: castanha de caju, guaraná, bombom sonho de valsa, charque, feijão e cachaça para a caipirinha.
Tomou a iniciativa de fazer uma “ceia” de Natal para si próprio. Comprou limão, gelo – não tinha geladeira – envolveu-o em jornal e serragem. As castanhas eram o tira-gosto. A ceia seria feijão com jabá. Em um velho estrado improvisou um divã, onde se estendeu, apoiando as costas de encontro à parede; arrimou uma mesinha e começou a beber. Em determinado momento, lembrou-se da infância, das tertúlias – sempre criticadas por ele, afinal, “a religião era o ópio do povo” – que sua mãe realizava.
Não soube se por efeito da embriaguez ou da saudade, começou a repetir, entre lágrimas, primeiro em voz baixa, depois, boquejando em um tom um pouco mais alto, olhando para a porta da cozinha da sua casa: Feliz Natal, mãe! Feliz Natal!
O pranto se fez mais forte. Despertou no dia seguinte – sem saber a que horas pegara no sono –, com uma tremenda ressaca. O guaraná diminuiu o gosto ruim da boca.  
Tinha esquecido de comer o feijão com a carne do sertão.

Valença, BA, 1º de novembro de 2011
© Araken Vaz Galvão

24.11.13

O Mito de Ariane

Sei que o conceito de mito, mesmo sendo muito elástico, é do conhecimento geral. E, embora, um dos papéis do jornalista seja o de educar, além de bem informar, longe de este modesto cronista desejar pousar de professor para os leitores do nosso jornal, pois sou apenas, como o disse o compositor popular, um eterno aprendiz.
No entanto é mister falar que os mitos são elementos subjetivos básicos na formação de quaisquer sociedades. Alguns são belos, fruto da instigante imaginação de muitas gerações; outros são a consequência de superstição e até da pouca escolaridade. Entre nós, em Valença, existem alguns que se enquadraria perfeitamente nestes casos. Um deles é a forma geral de colocar no gênero masculino o nome da localidade praieira Guaibim, mesmo já se sabendo que esta palavra, vinda do tupi, significa velha. Apenas velha, no caso no feminino. O outro é dizer que a emancipação política da nossa cidade – em um erro que até o nosso Valença Agora é contumaz em cair e recair –, deu-se quando ela foi elevada a condição de cidade, em 10 de julho de 1849, na realidade, nossa emancipação política, deu-se ainda no tempo de Brasil-Colônia, em 23 de janeiro de 1799, quando foi elevada a condição de vila. Pois – e nunca canso de dizer – no tempo de Brasil-Colônia as vilas tinham autonomia. Em 1849, repito, Valença, já emancipada, foi elevada a condição de cidade. Não adianta repetir, o mito continua. E, ao que parece, nada (ou quase nada) se pode fazer para destruir ou modificar os mitos. Deste fato nasce a insistência com que os meios de comunicação – as redes de TVs – sejam pródigos em criar mitos, os quais, na maioria das vezes, são falsos mitos.  
Agora, depois de ter falado de mitos nascidos da ignorância, vamos a outro, nascido de uma bela imaginação. O mito de Ariane. Este instigante mito interessa-me sobremodo, particularmente agora, devido ao fio – poderia mesmo dizer que “o liga a uma situação peculiar, senão única” –, uma vez que estamos sempre ligados, desde o cordão umbilical, a algo. Há sempre um fio que nos liga a alguém ou a alguma coisa.
Embora existam várias versões, algumas com desfechos diferentes, não raros com detalhes contraditórios, o fundamental do Mito de Ariane (Ariadne ou Ariadna, segundo algumas grafias), naquilo que interessa para este texto, dá notícia de que ela era filha de Minos, rei de Creta(1), que teria se apaixonado por Teseu, cujo nome significa “homem porte por excelência” – que foi um herói proto-histórico, já que não existem provas que ele teria realmente existido, ainda que alguns historiadores opinem que ele teria governado Atenas, entre 1234 a 1204 a C. –, segundo se vê na Wikipédia.
Seria longo reproduzir aqui as peripécias vividas por Tiseu, basta-nos, porém, saber que ele seguiu para Creta, disposto a entrar no labirinto onde vivia o Minotauro e matá-lo. Tendo tido sucesso nesta empreitada devido à ajuda de Ariane, a qual encontrou uma solução simples para que ele saísse do Labirinto – uma vez que era notório que se entrando lá, nunca se saia –, exigindo apenas, para ajudá-lo que ele se cassasse com ela. A solução consistiu em dar a Tiseu um novelo de lã (o fio de Ariane, até hoje falado, ainda que pouco conhecido em pormenores), que ele iria desenrolando ao entrar(2), bastando acompanhar o fio ao voltar, onde ela se encontrava pronta para exigir o pagamento pelo serviço prestado. Sabendo que irá, uma vez por ele desposada, prestar outros serviços bem mais interessantes e saborosos.  
Ao escrever, usando uma forma até de certa forma jocosa, sobre Ariane esperando Teseu sair do labirinto, lembro-me de um texto de um escritor espanhol Jorge Semprun(3) (1923-2011), sobre uma situação similar, só que vista do ponto de vista masculino: “Dezessete anos antes, em Roma, ele atravessara o espaço que o separava de Franca. Mas é sempre a mesma coisa. Atravessa-se sempre um espaço: uma rua, um salão, uma galeria de arte, uma floresta, o oceano: a vida, para ir em direção às mulheres. Caminha-se sempre do mesmo modo, com uma idêntica esperança, uma perturbação idêntica: a mesma.”  
Tiseu entrou no Labirinto, matou o Minotauro, voltou seguindo o fio, e partiu levando Ariane. Poder-se-ia agora dizer, usando do verso da música popular – e voltando, não seguindo o fio de Ariane, mas a pisar o chão firme da nossa terra, e da nossa narrativa hoje em dia –, que a notícia carece de exatidão. Não pelas razões contidas na letra da referida música, mas por existir – como já foi dito acima – várias versões sobre o que ocorreu a continuação. Mas estas versões, para nós, neste momento, carecem de utilidade, porque o que nos interessa é a simbologia contida na alusão ao fio.
Embora já tenha feito alusão ao cordão umbilical – este fio que, ao nos ter protegido e ligado à vida enclausurada do ventre materno, ao ser cortado, ligar-nos-á para sempre a uma família, a qual passará a ser, de forma inexorável, o elo que nos mantém preso a outra forma de vida –, por isso sou tentado a fazer agora uma analogia com outro importante mito grego, no caso o de Odisseu(4). Melhor, o de Penélope, posto que esta, esperando a volta do marido, não se sabe por ter apenas esperança de que ele não estivesse morto ou tão-somente o desejo de que ele surgisse assim, do nada, tece uma manta durante o dia, a qual, à noite, desmancha todo o trabalho realizado.
Até parecia que, sentada em sua casa, tecendo durante o dia, mas desfazendo, durante a noite, o trabalho realizado, no simples gesto de puxar o fio, para desmanchar a urdidura que, uma vez concluída, a uniria fatalmente a outro homem. Simbolicamente, seria como se Penélope estivesse, não apenas ganhando tempo, como se diz popularmente, para não ter que optar por nenhum dos pretendentes, mas puxando de volta, por aquele tênue fio, o seu marido de volta. Ou seja, fazendo o tempo correr até que ele voltasse.

