30.1.16

Fábula do homem Bem Intencionado

Para Amarantho, com th e também para Vanda, sem W.

Era uma vez homem bem intencionado, que queria criar um mundo melhor; onde as pessoas não tivessem preocupações e todos fossem muito felizes. Para isso, começou lutando na rua onde morava para minorar os problemas comuns e individuais, até que se fez conhecido em todo o bairro; então começou a lutar pela solução dos problemas do bairro, tornando-se, assim, conhecido em toda a cidade. Aí, então, o homem bem intencionado transformou-se em porta-voz de sua cidade e de seus concidadãos; porém, quando tal sucedeu, a sua fama já havia percorrido toda a província e, de tal forma seu nome era conhecido, que o homem bem intencionado não teve outra solução, que assumir os destinos de sua província para poder solucionar os problemas pessoais e coletivos, criando a felicidade plena de todos os cidadãos provinciais.
Entrementes, sua fama já havia atravessado as divisas provinciais e se espalhado por todo o país, trazendo de todos os lugares, dos rincões mais afastados da pátria, homens que vinham em busca de soluções para os problemas que os vinham afligindo desde muito tempo. E tal foi a afluência que o homem bem intencionado não teve outra saída que se fazer líder nacional e tomar as rédeas de sua nação, para que seu povo alcançasse a felicidade plena.
Mas, logo que assumiu a liderança da Pátria, o homem bem intencionado descobriu que seu povo, por haver atravessado constantes períodos de infelicidade, não estava mais apto para ser feliz. Empreendeu, então, uma longa campanha educativa, para que seu povo reencontrasse o caminho perdido; porém, como sua voz não podia chegar a todos os recantos da pátria, o homem intencionado viu-se obrigado a nomear porta-vozes, que levassem a cada lar, rico ou pobre, a cada fábrica, a cada operário, a cada patrão, a cada fazenda, a cada lavrador, a cada escola, a cada lugar de diversão, ao mais humilde habitante do país, a palavra que lhes indicaria a direção da felicidade plena.
E qual não foi a decepção do homem bem intencionado ao descobrir que também seus porta-vozes estavam esquecidos do que era a verdadeira felicidade, e essa decepção foi tão grande que não lhe restou outra alternativa que nomear outros educadores para reeducar os primeiros. Ai, também, houve problemas, pois tanto os educadores como os reeducadores mostravam-se incapazes de atingir o objetivo desejado, pois era tamanho o tempo que haviam se afastado da felicidade, que só deixou ao homem bem intencionado a alternativa de, muito contra a sua vontade, instituir um plano geral de busca da felicidade que enquadrasse toda a população, até que não restasse ninguém que não recebesse a educação indispensável para o reencontro da direção que levasse à felicidade geral e plena.
Mas aí, e outra vez, o homem bem intencionado sofreu mais uma grande decepção, pois descobriu que, quanto mais se educava, mais seu povo se distanciava do objetivo que ele propunha, até mesmo porque a posse de mais conhecimentos tornava o seu povo mais astuto, e isso permitia que todos enganassem aos educadores que, por sua vez, já haviam enganado aos seus reeducadores e, assim, sucessivamente, fazendo com que a nação se mantivesse afastada da direção que conduzia à rota da felicidade coletiva.
Então, mais uma vez, o homem bem intencionado não teve outra alternativa, que usar do recurso da força, para que seu povo fosse feliz e, para tal, criou um corpo coercivo que deveria corrigir os desvios da direção da rota do caminho que levaria à felicidade; decisão esta que só o levou a constatar quão distante estava seu povo da felicidade plena, pois começou a aparecer sinais de descontentamento por todo o país, e esse descontentamento cresceu tanto que o homem bem intencionado viu-se obrigando a construir grandes centros indicadores da direção da rota, que conduziria à senda, que levaria ao caminho da felicidade. Mas, ainda assim, como seu povo já estava demasiado acostumado a trilhar por caminhos outros que nunca conduziriam à felicidade, começaram os protestos.
Esses, os protestos, tendo começado timidamente, foram se avolumando e tomando um matiz de violência latente de uma forma tão ameaçadora que o homem bem intencionado viu-se constrangido a autorizar ao corpo coercivo a empregar toda a sua força para recolher toda a população a centros reeducadores para que ela não continuasse sendo infeliz sem saber. Porém, quando todo o povo estava agrupado nos centros, o homem bem intencionado descobriu que os membros do corpo coercivo, ao cuidarem para que ninguém se afastasse do redil que os levaria, finalmente, à felicidade, mantinham-se, eles próprios, fora do dito caminho, o que obrigou ao homem bem intencionado a construir por volta dos centros primitivos, outros centros, que abrigassem os que estavam fora daqueles; mas isto só conduziu a um maior clamor, pois todos bradavam que não queriam ser felizes, uma vez que já estavam acostumados com a infelicidade.
E o clamor cresceu de tal forma, que – novamente – o homem bem intencionado não teve outra alternativa que mandar a força coerciva impor silêncio, pois tinha certeza que era aquele barulho a única coisa que impedia a todos de alcançar a completa felicidade que ele via a um passo. Foi nessa ocasião que o seu povo começou a sentir-se incomensurável e profundamente infeliz e não tardou a aparecer os primeiros sintomas de rebeldia organizada. E o homem bem intencionado que jamais conhecera a felicidade plena por ver seu povo sempre infeliz, desta vez sentiu-se mais infeliz ainda, e resolveu mandar trazer de outro país, que já havia encontrado a direção do rumo onde se localizava o início da senda que conduz à felicidade, um grupo de sábios para determinar as razões pelas quais, o seu povo teimava em permanecer distanciado de tão nobre objetivo.
E assim foi feito... Enquanto as demonstrações de rebelião continuavam.
