1.6.15

As obras-primas e eu

Criado no mais rústico dos analfabetismos do sertão, lendo e aprendendo com as histórias de cordel (e a antiga revista Tico-Tico), acostumado a que as narrativas livrescas tivessem obrigatoriamente, começo, meio e fim, e que sempre contassem uma história. Não me tardou descobrir que podiam existir outras maneiras de se fazer uma narrativa, e que, além do mundo do cordel, existia Jorge Amado, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, exímios contadores de histórias – figuras indispensáveis para que eu, ao sair da Bahia, começasse e descobrir que literatura tinha outras faces. Pelo menos podia ter.
Foi por este período que comecei a descobrir que havia autores de outros países, os quais, traduzidos, podiam ser por mim admirados, uma vez que, ao degluti-los com avidez, descobria que o mundo, embora vasto – como veria mais tarde em Drummond –, era não só pequeno, como fazia com que as pessoas fossem muito parecidas, pois possuíam sentimentos, bons e ruins, iguais. Muito parecidos pelo menos,
Foi então que – não podendo comprar livros (apenas uns poucos) –, passei a ser influenciado por artigos lidos nos cadernos culturais de alguns jornais, onde imperavam como senhores absolutos[1], ditando o que seria bom em matéria de obras recém-lançadas, em sua maioria as da segunda metade do século XX, que nenhuma pessoa medianamente alfabetizada – segundo aqueles jornalistas – podia deixar de ler.
Por esta época descobri também, por meio desses importantes jornalistas que, em matéria de poesia[2], existiam T. S. Eliot (1888-1965), Ezra Pound (1885-1972), claro que antes deles estava William Shakespeare (1564-1616), mas este, não só era de séculos passados, como ninguém era louco o suficiente para compará-lo com outro mortal. Até mesmo porque ele era imortal ainda que não tendo pertencido a nenhuma academia. Marcel Proust.
O descobrimento da existência destes dois deuses levou-me a concluir que, não só havia uma forma de se escrever poesia – a qual Pound determinara –, que não podia ser transgredida de nenhuma forma. Nunca soube, porém, se este gênio tornara-se fascista devido a seu apego a impor  de modo autoritário (a forma de escrever versos), se por outra qualquer razão de ordem até trivial. Sei, sim, que esta descoberta fez-me concluir que poesia não era minha praia – como dizem os cariocas, os donos da beira-mar da zona sul –, levando-me a concentrar-me tão somente na boa e velha prosa. Mas esta decisão fez-me cair em uma arapuca.
Foi quando me deparei com o fato de que, em mátria de prosa, só um autor[3] contava: James Joyce (1882-1941). Desta forma descobri que primeiro vinha Joyce, depois vinha Deus. Mas Deus, talvez por escrever certo por linhas tortas, legara aos homens alguns livros contraditórios. Sendo que o que coubera a nós, aqui no Brasil, viera do povo hebreu, por via do cristianismo, não podendo jamais se equiparar à genialidade de Joyce que lhe antecediam. Antecedia como escritor. 
Desta forma, ao ouvir referência a um escritor (o tal que escrevia certo por linhas tortas), imaginei que, existindo um Deus, teria que haver também um diabo. Foi assim que descobri a existência de um homem (outro) de ideias criativas diabólicas, chamado Franz Kafka já que o mundo dos homens necessitava de alguém que retratasse este lado da realidade.
Mas, este mundo dos homens era demasiado contraditório, então precisou de outros cronistas. Alguém, por exemplo, que mostrasse algumas facetas do absurdo que reinava entre nós, foi por esta via que tomei conhecimento da existência de Jorge Luis Borges.
Havia a necessidade também de alguém que falasse do amor, já que os homens, e as mulheres, não se sabem se por necessidade de reprodução, ou por outra qualquer razão de ordem desconhecida, precisavam com avidez de sofrer. E como o amor é demasiadamente complexo – um autor português, cunhara um título maravilhoso, para uma obra menor, “O Amor é Fodido”, o que não deixava de ser uma verdade acabada –, surgiu alguém que escreveria um livro mostrando todas as contradições do amor, evocando “Grandes Sertões – Veredas”, em que ficava exposto que não bastava se amar, mas era preciso saber-se amar.
Todos estes autores, todas estas obras, em meu aprendizado – após ter deixado de lado as história de cordel –, foram repassadas por mim. Nem sempre captando todo o significado deles. Isto me ocorreu, em particular com a obra de Joyce, pois o confundi, talvez, com a Odisseia que lhe servira de ponto de partida, que tinha começo, meio e fim, além de uma beleza inigualável. Mas antes de romper minha cabeça com o enigma de Ulisses do século XX, tive contato com Gabriel García Márquez, com Alejo Carpentier, com Augusto Roa Bastos, com Juan Rulfo, com José Donoso, com Vargas Llosa, com Carlos Fuentes, com Felisberto Hernandez, com José Cândido de Carvalho.
Por este caminho, mas o seguindo em linha reta, tomei conhecimento, de forma um tanto atabalhoada, que não era preciso impor a quem quer que fosse uma modo padrão de escrever, embora pudesse haver formas engenhosas de fazê-lo, foi quando comecei a atinar sobre a importância dos trabalhos de autores como Assis Brasil, um escritor que era tão importante que, quando o li[4], não assimilei logo toda a sua genialidade. Passaram-se anos para que eu apercebesse a engenhosidade daquela estrutura narrativa.
Somente mais tarde, já depois da volta do exílio (Ah! Esquecera. Estivera exilado onze anos), é que descobri os ardis que se escondiam por traz da narrativa de “Um belo domingo”, de Jorge Semprun. Seguindo-se-lhe “Respiração artificial’, de Ricardo Piglia e “A dança imóvel”, de Manoel Scorza, não necessariamente nesta ordem.  
Cheguei até – suprema ousadia! – a julgar-me digno de enveredar pelos caminhos os quais aqueles monstros divinos trilharam –, tendo escrito: “Crônicas de uma família sertaneja”, “Saga de um menino do sertão”, “Histórias Sertanejas” e “O Velho jagunço”, até que descobrir não só que meu trabalho não passava de formas disfarçadas de escrever histórias de cordel, como também não possuía talento para acompanhar estrelas tão grandes.