Valença, BA, 14 de novembro de 2013



(1) Ilha grega, situada no Mediterrâneo, quase à entrada do mar Egeu.
(2) Não deixa de haver semelhança entre este ardil e outro existente, só que em uma história infantil, João e Maria (Hansel e Gretel), neste caso, as duas crianças usam o expediente de jogar pedaços de pão para demarcar o caminho. Só que os passarinhos comem-no, com as consequência que todos conhecemos.
(3) A Montanha Branca, Nova Fronteira, Tradução de Edison Darci Herdt, em 1987, pág. 78.
(4) Referência a um dos heróis da guerra de Tróia, Odisseu, cujo nome latino popularizou-se como Ulisses, cuja mulher, Penélope, para não escolher nenhum dos inúmeros pretendentes a se casar com ela, os quais ela prometera aceitá-los assim que terminasse de tecer a referida manta, usava do ardil de desfazer a noite o que tecera durante o dia.  

3.11.13

A Vírgula – Mínima Enciclopédia

Certa feita foi encontrar-me com um editor em Salvador, por indicação de um velho amigo, daqui, de Valença, BA, descobri de pronto que este, o editor, era um cidadão, se não forte – como se dizia em meu tempo de jovem –, bastante encorpado. Sendo, de certa forma, um homem grande regendo uma editora pequena. Não que na dimensão do seu empreendimento exista algum preconceito ou desejo de diminuí-lo, afinal, na Bahia só existem editoras daquela grandeza, pois não há das médias nem das grandes. Logo, a sua só poderia ser pequena. Ademais, ao falar em pequenas, vem a mente o lugar-comum grato a minha avó, relacionado com os bons perfumes estarem sempre em frascos minúsculos. Não vou, tampouco, achincalhá-lo por ele ter sido muito pouco educado comigo, ainda que, por ser verdade, guardo-lhe ainda certa mágoa. Mas isso não deve ser levado em conta porque sou, além de velho (e os velhos costumam ser ranzinzas), bastante rancoroso e, também, muito orgulhoso. E o gesto pouco delicado dele não se prendeu ao fato de ter-me dito, logo de entrada, que publicava livros somente à custa do autor, declaração que me surpreendeu, porque isso todos faziam, não sendo novidade. Inclusive eu, sem ser editor, poderia fazer a mesma coisa, em relação aos meus livros, sem necessitar a interferência de terceiros.
Bem, visitava o editor – dizia – e ele descobriu de pronto, em meu texto de quase 300 páginas, uma vírgula fora do lugar, erro que cometo amiúde, por mais que me esforce e por mais que pague a revisores. Descobriu-a e não disse algo assim como: “Vai precisar de uma revisão”. Ou: “Houve um lapso aqui, esta vírgula está mal colocada”. Ele, como um colega de escola, aqueles que tivemos na faixa dos doze, quatorze anos, fez uma daquelas gozações típicas de quem deseja humilhar, como, por exemplo, “não se separa o sujeito do predicado”. Fato que, como pode ser visto, não me esqueci. E agora, passados uns dez anos, ao relembrá-lo, penso em algumas más palavras em relação a sua genitora.
Hoje, ao iniciar essa apresentação, pensei em Graciliano Ramos: “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos mexer”.
Embora vendo que a citação, mesmo sendo muito irônica, não se enquadra à situação que vivi, citou-a, mesmo não podendo dizer onde a li, como sempre faço, porque se trata de algo que anotei em um dos poucos cadernos que escapou comigo, quando fugi da prisão de presos políticos, na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, no final da década de 60. Além do mais, se a benéfica tirania da gramática, esteja ainda presente na situação que ora narro, a polícia política já não impera com o mesmo poder. Em seu lugar, aqui e ali, surgem editores exercendo o papel de beleguim.
Além dessa mágoa pueril, guardo ainda desse editor a lembrança de uma frase sua, cujo sentido, grosso modo, era: “Um autor que escreve livros que nem ficam em pé.” Mas, em relação a livro ficar ou não de pé, falarei depois. Por ora desejo, com essa longa divagação, registrar a atitude do cantor e compositor de modas de violas, não sei se do interior de São Paulo ou de um dos estados de Mato Grosso, Almir Sater, de quem agora me lembrei. Esse jovem artista, por ser bem apessoado – como se dizia em meu tempo de jovem, em relação aos homens –, faz-me também pensar em mim mesmo, pois na minha juventude, ou seja, nos meus tempos de glória ou suposta. E deixando de lado a modéstia, devo dizer que tive, naquele tempo áureo, certa semelhança física com ele, ainda que ele seja bem mais jovem do que eu e, possivelmente, bem mais talentoso.
Lembrando-me disso, imagino como Almir Sater deve ser assediado pelas mulheres – e lá se vai à modéstia para o brejo (já que falo de cantor de música da roça) outra vez –, pois sempre me dei bem nesse terreno. E como aquele tempo passou, resta-me (ao diabo outra vez a modéstia!) apenas dizer: Que saudade.
Bem, continuando. A TV foi-lhe entrevistar Sater por causa do sucesso da canção, cujo nome era “Chalana”, usada como tema, de novela (se não trai a memória) “Pantanal”, que ele cantava. Ao felicitá-lo pela beleza da música, ele respondeu, grosso modo, que não tivera a ventura de escrevê-la. E deu o nome do autor: Carlos Zen.
Agora, para escrever essa apresentação, fui a Internet de vi que Carlos Zen teve um parceiro, Arlindo Pinto, não citado na ocasião por Sater.
Pensei em todas essas coisas porque estou preparando a impressão de um livro com alguns dos meus ensaios, o qual fará parte de uma coleção, uma espécie de “Obras Completas” – romances, contos, crônicas –, às minhas expensas, é claro. Esse ambicioso objetivo prende-se ao fato que já fiz 75 anos e, dentro de mais uns quinze dias, com alguma sorte, a vida acrescentará um novo ano a uma existência assaz atribulada. Afinal, ninguém vive mais de sete décadas impunemente, e começo a sentir que se aproxima a hora da minha partida. Por isso estava preparando esse livro, cujo título, pretensiosamente, é “Araken Vaz Galvão – Ensaios ou quase...”, onde reúno algumas reflexões sobre coisas que vi e vivi, em particular, sobre os livros que sempre me acompanharam, sem os quais ela, a vida, ter-me-ia sido “invivível”, quando constatei que esse livro em preparação, não ficaria de pé. Sua lombada, quando pronto – se consegui editá-lo – terá menos de 10 milímetros. E essa constatação fez-me lembrar do encontro com aquele editor.
Toda essa concatenação de lembranças levou-me ao escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986), e particularmente pensei em seu maravilhoso livro “Pedro Páramo”, 128 páginas, em um formato de 11X17 cm. Um livro pequeno, portanto. No entanto é uma das obras mais brilhantes da literatura hispano-americana do século XX.
Ao lembrar-me daquele editor – e resolver, de uma vez por todas, acertar nossas velhas contas –, pensei na nobreza de caráter de Almir Sater – lembrei-me até de parte da bela canção que, por ele, soube ser de Carlos Zen (e Arlindo Pinto). Lembrei-me também de alguns versos daquela canção. E imaginei que não faltará muito para uma chalana levar-me, sem que essa partida venha a causar algum desequilíbrio ao mundo.
Talvez por isso descubra agora que ao desejar, de forma ardente, publicar, ainda em vida, minhas “Obras Completas”, constate também que esse desejo particularmente prende-se a ilusão de que, mesmo partindo, não partirei por completo. Permanecerei presente em tudo que escrevi. Obras as quais, espero, todas elas – mais de vinte e seis –, ao serem colocadas juntas em uma estante, fiquem de pé.   


