19.3.15

Desespero

Em diversas oportunidades, ao me defrontar com o desespero ou com pessoas desesperadas (quem na vida, em determinados momento não se sentiu desta forma ou próxima dela?), tenho citado os veros da canção argentina de Ariel Ramírez / Félix Luna, Alfonsina y el Mar, que o vozeirão de Mercedes Soza trouxe aos nosso ouvidos na década de 70, um pouco antes e até um pouco depois (e até a eternidade, enquanto existir meios de reprodução sonora ou que continue existindo alguém com sensibilidade suficiente para reproduzi-la em voz própria aquela bela canção.
Os versos a que já me referi diversas vezes, dizem: “Sabe deus que angústia te acompanhou/ Que dores antigas calou tua voz” (Sabe Dios que angustia te acompañó/ Que dolores viejos calló tu voz), cuja beleza, em momentos dramáticos como este que estou passando, não me canso de citar.
“Momentos dramáticos como este” a que me refiro agora está relacionando com o suicídio de um antigo companheiro do processo de resistência contra a ditadura – ditadura nascida de um golpe de estado ocorrido em 1964, quando (sintomaticamente como está sucedendo agora) as populações da classe média do sudoeste (São Paulo, em particular, mas também de Minas e Rio de Janeiro), e a população dos bairros ricos (Jardins em SP e Ipanema/Leblon, no Rio), saem às ruas clamando contra o governo limpa e legalmente eleito, falando em impeachment (da mesma forma que falaram em 1964) –. Recebi a notícia do suicídio do companheiro Marco Antônio Maranhão, o Marcão, pessoa a quem conheci ligeiramente, ele era marinheiro, mas, entes de tudo um bravo. Tinha sido dirigente da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil[1], creio que seu vice-presidente, participou ativamente no episódio do Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, um dos fatos que serviu de justificativa para o desencadeamento do Golpe de 1964. Preso e condenado fugiu da prisão de armas em punho, atirando. Ativo participante da resistência à ditadura foi preso novamente quando praticava uma ação de requisição de recursos para financiar a luta armada. Saiu do Brasil mediante a troca pelo embaixador da Suíça, que havia sido sequestrado em uma ação que o exilado político (em Montevidéu, Uruguai), Neiva Moreira, chamou de habeas corpus à mão armada. Tendo ido inicialmente para o Chile. Com o golpe naquele país, perdi as informações dos seus passos. Imagino que teria voltado para o Brasil, como a maioria absoluta de todos nós, depois da anistia.
Um pormenor, talvez pouco sabido por muitos é que Marco Antônio era chamado pelo aumentativo, Marcão, porque era negro, e assim o fizeram para diferenciá-lo de Antônio Geraldo da Costa, que era também negro, e chamado de Neguinho.
Este companheiro, diga-se de passagem, foi o último exilado a voltar à Pátria depois de 40 anos de exílio. Este fato foi muito comentado pela imprensa da época.
Como o disse, meu contato com Marcos Antônio foi muito fugaz, ele era figura de destaque no Movimento dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, eu tinha meu papel no Movimento dos Sargentos, com destaque entre os sargentos do Exército. E como tínhamos como princípio, por razões de hierarquia, além do fato de que éramos de Armas diferentes, os contatos se davam quando necessários por canais próprios.
Hoje, dia 19 de março de 2015, recebi de uma abnegada companheira Eli Eliete – célebre por labutar em manter, senão juntos, mas, pelo menos um recebendo notícias do outro –, a mensagem que se segue:
“Estou mais que chocada...
O Marcão, Marco Antônio Maranhão, nosso companheiro, ex-militante do PCBR, suicidou-se. Jogou-se pela janela de um hotel esta madrugada, no Rio.
Ele era um dos 70 presos políticos que chegou ao Chile em janeiro de 71 trocado pelo embaixador suíço.
O Marcão estava cheio de problemas pessoais... Quem o conheceu sabe como ele era explosivo...
Premeditou. Deixou bilhete. Antes, tirou todo o $$$ que tinha no banco e passou para a conta da mulher, Mª Lúcia, mãe do filho...
Tristeza. Lamentamos muitíssimo!
Parece que o corpo será cremado no Caju. Depois enviamos mais detalhes.
Eli.”
Este triste episódio, além de ter-me feito evocar a canção de Ariel Ramírez / Félix Luna, Alfonsina y el Mar – que toda a nossa geração conheceu na voz de Mercedes Souza –, no caso, os versos que dizem: “Sabe deus que angústia te acompanhou/ Que dores antigas calou tua voz”, os quais sinto a necessidade de repeti-los, também me faz lembrar de um jovem estudante – jovem quando esteve preso no quartel do Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, de nome Marcos Medeiros, que também, em igual gesto de desespero, suicidara, na mesma cidade, em cuja memória dediquei duas crônicas em meu livro, “...das Prisões e do Exílio – Crônicas”, recém-lançado[2] .
A crônica que abre o livro é, justamente sobre Marcos Medeiros, em que falo como o conheci e, na segunda crônica, como soube do seu dramático suicídio.
Há, infelizmente, três terríveis coincidências entre os dois. Ambos tinham no prenome a palavra Marcos; ambos foram nomes de destaque na resistência à ditadura; ambos se suicidaram. Além de que ambos merecem o reconhecimento eterno de todos aqueles que amam o Brasil e, portanto, abominam todo e qualquer tipo de golpe. Sejam quais forem os pretextos.
Descanse em paz Marco Antônio Maranhão, Marcão, da mesma forma que temos certeza que Marcos Medeiros encontra-se em paz.
Golpe nunca mais!


Valença, Ba, 19 de março de 2015
© Araken Vaz Galvão




[1] Era presidente desta Associação – pode ser dito, por quem gosta de adjetivos, Gloriosa –, o traidor Anselmo, de alcunha, Cabo, o que não depõe em nada contra o papel que aquela Associação desempenhou pelas melhorias da situação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais e, depois, vários dos seus dirigentes, na luta contra a ditadura. Marco Antônio Maranhão, o Marcão, junto com Antônio Geraldo da Costa, o Neguinho, Amaranto Jorge Moreira e tantos outros.   
[2] Este livro foi publicado graças ao apoio do setor editorial da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), o qual, devido a um engano de edição, saiu o contrário: “Crônicas das Prisões e do Exílio”. Este percalço o é de somenos, porém pareceu-me prudente deixar registo.

12.3.15

Feliz Dia do(a) Bibliotecário(a)!

A Fundação Cultural Euzedir e Araken Vaz Galvão - FUNCEA, através dos seus instituidores Araken Vaz Galvão e Euzedir Miranda de Achieta, parabeniza e homenageia pelo dia todas e todos bibliotecárias e bibliotecários do Brasil!!!