Valença, 28 de maio de 2015

© Araken Vaz Galvão




[1] Paulo Francis (no Rio) e Sérgio Augusto (em São Paulo); acredito que eram esses.
[2] Ainda que eu, influenciado pela admiração que todo baiano de minha geração nutria por Castro Alves, ficasse um pouco intrigado.
[3] Não sei se o nome de Joyce despontou na imprensa especializada devido à tradução feita por Antônio Houaiss, mas alguma coisa deve ter contribuído a profunda admiração que os irmãos Campos, do Rio Grande do Sul, nutriam por ele e apregoavam constante assombro frente à tamanha genialidade.
[4] Creio que por volta do ano de 1967 (talvez 68), estava preso, disso tenho certeza. 

2.5.15

Os Malditos – Outros, também grandes

No caso, os malditos a que me refiro, são os escritores, considerados como tal não apenas pelo talento reconhecido por muitos intelectuais de peso, como também por um público leitor mais seleto[1], e não apenas pela opinião de jornalistas, autoproclamados especialistas, colocados a serviço das empresas editoras, mediante estipêndio ou informação de resenhistas que se limita a traduzir trabalhos publicados em jornais e revistas estrangeiras, em particular, de países de língua inglesa, com destaque para as matérias vindas dos Estados Unidos.
Com esta pequena introdução, deseja-se realçar que malditos em literatura sempre houve, desde épocas imemoriais[2], porém dois nomes existem que, através dos tempos, nestes últimos séculos, têm sido falados e referenciados como autores de obras de alto valor literário, apesar dos temas (escabrosos, diga-se desta forma) que abordaram. No entanto, por nunca ter tido a oportunidade de lê-los, fico na dúvida se os encômios possuem base da realidade ou se são apenas sinais dos tempos, também escabrosos em que vivemos.
Estes autores são: Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740-1814) e Leopold Ritter von Sacher-Masoch (1836-1895), respectivamente. O primeiro, ao que parece, bem retratou, com seu comportamento dissoluto – independente do seu talento literário –, a decadência do sistema político, chamado de Ancien régime (Antigo Regime), da França. Escritor libertino (como era chamado na época) de origem aristocrata, por esta primeira razão, esteve preso na famosa Bastilha, por decisão dos seus amigos aristocratas. Foi novamente preso, possivelmente pelas duas razões (por ser aristocrata e escritor libertino), várias outras vezes, inclusive durante o período de Napoleão. Seu nome e o seu comportamento sexual inspiraram o surgimento do neologismo para designar o que já era conhecido, como comportamento doentio, desde muito tempo. Refere-se à algolagnia, que foi chamada de sadismo.
Sobre ele pode-se dizer – mesmo com o risco de se ferir o policiamento nascido do comportamento dito de politicamente correto – que se fica em dúvida se o enaltecimento dos seus dotes literários possui base da realidade ou se é apenas sinal dos tempos.
O segundo foi um escritor e jornalista nascido na Ucrânia, então parte do Império Austro-Húngaro, o qual, devido a uma situação demostrada em seu romance “A Vênus de Peles” (1870), acabou por inspirar a criação do termo masoquismo, glosado pelo psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing (1840-1902), devido ao fato de que um dos personagens atinge o gozo sexual após ser chicoteado pelo amante de sua própria esposa, o que poderia levar o vulgo a deduzir que ele gostava mesmo de sofrer em dose dupla: pelo lado da moral e pelo lado físico.
Sacher-Masoch, muito citado apenas como Masoch, ao que parece, e ao contrário de seu congênere (no conhecimento popular), não praticava o que o seu nome popularizou, no entanto possuía suficiente talento literário para ser lembrado. Foi amigo do escritor russo Ivan Turgeniev[3], o qual o via como um potencial sucessor de Goethe[4]. Porém é mais lembrado como pensador utópico e como moralista, além de portador de ideias vinculadas ao socialismo utópico.