Valença, BA, 3 de maio de 2012

© Araken Vaz Galvão 

24.10.13

Considerações sobre a palavra Gaúcho

Não faz muito tempo, premido por encontrar o real significado de algumas palavras em português que expressassem de forma cabal aquilo que estava dito em espanhol, com o preciso sentido enunciado da forma em que estava escrito, deparei-me com sérios obstáculos. Isso me levou a escrever algo relacionado com problemas de tradução(1). Realçando o quão difícil era essa tarefa. Dizia mesmo que, ao executá-la, era preciso não só se encontrar o significado de cada palavra, mas também o sentimento nela embutido ao ser enunciada, ou seja, o sentido – muitas vezes popular – dado por quem a escreveu ou a falou. Minha divagação nascera à raiz de uma mensagem recebida de um amigo, a qual, junto aos votos de Feliz Ano Novo, vinha também a frase, à guisa de pórtico, que dizia: “Lo único que uno trajo a la tierra fue el tiempo de estar vivo.” Era para anunciar o início do ano de 2004, e sugeria que a sentença era do poeta venezuelano Eugenio Montejo.
Na oportunidade, por mera diversão, ao tentar uma tradução, deparei-me com aqueles obstáculos. A expressão espanhola “lo único” – é igual a “o único” –, mas nesta frase significava “a única coisa”. Por esta via a tradução seria: A única coisa que... A palavra uno, em espanhol – igual a um –, nem sempre significa a forma escrita do algarismo 1 ou numeral cardinal um. Nessa sentença, por exemplo, significava uma pessoa, um ser humano, alguém indeterminado. Por este caminho a tradução poderia ser: A única coisa que uma pessoa... Mais um problema. Trajo, do verbo traer (terceira pessoa, singular; pretérito indefinido indicativo, em espanhol), o que deveria corresponder à terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo trazer. Vejamos agora como ficaria a sentença em português: “A única coisa que uma pessoa trouxe à terra (ao mundo) foi o tempo de estar vivo”. O tempo do verbo poderia mudar, mais apropriadamente, para “traz”.
Naquele ensejo, perguntei: Será que alguém escreveria algo assim em português? Ou será que não ficaria melhor: “A única coisa que se traz ao mundo (quando se nasce) é o tempo de viver?” Entretanto, assim escrito a frase perderia todo o efeito de impacto. Além de muito pouco ter a ver com a expressão original.
Naquele momento, ter levantado apenas aqueles pormenores relacionados com as dificuldades inerentes às traduções, satisfazia-me. No entanto, hoje, em função do real significado do termo gaúcho – gentílico no Rio Grande do Sul e categoria social, quase um grupo étnico, na Argentina e no Uruguai – sentir a necessidade de voltar ao tema.
Agora, recentemente, em função do significado daquele termo – sua possível etimologia –, andei consultando o meu amigo, o poeta riograndense, Jean Scharlau, o qual, por ser muito conectado à internet, indicou-me alguns ganchos – também chamados, em “internetês”, de link(2) –, que sugeriram, sem convencer-me completamente, algumas inúmeras possibilidades de significações.
Gaúcho – em espanhol a palavra é paroxítona, ou seja, a sílaba tônica cai sobre o a e não sobre o u – podia ter sua origem em um termo comum às ilhas Canária, já que os casais que o Rei de Espanha mandou trazer para fundar a cidade de Montevidéu eram daquela ilha. Para os que viam naquela palavra os sinais etimológicos, vindos das ilhas Canárias, identificavam-no com Garruchos ou Gahuchos, lá relacionados com o labrego, o homem rústico do campo, algo assim como, em São Paulo e outros Estados do sudoeste do Brasil seriam os caipiras, e aqui na Bahia, o matuto. Essa informação(3) escudava-se nos apontamentos de Saint Hilaire, datados de 1820, em que eram mencionados “esses homens sem religião nem moral, na maioria índios ou mestiços que os portugueses designavam” daquela forma. Não havia dúvida que o termo gaúcho, até quase a metade do século dezenove, era usado de modo depreciativo, “aplicado aos mestiços de espanhol e português com as índias guaranis e tapes missioneiras” (4).
Mesmo considerando que a origem do nome seja bastante antiga, remontando ao século XVI, há quem diga também que essa origem seja um verdadeiro mistério, daí que muitos vão buscar explicações em diversas áreas. Algumas curiosas, como a que diz que por volta dos “[...] anos de mil setecentos (...), os habitantes do pampa era denominados como guascas, que significava tira de couro cru. Essa palavra é utilizada até hoje para se referir ao índio corajoso” (na verdade a algum descendente, porque índios naquela região não há mais), caracterizando as vezes uma pessoa de modos rústicos ou “grossa” – como se diz popularmente. Outra pista informativa leva-nos ao “historiador argentino Emilio Coni” – que aceita a opção da origem relacionada com gaudério – afirmando que, “por volta de 1770 surgiu o termo gaudério, aplicado aos ‘aventureiros paulistas que desertavam das tropas regulares para se tornarem coureadores e ladrões de gado’.” Coni diz mesmo, de forma peremptória, “que a expressão ‘gaúcho’ (tornara-se) corrente nos documentos a partir daquele ano, como sinônimo de gaudério e também para designar os ladrões de gado que atuavam nos dois lados da fronteira”.