Depois de muitos anos de estudos, investigações, pesquisas e diligências, quando o grupo de sábios apresentou as conclusões em um longo documento acadêmico, de alto teor erudito, o homem bem intencionado descobriu que seu povo, ademais de haver perdido completamente a noção do que era a verdadeira felicidade, tampouco compreenderia as reais razões de havê-las perdido devido à linguagem técnica do referido documento, por isso ocupou-se pessoalmente, durante outros longos anos, em resumir o conteúdo do relatório do grupo de sábios estrangeiros visando não somente oferecer uma explicação plausível que justificasse seu empenho em forçá-lo a buscar a felicidade, como também demonstrar o grave erro que significava resistir a tal objetivo.
Um pouco antes de terminar sua grandiosa tarefa, a rebelião chegou ao seu término, o descontentamento popular explodiu de vez, destruindo com os centros de reeducação, massacrando o corpo coercivo, culminando por assassinar o homem bem intencionado sem que as razões contidas no resumo do documento fossem conhecidas. E o homem bem intencionado morreu muito infeliz por ver aquele documento ser esmagado sob os pés da turba enfurecida, fazendo com que ele, o único a conhecer as razões da infelicidade coletiva, levasse para o túmulo o segredo do seu sonho majestoso.
E tal foi a fúria da multidão durante os dias da rebelião que logo começou a aparecer elementos vandálicos e depredadores que se aproveitavam da justa indignação dos cidadãos para seus inconfessáveis fins, o que só trouxe mais infelicidade ainda.
Aí apareceu outro homem bem intencionado que conseguiu acalmar o povo, visando com isto, separar os elementos vandálicos e depredadores dos pacíficos cidadãos que só necessitavam de ordem e tranquilidade para ser felizes. Porém, a tal ponto havia chegado a ação desagregadora dos elementos vandálicos e depredadores, que o novo homem bem intencionado não teve outra alternativa que criar um corpo defensor da ordem e tranquilidade para assegurar aos verdadeiros cidadãos o direito de encontrar a sua própria felicidade. Aí começou o primeiro problema do novo homem bem intencionado: os elementos vandálicos e depredadores haviam adquirido tal força que não existia mais o menor sinal nem de ordem nem de tranquilidade, fato que tornava muito difícil separar os pacíficos cidadãos dos ditos elementos, não deixando ao novo homem bem intencionado outra saída que a de criar centros de confinamentos para proteger os verdadeiros cidadãos da ação dos elementos vandálicos e depredadores. Mas aí, já ninguém mais se lembrava de procurar orientação para chegar ao ponto onde poderia estar o início do caminho que levaria à senda que conduziria à felicidade, uma vez que os guardiães do corpo defensor da ordem e tranquilidade tinham-se instalado ao lado de cada verdadeiro cidadão para que nenhum elemento vandálico e depredador viesse a criar desordem, perturbando-lhe a tranquilidade, fato que levava a esses mesmos verdadeiros cidadãos a se sentirem muito intranquilos, não só porque havia elementos vandálicos e depredadores por toda parte, como também porque ninguém se sentia tranquilo tendo sempre ao seu lado um guardião do corpo defensor da ordem e tranquilidade.
Esta situação tornou-se de tal forma insustentável, que não demorou a que os verdadeiros cidadãos desencadeassem uma nova rebelião que não só acabou com todo o resíduo de ordem e tranquilidade que ainda existiam, como também aniquilou com o corpo defensor da ordem e tranquilidade, como massacrou o novo homem bem intencionado na metade da implantação de sua generosa e gigantesca obra. Ademais, causou tal número de mortes e destruição que todos foram tomados por um grande medo. Mas aí surgiu um terceiro homem verdadeiramente bem intencionado lembrando-se que tudo aquilo sucedia porque o povo abandonara sua busca pacífica da felicidade e se perdera por caminhos que somente conduziam à desordem, à intranquilidade e à infelicidade coletivas. Com tanta veemência esse terceiro homem bem intencionado pregou seus postulados que trouxe para seu bando todos os que tinham medo, e que foram aderindo, justamente, porque tinham medo... E assim, logo se formou um grande partido, dos que afirmavam buscar uma volta às origens, que a consequência natural foi uma séria pugna por submeter os que não aderiram porque tinham medo de se submeter aos que aderiram por medo. 
Com isso criou-se um impasse que resultou em um grande choque entre os dois grupos, mergulhando todo o país em um verdadeiro caos até que, no meio do caos, alguém (possivelmente mais um homem bem intencionado) encontrou as conclusões do grupo de sábios estrangeiros (devidamente resumidas pelo primeiro homem bem intencionado e, portanto, fácil de ser assimilada por todos) que rezava que o âmago da questão estava na contradição em ter os verbos ser e ter, por isso a infelicidade era inerente ao ser humano, já que não se conhecia nenhuma outra espécie animal que se sentisse infeliz.  Afirmava ainda que a marcha do homem era uma marcha inexorável em direção a uma infelicidade sempre maior porque, ao não resolver aquela contradição, espécie humana ficava sempre em contradição com a vida...
A divulgação, do resumo das conclusões do grupo de sábios estrangeiros, aumentou de tal modo o caos e o descontentamento que, sem que ninguém soubesse como, tudo explodiu em uma grande bola amarela que não deixou nada, salvo um último homem, que se sentiu muito infeliz por ser o único sobrevivente em um mundo destruído. E sua infelicidade aumentou, ainda mais, ao descobrir que não havia venenos com que ele pudesse se envenenar, não havia alturas de onde pudesse se jogar, não havia objetos contundentes com que pudesse se ferir, não havia nada sólido para romper a própria cabeça.  Restava só ele e um imenso e desolado oceano de pó. Neste momento, mais que nunca, este homem se sentiu, incomensuravelmente, infeliz.  Foi aí que, olhando para o resumo do documento do grupo de sábios que, ainda, tinha em suas mãos, descobriu que a grande destruição extinguira com os todos os elementos que criavam as condições para a infelicidade coletiva, então – de repente! – começou a regozijar-se pois agora a ele, e só a ele, caberia a gloriosa tarefa de reconstruir o mundo com uma nova humanidade que iria conhecer a felicidade coletiva plena... e começo a sentiu-se completamente feliz.