Este comportamento, tanto do Marquês de Sade, como de Masoch, não deve causar arrepios a ninguém, já que tanto nos reinados, da Europa – similar ao que sucedera em Roma[5] antiga –, a depravação moral ou permissividade, inclusive sexual, foi prática comum entre as classes dominantes[6], não se sabe se por uma tendência natural do ser humano, ou se por consequência da ociosidade, do tipo que os velhos do meu tempo (de quando eu era criança), demonstrando muita tolerância, chamavam de falta do que fazer.
Toda este longa introdução, é para falar de Jean Genet (1910-1986), controverso escritor francês, sobre quem Jean-Paul Sartre, deixando por momentos seu altíssimo pedestal, escreveu um livro sobre ele. Jean Genet era filho de uma prostituta, cujo pai, como sucede hoje amiúde, e naquele tempo mais ainda (pelo menos sucedia com estas profissionais do amor mercantil), era desconhecido, ao ser localizado em estado de abandono, foi enviado para o interior, como era comum naquele tempo, com as crianças hoje chamadas de rua, onde foi adotado por uma família. Mas Genet era, talvez, um desajustado[7] nato. Não demorou abandonou a família que o adotara, passando sua juventude cometendo crimes e em reformatórios, onde assumiu sua homossexualidade, passando – coisa rara na época – a orgulhar-se dela. Não sei em que momento conheceu o renomado poeta Jean Cocteau[8] (1889-1963), também homossexual, o que o tornou conhecido no meio artístico e intelectual da França. Mas foi talvez a amizade com Sartre, o livro que escreveu sobre ele “e seu calvário”, que tornou possível que Genet se fizesse amigo de, ninguém menos, do que os filósofos Jacques Derrida e Michel Foucault, os escritores Juan Goytisolo e Alberto Moravia, os compositores Igor Stravinski e Pierre Boulez, o diretor de teatro Roger Blin, os pintores Leonor Fini e Christian Bérad, os líderes políticos Georges Pompidou e François Mitterrand, como se pode ver no google. Ou seja, da nata da cultura da França e da Europa daquele tempo. Genet, mesmo com toda sua juventude passada em reformatórios e prisões, aos 18 anos ingressou na Legião Estrangeira Francesa, da qual foi expulso por ter sido descoberto fazendo sexo com outro homem. Mas ter sido excluído daquela organização militar francesa, com desonra, não abateu Genet, pois ele – justiça lhe seja feita –, sempre proclamara com orgulho sua homossexualidade. Não demorou muito teve o seu nome associado às peças teatrais que o consagravam, como “O Balcão”, “Os Negros” e “Os Biombos”, por exemplo. Tudo isso relacionando com uma “[...] mitologia pessoal marcada por escândalos, roubos e rixas”. O que contribuiu para conquistar a admiração da nata da intelectualidade europeia. Vivia-se o período de uma grande revolução nos costumes, com valorização do que passou a se chamar de marginais[9] – uma fauna até então, apensar de existente, era discriminada pela sociedade, a qual fingia ignorá-la, foi o tempo dos hippies nos Estados Unidos (fenômeno que se espalhou pelo mundo[10]). A sua consagração definitiva deu-se com os livros “Nossa Senhora das Flores” e “O Milagre da Rosa”, que são respeitados até por críticos mais sisudos.
No entanto, Genet foi endeusado enquanto seu modo de vida violentava apenas os costumes burgueses da época, quando ele – mostrando que era mesmo um rebelde –­ passou a defender os imigrantes na França, a causa dos palestinos elogiando os líderes mais radicais do movimento como Panteras Negras, nos Estados Unidos, começou a entrar em declínio, o suicídio de um de seus amantes e do amigo e tradutor Bernard Frechtman, levou a que ele próprio tentasse a se matar. Genet morreu em 1986. Deixou ainda um livro de memórias: “Diário de um Ladrão”.