Não havia dúvida, pois, que, para muitos, esse homem indômito – filho de brancos (espanhóis ou portugueses e, mui raramente, de algum escravo fugido), que conquistou vastas extensões da parte sul do nosso subcontinente, cujas vocações guerreiras, bem como a habilidade nas artes equestres ou na sua versão militar, mais conhecida como cavalaria, só encontrava paralelo entre os cossacos(5), fosse relacionado com o termo gaudério, significando este, entre outras coisas, vagabundo, no sentido de que o ser nada mais era do que ser andarilho, ou seja, ser uma espécie de cachorro sem dono, cão errante, “aquele que acompanha qualquer pessoa, abandonando-a logo para seguir outra”, segundo registra o Aurélio, configurando um significado nada nobre, para justificar o surgimento de um homem altaneiro e, incontestavelmente, bravo.
Havia ainda(6) “outra corrente, liderada pelo professor Fernando Assunção”, que recorria “à palavra francesa gauche, que significa esquerdo e, por extensão, tudo o que não é direito.” Afirmando que “o galicismo espanhol gaucho, aplicado em Geometria e Arquitetura” significava “aquilo que está fora de nível; e o primitivo gaúcho era considerado, dentro da superfície ou do plano social, como um defeito da raça espanhola”.
Mais além de que essa suposição, por excesso de eurocentrismo, chegue a ser um pouco risível, encontramos outra, talvez mais fundamentada, que se escora nos estudos linguísticos aplicados a idiomas que não chegaram a possuir alfabeto, como foram as línguas ameríndias, pois afirma que os guaranis não possuíam o som consonantal da letra correspondente ao h aspirado, que é usando naquela ciência, mais ou menos – para os leigos – como rr ou ere duplo. Essa informação encontra-se no livro do importante folclorista gaúcho, Barbosa Lessa(7),  “Rodeio dos Ventos”, que “aponta duas correntes: Uma, do falecido professor Buenaventura Caviglio, reporta-se ao instrumento garrocha, espécie de foice com que outrora cortavam o jarrete dos bois durante as caçadas de couro; garrucho seria o homem portador de garrocha; e como os guaranis não conheciam o som rr, passaram a dizer guahucho”, a qual não deixa de ser curiosa, ainda que o comum dos mortais não encontre, ali, nenhum som parecido com ere duplo.      
O mesmo Barbosa Lessa afirma que o termo tanto pode ter vindo do “quéchua ou do árabe ‘chaucho’ (um tipo de chicote para controlar manadas de animais)”. Afirma ainda que “[...] o primeiro registro da palavra se deu em 1787, quando o matemático português Dr. José de Saldanha [...]” usou-o no “[...] registro (que) deu em uma nota de rodapé em seu relatório de trabalho. O termo originou-se na língua indígena da descrição de pessoas de hábitos nômades, criminosos, brancos pobres, escravos fugidos ou índios aculturados que não possuíam terras e vendiam sua força de trabalho a criadores de gado nas regiões de ocorrência de campos naturais do vale do Rio da Prata, entre os quais o pampa, planície do vale do Rio da Prata e com pequena ocorrência no oeste do estado do Rio Grande do Sul, limitada, a oeste, pela cordilheira dos Andes.” Há que diga(8), porém, que, “[...] como a maioria dos brasileiros, (os gaúchos) são descendentes de uma mistura de europeus, índios e africanos, mas com algumas peculiaridades. O estudo apontou que os ancestrais europeus dos gaúchos seriam principalmente espanhóis e não portugueses. Isto porque a região foi por muito tempo disputada entre Portugal e Espanha e só foi transferida da Espanha para Portugal em 1750. O estudo também revelou um alto grau de ancestralidade indígena nos gaúchos pelo lado materno (52% de linhagens ameríndias), maior do que o dos brasileiros em geral. O estudo também detectou 11% de linhagens africanas pelo lado materno. Desta forma, os gaúchos são fruto sobretudo da miscigenação entre homens ibéricos com mulheres indígenas e, em menor medida, com africanas”.
Tendo chegado a essas informações, encontramos(9) ainda que “Alguns autores afirmassem que o termo gaúcho vinha do Guarani”. E significaria “homem que canta triste”, aludindo provavelmente à “cantilena arrastada dos minuanos” – índios que habitavam aquela região. Entretanto, algumas fontes, depois de dizerem que essa explicação não satisfazia a “maioria dos autores rio-grandenses”, aventava a explicação de que ela “seria uma corruptela da palavra Huagchu, de origem quéchua(10), traduzida por guacho, que significa órfão e designaria os filhos de índia com branco português ou espanhol, ‘registrados nos livros de batismo dos curas missioneiros simplesmente como filho de fulano com uma china das Missões’.” Sendo que fulano entrava ali como forma de ocultar o nome do pai, o qual desejava permanecer incógnito. E “uma china das Missões”, nada mais era do que uma forma de se nominar genericamente as índias ou mestiças, podendo ser, em alguns casos, o mesmo que puta.