3.3.15

Velhas Lembranças




Depois de uma longa crise de memória, a qual atribui a um tratamento complicado que tinha feito, somado aos problemas de idade que, por sua vez, já desgasta as recordações – principal razão da existência da memória – uma manhã destas passadas, despertei quase feliz: lembrava-me de um fragmento de verso do qual desconfiava pertencer a uma canção (folclórica e de ordem similar) que falava em pires e mingau, além de coisas quebradas. Não conseguia atinar de onde vinha aquela recordação e, tampouco, qual seria a razão da insistência da continuação daquele fiapo de lembrança de minha infância.
Passei toda uma semana com aquele fragmento de verso na cabeça, o qual a toda hora surgia na mente, indo e vindo, vindo e indo. Decidi recorrer ao google encontrei a referência abaixo[1]: “Desde aquela época, eu já gostava de cantar: minha voz alta, límpida e afinada – além da boa dicção –, se destacava dentre as dos demais alunos do colégio. Um belo dia, o mesmo Padre Raimundo me convidou pra cantar, com ele ao violão, numa festa de despedida do ano letivo. O nome da música, e dela própria, ainda me lembro: “Quebradeira”. A letra era mais ou menos assim: “Quebra, quebra até cansar, yá yá, quero ver quebrar: quebro o prato da comida, quebro o pires do mingau, quebro o copo da bebida, fica só colher de pau; meto a mão na cristaleira, quebro tudo que tiver, e no fim da quebradeira, eu como é de colher…”.
No mesmo instante, antes mesmo de acabar de ler toda a informação, lembrei-me de toda a canção, só que, na versão que conhecia, a letra era um pouco diferente. Dizia assim: “Quebra, quebra guabiraba, quero ver quebrar. Quebra lá que eu quebro cá, quero ver quebrar. Quebra o prato da comida, quebra o pires do mingau, quebra o copo da bebida, fica só colher de pau; meto a mão na cristaleira, quebro tudo que tiver, e no fim da quebradeira, como é de colher…”. Não sabia, porém, que o nome da canção era “Quebradeira”.
A matéria no google não dizia a origem da música, quem a compusera e fizera a letra. Dou muita importância estes detalhes, pois sem eles a informação muito carecerá de importância.
Foi então que decidi escrever esta nota, já que tinha duas outras músicas (canções) na memória, quem sabe alguém, como eu, não possuía alguma informação. Este tipo de trabalho, embora muitos não valorizem, é fundamental para a preservação de memória popular do nosso povo, em uma época em que tanto se valoriza tudo que vem de fora.
Assim pensando, decidi transcrever o que me lembrava de uma canção que ouvi muitas vezes, quando criança, isto no tempo da II Grande Guerra, quando morava na Fazenda Veneza, do meu avô paterno, na Bahia, ou seja, passei a morar depois que fiquei órfão, na década de 40.
Pensando desta forma, sem muito esforço, comecei a escrever a nota, em que fazia alusão a primeira das letras da canção, cujo título e autor(es) não sei. Esta lembrança também não saía da minha cabeça, isto faz já alguns anos. Da última vez que fiz parte do Conselho Estadual de Cultura, ocasião em que também fui seu presidente, indaguei a alguns membros, mais idosos, porém ninguém conhecia aquela canção. O que me lembro, mais ou menos textual, é o que segue: “É só pra homem Lelê/ é só pra homem Lalá/ É só pra homem/ Mas mulher pode escutar”. Esta parte, que servia também de refrão, continuava com outra, não sei se fazia ou não parte do refrão, o qual dizia: “Balança os cachos Lelê/ Balança os cachos Lalá/ Balança os cachos que te dou vinte mil reis”. Continuava: “Balança os cachos Lelê/ Balança os cachos Lalá/ Balança os cachos, prometi vinte dou dez”.
A segunda parte dizia: “Dom Bacalhau hoje em dia é barão/ Está andando de avião e vai pra toca lá no céu/ Dona Manteiga também mora num sobrado/ Está lá de braços dados com Dom Queijo na janela/ O podre agora se quiser encher a pança/ De pelanca da matança lá da mão do magarefe/ Aquela pelanca o pobre bota pra ferver/ E quando faz o de-comer/ A meninada logo avança/ Uma lufa-lufa enquanto um puxa o outro estufa/ mastigando aquela bucha/ e tome lá pirão na pança”.
Esta, felizmente, não precisei procurar, pois lembrava desde minha infância, quando, lá na fazenda, do meu avô, ouvia no rádio e, por razões desconhecidas, graças a minha memória privilegiada, nunca esqueci. Mas, procurando para dar as informações de praxe, nada encontrei.
Neste fragmento – seguindo o preceito de informar e registrar para que demonstrações da nossa cultura popular não se percam, lembrei que magarefe: substantivo masculino – segundo o Houaiss –, como primeira opção: “indivíduo que abate e esfola as reses nos matadouros; açougueiro, carniceiro”. Como segunda, seria uma derivação, por extensão de sentido, relacionada a um “mau médico, em especial cirurgião inábil”. Por último, também derivação, por extensão de sentido, refere-se ao “indivíduo desonesto, biltre; patife, velhaco”. O mais curioso é que esta profissão, com o modus faciendi – digamos desta forma – que existiu, não existe mais. Quando cheguei a Valença, BA, já faz mais vinte anos passado, existia um Matadouro (muito pouco higiênico, diga-se de passagem) – na saída para Cajaíba – em que as rezes eram abatidas, mediante goles de machado na testa e sangria, o que configurava em um completo estreses do animal, prejudicando a já pouca qualidade da carne. 
Bem, feita a divagação esclarecedora, passo agora, a terceira lembrança. Esta nada encontrei no google, tampouco me lembro de toda a letra. Imagino que ela – como as outras músicas – era cantada por uma daquelas duplas caipira, popularíssimas nos anos 40/50, como Alvarenga e Ranchinho ou Jararaca[2] e Ratinho, que cantavam no rádio, que faziam programas de grande audiência naquela época.
O que me lembro, é apenas o que dizia assim: “Sobe seu José/ Sobe seu José/ Sobe, sobe, sobe que ainda cabem oito em pé/ Eu viajei em pé da cidade ao Catumbi/ Que charivari![3]/ Vi as coisas amarelas/ E quando então completou a lotação/ Ainda veio o trocador chutando nossas canelas”.
Agora, tendo descoberto[4] qual era a palavra que me parecia Periperi – termo, cujo som, eu confundia com aquele logradouro baiano –, e seu significado, ficou mais fácil deduzir qual o sentido do verso, que fala de Catumbi, Bairro do Rio de Janeiro, localizado no final do Sambódromo, tendo ao fundo uma favela, a qual como todas as favelas do Rio de hoje, muito violenta. Por outro lado, como era ainda muito jovem, criança, associava ao bairro do subúrbio de Salvador, meu (e nosso) conhecido.

Valença, Ba, 25 de fevereiro de 2015

© Araken Vaz Galvão



[2] Cujo nome era José Luís Rodrigues Calazans (1896-1977), natural de Alagoas, além de humorista, foi também um talentoso compositor de música popular. Militante do Partido Comunista esteve preso algumas vezes devido sua participação em causas populares.
[3] Termo de origem francesa – possivelmente gíria de lá – que significava muito barulho; tumulto, confusão, algazarra; pode ser associado à música de má qualidade, ruim, cacofonia musical. Hoje, no Brasil (e no Rio) já não se usa ou somente se usa em grupos muito restritos.
[4] Resulta, porém, que esta música, a única que eu não lembrava a letra completa, por esforço da Juscy, fiquei sabendo que é da autoria de Haroldo Lobo (1910-1965), cujo título é “Oito em Pé”, foi gravada por Aracy de Almeida. Para o carnaval de 1942. Créditos, pois, para Juscimare Souza. 