[1] Que não se veja nesta palavra nenhuma intenção elitista. Mas é que a prática tem mostrado que obras, muitas vezes de valor nulas, devidamente incensadas pela mídia, resulta em fenômeno de vendas. O resultado desse “fenômeno” é que, alguns meses depois do “sucesso”, os sebos estão repletos de livros que nem foram abertos ou o foram somente nas primeiras páginas. 
[2] Pode-se citar, na impossibilidade de ir buscar exemplo mais longe, Safo, nascida entre 630 e 612, na ilha grega de Lesbos, censurada durante a Idade Média, não se sabe se pelo conteúdo de sua poesia – hoje reconhecida como de alta qualidade – ou apenas pela carga de maldição que o lugar onde nascera carrega através dos tempos.
[3] De quem já se falou no “Quase Ensaio” sobre a literatura russa.
[4] Este fenômeno de se dizer que um novo talento é o substituto de um grande nome do passado, não passa, em minha opinião, de “complexo de vira-lata”. E eu pensando que isto só existia no Brasil.
[5] Refere-se ao que se fala, em nossos dias, sobre Nero ou Calígula, por exemplo.
[6] No Renascimento, segundo crença muito arraigada entre os jovens do meu tempo – crença esta que não desejo ter o trabalho de averiguar – os Borgias, com destaque para a famosa Lucrécia, eram contumazes na pratica deste tipo de depravação, e de muitas outras mais.
[7] Com Jean Genet, mais do que com qualquer outro, é preciso não se jogar a primeira (nem a última) pedra, tampouco tolerar seus desajuste porque ele era um grande escritor. Pode-se ainda lembrar os versos da canção que Ariel Luna escreveu para Alfonsina Storne – tantas vezes citados em meus textos, em situações análogas: “Sabe Dios que angustias te acompanho/ que Dolores viejos marcó tu voz”.
[8] Além de romancista, cineasta, figurinista, dramaturgo, ator, e encenador do teatro francês.
[9] Bêbados, moradores de rua, prostitutas, homossexuais, usuários de drogas. Alguns neologismos relacionados a estas pessoas surgiram, como, por exemplo, garota de programa, para as prostitutas, gay, para os homossexuais, etc. todos externando uma tolerância e aceitação que ainda subsistem até os nossos dias.
[10] No Brasil este movimento de endeusamento da marginalidade teve sua repercussão em vários setores da vida cultural, com destaque para o teatro, onde se viu peças como “Greta Garbo – quem diria! – acabou no Irajá”, de 1973, de Fernando Mello, n. em 1945; Cordélia Brasil, de Antônio Bivar (n. em 1939), de 1970, entre outras. Porém, o grande nome deste tipo de teatro foi Plínio Marcos (1935-1999), principalmente com “Dois Perdidos em uma Noite Suja”, de 1966; e “Navalha na Carne”, de 1967. 

Valença, BA, 1º de Maio de 2015


© Araken Vaz Galvão 

20.4.15

Sartre – como o conheci.