Ao chegarmos ao termo quéchua, huagchu, nos aproximamos também do escritor e ensaísta argentino Marcos Aguinis (n. em 1925), ou do seu livro “El atroz encanto de ser argentinos”, que também adota essa teoria(11) de que aquela palavra significava bastardo. Conforme podemos ler: “El gaucho es controversial. Desapareció por causa de las levas forzosas, su sistemática y a menudo injusta persecución, y el alambrado implacable de la llanura donde ejercía su libertad. Excepto algunos casos puntuales como los gauchos de Güemes, la sociedad de entonces los consideraba producto de la paternidad irresponsable y adictos a la violación de la ley. Entre las diversas etimologías que se disputan el mérito de haber gestado su nombre, parece que la más acertada –y dolorosa– es guacho (del quechua: bastardo, hijo de puta)”.
Tendo uma origem tão controvertida, da qual nem mesmo os especialistas do Rio Grande conseguiram chegar a um consenso, não seria de causar espécie que o historiador argentino, ao ver falar em “filhos de índia com branco português ou espanhol” e que essas crianças tinham suas origens registradas nos livros de batismo “como filho de fulano com uma china das Missões” e se considerarmos que “china” pode ser também sinônimo de prostituta, começamos a compreender porque ele deduziu que “parecia a hipótese mais acertada –y dolorosa– era guacho (vinda do quíchua: bastardo, filho da puta”, o que pode levar-se a deduzir que histórica e etimologicamente, todos os “gaúchos” eram (podiam ser) bastardos, ou seja (o diz ele), filhos da puta. Esquecendo-se que o termo quíchua huagchu aplicava-se aos órfãos, não podendo se referir aos filhos das prostitutas porque, ademais, entre aqueles povos – que criaram o Incanato – não existia prostituição. Pelo menos não existia da forma tradicional que conhecemos e que teve (e tem) através dos séculos forte papel econômico. Logo, não podia existir entre eles filhos da puta, nem o termo para classificá-los. O que pode ter ocorrido é que o termo quíchua que se aplicava aos órfãos ou aos que ocasionalmente eram gerados extra-matrimônio – sem que isso implicasse em prostituição de suas mães –, pudesse aplicar-se a algum eventual bastardo(12), por isso, então, passara a se empregar também em relação aos inúmeros filhos de brancos com índias, fosse por meio de violência ou por remuneração. Porém isso se dera depois da colonização. E a palavra quíchua, huagchu, porém, existia na língua daquele povo antes da chegada dos espanhóis.
Entre as muitas etimologias para a palavra gaúcho, o mesmo amigo Jean Scharlau mandou-me uma, extraída de fonte(13) em espanhol, que afirma ser esse termo comum a algumas línguas sul-americanas, tendo em todas elas significados próximos. Em Aimará seria huajcha, o mesmo que órfão; em quíchua seria huaccha, o mesmo que pobre ou órfão; em mapudungun, seria huachu, o mesmo que filho ilegítimo. Diz o autor que a palavra gaúcho poderia ter sido criada por qualquer dessas línguas. Porém, ela deve ter vindo mesmo por meio do quíchua porque foram esses povos que primeiro travaram contato com os espanhóis. Diz ainda que, segundo Joan Corominas(14), esta palavra provem mesmo do quíchua uájcha, significando pobre, indigente, órfão. Tendo o diminutivo de uaj, que quer dizer estrangeiro. Como curiosidade, há um comentário(15) que diz que, no Equador, a palavra deu origem a guacho, o mesmo que órfão; e a guáchara, que significa viúva. É dito ainda que os bilhetes de loteria são chamados popularmente de guachitos. Deduzindo-se que são os filhinhos da viúva, podendo deduzir-se ainda que algumas mulheres pobres (e viúvas) vendem esses bilhetes para sustentar seus filhos. Por outro lado, é justo esclarecer que há algumas evidentes diferenças de grafia entre as palavras citadas neste parágrafo, como, por exemplo, huajcha e uájcha, é que os lingüistas de fala inglesa e alemã ainda não chegaram a um consenso sobre qual a forma correta de escrevê-la(16). Coisa natural, se levarmos em conta o tamanho da fogueira de vaidades que existe nas diferentes academias.
Aliás, sempre que penso nessa palavra vinda de um idioma hoje tão remoto, associo-a – quiçá por ato falho – a outra que acabou incorporando-se a alguns idiomas latinos, com propriedades bem diferentes das originais. Refiro-me a fidalgo, palavra surgido no século XVIII, cuja etimologia leva-nos a filho d’algo, ou seja, a filho de alguém muito importante, no caso, por possuir muito dinheiro, ou seja, ouro. E esse alguém muito importante poderia ser uma pessoa da burguesia ascendente, mas sem sangue azul, que enriquecera. Dessa forma, essa palavra, acabou por designar aqueles que possuíam títulos de nobreza, herdados de seus antepassados ou concedidos pelo rei. Ou seja, passou a denominar os próprios nobres, os aristocratas. Assim colocado, lembro-me também da bela metáfora do compositor Chico Buarque de Holanda, quando diz: “Saudade é o revés do parto”. E sou levado a pegar carona em sua figura, dizendo que huagchu é uma espécie antítese ao revés (ou seu antônimo), já que significaria filho de alguém que não se sabe quem é. E que, tampouco, era importante.
  