MORAL: “De bem intencionados o inferno está cheio” – diz o adágio. Porém, cuidado, sempre sobra algum cretino para tentar construir a felicidade coletiva.
                                                                                                               

                                                                Montevidéu, novembro de 1976

                                     Valença, BA., Abril de 1996


1.11.15

A Francesinha

  Amarantho só a chamava assim: a Francesinha. Mas nenhum dos meus amigos de Valença, BA, onde moro, e onde escrevo no jornal local Valença Agora, conhece Amarantho, cujo nome completo era Amarantho[1] Jorge Rodrigues Moreira, carioca, de Braz de Pina, como ele gostava de esclarecer, subúrbio do Rio de Janeiro, recentemente falecido, quando já era morador em Coqueiros, localidade nova em Santíssimo –, onde ele funcionava como uma espécie de guardião ou xerife (como queiram) –, também subúrbio, só que servido pela Central do Brasil, uma estrada de ferro, principal meio de transporte (por sinal, precário), de um dos ramais do subúrbio carioca, no qual viajei em minha juventude, quando morava no Rio.
  Amarantho só a chamava assim: a Francesinha – dizia. E foi por seu intermédio que a conheci, isso por volta de 66, 67, mais ou menos, quando já me encontrava profundamente empenhado na luta contra a ditadura, mesma época em que eu havia conhecido Amarantho. Ao encontrá-la pela primeira vez e identificá-la desta forma, acusando a minha fonte de informação, notei que ela sorriu feliz, demonstrando a satisfação pelo emprego daquele diminutivo carinhoso, além de ter deixado transparecer em suas feições um ar inconfundível, o qual passou a ser para mim sua característica permanente.
 No entanto, nunca me habituei a chamá-la daquela forma, pois parecia-me que se tratava de uma denominação exclusiva existente entre os dois, nascida de razões que eu desconhecia e, ademais, não tinha o direito de investigar e, muito menos, de imiscuir-me em fatos que eu apenas imaginava, tratando-a da mesma forma.
   Passei a chamá-la pelo seu prenome, como é comum entre nós, os brasileiros. Catherine, mais tarde vim a saber – não sei se pelo próprio Amarantho, por Zenildo Barreto, nosso amigo comum e baiano como eu, ou por Maria de Fátima, ou ainda Cecília Rita, jovens (na época) amigas de ambos e de Catherine, as quais vieram também a ser minhas amigas – que tinha como sobrenome: Dessaux.
   Este nome de família, escrito desta forma, com aux no final, que encontramos relacionado com alguns franceses famosos, como foi o caso do escritor André Malraux (1901-1976), o que me fazia deduzir que a pronúncia era próxima a um “oô”. Porém não estou muito seguro que o sobrenome de Catherine era mesmo este; tampouco sei se ela era mesmo judia, como disseram-me mais tarde, e que parte de sua família morrera nas mãos dos nazistas. Sei, mais por ter deduzido em conversa mantida com ela, que havia uma relação conflituosa com a sua mãe, aparentando que esta a controlava como algumas mães mantém as filhas adolescentes; com rédea curta. Mas... Tudo pode muito bem ter sido impressão minha.
   Por algumas daquelas fontes foi-me dito que ela seria judia francesa, que muitos dos seus familiares tinham morrido em algum campo de concentração nazista e que muito da forma como a sua mãe a tratava vinha daquele passado cruel. Porém não posso excluir que esta informação contenha elementos de lenda.
   Há ainda um fato, relacionado com Catherine, não sei se é relevante, porém desejo deixar registrado tudo que sei e que venha a descobrir a seu respeito, já que ela é sozinha neste mundo[2] (digo desta forma sabendo que o faço evocando um lugar-comum e apelando para uma situação talvez piegas) e imagino que quando ela morrer não ficará sobre a face da terra uma mostra viva sequer do seu ADN (vulgo DNA, em inglês) para perpetuar a imensa bondade e solidariedade que moravam em seu coração. Por isso deixo assentado que o grupo de marinheiros e suas jovens amigas, como Maria de Fátima e Cecília Rita, todos eram alunos do colégio Amaro Cavalcanti, situado no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. Isto me intriga, porque sei que Catherine não era aluna daquele colégio. Então fica a pergunta: Como ela conheceu aqueles marinheiros?
   Catherine era da minha faixa de idade, um pouco mais nova. E esta dedução não era muito difícil a se chegar, não só porque nunca fui muito bom em atribuir uma idade correta a uma pessoa, como por as mulheres serem muito hábeis em driblar o tempo e as rugas, as quais, por sinal, ela naquela época não as tinha. O que ela tinha, até em excesso, era ternura. Comigo compartiu à mão cheia – como o disse o poeta.
   Nos anos difíceis da ditadura, quando estivemos presos em função do sonho de Caparaó, Catherine procurou nossa família e nos prestou muita solidariedade. Os livros que o Editor Ênio da Silveira[3], por intermediação do Antônio Calado, jornalista, romancista, biógrafo e dramaturgo brasileiro (1917-1997), e do intelectual, poeta, escritor e editor Moacyr Félix (1926-2005), nos mandava, editados pela Civilização Brasileira – a melhor editora da época – era ela que fazia, para nós, que nos encontrávamos presos, o penúltimo elo daquela cadeia de solidariedade.
   Catherine, mesmo sendo estrangeira residente (trabalhava no Consulado da França), foi duas vezes nos visitar na prisão, mesmo sob o risco de sofrer alguma consequência.
Depois que saímos (uns por terem cumprido a sentença, eu por ter fugido e ido para o Uruguai) ela manteve a amizade, inclusive continuando amiga dos nossos familiares, com os quais se relacionara nos tempos mais difíceis.
   Certa feita, em uma manhã de verão, tocaram a campainha de minha casa, em Montevidéu (calle Azevedo Diaz, próxima à Avenida Rivera). Abro a porta e deparo-me com Catherine, mostrando-me o mesmo sorriso de olhos semifechados, o qual conhecia de quando a vira pela primeira vez e lhe dissera que queria falar com “a Francesinha”. Ela se encontrava em uma viagem marítima, cujo destino era Buenos Aires, e, na parada que o barco fez no Uruguai, resolveu descer e me visitar.
   Alguns anos mais tarde, quando já me encontrava no Equador, sucedeu a mesma situação: batem à porta, abro e vejo a mesma expressão no rosto, o mesmo sorriso de felicidade.
   Nesta ocasião, ela falou-me de ter encontrado com Zenildo Barreto, em um dos seus passeios na Europa; que fizeram em Praga, visitando aquela que, para muitos, é a mais bela e misteriosa cidade de lá. Na ocasião, depois de muitas peripécias e travessuras, comuns aos jovens, visitaram o túmulo de Franz Kafka; tendo me confessado ainda que ficaram extasiados com o número e a beleza dos castelos. Lembro-me também que ela se referia a minha mãe chamando-a de vozinha.
   Sobre a possibilidade de o sobrenome de Catherine ser mesmo Dessaux, li em algum lugar, na Internet talvez, que esta terminação seria um resíduo do gaulês, que teria subsistido quando o francês (no caso latinizado) passou a dominar na França. Aí estaria a explicação do porque na Revista Asterix todos os personagens tinham aquela terminação em seus nomes. Aquilo era feito em forma de galhofa.
   Lembro-me ainda de uma corazonada (como se diz em espanhol do Rio da Prata, quando uma pessoa nos fez um favor importante e, talvez insólito) que Catherine fez para comigo: Apresentou-me a uma colega de trabalho, francesa e judia (disso tenho certeza), com quem mantive um delicioso affaire amoroso, que me resultou em vários encontros em um apartamento na Glória, bairro do Rio de Janeiro, que outra amiga me emprestava, para que eu o usasse como garçonière. Essa francesa, cujo nome era Hélène, perdi-a por ter defendido o direito dos argentinos sobre as ilhas Malvinas, o que mostra o quanto burro, por radical, eu era quando jovem. Como se vai misturar assuntos de cama com posições sobre política internacional...? Os termos em francês são por razões óbvias. 
   Pois é, isto é tudo que me lembro de Catherine, possivelmente Dessaux, pessoa de quem recebi, em momentos difíceis de minha atribulada vida tantas demonstrações de carinho e solidariedade. Antes de voltar a residir na Bahia, fui, justamente com Amarantho, visitá-la em seu apartamento no Leblon, onde ela sempre morou (ou morou por muito tempo), pois desejava que minha mulher a conhecesse. Sua mãe já tinha falecido e ela morava sozinha. Vimos que ela possuía muitos gatos, tinha uns dez presos em casa. Este detalhe horrorizou Euzedir, porém mantiveram uma conversação cordial.
   Agora faz mais de vinte anos que voltei à Bahia, deve ter uns cinco anos que não vou ao Rio de Janeiro, neste ínterim Amarantho, mais novo que eu, faleceu. Há quinze dias passados, conversando em casa, lembrei-me dela e disse: Como estará Catherine... será que está viva? A que minha mulher respondeu que era muito triste viver sozinha. Lembrou-se dos gatos e a conversa ficou por aí. Uma semana depois recebemos da amiga Maria de Fátima uma mensagem via whatsapp, em que aparecia uma velhinha simpática, a que não reconheci logo. Depois vendo outras fotos, deparei-me com uma que tinha uma expressão minha conhecida, mas já um pouco esquecida, por marcas do tempo. Era Catherine – e meu coração acelerou. Maria de Fátima dizia que ela se encontrava internada em um asilo para idosos e que estava sofrendo de Alzheimer, o que quase fez com que o meu coração parasse de vez.
   O estágio de sua doença estava na fase inicial. Maria de Fátima foi visitá-la e falou de mim, e ela tinha alguma lembrança. Nisso me lembrei da versão de um tango que, em português, tem um verso que diz: “Este encontro me fez tanto mal/ que só em me lembrar/ me sinto envenenar”.
   Escrevi esta crônica, na triste certeza de que em breve ninguém mais se lembrará de Catherine. Talvez nem eu, que também estou chegando ao fim.

            Valença, BA, 26 de outubro de 2015                        © Araken Vaz Galvão



[1] Embora tenha sido um dos meus maiores e melhores amigos, nunca soube ao certo se o seu prenome era grafado assim, como o faço agora, com este th no final. Confesso isso porque sempre escrevi Amaranto, sem o h. A mudança atual deve-se a que, por ele ter falecido, achei por bem deixar o registro e a possível correção.
[2] Recebo agora, justamente por sua (e minha) amiga Maria de Fátima que Catharine tinha uma prima, que residia no Reino Unido, cujo aniversário era no mesmo dia do de Maria de Fátima – ela sempre me falava isto, ao me telefonar para dar os parabéns – disse-me Maria de Fátima –, ou seja, no dia dos Estados Unidos: 4 de julho. 
[3] Sobre este episódio, ver VAZ GALVÃO, Araken, “das Prisões e do Exílio – Crônicas”, Edições ALBA, 2015, pág. 19. 