O verbo conhecer está empregado com toda relatividade possível, porque nunca tive a honra e o prazer de ser apresentado ao ilustre intelectual. Apenas dele muito ouvira falar e tinha lido alguns poucos textos seus. Vamos então a este conhecimento.  
Conversando com um amigo – que a casualidade, além de sua imensa generosidade, o transformou em meu assessor para assuntos literários – diria mesmo dizer que assistente ad doc ou quase –, devido ao seu grande conhecimento relacionado com este importante assunto –, Elieser Cesar, sobre autores franceses. Perguntei-lhe se devia incluir o nome de Jean Genet, entre os grandes das letras da França (os que eu conhecia, claro) –, embora também o conhecesse apenas de ouvir falar, pois não tinha lido nenhuma das suas obras, uma vez que os temas abordados nelas não eram do meu particular interesse, além de que ele se enquadrasse mais como dramaturgo (tema que não comento), do que como ficcionista –, meu amigo disse que sim, que devia citá-lo da mesma forma, pois eu tivera muita informação sobre seus feitos, no tempo em que seu nome andou pelas primeiras páginas dos cadernos culturais dos jornais das grandes cidades brasileiras, que fosse apenas por poder trazer a baila sua, dele, dramaturgia, entre uma geração mais ligada com as futilidades das redes sociais. Encerrado suas sábias recomendações, dizendo que Sartre tinha escrito um livro sobre aquele autor e sua obra.
Foi então, em função deste último detalhe de seu comentário, que me lembrei ter omitido o nome de Jean-Paul Sartre (1905-1980), de quem tinha lido inclusive, quando estava no exílio, um livro de contos[1], “O Muro”, o qual, embora muito comentado positivamente pela crítica (e pela esquerda em geral), não me pareceu algo digno de tantos elogios, pois considerei aqueles contos, como ficção, bastante francos, inclusive conclui que o mais importante neles estava no caráter psicológico das personagens e não na trama.
Por aquela mesma época, surgiu também a oportunidade de ler outra obra sua de ficção, “A Náusea”, mas isto ocorreu depois que eu passara uma ano na Embaixada do Uruguai[2], estando muito susceptível justamente a sentir náuseas, pois tinha fugido de uma das prisões da ditadura, estando bastante decepcionado com aquele percalço, o que me tirou completamente o desejo de ler aquele obra.
No entanto, mais tarde, ouvi referência também a ensaios seus sobre filosofia, com títulos do tipo “O Ser e o Nada”, de 1943; de sua trilogia de ficção “Os Caminhos da Liberdade”, de 1945, 1947, 1949, mas isto sucedeu, quando já me encontrava no exílio, por ter enveredado por aquele caminho, cujo veiculo condutor era o fuzil – segundo dissera Mao Tsé Tung –, porém tendo fracassado por completo.
Porém, a lembrança de algumas poucas obras, entre as muitas que Sartre escrevera, em sua maioria sobre filosofia e para teatro, considerando, ademais, que nada sabia sobre aqueles temas, não me dava suficiente coragem para falar de uma figura tão emblemática do século XX, como fora aquele brilhante, além de polêmico, pensador.
Foi então que me veio à memória uma história jocosa sobre ele, o qual, diga-se por indispensável ênfase, teria sido vítima de um terrível engano, uma vez que ele, Sartre, ao que parece, teria sido traído pela cegonha, pois deveria ter nascido na Argentina – terra onde nascem aquelas pessoas que têm por destino possuir o ego maior[3] do que o próprio globo terrestre –, mas não se sabe por qual razão, caiu na França. Não que os franceses não se achem os mais cultos, os mais perspicazes, mais inteligentes, além de mais refinados tendo, portanto, o ego assaz desenvolvido. É que os franceses, segundo dizem têm alguma razão para serem desta forma, já os argentinos... Os quais, por algo também desconhecido (e inexplicável) possuem um ego tão grande que boa parte da população imigra devido ao fato real de que o espaço geográfico do país não comporta tanto ego, os quais, em vários momentos, se contrapõe ao ego portenho, el más grande y más sobresaliente, maior mesmo do que o dos demais argentinos.  
Mas, como o objetivo deste trabalho não é desvendar a razão do tamanho do ego argentino e, tampouco, compará-lo com o de Sartre, volta-se a falar daquele escritor, dramaturgo, contista, filósofo e critico literário, além de grande prefaciador de obras de autores desconhecidos que ele julgava dignos de apoio. Conta-se que ele chegou a escrever um prefácio maior[4] do que o próprio livro que apresentava. Isto é o que se diz, talvez com bastante maldade, em relação ao que teria sucedido com o livro de Frantz Fanon, “Os Condenados da Terra”, publicado em 1961, o qual sofreu também a maldade de ter sido acusado de que a própria CIA[5] teria financiado sua publicação justamente para desmoralizar a obra e seu autor.
 Maldade dos detratores a parte, sabe-se que Sartre durante sua vida, embora nem sempre contasse com a sorte, teve alguns momentos de coragem. Dois deles – lembro-me perfeitamente – quando se recusou a receber o Prêmio Nobel[6] e quando contribuiu para aumentar a altura de uma das barricadas que os estudantes montaram nas ruas de Paris, durante a célebre revolta do Maio de 68, quando (segundo as más línguas) Sartre foi fotografado colocando um objeto (um paralelepípedo, para muitos; uma pedrinha, para outros) em uma barricada, tendo ido, depois daquele hercúleo esforço (estava já bastante idoso) para casa, onde o esperava sua dedicada companheira Simone de Beauvoir[7] (1908-1986), também brilhante intelectual.
Mas, o que se disse sobre Sartre não ser muito aquinhoado da sorte, talvez seja verdade, devido a que, depois de morto, sua ex-companheira (quase viúva) de muitos anos – embora não muito fiel (o que não configurou em nenhum pecado, pois ele também procedia da mesma forma) –, a citada Simone de Beauvoir, escreveu um livro onde expunha muitos pensamentos desabonadores sobre a pessoa com quem vivera (e suportara, de forma estoica) durante tanto tempo. Este tipo de fato, corriqueiro com as amantes de bandidos e políticos[8], jamais ficara condizente com uma intelectual com uma mulher do nível e conhecimento dela.