11.2.15

Prefácio à primeira edição d’O Reino deste Mundo

Tradução de João Olavo Saldanha
Com notas explicativas de Araken Vaz Galvão

...Entender-se-á com isso de se transformarem em lobos
que existe uma enfermidade à
qual os médicos chamam mania lupina...

(DE “OS TRABALHOS DE FERSILES E SEGISMUNDA”)


Em fins de 1943 tive a sorte de visitar o reino de Henri Christophe — as ruínas, tão poéticas, de Sans-Souci; a grandeza imponente da Cidadela La Ferriére[1], intacta apesar dos raios e dos terremotos — e de conhecer a ainda normanda Cidade do Cabo, o Cap Français da antiga colônia, onde uma rua cercada por longuíssimos balcões conduz ao palácio de pedras brancas habitado antigamente por Paulina Bonaparte[2]. Depois de sentir o tão bem propalado sortilégio das terras do Haiti, de ter encontrado as advertências mágicas pelas estradas de terra vermelha da Meseta Central, de ter ouvido os tambores de Petro e Rada[3], fui tentado a aproximar aquela maravilhosa realidade recém-vivida à exaustiva pretensão de suscitar o maravilhoso que caracterizou certa literatura europeia nestes últimos trinta anos. Aquele maravilhoso, revivido através dos velhos clichês da Floresta de Brocelianda[4], dos Cavaleiros da Távola Redonda, do feiticeiro Merlin e do Ciclo do Rei Artur. O maravilhoso, parcamente sugerido por ofícios e deformidades de personagens de feira. Não se cansam nunca os jovens poetas franceses dos mostrengos e palhaços da fête foraine[5], dos quais Rimbaud[6]já se despedira na sua Alquimia do Verbo? O maravilhoso, obtido com truques de prestidigitação, reunindo objetos sem finalidade alguma: a velha e embusteira história do encontro fortuito do guarda-chuva e da máquina de costura em cima de uma mesa de dissecação, gerador das colheres de arminho; os caracóis no táxi chuvoso; a cabeça de leão na pélvis da viúva, exibidos amiúde nas exposições surrealistas. Ou ainda, o maravilhoso em literatura: o rei, da Julieta, de Sade[7]; o supermacho, de Jarry[8], o monge, de Lewis[9], e o tétrico instrumental da novela negra inglesa, com seus fantasmas, sacerdotes emparedados, licantropias e mãos cravadas na porta de um castelo. Mas à força de suscitar o maravilhoso a todo transe, os taumaturgos tornaram-se burocratas. Invocado através de fórmulas arquissabidas – que transformam certas pinturas num monótono armarinho de relógios derretidos, manequins de costureira e vagos monumentos fálicos – o maravilhoso resulta apenas num guarda-chuva, numa lagosta, numa máquina de costura, ou o que seja, sobre unia mesa de dissecação, no interior de um quarto triste ou num deserto de pedras. Aprender códigos de memória é pobreza de imaginação, já dizia Unamuno[10]. E hoje existem códigos para o fantástico, baseados no princípio do burro devorado por um figo, proposto nos Cantos de Maldoror[11] como suprema inversão da realidade, aos quais devemos tantos “meninos ameaçados por rouxinóis” ou “cavalos devorando pássaros”, de André Masson[12]. Entretanto, convém observar que quando André Masson quis desenhar a selva da ilha da Martinica, com o incrível entrelaçamento de suas plantas e a obscena promiscuidade de certas frutas, a maravilhosa verdade do tema devorou o pintor, deixando-o pouco menos que impotente frente ao papel em branco. E foi preciso um pintor da América, o cubano Wilfredo Lam, para nos ensinar a magia da vegetação tropical, a desenfreada Criação de Formas da nossa natureza – com todas suas metamorfoses e simbioses – em quadros monumentais que ocupam hoje uma posição ímpar na pintura contemporânea. Ante a desconcertante pobreza de imaginação de um Tanguy[13], por exemplo, que há vinte e cinco anos pinta as mesmas larvas pétreas sob o mesmo céu cinzento, tenho ganas de repetir aquela frase que enchia de orgulho os surrealistas da primeira fornada: Vous qui ne voyes pás, pensez a ceux qui voient[14]. Ainda existem, porém, muitos adolescentes que encontram prazer em violentar Cadáveres de mulheres recém-mortas (Lautremont[15]), sem se darem conta do maravilhoso que seria violentá-las vivas. Acontece que muitos esquecem – disfarçados de mágicos baratos – que o maravilhoso começa a sê-lo, de maneira inequívoca, quando surge de uma inesperada alteração da realidade (o milagre), de uma, revelação privilegiada da realidade, de um destaque incomum ou singularmente favorecedor das inadvertidas riquezas da realidade, ou de uma ampliação das escalas e categorias da realidade, percebidas com particular intensidade, em virtude de uma exaltação do espírito, que o conduz até um tipo de “estado limite”. Antes de tudo, para sentir o maravilhoso é necessário ter fé. Aqueles que não acreditam em santos não se podem curar com. milagres de santos, como também não podem entrar de corpo, alma e posses no mundo de Amadis de Gaula[16] ou de Tirante, o Branco[17], aqueles que não são quixotescos. Prodigiosamente fidedignas resultavam certas frases de Rutílio, nos Trabalhos de Persiles e Segismunda[18], sobre homens que se transformavam em lobos, porque, na época de Cervantes, em crença geral existirem pessoas atacadas pela mania lupina. E da mesma forma a viagem do personagem, desde Toscana até a Noruega, sobre o manto de uma bruxa. Marco Polo admitia a existência de aves que voavam carregando elefantes nas garras, e Lutero viu o Demônio de frente, em cuja cabeça atirou um tinteiro. Victor Hugo, tão explorado pelos colecionadores de livros sobre o maravilhoso, acreditava em aparições, porque estava seguro de ter falado, em Guernesey[19], com o fantasma de Leopoldina. Para Van Gogh, bastava ter fé no girassol para fixá-lo numa tela. Eis a razão por que o maravilhoso invocado sem fé – como o fizeram os surrealistas durante tantos anos – nunca foi senão uma artimanha literária, tão aborrecida, ao prolongar-se demasiadamente, quanto certa literatura onírica “arranjada” e certos elogios à loucura, tão comuns hoje em dia. Entretanto, nem por isso vamos dar a razão a determinados partidários do regresso ao realismo – termo que adquire, então, um significado gregariamente político – que não fazem senão substituir os truques de prestidigitação pelos lugares-comuns do literato “arrolado”, ou pelo escatológico deleite de certos existencialistas. Mas é indubitável que pouco se pode dizer em defesa dos poetas e artistas que louvam o sadismo sem, praticá-lo, que admiram o supermacho por impotência; que invocam espectros sem acreditar que respondam a seus cânticos; que fundam sociedades secretas, seitas literárias e grupos vagamente filosóficos, com santos, senhas e misteriosas finalidades – nunca alcançadas – sem que sejam capazes de conceberem uma mística válida ou de abandonarem hábitos mesquinhos para se atirarem de corpo e alma na fatalidade de uma crença.
Tudo isso ficou particularmente evidente durante minha permanência no Haiti, quando vivi em contato diário com aquilo que poderíamos chamar de Realidade Maravilhosa. Pisava eu numa terra onde milhares de homens ansiosos pela liberdade acreditaram nos poderes licantrópicos de Mackandal[20], a tal ponto, que essa fé produziu um milagre no dia da sua execução. Conhecia já a história prodigiosa de Bouckman[21], o iniciado jamaicano. Tinha já estado na Cidadela La Ferriére, obra sem antecedentes arquitetônicos, apenas vagamente anunciada nas Prisões Imaginárias, de Piranese[22]. Tinha também respirado a atmosfera criada por Henri Christophe[23], monarca de incrível tenacidade, muito mais surpreendente que todos os reis cruéis inventados pelos surrealistas, muito chegados às tiranias imaginárias, embora nunca padecidas. A cada passo encontrava a Realidade Maravilhosa. Pensava também que essa presença e vigência da Realidade Maravilhosa não era privilégio único do Haiti, senão um patrimônio de toda a América, onde ainda não se concluiu, por exemplo, um inventário de cosmogonias. Encontramos a Realidade Maravilhosa em cada passo das vidas dos homens que assinalaram as datas importantes da história do Continente e que deixaram nomes ainda lembrados: desde aqueles que buscavam a Fonte da Juventude Eterna ou a Áurea Cidade de Manoa[24], até os primeiros rebeldes, aqueles heróis modernos de nossas guerras de independência, de tão mitológica atitude, como aquela Coronela Juana de Azurduy[25]. Sempre me pareceu muito significativo que em 1780 um punhado de espanhóis prudentes, embarcados em Angostura[26], ainda se lançassem em busca do Eldorado; e mais, que na época da Revolução Francesa – Viva a Razão e o Ser Supremo! – Francisco Menéndez[27], de Santiago da Compostela, andasse pelas terras da Patagônia buscando a Cidade Encantada dos Césares! Sintonizando outro aspecto da questão, veríamos, por exemplo, que na Europa Ocidental o folclore de danças perdeu todo o seu caráter de magia e de evocação; e na América, por outro lado, rara é a dança coletiva que não encerre um profundo sentido ritual, criando-se em torno deste, todo um processo iniciado: assim, temos as festas de santos, em Cuba, e a prodigiosa versão dada pêlos negros à festa de. Corpus Christi, que pode ainda ser vista no povoado de São Francisco de Yare, na Venezuela.
Em determinado momento, o herói (no canto sexto do Maldoras), perseguido por toda a polícia do mundo, escapa de um “exército de agentes e espiões” adotando a aparência de diversos animais e jazendo uso de seu poder de transportasse instantaneamente parta Pequim, Madri ou São Petersburgo. Isso é literatura maravilhosa tia sua plenitude. Na América, porém, onde nunca se escreveu nada semelhante, existiu um Mackandal, dotado desses mesmos poderes pela fé de seus contemporâneos, que deu alento, com esse mesmo sortilégio, a uma das sublevações mais estranhas e dramáticas da História. Maldoror – confessa o próprio Ducasse – não passava de um Rocambole poético, e dele não ficou mais que uma escola literária de vida efêmera. De Mackandal, o americano, por outro lado, resta toda uma mitologia, acompanhada de mágicos cânticos, conservados por uma aldeia inteira, e que ainda hoje são cardados nas cerimônias do Vodu. (Também é uma estranha casualidade que Isidoro Ducasse, homem que possuía excepcional instinto do fantástico-poético, tivesse nascido na América e que se jactasse tão enfaticamente, no final de um dos seus cantos, serem de Montevidéu). Ë evidente, pela virgindade da paisagem, pela sua formação, pela ontologia, pela afortunada presença do índio e do negro, pela Revelação que constituiu seu recente descobrimento, pelas fecundas mestiçagens que propiciou, que a América ainda está muito longe de ter esgotado seu caudal de mitologias.
Sem que me propusesse sistematicamente, o texto que se segue responde a essa ordem de preocupações. Nele se narra uma sucessão de fatos extraordinários, ocorridos na ilha de São Domingos, numa época determinada, que não alcança o período de uma vida humana, deixando-se que o maravilhoso emane livremente de unia realidade estritamente seguida em todos os seus detalhes. Porque é mister advertir que o relato que se segue foi estabelecido com base numa documentação extremamente rigorosa, que respeita a verdade histórica dos fatos, dos nomes dos personagens – incluindo os secundários – dos lugares e até das ruas, e que oculta também, sob sua aparente intemporalidade, um minucioso cotejo de datas e cronologias. Entretanto – pela dramática singularidade dos acontecimentos, pela fantástica presença dos personagens que se encontraram em de terminado momento na encruzilhada mágica da Cidade do Cabo (Cabo Français da antiga colônia do Haiti) – tudo é maravilhoso, nessa história impossível de situar na Europa, e que, todavia, é tão real como qualquer jeito exemplar daqueles consignados, para edificação pedagógica, nos manuais escolares. Mas o que é a História da América senão toda uma crônica da Realidade Maravilhosa?
A.      C.
(Alejo Carpentier)