20.9.15

A Alma

Nunca indague muito sobre a alma. Se existe, ou qual o seu conceito. Não o faça. Você pode acabar se metendo em uma grande confusão. Ou – como prefiro dar alguns exemplos em espanhol, por achar o termo mais expressivo, devido aos longos anos que passei por países que falam esta língua, quando exilado – digo: você pode acabar metido em um gran lío. E quando me refiro aos longos anos que por lá passei, não me estou aludindo à Espanha propriamente dita, mas a países do nosso continente, de fala espanhola, onde vivi os referidos longos anos, devido ao exílio que fui obrigado a recorrer devido à ditadura – ocasião em que comecei a questionar-me sobre a existência da alma.
Eram os anos hoje chamados “de chumbo” e digo dessa forma, ou seja, usando o termo chumbo, como forma de dizer que eram tempos cinzentos e tenebrosos, como força de expressão ou para seguir uma moda ou ainda para fazer uso daquilo que se pode classificar como um lugar-comum, porque aqueles, para as pessoas comuns, parcela expressiva da classe média(*), em particular, eram anos de ouro, do “milagre brasileiro”.
Devido aos citados longos anos de exílio – dizia – (longos, mas não lamentados), foi quando justamente comecei a questionar-me sobre o caráter da alma, sua existência ou não, que me ocorreu, como consequência desta insensata indagação, quase ter me perdido em terríveis recovecos (outra expressão popular espanhola!) – ou seja, mais ou menos o mesmo que a nossa expressão beco sem saída ou mesmo labirinto –, justamente devido ao caráter inerente a entidade alma: atrair confusão.
Desta forma, afirmo, nunca indague muito sobre a alma, se ela existe ou não. Nem sequer se preocupe com ela, seja relacionando-a com questões das áreas psicanalíticas ou das religiosas, pois a confusão só irá aumentar. Procure não questionar esta possibilidade, até mesmo por que esta indagação não passa de uma questão relacionada com a metafísica (Outra grande confusão!). Não se deixe, pois – como ocorreu comigo –, se conduzir nesta quimérica direção, ela levar-lhe-á inexoravelmente a um terrível labirinto e nele não haverá nenhum fio de Ariane, e você pode, em vez de sair, acabar enrolado por um novelo sem fim, como a uma teia de aranha.
Isto dito, começo a dizer também que, quando ainda bem criança, aprendi que a alma era um vulto, de forma mais ou menos indefinida, que aparecia às pessoas em sítios ermos, tornando esses lugares mal-assombrados. Na fazenda Veneza, do meu avô, por exemplo, onde fui criado, havia um rincão, chamado Pedra Parida que, sendo um local onde aparecia não somente lobisomem e mula-sem-cabeça, como também toda espécie de ente do outro mundo, do tipo alma-penada – fazendo-me a imaginar, na candura da minha verde idade, que por ser penada, aquele tipo de alma era como uma grande galinha, só que dotada de garras de harpia e mandíbulas de lobo. Naquele lugar, no meu entender de criança, aparecia uma entidade cruel, tão cruel, que, mesmo coberta de penas, não tinha pena de nenhum vivente. Toda aquela lucubração infantil levava-me a concluir que naqueles ermos, a Pedra Parida, só podia ser a antessala do inferno, por isso era que sempre procurava evitar a passar por aquele lugar, salvo quando acompanhado de algum adulto, o que não impedia que o fizesse morto de medo.
Mas, retomando o fio da meada (e não o de Ariane), mais tarde soube que as almas tinham forma, sim, e que – mesmo bastante indefinidas –, era a de uma pessoa já morta, podendo ser o mesmo que visagem ou assombração. Porém, com esta última condição, havia os lobisomens, as mulas-sem-cabeça, os sacis, os caaporas, mas estes eram entidades de outra ordem, não podendo, mesmo assombrando, serem relacionados com as almas.
Aprendi, com o tempo, naturalmente depois, quando já estava um pouco maior, mais crescidinho – como dizem as mães – que Deus tinha dotado os homens de uma alma imortal (como se vê, naquele tempo não era preciso se acrescentar “e as mulheres”, pois, falando-se assim, não seria considerada uma atitude machista. Bons tempos aqueles!)
Mas a alma que Deus dotara os homens (e as mulheres, dito no linguajar hipócrita e politicamente correto de hoje) era diferente, variando conforme o lugar. Na Índia – um dos berços da civilização –, a alma era uma complicação bem maior do que aquela cujo conceito, durante a infância, impuseram-ma. Estava sujeita a algo chamado carma, cuja compreensão somente milhares de séculos de subordinação aos seus obscuros (pelo menos, para mim) conceitos, tornava-o compreensível. Os povos mulçumanos, se tomarmos a tenaz campanha que os meios de comunicação dos nossos dias fazem contra eles – que isto fique bem claro! –, o conceito de alma é o de algo que só almeja explodir alguns objetos para ir logo para o sétimo céu.
Já a concepção hebraica de alma – contraditória criação de um Deus cruel e implacável (se é que compreendi bem o conceito) – só tem na terra, hoje em dia, um único desejo: acabar com um povo chamado palestino. Já o conceito budista, segundo a concepção vulgar (chamemos desta forma) que ouvi algures, tem como objetivo final se alcançar o nirvana. Sendo que este se alcança permanecendo em completo repouso, muitas vezes emitindo um som gutural, semelhante ao das abelhas, porém, sem tentar aferroar ninguém, olhando para um só ponto, fazendo uso do terceiro olho (não necessariamente o olho que o intelectual paulista Décio Pignatari usou na capa do disco de Tom Zé), permanecendo sempre em repouso, de preferência olhando fixamente para o umbigo, não sei se para não ver nenhuma alma do outro mundo ou se para se alcançar a felicidade plena, mesmo deitado sobre uma cama de pregos.
Ao buscar desesperado (ou quase) o conhecimento da alma, devia haver em minha alma – caso tivesse uma – algo a instigar-me a isto. No entanto, tal hipótese não passava por minha cachola. Uma vez que nem sequer tinha consciência desta possível razão.