Valença, BA, 14 de abril de 2015
                       © Araken Vaz Galvão


[1] Lera ainda o texto da sua obra teatral “A Prostituta Respeitosa”, de 1946. Lera também “Furacão sobre Cuba” (escrito juntamente com Fernando Sabino e Rubem Braga) – 1961, o qual falava sobre a revolução cubana. Contudo não estou bem seguro se foi mesmo na prisão ou no exílio que isto sucedera.
[2] Então no Rio de Janeiro, aguardando a concessão do salvo-conduto para poder seguir para Montevidéu, depois de ter fugido da prisão, ficando mais de um ano de espera, no que resultou em mais um ano de prisão, além de muita frustração.
[3] Há uma anedota (chiste) que afirma: Se você comprar um argentino pelo o que ele vale e vendê-lo pelo que ela acredita que vale, ficara milionário. 
[4] Isto é o que as más línguas, no caso, dizem, que teria sucedido com o livro “Os Condenados da Terra” (1961) do escritor, nascido na Martinica (França) e Franz Fanon (1925-1961), obra cuja publicação teria sido financiada pela CIA.
[5] Soube-se mais tarde que, em determinado período da Guerra Fria, a CIA financiava indiretamente empreendimentos de esquerda, a publicação de livros importantes, por exemplo, aqueles que mostravam verdades incômodas sobre a política dos Estados Unidos, com o fito de desmoralizar o autor com o rótulo de ser um agente, com livros financiados pela CIA. Boato que eles próprios deixavam vazar.
[6] Não que este Prêmio tenha algum valor, salvo o de dinheiro, que é considerável.
[7] Ao bem da verdade, Simone de Beauvoir, embora tenha sido companheira de toda a vida de Sartre, jamais morou na mesma casa que ele, além de ter tido vários outros parceiros sexuais. Os dois tinham modernamente casas diferentes. Embora ela frequentasse amiúde o endereço dele, não só para cumprir função de cama – como é comum a todo casal – ou para trabalhos adicionais de lavar as cuecas do consorte, cuidar do seu bem-estar, supervisionando as coisas prática da vida.   
[8] Hoje, não há dúvida, bandido e políticos – aqueles que o povo elege como deputados – são as mesmas coisas. Não faz muito a esposa de um ex-prefeito de São Paulo, ao se separar dele, denunciou-o como corrupto. E não foi por meio de uma falácia chamada de “delação premiada”.