Valença, BA, 18 de fevereiro de 2012
© Araken Vaz Galvão




(1) Publicado em “Trivio” crônicas, edição do Autor, Valença, BA, 2010, pág. 163. A crônica em questão, escrita 02-05-2010, chamou-se precisamente “Problemas de Tradução”.
(2) Vejo agora no Aurélio – digo-o a título de curiosidade – que essa palavra é a redução de hyperlink, – termo do inglês da internet – que poderia ser traduzido por elo (no sentido de remitir a outro texto) ou vínculo. Infelizmente o Aurélio não fornece o plural. Engraçado é que o termo gancho serviria perfeitamente para substituí-lo, se não houvesse, entre nós, tanta ânsia em se falar inglês.
(3) Informação recolhida na Internet, onde cita apenas como tendo a sua “origem: História Ilustrada do Rio Grande do Sul – CEEE”. 
(5) Grupo étnico da estepe russa, hábeis soldados de cavalaria, famosos como força repressora do Tzar.
(6) (http://razoesdobocabraba.blogspot.com/2011/03/origem-da-palavra-gaucho.html)
(7) Cujo nome completo era Luiz Carlos Barbosa Lessa.
(8) http://pt.wikipedia.org/wiki/Ga%C3%BAcho
(10) Idioma andino, inclusive falado por povos de parte da Argentina, no caso aqueles povos que foram dominados pelos Incas, já que esta era a língua daquele Império. 
(11) AGUINIS, Marcos. “El atroz encanto de ser argentinos”, Planeta, Buenos Aires, 2001, pp. 57.
(12) Sabe-se que entre aqueles povos a união carnal – chamemos assim – dava-se de forma espontânea, sem o ritual coercitivo existente entre os colonizadores. Em outras palavras, se a união não vingasse, os cônjuges separavam-se, voltando a ficar ambos na mesma situação existente antes da união, sem que fossem chamados de “separados” ou algo similar. A provisão dos filhos que por ventura houvesse seria arcada pela comunidade, sem nenhuma discriminação. Isso é, pelo menos, o que dizem os antropólogos andinos. 
(13) Informação em espanhol: F:\GUACHO.mht
(14) Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana, mas não sita outros dados identificadores, como editora, lugar onde foi impresso, nem o ano.
(15) A mensagem é assinada por Ivan Noboa Tapia.  
(16) As línguas ameríndias – em particular as dos Andes – os lingüista atuais não conseguiram sequer chegar a um acordo sobre qual a forma correta (ou mais prática) de grafá-la. No caso de uma das principais, a falada no Incanato, se por um lado alguns a escrevem quíchua, outros a escrevem quéchua. Caso similar ocorre com o nome da capital dos Incas, encontra-se Cusco, Cuzco e até Qosqo. Não seria, pois, de se estranhar que algo similar não ocorresse também com a grafia de outras palavras. (Informação contida em uma dessas mensagens que nos chegam de pessoas desconhecidas, não se sabe como, que fala de “Projeto Fábula no Atacama”, onde há um texto em que se realça essa confusão na forma de escrever a mesma palvra, dependendo na nacionalidade de quem a escreve, atribuído a Urda Alice Klueger, dizendo apenas que ela é uma “historiadora do Vale do Itajaí”. Dessa forma, em falta de outros dados, deixo aqui o que tenho como crédito a quem de direito).