Nesta procura intensa, quiçá insensata, cheguei até a buscar razões em um importante Pai de Santo, muito conhecido no meio dos adeptos das religiões chamadas afro-baianas. E antes que sofra censuras dos idiotas do politicamente correto, contumazes acusadores de que tudo que se diz, ou mesmo, pela forma de se dizer, possui caráter discriminatório, esclareço que esta construção, feita acima, de “cheguei até a buscar” deve-se a que, naquele tempo, estas manifestações religiosas não eram aceitas pela sociedade em geral como as são hoje, quando pessoas, as quais, naquele tempo, seriam classificadas como “mulatas claras” se definem agora como negras, não sei bem se por orgulho de uma parte de sua origem ou se em busca de alguma benesse que a sociedade dita branca (e obviamente hipócrita) lhes oferece.
Bem, procurei um Babalorixá e descobri, não sem alguma decepção, que naquelas manifestações religiosas, o adepto era aceito e declarado como cavalo, passando a ser cavalgado para o todo e sempre pelo seu santo protetor, não ficando, porém, evidente ou não, se existia realmente uma alma ou se era esta alma quem era promovida a cavalo. 
Deixando de lado as concepções religiosas, cujos mistérios sobre a alma eram mal digeridas pelo meu fraco intelecto, busquei alguma informação por meio da ciência psicanalítica, somente para topar com novos muros de pedra. Para início de conversa, além daquela conceituação também incompreensível, para mim, de consciente, subconsciente e inconsciente – ademais este último termo fazia-me sempre lembrar as minhas namoradas uruguaias que costumavam dizer-me: “Sois un inconsciente” (significando isto, em nossa forma de falar, o mesmo que inconsequente) –, havia ainda o fato de que o conceito de alma para os profissionais dessa área era muito diferente, não só do religioso, como possuía nomenclatura diversa. Alma era psique, levando-me a todo aquele universo da mitologia grega, a qual possuía várias versões, segundo a fonte narrativa. Desisti, sem maiores aprofundamentos, o fracasso em outras áreas fez-me abandonar a busca, esquecendo minha persistência. Todos aqueles fatos faziam-me lembrar também de um filme de Alfred Hitchcock, com a formosíssima Ingrid Bergman, em que ela interpreta uma doutora desta área, carente de amor, que desperta pela madrugada e vai acabar, aparentemente sem querer, no quarto de um novo médico, o qual chegara ao mesmo Instituto que ela trabalhava. Lá, depois de uma bela sequência em que várias portas se abrem, ela cai nos braços dele, descobrindo, desta forma, que é daquele homem que ela necessitava, talvez até de suas secreções hormonais para conseguir calma. Aquelas portas se abrindo eram – disseram-me – a representação da santa trindade psicanalista: consciente, subconsciente e inconsciente.  
Foi por esta ocasião que me deparei com a linda voz de uma cantora, de música popular brasileira, cuja canção que interpretava dizia algo assim como: “Há almas que têm/ As dores secretas/ As portas abertas/ Sempre pra dor”, que me chamou a atenção justamente pela interposição da palavra dor, relacionando-a com a capacidade das almas possuírem propensão a atraí-las ou a cultivá-las.  
Foi então que, um dia, passados alguns anos, sem que eu esperasse, conheci, em uma livraria, um senhor, amantes dos livros, como eu, com quem fiz amizade. Sem nenhum propósito ou prévia combinação, volta e meia, nos encontrávamos em uma mesma livraria.
Naquele tempo Salvador possuía daqueles tipos de estabelecimento comercial ligados à cultura. Próximo ao local havia um acolhedor bar oculto no saguão de um hotel, onde passamos a parar, não sei se para beber alguma coisa ou se para conversar, sem dispensar, é claro, o indefectível aperitivo.
Não sei por qual razão, uma tarde, já próximo ao crepúsculo vespertino, este momento propenso à melancolia – que atualmente é chamado, quando ocorre em bares, pelo horroroso anglicismo de happy hour (em língua de gente, répi auer) – quando lhe falei, com alguma reserva, de dor. Uma que me afogava... vá lá!... a alma. Quando ele indagou-me qual tipo de dor, julgando que era física, pronto para me oferecer um analgésico. Não sei se pela tristeza que, por alguma razão, costuma me invadir no final das tardes de verão, quando o sol, ao tingir-se de sangue, prenuncia desgraças... vá lá! (outra vez)... d’alma – não sei se por saber que mais um dia acabava ou se a vida era que se aproximava do fim –, disse-lhe que não era uma dor do tipo que os velhos – pois aquela era minha condição –, sentem, daquelas que atacam as articulações, que incomoda quando, estando sentado ou na cama, precisa-se levantar, ou nos tortura, quando precisamos urinar, por exemplo. Mas, um tipo de dor que nos ocupa todo o espaço da vida, como se tivesse nos apertando a garganta, para nos afogar, fingindo que nos acaricia. Como se um taxidermista tivesse extraído todas as nossas vísceras e, em seu lugar, tivesse colocado um enchimento de pequenos espinhos.
O meu interlocutor, a quem secretamente identificava como o “homem da livraria”, de forma grave, disse-me que aquele tipo de dor era provocado pela presença das coisas boas que fizéramos, e que, naquela fase da vida, passáramos a nos interrogar se valera a pena. Das coisas que praticáramos de errado e nos indagava porque procedêramos daquela forma. Em ambos os casos, estavam incluídos os amores ofertados e os negados. Os beijos dados e os recusados. A inveja sentida e cuidadosamente oculta. O ódio alimentado, a resposta grosseira dita a quem se amou. Mas também estava incluso os gestos amáveis, o carinho ofertado no momento certo. Enfim, tudo de bom ou de ruim que fizéramos ao logo da vida e o qual sabíamos, não teríamos uma segunda oportunidade de repeti-lo, corrigindo-os ou não, simplesmente porque os momentos vividos (ou recusados a viver) não se repetiam jamais.
Era isso – afirmava – que ocupava todos os espaços vitais de nosso corpo, sufocando-nos de forma implacável e sem remissão. Perguntou-me mesmo, frente ao meu olhar pasmo, se não já tinha sentido culpa das coisas que fizera sabendo que não devia fazer, ou pelo menos intuindo a isso.      
Sem saber o que lhe responder, perguntei-lhe:
— E para esta dor, não há remédio?
— Só a morte – respondeu-me.