13.4.15

Os Grandes Malditos

Poder-se-ia classificá-los como os Deuses Malditos, mas aí seria uma referência ao célebre filme que Visconti dirigiu[1] sobre o nazismo. Mas a verdade é que eu sempre que penso em determinados escritores franceses, relaciono-os com maldição ou com alguns que tiveram uma posição maldita, quer por adotarem sempre atitudes insólitas, quer tendo suas atitudes realçadas pela mídia como inusitadas. E lembrei-me deste fenômeno devido a que meu amigo Elieser Cesar, ao comentar meu “Quase Ensaio” sobre o que eu já tinha lido da literatura francesa, do século XX, falou-me de um nome, por ele considerado entre os grandes escritores daquele país, intelectual – lembrou-me ele – o qual, por sempre ter comungado posições políticas de direita – nacionalistas, na concepção europeia –, não isenta de forte antijudaísmo, chegando a externar claras simpatias pelo nazismo ou pelo fascismo, fora muito combatido, similar ao que ocorreria com inúmeros outros (e não poucos[2]), em épocas em que se acreditava (a intelectualidade, em particular) que o mundo ia mudar para melhor, bastava seguir a seta que indicava a direção à esquerda.
Depois, foi que se viu que a mudança tomou por atalhos tortuosos, ademais de que o rumo da História humana nunca segue uma linha reta, talvez porque os homens sejam, em sua maioria, individualistas, além de egoístas e muito pouco fraternos. A decepção alcançou seu ápice a partir do final da II Grande Guerra, justamente em um período que os ajustes sociais teriam que ser feitos de uma forma ou de outra, trazendo a inevitável quebra de ovos, que eram poucos (e de custo muito alto), para se fazer as omeletes. 
A este período conturbado, pertenceu o escritor Pierre Drieu La Rochelle (1893-1945), cujas posições políticas, à direita, seguiram na contramão do que era mais comum na época entre os intelectuais de todo o mundo. La Rochelle, como diria um amigo meu – assassinado pela ditadura[3] –, embora muito erudito, era uma espécie de “salada de ideias”, pois a par de possuir posturas de comportamento social, bastante contraditórios, era de pensamento muito eclético, além de conflituoso. Dono de uma personalidade angustiada, tanto era assim que depois de três tentativas, acabou por se suicidar.
Antes disso La Rochelle casou-se com uma judia e, três anos mais tarde tinha se divorciado. Lutou na I Grande Guerra, tendo sido ferido duas vezes. Tinha 1,86 m, considerado alto para os padrões da época, da mesma forma que possuía muito boa aparência, o que o levou a ser popular entre as mulheres[4], sendo ainda considerado mulherengo e promíscuo. Foi muito amigo do poeta Louis Aragon (1897-1982), do qual se afastou, por volta de 1925, quando este se aproximou do comunismo. Em 1927, casou-se novamente, desta vez o casamento durou quatro anos. Colaborou durante muitos anos em periódicos de direita. Chegou a pregar a criação de uma Federação europeia, possivelmente sob a liderança da França, até que, concluindo que sua pátria estava em decadência, optou pela liderança da Alemanha, já denominada de III Reich. Em 1934, externou claramente e por escrito suas simpatias pelo fascismo. Alguns dos seus amigos e admiradores afirmam, porém, que ele não demorou a se decepcionar com o Führer nazista, o que nunca ficou muito bem comprovado. O que se sabe é que em 1943 conseguiu tirar de um campo de concentração de Drancy, a sua primeira mulher, que era judia, na casa de quem passou quase um ano escondido, depois da Libertação.
Em algum momento de sua vida, antes se ter se matado em 1945, La Rochelle andou se interessando por budismo, foi também adepto do esoterismo; pelo ocultismo; depois pelo misticismo hinduísta, configurando-se mesmo naquilo que meu amigo chamava de “salada de ideias”, e fazendo lembrar um pensamento de Paulo Pontes[5]: “Enquanto o mundo se rachava, ele procurava dentro de si uma explicação para o mundo”. Talvez não fosse bem uma explicação para o mundo, mas uma forma de se situar naquele mundo que ele nunca compreendera.
Mais ou menos da mesma geração de La Rochelle, a França teve outro intelectual importante, também de posições contraditórias, porém não muito situado à direita. Este foi André Gide (1869-1951), pioneiro na defesa da prática do homossexualismo – tão em voga atualmente –, do qual era assumido abertamente. Hoje em que há muita tolerância e aceitação deste tipo de comportamento[6], Gide não é muito lembrado, não sei por qual razão. Sua figura, porém, possui muita expressão na cultura francesa, inclusive recebeu o Prêmio Nobel, mas isto foi atribuído ao valor de suas obras.
Filho de um professor universitário, oriundo de uma família da alta burguesia foi o fundador da Editora Gallimard e da revista Nouvelle Revue Française, a qual foi dirigida, mais tarde, por La Rochelle, que apoiava os nazistas quando da ocupação da França, posição da qual Gide não compartilhou. André Gide, autor de uma vasta obra, cujo talento não pode ser negado – muito das contradições dentro das quais viveu estão nelas retratadas –, viveu debatendo-se entre contradições, homossexual declarado, primeiro, ao que parece, anuncia seu casamento com uma mulher, o qual não chegou a se concretizar de fato. Mas tarde teria tido uma filha ou assumido a paternidade de uma criança, enquanto vivia em palacete com um “amante”.
Há quem diga, no entanto, que muito do valor atribuído a Gide deveu-se ao fato de que ele, como nenhum outro até então[7], soube fazer uso dos meios de comunicação para promover-se. Suas atitudes escandalizavam a sociedade burguesa da época, ao mesmo tempo em que despertava curiosidade, o que aumentava sua popularidade.
Estes são dois dos escritores que não temo em colocá-los em lista dos malditos. O primeiro, na verdade, não conhecia; o segundo, muito li sobre sua obra e sobre suas posturas escandalosas, pois ele era figura constante nos cadernos culturais dos grandes jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo, porém, a rigor, de sua obra pouco conheço, ainda que tenha lido muitas resenhas sobre elas, na década de 50 e começo da de 60, do século passado. Sabia apenas que ele era um verdadeiro enfant terrible, que matinha encantada a intelectualidade brasileira da época.