[1] Impressionante fortaleza situada ao norte do Haiti, próxima ao antigo Cabo Francês, hoje Cabo Haitiano, construída, por ordem do rei Henri Christophe. Sua edificação durou 15 anos, e foram empregados cerca de 20 mil trabalhadores escravos (escravizados depois de terem sido libertados pela revolução dos negros haitianos, da qual Henri Christophe foi um dos líderes). É considerada patrimônio da Humanidade (Informação da Wikepedia).
[2] Maria Paola Buonaparte (1780-1825), mais conhecida como Pauline ou Paulina Bonaparte, era irmã de Napoleão Bonaparte. Casada com Charles Leclerc, general de Napoleão, nomeado governador de São Domingos, aonde veio a falecer de febre amarela em 1 de novembro de 1802. Pauline e seu filho voltaram à França.
[3] Referência a um tipo de tambor comum às músicas do Haiti. Está relacionando a uma família de espíritos (loa) existente no Vudu deste mesmo Haiti. Rada (loa Rada), ou seja, espírito dessa mesma religião. Petro e Rada (sua irmã) entidade das mais importantes, entre as várias “nações” em que estão divididas essas divindades.
[4] Situado no departamento de Ille y Vilaine, na região de Bretaña, a uns 30 km ao sudoeste de Rennes, esse bosque é um lugar relacionado com as lendas celtas, pois muitos episódios das novelas escritas sobre esse assunto passam ali ou a ali se referem. O bosque de Brocelianda poderia ser classificado – e essa talvez tenha sido a intenção irônica de Carpentier – como a Morada de Fadas.
[5] O mesmo que festa popular ou feira. Podendo ser traduzido também por arraial, relacionando-a com as nossas festas de São João, do nordeste, no caso. (Tradução de Nicole Jugnet).
[6] Referência ao famoso e controverso poeta simbolista francês, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891), dublê de gênio literário e traficante de armas. Rimbaud bem representa o paradigma à tese de que o “poeta, assim, vive e é sua poesia – pensamento em voga ainda hoje segundo algumas escolas”. Amado por vários importantes intelectuais do século XX, entre eles o estadunidense Henry Miller e o nosso Paulo Leminski que afirmou, não sem bastante propriedade, que Rimbaud, tivesse vivido em nossa (dele, de Leminski) época, seria roqueiro. A sua figura encaixa-se perfeitamente a expressão francesa enfant terrible. Alquimia do Verbo foi uma revista ligada a esse poeta.
[7] Personagem de uma das obras do Marquês de Sade – Donatien Alphonse François de Sade (1740-1814), conhecido por esse cognome – uma das mais polêmicas figuras da literatura francesa século XVIII. Trata-se de obras que enfocam situações eróticas, de sadismo (nome do qual de onde vem o termo), libertinagem nas relações sexuais.
[8] Referência a Alfred Jarry (1873-1907), autor da peça teatral, que foi coqueluche no pós-guerra, por obra e graça dos surrealistas, trata-se de uma referência ao “Ubu rei”, cuja estreia deu-se em 1896. (Essa última informação é da Wikepedia).
[9] Referência ao ator, cujo nome completo foi Matthew Gregory Lewis, d’O Monge, livro considerado importante para a literatura fantástica do século XIX, publicado no final do século XVIII. Nessa obra, segundo estudiosos, há influência de Cazotte (Os Amores do Diabo), de Diderot (A Religiosa), de Goethe (O Fausto), (O Visionário e de Pedrinho de Spietz (Informação da Wikepedia).
[10] Miguel de Unamuno (1864-1936), filósofo e escritor espanhol. O mais importante pensador da geração de 1898 (o sentido trágico da vida), sua obra traduz o esforço em dar sentido à existência humana, sem renunciar a qualquer de seus aspectos e na busca da certeza da imortalidade. Foi Unamuno que travou o famoso enfrentamento com o general fascista (franquistas), na Universidade de Salamanca, em torno de “viva la Muerte”.
[11] Referência a’Os Cantos de Maldoror é um livro poético, escrito entre 1868 e 1869 (mas publicado bastante mais tarde), pelo Conde de Lautréamont, pseudônimo de Isadore Ducasse, poeta francês de origem uruguaia. É considerada uma das obras seminais da literatura fantástica, ainda que o seu universo estranho e mórbido seja de difícil classificação. (Informação da Wikepedia).
[12] Referência a um pintor de vanguarda francês, de origem germânica. Masson lutou pela França durante a Primeira Guerra Mundial e foi gravemente ferido. Esteve ligado aos surrealistas, grupo que logo abandonou, voltando a eles se unir no fim da década de 30, Século XX, ocasião em que produziu trabalhos com um tema violento ou erótico, e fazendo uma série de pinturas em reação à Guerra Civil Espanhola. “Sob o alemão ocupação da França durante a Segunda Guerra Mundial, seu trabalho foi condenado pelo nazismo como degenerado”. Preso, “Masson escapou do regime nazista em um navio para a ilha francesa da Martinica,de onde ele seguiu para os Estados Unidos”. Este país foi novamente preso por terem encontrado, escondido em sua bagagem, seus desenhos eróticos, os quais teriam sido rasgados frente ao artista. Masson influenciou importantes artistas abstratos dos Estados Unidos, como Jackson Pollock. Era meio-irmão, o psicanalista Jacques Lacan (Informação da Wikepedia).
[13] Estaria Carpentier fazendo alusão ao Retrato de Père Tanguy, uma obra de Vincent van Gogh, pintada em 1887/8? Este retrato foi pintado em três versões, no final do período parisiense de Van Gogh. Julien Tanguy era um comerciante de tintas, conhecido como Père Tanguy. Tanguy era um socialista respeitado pelos artistas, havia participado da Comuna de Paris e além de vender material de pintura a preços muito baixos e a crédito, possuia uma pequena galeria ao lado de sua loja. Tanguy foi uma das figuras-chave do modernismo, pois sua galeria, ainda que desconhecida do grande público, reuniu obras artistas como Van Gogh, Seurat, Gauguin e Cézanne, considerados os percursores do século XX (Informação da Wikepedia).
[14] Tradução: “Vocês que não vêem, pensem naqueles que vêem” (Tradução de Nicole Jugnet).
[15] Conde de LAUTREAMONT, pseudônimo do poeta Isidore Lucien Ducasse, nascido (Montevidéu, 4 de Abril de 1846 – Paris, 24 de Novembro de 1870) foi, pois, um poeta uruguaio que viveu na França. É considerado um precursor do Surrealismo (Informação da Wikepedia).