Valença, BA, 7 de agosto de 2013


© Araken Vaz Galvão


(*) Esta mesma classe média que hoje vai às ruas de algumas das nossas cidades pedindo a volta da ditadura.

1.6.15

As obras-primas e eu

Criado no mais rústico dos analfabetismos do sertão, lendo e aprendendo com as histórias de cordel (e a antiga revista Tico-Tico), acostumado a que as narrativas livrescas tivessem obrigatoriamente, começo, meio e fim, e que sempre contassem uma história. Não me tardou descobrir que podiam existir outras maneiras de se fazer uma narrativa, e que, além do mundo do cordel, existia Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, exímios contadores de histórias – figuras indispensáveis para que eu, ao sair da Bahia, começasse e descobrir que literatura tinha outras faces. Pelo menos podia ter.
Foi por este período que comecei a descobrir que havia autores de outros países, os quais, traduzidos, podiam ser por mim admirados, uma vez que, ao degluti-los com avidez, descobria que o mundo, embora vasto – como veria mais tarde em Drummond –, era não só pequeno, como fazia com que as pessoas fossem muito parecidas, pois possuíam sentimentos, bons e ruins, iguais. Muito parecidos pelo menos,
Foi então que – não podendo comprar livros (apenas uns poucos) –, passei a ser influenciado por artigos lidos nos cadernos culturais de alguns jornais, onde imperavam como senhores absolutos[1], ditando o que seria bom em matéria de obras recém-lançadas, em sua maioria as da segunda metade do século XX, que nenhuma pessoa medianamente alfabetizada – segundo aqueles jornalistas – podia deixar de ler.
Por esta época descobri também, por meio desses importantes jornalistas que, em matéria de poesia[2], existiam T. S. Eliot (1888-1965), Ezra Pound (1885-1972), claro que antes deles estava William Shakespeare (1564-1616), mas este, não só era de séculos passados, como ninguém era louco o suficiente para compará-lo com outro mortal. Até mesmo porque ele era imortal ainda que não tendo pertencido a nenhuma academia. Marcel Proust.
O descobrimento da existência destes dois deuses levou-me a concluir que, não só havia uma forma de se escrever poesia – a qual Pound determinara –, que não podia ser transgredida de nenhuma forma. Nunca soube, porém, se este gênio tornara-se fascista devido a seu apego a impor  de modo autoritário (a forma de escrever versos), se por outra qualquer razão de ordem até trivial. Sei, sim, que esta descoberta fez-me concluir que poesia não era minha praia – como dizem os cariocas, os donos da beira-mar da zona sul –, levando-me a concentrar-me tão somente na boa e velha prosa. Mas esta decisão fez-me cair em uma arapuca.
Foi quando me deparei com o fato de que, em mátria de prosa, só um autor[3] contava: James Joyce (1882-1941). Desta forma descobri que primeiro vinha Joyce, depois vinha Deus. Mas Deus, talvez por escrever certo por linhas tortas, legara aos homens alguns livros contraditórios. Sendo que o que coubera a nós, aqui no Brasil, viera do povo hebreu, por via do cristianismo, não podendo jamais se equiparar à genialidade de Joyce que lhe antecediam. Antecedia como escritor. 
Desta forma, ao ouvir referência a um escritor (o tal que escrevia certo por linhas tortas), imaginei que, existindo um Deus, teria que haver também um diabo. Foi assim que descobri a existência de um homem (outro) de ideias criativas diabólicas, chamado Franz Kafka já que o mundo dos homens necessitava de alguém que retratasse este lado da realidade.
Mas, este mundo dos homens era demasiado contraditório, então precisou de outros cronistas. Alguém, por exemplo, que mostrasse algumas facetas do absurdo que reinava entre nós, foi por esta via que tomei conhecimento da existência de Jorge Luis Borges.
Havia a necessidade também de alguém que falasse do amor, já que os homens, e as mulheres, não se sabem se por necessidade de reprodução, ou por outra qualquer razão de ordem desconhecida, precisavam com avidez de sofrer. E como o amor é demasiadamente complexo – um autor português, cunhara um título maravilhoso, para uma obra menor, “O Amor é Fodido”, o que não deixava de ser uma verdade acabada –, surgiu alguém que escreveria um livro mostrando todas as contradições do amor, evocando “Grandes Sertões – Veredas”, em que ficava exposto que não bastava se amar, mas era preciso saber-se amar.
Todos estes autores, todas estas obras, em meu aprendizado – após ter deixado de lado as história de cordel –, foram repassadas por mim. Nem sempre captando todo o significado deles. Isto me ocorreu, em particular com a obra de Joyce, pois o confundi, talvez, com a Odisseia que lhe servira de ponto de partida, que tinha começo, meio e fim, além de uma beleza inigualável. Mas antes de romper minha cabeça com o enigma de Ulisses do século XX, tive contato com Gabriel García Márquez, com Alejo Carpentier, com Augusto Roa Bastos, com Juan Rulfo, com José Donoso, com Vargas Llosa, com Carlos Fuentes, com Felisberto Hernandez, com José Cândido de Carvalho.
Por este caminho, mas o seguindo em linha reta, tomei conhecimento, de forma um tanto atabalhoada, que não era preciso impor a quem quer que fosse uma modo padrão de escrever, embora pudesse haver formas engenhosas de fazê-lo, foi quando comecei a atinar sobre a importância dos trabalhos de autores como Assis Brasil, um escritor que era tão importante que, quando o li[4], não assimilei logo toda a sua genialidade. Passaram-se anos para que eu apercebesse a engenhosidade daquela estrutura narrativa.
Somente mais tarde, já depois da volta do exílio (Ah! Esquecera. Estivera exilado onze anos), é que descobri os ardis que se escondiam por traz da narrativa de “Um belo domingo”, de Jorge Semprun. Seguindo-se-lhe “Respiração artificial’, de Ricardo Piglia e “A dança imóvel”, de Manoel Scorza, não necessariamente nesta ordem.  
Cheguei até – suprema ousadia! – a julgar-me digno de enveredar pelos caminhos os quais aqueles monstros divinos trilharam –, tendo escrito: “Crônicas de uma família sertaneja”, “Saga de um menino do sertão”, “Histórias Sertanejas” e “O Velho jagunço”, até que descobrir não só que meu trabalho não passava de formas disfarçadas de escrever histórias de cordel, como também não possuía talento para acompanhar estrelas tão grandes.

Valença, 28 de maio de 2015

© Araken Vaz Galvão




[1] Paulo Francis (no Rio) e Sérgio Augusto (em São Paulo); acredito que eram esses.
[2] Ainda que eu, influenciado pela admiração que todo baiano de minha geração nutria por Castro Alves, ficasse um pouco intrigado.
[3] Não sei se o nome de Joyce despontou na imprensa especializada devido à tradução feita por Antônio Houaiss, mas alguma coisa deve ter contribuído a profunda admiração que os irmãos Campos, do Rio Grande do Sul, nutriam por ele e apregoavam constante assombro frente à tamanha genialidade.
[4] Creio que por volta do ano de 1967 (talvez 68), estava preso, disso tenho certeza. 