6.1.13

O Mensalão e o Legacy

Tinha escrito uma boa cota – boa no sentido da minha pouca resistência até para fazer o que mais gosto: escrever –, quando para arejar a cabeça, como diz o vulgo, fui sentar-me na sala de TV, da minha casa, quando, desejando proceder de forma estúpida, liguei o aparelho que Stanislaw Ponte Preta chamou de máquina de fazer doido, mas que evoluiu muito daquela época a esta fase, tornando-se máquina de fazer asnos.
Ali estando, frente ao mágico aparelho, deparei-me com a notícia sobre o final (ou quase, já processo da justiça costumam demorar décadas) do julgamento do processo do Legacy, o avião que causou um dos maiores desastres da história da aviação brasileira, cujo desfecho, em primeira instância, resultara na condenação dos dois pilotos dos Estados Unidos – os principais responsáveis pelo acidente – em penas de um pouco mais de quatro anos de prisão, com a proibição daqueles pilotos (eram dois) de exercerem o ofício de pilotar aviões, em particular sobre o espaço aéreo brasileiro.
Farto de tanto ouvir a chamada grande imprensa cantar loas a atitude da maioria dos membros do Supremo Tribunal Federal pelo rigor com que aquela egrégia Corte estava zelando pela aplicação (quiçá draconiana) da Lei – ao ponto de estar sendo dito que estão refundando a República –, em um caso bastante corriqueiro, diga-se por agregar algo, não só entre os políticos do Brasil, como os de todo o mundo: venda de votos, tráfico de influência e de favores, recebimento de cargos públicos como benesses pessoais e outras maracutaias. Ou seja, aplicava a Lei com rigor como se aquele fosse um caso excepcional.
Qual não foi a minha surpresa ao ouvir que os desembargadores – o que significa que o caso foi julgado em segunda instância –, não só reduziram as condenações dos dois pilotos estadunidenses, como revogaram a proibição de eles pilotarem.
Sem maiores indagações sobre as razões de tal reviravolta do processo, começou a intrigar-me vários fatos: O silêncio total da mesma chamada grande imprensa; o súbito emudecimento das redes sociais – em particular as do sudoeste do país –, tão ciosas em levantar seus brados indignados contra pobres e nordestinos, ou contra todos aquele que não são da panelinha ou mesmo contra determinados políticos que não fazem parte da elite dominante, que se julga ter 400 anos ou mais, cujo nome em inglês – idioma que aqueles tuiteiros e afins gostam de usar –, se não me engano, é offside
Foi então que me lembrei de uma máxima de George Orwell que, mesmo reconhecendo que a lei é igual para todos ou que todos são iguais perante a lei, afirma, porém, que existem alguns que são mais iguais que outros.
  Só pude concluir que sendo aqueles pilotos, os que foram considerados os principais responsáveis pelo desastre, com o avião da GOL, que ocasionaram a morte de 155 passageiros, por serem pessoas de olhos verdes (ou azuis), serem loiros, falarem inglês e, principalmente, serem cidadãos dos Estados Unidos só podia ser mais iguais do que “essa gente bronzeada”, cuja parcela expressiva de membros não tem nenhum valor ou amor próprio – mas tem amor ao Estados Unidos. Em outras palavras, não tem vergonha na cara.