[16] Referência a uma importante obra “do ciclo de novelas de cavalaria da Península Ibérica do século XVI. Apesar de se saber que a obra existe desde, pelo menos, o século XIV, a versão definitiva mais antiga, atualmente conhecida, é a de Garci Rodríguez de Montalvo, impressa em língua castelhana em 1508 e denominada ‘Los quatro libros de Amadís de Gaula’. Tudo indica, contudo que a versão original era portuguesa, e muito anterior” (Informação da Wikepedia).
[17] Tirante o Branco, em catalão Tirant lo Blanch, é um romance épico escrito pelo cavaleiro valenciano Joanot Martorell e publicado em Valência em 1490. Antes de sua publicação, a obra foi supostamente terminada por Martí Joan de Galba ainda que haja dúvidas sobre a extensão de sua participação. É uma das obras medievais mais conhecidas da literatura catalã, e tem um importante papel na evolução do romance ocidental devido a sua influência sobre Miguel de Cervantes. (Informação da Wikepedia).
[18] Última obra de Miguel de Cervantes, famoso autor do Dom Quixote. Pertence ao subgênero do romance bizantino. Foi para Cervantes sua melhor obra, apesar de que a crítica aceita unicamente o Dom Quixote como sua magnum opus. Nela escreveu sua dedicatória ao Conde de Lemos em 19 de abril de 1616, quatro dias antes de falecer (Informação da Wikepedia).
[19] Referência a um grupo de ilhas do Canal da Mancha, cuja administração está dividida entre a França e a Inglaterra.
[20] Líder do Maroon Haitiano em Saint-Domingue. Ele era um africano que é por vezes descrito como sacerdote vodu haitiano, ou houngan. Algumas fontes descrevem-no como um muçulmano, levando alguns pesquisadores a especular que ele era de Senegal, Mali, ou Guiné. No entanto, ele não era nem cristão, nem muçulmano. A associação de Mackandal com “magia negra” parece ser uma consequência de seu uso de veneno, derivados de plantas naturais. Traído por um dos seus, foi capturado e queimado vivo em 1788 na praça pública de Cap-Français, atual Cap-Haïtien. O escritor cubano Alejo Carpentier retrata a figura legendária de Mackandal em um de seus romances, “O Reino deste Mundo” (1949), no qual se identifica o “real maravilhoso” do escritor (Informação da Wikepedia).
[21] Dutty Boukman (Boukman Dutty) (Morreu em 1791) foi um jamaicano houngan nascido, ou padre haitiano que conduziu uma cerimônia religiosa no Haiti em que um pacto foi afirmado a liberdade; esta cerimônia é considerada um catalisador para a revolta dos escravos que marcou o início da Revolução Haitiana. Era um escravo autodidata nasceu na ilha da Jamaica, seu primeiro nome da ilha significa “homem livro”, seu sobrenome significa “sujo”. He was later sold by his British master to a French plantation owner after he attempted to teach other Jamaican slaves to read, who put him to work as a commandeur (slave driver) and, later, a coach driver.Mais tarde ele foi vendido por seus senhores britânicos a um mestre francês, proprietário de uma plantação; depois que ele tentou ensinar outros escravos da Jamaica para ler (Informação da Wikepedia).
[22] Referência a Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), artista italiano, famoso pelas suas imaginativas e atmosféricas gravuras de prisões em água-forte. Suas ‘Prisões Imaginárias’ “consistem numa série de 16 gravuras onde figuram enormes subterrâneos e escadarias monumentais – estruturas labirínticas de dimensões épicas, mas aparentemente vazias de propósito ou função. Usando esse meu estilo existe também o artista holandês Maurits Cornelis Escher, talvez até mais conhecido do grande público, entre nós.
[23] Henrique do Haiti, nascido Christopher Henry (Henri Cristophe), auto-proclamado rei do Haiti (1767-1820). Militar de carreira detinha a patente de general do exército haitiano quando tornou-se presidente, em 17 de fevereiro de 1807. Proclamou-se rei em 26 de março de 1811. Cometeu suicídio em 8 de outubro de 1820. Participou ativamente do processo de independência do país, unindo-se aos líderes Alexandre Pétion e Jean-Jacques Dessalines contra o então império francês. Quando, da independência haitiana, em 1804, os escravos foram libertos. Sua figura e sua história foram usadas como um dos personagens principais do romance de Alejo Carpentier, “O Reino deste Mundo”. Henrique construiu para si seis castelos, oito palácios e a gigantesca Citadelle Laferrière. (Grande parte dessa informação foi extraída da Wikepedia).
[24] Um dos nomes do El Dorado – cujo significado, em espanhol, é a forma reduzida da expressão “o homem dourado”, devido que a lenda que cercou a quimera da existência dessa fabulosa cidade, rezar que o seu rei tinha por hábito espojar-se em ouro em pó) – país mítico que se acreditou está localizado no Deserto de Sonora no México; na região das nascentes do Rio Amazonas, ou ainda em algum ponto da América Central ou do Planalto das Guianas, região entre a Venezuela, a Guiana e o Brasil, no atual estado de Roraima. Nesse costume bizarro – espojar-se em ouro – o tio Patinhas deve ter se inspirado.
[25] Fue una patriota guerrillera del Alto Perú (actual Bolivia), nacida (La Plata (hoy Sucre), 12 de julio de 1780 – 25 de mayo de 1862), que acompañó a su esposo Manuel Ascencio Padilla en el liderazgo de la Republiqueta de La Laguna en las luchas por la emancipación en el Virreinato del Río de la Plata. Nació en La Plata, actual Sucre, Provincia de Oropeza, Departamento de Chuquisaca y murió en la misma ciudad el 25 de mayo de 1862. Con la muerte de su esposo asumió la comandancia de las guerrillas que conformaban la luego denominada Republiqueta de La Laguna, por lo que es honrada su memoria en la Argentina y en Bolivia. Hablaba el castellano y quechua. El año de su nacimiento la ciudad de La Paz fue sitiada por Tupaj Katari y Bartolina Sisa, alzados en armas en apoyo a Túpac Amaru (Informação da Wikepedia).
[26] Referência a uma cidade da província de Neuquén, Patagônia, na Argentina.
[27] Cidade dos Césares ou Trapalanda é um dos vários nomes da mítica Manoa ou El Dorado, que também recebeu o nome Paitíti ou Candire, da mesma forma que sua localização foi suposta em várias partes da América. Carpentier afirma que Menéndez teria sido um dos aventureiros que a procurara.