2.5.15

Os Malditos – Outros, também grandes

No caso, os malditos a que me refiro, são os escritores, considerados como tal não apenas pelo talento reconhecido por muitos intelectuais de peso, como também por um público leitor mais seleto[1], e não apenas pela opinião de jornalistas, autoproclamados especialistas, colocados a serviço das empresas editoras, mediante estipêndio ou informação de resenhistas que se limita a traduzir trabalhos publicados em jornais e revistas estrangeiras, em particular, de países de língua inglesa, com destaque para as matérias vindas dos Estados Unidos.
Com esta pequena introdução, deseja-se realçar que malditos em literatura sempre houve, desde épocas imemoriais[2], porém dois nomes existem que, através dos tempos, nestes últimos séculos, têm sido falados e referenciados como autores de obras de alto valor literário, apesar dos temas (escabrosos, diga-se desta forma) que abordaram. No entanto, por nunca ter tido a oportunidade de lê-los, fico na dúvida se os encômios possuem base da realidade ou se são apenas sinais dos tempos, também escabrosos em que vivemos.
Estes autores são: Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814) e Leopold Ritter von Sacher-Masoch (1836-1895), respectivamente. O primeiro, ao que parece, bem retratou, com seu comportamento dissoluto – independente do seu talento literário –, a decadência do sistema político, chamado de Ancien régime (Antigo Regime), da França. Escritor libertino (como era chamado na época) de origem aristocrata, por esta primeira razão, esteve preso na famosa Bastilha, por decisão dos seus amigos aristocratas. Foi novamente preso, possivelmente pelas duas razões (por ser aristocrata e escritor libertino), várias outras vezes, inclusive durante o período de Napoleão. Seu nome e o seu comportamento sexual inspiraram o surgimento do neologismo para designar o que já era conhecido, como comportamento doentio, desde muito tempo. Refere-se à algolagnia, que foi chamada de sadismo.
Sobre ele pode-se dizer – mesmo com o risco de se ferir o policiamento nascido do comportamento dito de politicamente correto – que se fica em dúvida se o enaltecimento dos seus dotes literários possui base da realidade ou se é apenas sinal dos tempos.
O segundo foi um escritor e jornalista nascido na Ucrânia, então parte do Império Austro-Húngaro, o qual, devido a uma situação demostrada em seu romance “A Vênus de Peles” (1870), acabou por inspirar a criação do termo masoquismo, glosado pelo psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing (1840-1902), devido ao fato de que um dos personagens atinge o gozo sexual após ser chicoteado pelo amante de sua própria esposa, o que poderia levar o vulgo a deduzir que ele gostava mesmo de sofrer em dose dupla: pelo lado da moral e pelo lado físico.
Sacher-Masoch, muito citado apenas como Masoch, ao que parece, e ao contrário de seu congênere (no conhecimento popular), não praticava o que o seu nome popularizou, no entanto possuía suficiente talento literário para ser lembrado. Foi amigo do escritor russo Ivan Turgeniev[3], o qual o via como um potencial sucessor de Goethe[4]. Porém é mais lembrado como pensador utópico e como moralista, além de portador de ideias vinculadas ao socialismo utópico.
Este comportamento, tanto do Marquês de Sade, como de Masoch, não deve causar arrepios a ninguém, já que tanto nos reinados, da Europa – similar ao que sucedera em Roma[5] antiga –, a depravação moral ou permissividade, inclusive sexual, foi prática comum entre as classes dominantes[6], não se sabe se por uma tendência natural do ser humano, ou se por consequência da ociosidade, do tipo que os velhos do meu tempo (de quando eu era criança), demonstrando muita tolerância, chamavam de falta do que fazer.
Toda este longa introdução, é para falar de Jean Genet (1910-1986), controverso escritor francês, sobre quem Jean-Paul Sartre, deixando por momentos seu altíssimo pedestal, escreveu um livro sobre ele. Jean Genet era filho de uma prostituta, cujo pai, como sucede hoje amiúde, e naquele tempo mais ainda (pelo menos sucedia com estas profissionais do amor mercantil), era desconhecido, ao ser localizado em estado de abandono, foi enviado para o interior, como era comum naquele tempo, com as crianças hoje chamadas de rua, onde foi adotado por uma família. Mas Genet era, talvez, um desajustado[7] nato. Não demorou abandonou a família que o adotara, passando sua juventude cometendo crimes e em reformatórios, onde assumiu sua homossexualidade, passando – coisa rara na época – a orgulhar-se dela. Não sei em que momento conheceu o renomado poeta Jean Cocteau[8] (1889-1963), também homossexual, o que o tornou conhecido no meio artístico e intelectual da França. Mas foi talvez a amizade com Sartre, o livro que escreveu sobre ele “e seu calvário”, que tornou possível que Genet se fizesse amigo de, ninguém menos, do que os filósofos Jacques Derrida e Michel Foucault, os escritores Juan Goytisolo e Alberto Moravia, os compositores Igor Stravinski e Pierre Boulez, o diretor de teatro Roger Blin, os pintores Leonor Fini e Christian Bérad, os líderes políticos Georges Pompidou e François Mitterrand, como se pode ver no google. Ou seja, da nata da cultura da França e da Europa daquele tempo. Genet, mesmo com toda sua juventude passada em reformatórios e prisões, aos 18 anos ingressou na Legião Estrangeira Francesa, da qual foi expulso por ter sido descoberto fazendo sexo com outro homem. Mas ter sido excluído daquela organização militar francesa, com desonra, não abateu Genet, pois ele – justiça lhe seja feita –, sempre proclamara com orgulho sua homossexualidade. Não demorou muito teve o seu nome associado às peças teatrais que o consagravam, como “O Balcão”, “Os Negros” e “Os Biombos”, por exemplo. Tudo isso relacionando com uma “[...] mitologia pessoal marcada por escândalos, roubos e rixas”. O que contribuiu para conquistar a admiração da nata da intelectualidade europeia. Vivia-se o período de uma grande revolução nos costumes, com valorização do que passou a se chamar de marginais[9] – uma fauna até então, apensar de existente, era discriminada pela sociedade, a qual fingia ignorá-la, foi o tempo dos hippies nos Estados Unidos (fenômeno que se espalhou pelo mundo[10]). A sua consagração definitiva deu-se com os livros “Nossa Senhora das Flores” e “O Milagre da Rosa”, que são respeitados até por críticos mais sisudos.
No entanto, Genet foi endeusado enquanto seu modo de vida violentava apenas os costumes burgueses da época, quando ele – mostrando que era mesmo um rebelde –­ passou a defender os imigrantes na França, a causa dos palestinos elogiando os líderes mais radicais do movimento como Panteras Negras, nos Estados Unidos, começou a entrar em declínio, o suicídio de um de seus amantes e do amigo e tradutor Bernard Frechtman, levou a que ele próprio tentasse a se matar. Genet morreu em 1986. Deixou ainda um livro de memórias: “Diário de um Ladrão”.




[1] Que não se veja nesta palavra nenhuma intenção elitista. Mas é que a prática tem mostrado que obras, muitas vezes de valor nulas, devidamente incensadas pela mídia, resulta em fenômeno de vendas. O resultado desse “fenômeno” é que, alguns meses depois do “sucesso”, os sebos estão repletos de livros que nem foram abertos ou o foram somente nas primeiras páginas. 
[2] Pode-se citar, na impossibilidade de ir buscar exemplo mais longe, Safo, nascida entre 630 e 612, na ilha grega de Lesbos, censurada durante a Idade Média, não se sabe se pelo conteúdo de sua poesia – hoje reconhecida como de alta qualidade – ou apenas pela carga de maldição que o lugar onde nascera carrega através dos tempos.
[3] De quem já se falou no “Quase Ensaio” sobre a literatura russa.
[4] Este fenômeno de se dizer que um novo talento é o substituto de um grande nome do passado, não passa, em minha opinião, de “complexo de vira-lata”. E eu pensando que isto só existia no Brasil.
[5] Refere-se ao que se fala, em nossos dias, sobre Nero ou Calígula, por exemplo.
[6] No Renascimento, segundo crença muito arraigada entre os jovens do meu tempo – crença esta que não desejo ter o trabalho de averiguar – os Borgias, com destaque para a famosa Lucrécia, eram contumazes na pratica deste tipo de depravação, e de muitas outras mais.
[7] Com Jean Genet, mais do que com qualquer outro, é preciso não se jogar a primeira (nem a última) pedra, tampouco tolerar seus desajuste porque ele era um grande escritor. Pode-se ainda lembrar os versos da canção que Ariel Luna escreveu para Alfonsina Storne – tantas vezes citados em meus textos, em situações análogas: “Sabe Dios que angustias te acompanho/ que Dolores viejos marcó tu voz”.
[8] Além de romancista, cineasta, figurinista, dramaturgo, ator, e encenador do teatro francês.
[9] Bêbados, moradores de rua, prostitutas, homossexuais, usuários de drogas. Alguns neologismos relacionados a estas pessoas surgiram, como, por exemplo, garota de programa, para as prostitutas, gay, para os homossexuais, etc. todos externando uma tolerância e aceitação que ainda subsistem até os nossos dias.
[10] No Brasil este movimento de endeusamento da marginalidade teve sua repercussão em vários setores da vida cultural, com destaque para o teatro, onde se viu peças como “Greta Garbo – quem diria! – acabou no Irajá”, de 1973, de Fernando Mello, n. em 1945; Cordélia Brasil, de Antônio Bivar (n. em 1939), de 1970, entre outras. Porém, o grande nome deste tipo de teatro foi Plínio Marcos (1935-1999), principalmente com “Dois Perdidos em uma Noite Suja”, de 1966; e “Navalha na Carne”, de 1967. 

Valença, BA, 1º de Maio de 2015


© Araken Vaz Galvão 

20.4.15

Sartre – como o conheci.