12.11.12

                             O Mensalão e as Redes Sociais


Farto de tanto ouvir a chamada grande imprensa cantar loas a atitude da maioria dos membros do Supremo Tribunal Federal pelo rigor com que aquela egrégia Corte estava zelando pela aplicação rígida da Lei – a ponto de estar sendo dito que estão refundando a República –, em um caso bastante corriqueiro, diga-se por agregar algo, não só entre os políticos do Brasil, como os de todo o mundo: venda de votos, tráfico de influência e de favores, recebimento de cargos públicos como benesses pessoais e outras maracutaias. Comecei a pensar que, finalmente, a justiça brasileira começava a não só tornar-se célere, como a ser equânime.
Qual não foi a minha surpresa ao ouvir que os desembargadores de Justiça Federal, ao que parece, de Brasília – o que significa que o caso foi julgado em segunda instância –, não só reduziram as condenações dos dois estadunidenses, como revogaram a proibição de eles pilotarem avião, inclusive no Brasil. Concedendo-lhes, ademais, o direito a prisão domiciliar, a qual – como não pode deixar de ser – será cumprida e fiscalizada pelas autoridades dos Estados Unidos.
Sem maiores indagações sobre as razões de tal reviravolta do processo, começaram a intrigar-me vários fatos: O silêncio total da mesma chamada grande imprensa; o súbito emudecimento de determinados jovens das redes sociais, que se julgam donos da verdade – em particular os do sudoeste do país –, tão ciosos em levantar seus brados indignados contra pobres e nordestinos, ou contra todos aqueles que não fazem da panelinha ou fazem campanha contra determinados políticos que não são parte integrante da elite dominante, que são classificados (Como, mesmo?) com o nome em inglês – no idioma que aqueles tuiteiros e afins gostam de usar –, que, se não me engano, é offside. Perplexo e espantado, lembrei-me também de um piloto dos Estados Unidos fotografado “mostrando o dedo em riste”, em um gesto de óbvia provocação, bem ao gosto dos ianques, por ter sido obrigado, em um procedimento de reciprocidade, a também tirar uma foto ao desembarcar em nosso território, cumprindo semelhante exigência que eles tinham adotado em seus aeroportos, lá na terra deles. Em fim, fatos passados que os tuiteiros fascistoides, e amantes dos Estados Unidos, nunca se lembram.  
Foi então que pensei em uma máxima de George Orwell a qual constata, mesmo reconhecendo que a lei é igual para todos ou que todos são iguais perante a lei, faz, porém, a ressalva, que existem alguns que são mais iguais que outros.
  Só pude concluir que, sendo aqueles pilotos, considerados os principais responsáveis pelo desastre com o avião da GOL, que ocasionou a morte de 155 passageiros, pessoas portadoras de olhos verdes (ou azuis), possivelmente loiros, falantes do idioma inglês e, em particular, cidadãos dos Estados Unidos, só podiam ser mais iguais do que “essa gente bronzeada” da pátria verde e amarela, cuja parcela expressiva de membros não tem nenhum valor ou amor próprio – mas, por seu turno, reverenciarem aos Estados Unidos. Em outras palavras, não tem vergonha na cara ou sofre de complexo de vira-lata.
Não tinha ainda digerido completamente a realidade consensual de que há uma justiça para os membros da Casa Grande (e para seus imperiais senhores) e outra para os cidadãos (de segunda classe) da Senzala ou mesmo dos seus aparentados, quando fui surpreendido com a absolvição do famoso (e muito rico) publicitário. Esse no chamado processo do Mensalão.
Nada a declarar. Se o Rio de Janeiro continua lindo – com a vênia de Gilberto Gil – a justiça brasileira continua igual. Enquanto isso, os “indignados que batem palmas” e os tuiteiros, do tipo a uma bela atriz da TV, continuam os mesmo estúpidos de sempre, achando que, realmente, a republica está sendo refundada. Só que este verbo, da forma como o estão empregando, pode até ser sintomático, pois ele não significa recriar, mas “tornar mais fundo; afundar, profundar, aprofundar.” O que pode indicar que vamos para o fundo... Do poço. Amém.
₢ Araken Vaz Galvão

19.9.12

De volta

Em minha mais remota juventude – remota no sentido real do termo – conhecia uma música, das muitas que conheço a letra, cantada, se não me engano, por Carmem Miranda, cujos autores eram Vicente Paiva e Luiz Peixoto, se não me falta a memória, que, nos versos iniciais, dizia: “Voltei pro morro/ Quero ver o meu cachorro/ Meu cachorro vira-lata, minha cuíca, meu ganzá”. Desafinado e melancólico (como diria Drummond), além de não cantar, para não o fazer de forma grotesca, e não sendo afeiçoado a cachorros – nem aqueles considerados “nobres” –, tampouco por não ter intimidade com cuícas – instrumento (cuja origem é atribuída aos africanos, existindo, porém, quem afirme que é indiana) que acho possuidor de um som belíssimo –, nem com ganzás (o qual, por sua vez, teria vindo dos nossos índios, tendo sua origem no maracá e no pau de chuva, embora alguns lhe atribua origem africana), mesmo reafirmando minha volta, ao chegar a Valença, terminei por optar por evocar não mais a música de Vicente Paiva e Luiz Peixoto, mas outra, bem mais recente, de Dominguinhos e Nando Cordel, que Elba Ramalho cantou, cuja letra, bem mais romântica, diz: “Estou de volta pro meu aconchego/ Trazendo na mala bastante saudade/ Querendo/ Um sorriso sincero, um abraço,/ Para aliviar meu cansaço/ E toda essa minha vontade/ Que bom, / Poder tá contigo de novo...”
Contentar-me-ei em parar por aqui, já que os versos de Nando do Cordel são claramente de cunho amoroso, no caso de relação entre uma mulher e um homem, cujo sentido desejo alterar, não só para não gerar (nestas épocas de tantas opções sexuais heterodoxas) confusão, mas para dar-lhe um sentido claro de amor fraterno entre pessoas, uma vez que o meu aconchego, no sentido que estou pensando, é a cidade onde moro, Valença BA, e a essas visitas esporádicas neste blog.
Assim sendo, é natural que traga muitas saudades, não só da cidade em si, mas dos amigos que possuo em ambas, cidade e mundo virtual. Claro que da parte daqueles que me são mais íntimos, espero mesmo “um sorriso sincero, um abraço” e – por que não? – um singelo “seja bem-vindo”. Porque gestos assim significam um alívio ao cansaço do corpo, ocasionado pelo efeito da radioterapia, como também por funcionar como um bálsamo para aliviar a fadiga d’alma. Resultando, pois, em mais forças para ver-me livre de toda essa vontade de trabalhar pela cultura. Dessa forma, só posso usar da letra da segunda canção para dizer: que bom poder estar com vocês de novo.
Araken Vaz Galvão