7.1.15

Literatura e História

                                


El Siglo de Ias Luces (O Século das Luzes) – Alejo Carpentier. Trata da presença, influência e consequências da Revolução Francesa na América espanhola, no caso na região do Caribe. Há tradução ao português.
El Reino de Este Mundo (O Reino de este Mundo) – Alejo Carpentier. Trata da presença, influência e consequências da Revolução Francesa no Haiti – primeiro país latino-americano fazer uma revolução e tornar-se independente. Há tradução ao português.
De Carpentier pode-se ler, como complementação, El Recurso dei Método (O Recurso do Método), que trata da vida de um ex-ditador sul-americano exilado em Paris. Há tradução ao português.
Yo, El Supremo (Eu, o Supremo) – Augusto Roa Basto. Trata da vida do Dr. Francia (José Gaspar Rodríguez de Francia), político paraguaio que foi nomeado ditador em 1814. A obra recria sua forma de governar e a época em que viveu. Uma das figuras mais curiosas da história da América Latina. Há tradução ao português
La Muerte de Artemio Cruz (A Morte de Artemio Cruz) – Carlos Fuentes. Retrato da degradação dos postulados sociais e libertários da Revolução Mexicana de 1910. Há tradução ao português
De Carlos Fuentes pode-se ler, como complementação, “Gringo Velho”, sobre a participação de um jornalista estadunidense, Abrosie Bierce, nessa mesma Revolução. Há tradução ao português. Com esse mesmo título, há um filme, de 1989, dirigido por Luis Puenzo, com Jane Fonda e Gregory Peck, baseado neste livro. Ainda de Fuentes pode-se ler o livro de contos, “Fronteira de Cristal”, trata da presença mexicana nos Estados Unidos, a influência dos imigrantes. O conto sobre a culinária é delicioso. Sociologia pura.
Sobre os aspectos da vida dos camponeses mexicanos, o estado de abandono em que vivem, bem como cultuam a morte, pode ser lido “Pedro Páramo”, de Juan Rulflo e visto o filme de John Huston, “A Sombra do Vulcão”, de 1984, baseado na obra de Malcolm Lowry. De Rulflo há ainda, sobre o mesmo tema El Llano en Llamas (O Planalto em Chamas). Há tradução em português.
O Outono do Patriarca – Gabriel Garcia Márquez. Retrato fantástico da vida de um ditador latino-americano. Sobre o absurdo da realidade colombiana e, por extensão, a latino-americana, a obra antológica desse autor ainda é Cien Anos de Soledad (Cem Anos de Solidão).
Sobre a história da Guatemala – um dos países mais sofridos da América – é preciso ler parte da obra de Miguel Ángel Asturias, em particular, O Senhor Presidente, Homens de Milho. Destaque especial para a trilogia composta por Vento Forte, O Papa Verde e Os Olhos dos Enterrados.
Para se ter uma idéia da exploração a que eram submetidos (e, de certa forma, ainda são) os camponeses, ou seja, os índios dos Andes peruanos é preciso ler, de Ciro Alegria, “Vasto e Estranho é o Mundo”. Faz-se necessário também uma vista d’olhos na obra de José Maria Arguedas, pelo menos os romances “Os Rios Profundos”,  “A Agonia de Rasu Niti” e “Todos os Sangues”. (Obs.: Sobre qual foi o título do livro de Ciro Alegria em português, não estou bem seguro, em espanhol é “El Mundo es Ancho e Ajeno”, porém em qualquer boa biblioteca é só procurar Alegria, Ciro que será localizado pois existe tradução no Brasil). Obs.: a palavra espanhola “ancho” significa o mesmo que em português, embora ela seja pouco usada. Usou-a João Cabral de Melo Neto em “Morte e Vida Severina”. Já a palavra “ajeno” possui dois significados básicos em espanhol. Pode ser alheio e pode ser estranho. Acho que o autor quis jogar com essa ambigüidade. O mundo é alheio, ou seja, tem um dono que não são os camponeses; e com o sentido de o mundo ser estranho, hostil, etc.
Sobre o Peru, pode-se ler como complementação, a obra poética de César Vallejo e os ensaios de José Carlos Mariátegui, em particular os seus “Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana”.
Um retrato fiel do que foi a ditadura de Trujillo, na República Dominicana, há um recém-lançado livro de Mário Vargas Llosa, “A Festa do Bode”, que reconstitui a conspiração que resultou na morte de Trujillo. Este há tradução em português. E a obra de Julia Alvarez, “Tiempo de las Mariposas”, esta infelizmente não há ainda tradução em português. 
Infelizmente, sobre o Brasil, não há uma obra que abarque a totalidade da nossa História – talvez essa lacuna seja explicada, pelo menos em parte, pela extensão quase continental do nosso país. Há, porém, a trilogia de Érico Veríssimo, “O Tempo e o Vento” (“O Continente”, “O Retrato” e “O Arquipélago”), retrato da história do Rio Grande do Sul e sua inserção na História brasileira. Há também a trilogia de Jorge Amado “Subterrâneos da Liberdade” (“Os Ásperos Tempos”, “Agonia da Noite” e “A Luz do Túnel”) que narra, de forma muito lírica, o que teria sido a luta clandestina do Partido Comunista. Mais realista e menos lírico é o retrato que Amado traça do mundo do cacau em três de seus livros, “O País do Carnaval”, “Terra dos Sem Fim” e “São Jorge dos Ilhéus”, pois se pode ver como viviam os coronéis que dominavam a região.
Há ainda obras regionais de importância, como “O Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, que trata do mundo mágico do nordeste, seus mitos e seus arquétipos. Obra maior da literatura brasileira. “Cascalho”, de Humberto Sales, sobre o garimpo na Chapada Diamantina. Há “A Selva” de Ferreira de Castro, sobre a Amazônia “Galvez, o Imperador do Acre”, de Márcio de Sousa.
A maioria dos episódios da nossa História são mostrados ou analisados em ensaios, quase nunca em romance. O peruano Vargas Llosa escreveu um interessante livro sobre Canudos, “A Guerra do Fim do Mundo”.
No terreno híbrido, entre o ensaio e o romance, no ponto mais alto encontra-se “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.
Já no terreno puramente do ensaio, as obras de Caio Prado Júnior (História Econômica do Brasil); Buarque de Holanda (Raízes do Brasil); Celso Furtado (Trabalhos sobre o desenvolvimento econômico do Brasil); Darci Ribeiro (Trabalhos sobre a formação social do Brasil, como é o caso de “O Povo Brasileiro” e “Aos Trancos e Barrancos”) Nelson Werneck Sodré (Várias obras, em particular, Ideologia do Colonialismo) António Cândido (História da Literatura Brasileira); Eduardo Prado (A Ilusão Americana); Gilberto Freire (Casa Grande & Senzala).
Prezado professor, aqui vai minha indicação bibliográfica. Tomei a liberdade de tecer alguns comentários canhestros sobre algumas obras. Sobre a Argentina, embora exista Domingo Faustino Sarmiento, cuja obra Civilización y barbárie; vida y obra de Juan Facundo Quiroga é, ao mesmo tempo, estudo sociológico, manifesto político e biografia romanceada. Há ainda José Hernández, que compôs Martín Fierro, o mais original poema épico da literatura do novo continente e possivelmente a maior obra da literatura argentina. Esta obra, por ser escrita na forma como falavam os gaúchos, é de difícil leitura. O grande intérprete da alma daquele povo é, sem nenhuma dúvida, Jorge Luis Borges.