O verbo conhecer está empregado com toda relatividade possível, porque nunca tive a honra e o prazer de ser apresentado ao ilustre intelectual. Apenas dele muito ouvira falar e tinha lido alguns poucos textos seus. Vamos então a este conhecimento.  
Conversando com um amigo – que a casualidade, além de sua imensa generosidade, o transformou em meu assessor para assuntos literários – diria mesmo dizer que assistente ad doc ou quase –, devido ao seu grande conhecimento relacionado com este importante assunto –, Elieser Cesar, sobre autores franceses. Perguntei-lhe se devia incluir o nome de Jean Genet, entre os grandes das letras da França (os que eu conhecia, claro) –, embora também o conhecesse apenas de ouvir falar, pois não tinha lido nenhuma das suas obras, uma vez que os temas abordados nelas não eram do meu particular interesse, além de que ele se enquadrasse mais como dramaturgo (tema que não comento), do que como ficcionista –, meu amigo disse que sim, que devia citá-lo da mesma forma, pois eu tivera muita informação sobre seus feitos, no tempo em que seu nome andou pelas primeiras páginas dos cadernos culturais dos jornais das grandes cidades brasileiras, que fosse apenas por poder trazer a baila sua, dele, dramaturgia, entre uma geração mais ligada com as futilidades das redes sociais. Encerrado suas sábias recomendações, dizendo que Sartre tinha escrito um livro sobre aquele autor e sua obra.
Foi então, em função deste último detalhe de seu comentário, que me lembrei ter omitido o nome de Jean-Paul Sartre (1905-1980), de quem tinha lido inclusive, quando estava no exílio, um livro de contos[1], “O Muro”, o qual, embora muito comentado positivamente pela crítica (e pela esquerda em geral), não me pareceu algo digno de tantos elogios, pois considerei aqueles contos, como ficção, bastante francos, inclusive conclui que o mais importante neles estava no caráter psicológico das personagens e não na trama.
Por aquela mesma época, surgiu também a oportunidade de ler outra obra sua de ficção, “A Náusea”, mas isto ocorreu depois que eu passara uma ano na Embaixada do Uruguai[2], estando muito susceptível justamente a sentir náuseas, pois tinha fugido de uma das prisões da ditadura, estando bastante decepcionado com aquele percalço, o que me tirou completamente o desejo de ler aquele obra.
No entanto, mais tarde, ouvi referência também a ensaios seus sobre filosofia, com títulos do tipo “O Ser e o Nada”, de 1943; de sua trilogia de ficção “Os Caminhos da Liberdade”, de 1945, 1947, 1949, mas isto sucedeu, quando já me encontrava no exílio, por ter enveredado por aquele caminho, cujo veiculo condutor era o fuzil – segundo dissera Mao Tsé Tung –, porém tendo fracassado por completo.
Porém, a lembrança de algumas poucas obras, entre as muitas que Sartre escrevera, em sua maioria sobre filosofia e para teatro, considerando, ademais, que nada sabia sobre aqueles temas, não me dava suficiente coragem para falar de uma figura tão emblemática do século XX, como fora aquele brilhante, além de polêmico, pensador.
Foi então que me veio à memória uma história jocosa sobre ele, o qual, diga-se por indispensável ênfase, teria sido vítima de um terrível engano, uma vez que ele, Sartre, ao que parece, teria sido traído pela cegonha, pois deveria ter nascido na Argentina – terra onde nascem aquelas pessoas que têm por destino possuir o ego maior[3] do que o próprio globo terrestre –, mas não se sabe por qual razão, caiu na França. Não que os franceses não se achem os mais cultos, os mais perspicazes, mais inteligentes, além de mais refinados tendo, portanto, o ego assaz desenvolvido. É que os franceses, segundo dizem têm alguma razão para serem desta forma, já os argentinos... Os quais, por algo também desconhecido (e inexplicável) possuem um ego tão grande que boa parte da população imigra devido ao fato real de que o espaço geográfico do país não comporta tanto ego, os quais, em vários momentos, se contrapõe ao ego portenho, el más grande y más sobresaliente, maior mesmo do que o dos demais argentinos.  
Mas, como o objetivo deste trabalho não é desvendar a razão do tamanho do ego argentino e, tampouco, compará-lo com o de Sartre, volta-se a falar daquele escritor, dramaturgo, contista, filósofo e critico literário, além de grande prefaciador de obras de autores desconhecidos que ele julgava dignos de apoio. Conta-se que ele chegou a escrever um prefácio maior[4] do que o próprio livro que apresentava. Isto é o que se diz, talvez com bastante maldade, em relação ao que teria sucedido com o livro de Frantz Fanon, “Os Condenados da Terra”, publicado em 1961, o qual sofreu também a maldade de ter sido acusado de que a própria CIA[5] teria financiado sua publicação justamente para desmoralizar a obra e seu autor.
 Maldade dos detratores a parte, sabe-se que Sartre durante sua vida, embora nem sempre contasse com a sorte, teve alguns momentos de coragem. Dois deles – lembro-me perfeitamente – quando se recusou a receber o Prêmio Nobel[6] e quando contribuiu para aumentar a altura de uma das barricadas que os estudantes montaram nas ruas de Paris, durante a célebre revolta do Maio de 68, quando (segundo as más línguas) Sartre foi fotografado colocando um objeto (um paralelepípedo, para muitos; uma pedrinha, para outros) em uma barricada, tendo ido, depois daquele hercúleo esforço (estava já bastante idoso) para casa, onde o esperava sua dedicada companheira Simone de Beauvoir[7] (1908-1986), também brilhante intelectual.
Mas, o que se disse sobre Sartre não ser muito aquinhoado da sorte, talvez seja verdade, devido a que, depois de morto, sua ex-companheira (quase viúva) de muitos anos – embora não muito fiel (o que não configurou em nenhum pecado, pois ele também procedia da mesma forma) –, a citada Simone de Beauvoir, escreveu um livro onde expunha muitos pensamentos desabonadores sobre a pessoa com quem vivera (e suportara, de forma estoica) durante tanto tempo. Este tipo de fato, corriqueiro com as amantes de bandidos e políticos[8], jamais ficara condizente com uma intelectual com uma mulher do nível e conhecimento dela.

Valença, BA, 14 de abril de 2015
                       © Araken Vaz Galvão


[1] Lera ainda o texto da sua obra teatral “A Prostituta Respeitosa”, de 1946. Lera também “Furacão sobre Cuba” (escrito juntamente com Fernando Sabino e Rubem Braga) – 1961, o qual falava sobre a revolução cubana. Contudo não estou bem seguro se foi mesmo na prisão ou no exílio que isto sucedera.
[2] Então no Rio de Janeiro, aguardando a concessão do salvo-conduto para poder seguir para Montevidéu, depois de ter fugido da prisão, ficando mais de um ano de espera, no que resultou em mais um ano de prisão, além de muita frustração.
[3] Há uma anedota (chiste) que afirma: Se você comprar um argentino pelo o que ele vale e vendê-lo pelo que ela acredita que vale, ficara milionário. 
[4] Isto é o que as más línguas, no caso, dizem, que teria sucedido com o livro “Os Condenados da Terra” (1961) do escritor, nascido na Martinica (França) e Franz Fanon (1925-1961), obra cuja publicação teria sido financiada pela CIA.
[5] Soube-se mais tarde que, em determinado período da Guerra Fria, a CIA financiava indiretamente empreendimentos de esquerda, a publicação de livros importantes, por exemplo, aqueles que mostravam verdades incômodas sobre a política dos Estados Unidos, com o fito de desmoralizar o autor com o rótulo de ser um agente, com livros financiados pela CIA. Boato que eles próprios deixavam vazar.
[6] Não que este Prêmio tenha algum valor, salvo o de dinheiro, que é considerável.
[7] Ao bem da verdade, Simone de Beauvoir, embora tenha sido companheira de toda a vida de Sartre, jamais morou na mesma casa que ele, além de ter tido vários outros parceiros sexuais. Os dois tinham modernamente casas diferentes. Embora ela frequentasse amiúde o endereço dele, não só para cumprir função de cama – como é comum a todo casal – ou para trabalhos adicionais de lavar as cuecas do consorte, cuidar do seu bem-estar, supervisionando as coisas prática da vida.   
[8] Hoje, não há dúvida, bandido e políticos – aqueles que o povo elege como deputados – são as mesmas coisas. Não faz muito a esposa de um ex-prefeito de São Paulo, ao se separar dele, denunciou-o como corrupto. E não foi por meio de uma falácia chamada de “delação premiada”.