PS. Ainda sobre este tema, ver Araken Vaz Galvão II, Quase Ensaios, Literatura e História.

Valença. Ba, 23 de novembro de 2011                              © Araken Vaz Galvão 

25.10.14

O Velho Jagunço e Durrell

Não sei se é a (re)leitura de Durrell que me leva a lembrar-me de Quelé, ou se é a escrita da história de Quelé que me faz lembrar de algumas passagens de Durrell.
Vendo-o olhar, em noite escura, porém sem a presença da lua, a vastidão da caatinga, imaginando que o céu nada mais faz que refletir a fosforescência dos vagalumes que, embaixo, brincavam de imitar a imensidão celeste, é uma destas ocasiões. Da mesma forma que, ao ouvir da descrição de sua aparência física, e particular, como eram as feições de seu rosto; e isto ocorria até com alguns dos seus contemporâneos, ainda vivos, constato o quão é fugaz a permanência de nossas imagens (de todos nós) na memória daqueles que deixamos neste mundo. E ao registrar a tragédia deste personagem em “poder sentir, mas não saber dizer”, sou obrigado a citar que ele, Quelé, tivera vedado o seu acesso àquele mundo (o dos livros), não por falta de sensibilidade, mas por falta de oportunidade, afinal, a pobreza exclui, da mesma forma que a riqueza, via de regra, isola, tornando as pessoas alienadas do meio social geral que os cerca.
Quelé, devo esclarecer, é a personagem principal do romance que estou escrevendo, cujo título é “O Velho Jagunço”.

Araken Vaz Galvão

Valença, BA, 25 de outubro de 2014

1.9.14

Tédio

Cansado, mudou de posição. O peso do seu corpo, que estava apoiado sobre o braço esquerdo, foi passado para o direito. Sabia que estava só, mas isso não era motivo para preocupação, pois era inerente a sua condição e, ultimamente não contara com outra companhia do que a da solidão. O tédio que sentia, talvez fosse dos anos. Estava velho, a sua idade não era medida por séculos, mas sentida por milênios. Sabia que nem sempre era bem visto por seu próprio rebanho, muitos o julgavam preguiçoso. Que trabalhara apenas seis dias e descansara no sétimo. Melhor não houvesse trabalhado um dia sequer – dizia-se, em seus raros momentos de mau humor, pois era tido como muito tolerante e complacente. Estado esse que era atribuído como coisas da velhice, embora aquele fosse um conceito que não deveria ser aplicado a ele.
Começou a sentir sono. Mesmo sabendo que estava só, que não era observado, disso tinha certeza, mesmo assim, olhou à direita e a esquerda. Sabia que dentro de pouco estaria dormitando. Sua face nunca fora vista por nenhum homem. Ao pensar nessa solidão, sentiu o sono aumentar. Quase cochilando, levou o dedo indicador ao nariz – melhor seria dizer: às fossas nasais – e retirou a secreção solidificada, em um gesto que, em outra pessoa, seria considerado anti-higiênico ou que feria os princípios da boa educação, mas que, em pessoa de sua grandeza, tornara-se a única tarefa que executava fazia séculos.  
Isso feito, depois de preparar uma esfera, não muito perfeita, com o que extraíra do nariz, jogou-a a sua volta. Era um novo corpo a mais dos muitos que criara, atirado a esmo no espaço sem fim que a tudo envolvia sem nada a limitar. O sono começou a dominar seus pensamentos e ações. Em um daqueles globos que sistematicamente lançava as secreções sólidas do seu nariz, a esmo no espaço, seres comemoravam a passagem do tempo. Ano Novo – diziam: Feliz Ano Novo. Era uma saudação sem sentido, em seu universo o tempo não contava; só a eternidade.
Fechou os olhos e começou a cochilar de verdade, como o fazem todos os velhos. Em nenhum momento voltou a pensar naquilo que tinha criado. Talvez até sonhasse.
Quem disse que não poderia fazê-lo. Logo ele, criador de sonhos e pesadelos! Afinal, o que havia de errado em sonhar com os homens que o tinham esquecido?


© Araken Vaz Galvão

           Valença, BA, 25 de outubro de 2012. 

19.8.14

Miragem

Nestes últimos tempos, em que passo a maior parte das horas sentado na varanda de minha casa, suportando a decrépita e cansativa ociosidade da minha velhice, muito tenho pensado em Teresa. Não aquela saída da pena de Milan Kundera; melhor, imagino que do teclado mágico do seu computador, mas uma gentil senhorita que, em silêncio da minha timidez, cheguei a amar – diria mesmo que até perdidamente, se não fosse a impropriedade da sintaxe corrompida, pelo lugar-comum – no meu tempo de jovem. E tudo isso sucedeu devido a uma insistente recordação de Olívia, outro de meus amores da juventude.
Teresa, como a imaginei, era uma sertaneja morena, cujos lábios lembravam-me a cor rubra de bonina e sabor do fruto de um cacto de nome popular de facheiro, comum no sertão, porém não tão conhecido como mandacaru ou o xiquexique, por exemplo.
Aliás, quando úmidos, a cor de seus lábios lembrava também o tom avermelhado da polpa do fruto deste vegetal agreste – cuja denominação científica é Facheroa pubiflora –, o qual sucede ocorrer quando se abre bem maduro, de uma forma um tanto erótica (pode-se dizer assim) aguardando que os pássaros, escassos (ou não muito abundantes na caatinga), realizem a disseminação, por meio do milagre da semeadura das suas pequenas sementes. Sua boca, ou melhor, seus lábios – frise-se bem o detalhe –, no caso os de Teresa (ou será que são os de Olívia que me recordo agora?) possuíam a característica de sempre aparentar serem orvalhados, indicando estarem, não diria no ponto de reprodução (por ser grosseiro), mas de estarem – repito – maduros para o amor.  
Seus cabelos, em longos cachos, caiam sobre os seus ombros largos. Sob a blusa fina de algodão, seus pequenos e bem formados seios lembravam os cerros relvados da paisagem de algum país longínquo, visto em um filme já perdido na memória.
Nunca cheguei a conversar com Teresa, sequer estou seguro se ela realmente existiu ou se ora estou a idealizar sua existência devido à solidão da velhice ou por confundir sua imagem etérea com a de Olívia, a minha primeira namorada, a da fase de minha vida, a iniciar-se como adulta.  
Teresa ou Olívia (aquela a quem beijei e muitas vezes apertei em meus braços) recordo-me com muita saudade, nestes últimos tempos, em particular agora, quando até o esforço de caminhar resulta em algo muito próximo a um renguear ridículo. E as lembranças, mesmo as ditosas implicam em sofrimento. Ela, pois, ou uma delas, veio visitar-me aqui neste rincão baiano de Valença, hoje, uma segunda-feira tediosa e insípida.
Assombrou-me aquela presença, além de ter-me assustado por tê-la ouvido falar, e o fez em tom de reproche, acusando-me, de forma implícita, de ser insensível e cruel por não a ter amado no momento oportuno: aquele em que a reprodução não só é possível, mas se faz necessária, condenando-a ao mais terrível dos castigos a que se pode impor uma mulher, negar-lhe (ou impedir-lhe) as revelações da maternidade.
Vi então que ela chorava.
— Não chore Olívia – disse-lhe.
— O meu nome é Teresa – contestou-me soluçando – Veja até onde chega a sua insensibilidade, além de ter me negado a maior ventura a que almeja uma mulher, ainda troca o meu nome. Indicando que está pensando em outra.
Suas palavras doeram-me como uma chicotada. E mais doíam pelo fato de que eu sempre fora sensível às lágrimas femininas (as das crianças também, embora este particular não venha ao caso agora), mesmo àquelas que não são muito sinceras, que são vertidas com o objetivo de apenas conseguir vantagens sentimentais. Em tudo isso pensava, embora me sentisse confuso devido ao fato de saber que aquilo era um sonho, quiçá uma miragem.
Devia estar, por certo, dormindo. A maior prova, possivelmente, devia ser a cabeça caída sobre o peito, a respiração ritmada, ainda que ofegante, como é comum aos velhos, e o compasso com que meu peito arfava, não deixava dúvida de que eu dormia mesmo, ou encontrava-me próximo daquilo que se convencionou chamar de cochilo intermitente dos anciães. Até a pouco romântica baba que me escorria pelas comissuras dos lábios comprovava que eu dormira pensando em Olívia, e que uma Teresa renitente invadira o sonho, tornando – naquele sonho – uma realidade idealizada.
Foi então, como outro sonho nascido do sonho principal, que me veio a certeza de que eu mesmo, quando jovem (e sonhava ser escritor) costumava dizer que os velhos não sonhavam – sonhar era inerente aos jovens –, pois aqueles viviam apenas do passado, revivendo-o em forma de assombração, miragens que os mantinham na ilusão de estarem todavia vivos.
Aquela nítida constatação surgida dentro de um sonho, começava tomar forma de pesadelo. Urge despertar – imaginei pensar. Comecei a fazer um daqueles esforços enormes que se faz em sonho, sentindo-se grande agonia por saber que não se concretiza nenhum movimento, sendo invadido por uma sensação de estar-se morto. E devo ter começado a debater-me, quiçá, a também a resmungar ou gemer, o que seria mais apropriado. Um vento frio – muito frio para os meus ossos já sem tutano – vindo do estuário do rio Una, gelou-me a alma (uma vez que os meus flácidos músculos, a rigor, não mais existiam), e os soluços de Olívia. Não. Não, de Olívia não, de Teresa, sem diminuírem, baixaram um pouco de tom, fazendo-se mais um lamento, bem próximo de um doído queixume.
Descobri que também eu chorava. Melhor: umas furtivas lágrimas escorriam pelas rugas da face. Neste momento, creio, minha mulher cobriu-me com um cobertor de lã, imaginei ela dizer algo como: Vai para cama, e conclui que ela não vira as minhas lágrimas. Ouvi seus passos que se afastavam. Um sabiá que mora a maior parte do tempo no jardim de nossa casa, soltou seu canto mavioso. Abri lentamente os olhos. Olívia/Teresa tinha desaparecido, mas isso apenas supus. O que vi foi um beija-flor, que também habita por ali, adejava frente à corola de uma flor. Sobre o muro, as lagartixas caminhavam, fazendo rápidas paradas, balançando a cabeça, como se concordasse com o meu devaneio.
Lembrei-me então do poeta Fernando Pessoa, mais precisamente dos versos finais do seu poema A Tabacaria: “(...) o universo/ Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, (...)”, no meu caso específico, era apenas o pequeno mundo que me rodeava que se reconstituía, também sem esperança.
Enquanto isso o beija-flor continuava esvoaçando de flor em flor e as lagartixas, de cima do muro, balançavam a cabeça afirmativamente.
 
Valença, BA, 17 de agosto de 2014
© Araken Vaz Galvão