Valença, BA, 10 de abril de 2015

© Araken Vaz Galvão


[1] Título original La caduta degli dei, de 1969.
[2] Louis-Ferdinand Céline (1894-1961); Knut Hamsun (1859-1952), este, dinamarquês; Ezra Pound (1885-1972), estadunidense. Todos simpatizantes do nazismo e fascismo. Mas, ainda como pertencente ao grupo d’Os Grandes Malditos”, houve também, Arthur Rimbaud (1854-1891) que, entre outras atitudes depravadas, foi traficante de armas. 
[3] Trata-se do sargento Manuel Raimundo Soares, intelectual de peso, um dos líderes do Movimento dos Sargentos, preso em Porto Alegre, RS, e jogado vivo no rio Guaíba, no que resultou no rumoroso “Casos das Mãos Amarradas”, de muita repercussão na época. 
[4] Ao que parece teve muitas amantes, uma delas, a escritora argentina Victoria Ocampo, de quem, rompida a relação, permaneceu amigo. Victoria Ocampo, que era irmã de Silvina Ocampo, esposa Bioy Casares –, brilhante escritor argentino, que foi muito amigo e parceiro de Borges.
[5] Contida no espetáculo musical “Brasileiro – Profissão Esperança”, de 1970.
[6] Para alguns se trata, em sua maioria, de um problema genético.
[7] Há o caso, um pouco mais recente, nos Estados Unidos, de Truman Capote (1924-1984), cujas fotos, em posições consideradas femininas causaram furor. 

19.3.15

Desespero

Em diversas oportunidades, ao me defrontar com o desespero ou com pessoas desesperadas (quem na vida, em determinados momento não se sentiu desta forma ou próxima dela?), tenho citado os veros da canção argentina de Ariel Ramírez / Félix Luna, Alfonsina y el Mar, que o vozeirão de Mercedes Soza trouxe aos nosso ouvidos na década de 70, um pouco antes e até um pouco depois (e até a eternidade, enquanto existir meios de reprodução sonora ou que continue existindo alguém com sensibilidade suficiente para reproduzi-la em voz própria aquela bela canção.
Os versos a que já me referi diversas vezes, dizem: “Sabe deus que angústia te acompanhou/ Que dores antigas calou tua voz” (Sabe Dios que angustia te acompañó/ Que dolores viejos calló tu voz), cuja beleza, em momentos dramáticos como este que estou passando, não me canso de citar.
“Momentos dramáticos como este” a que me refiro agora está relacionando com o suicídio de um antigo companheiro do processo de resistência contra a ditadura – ditadura nascida de um golpe de estado ocorrido em 1964, quando (sintomaticamente como está sucedendo agora) as populações da classe média do sudoeste (São Paulo, em particular, mas também de Minas e Rio de Janeiro), e a população dos bairros ricos (Jardins em SP e Ipanema/Leblon, no Rio), saem às ruas clamando contra o governo limpa e legalmente eleito, falando em impeachment (da mesma forma que falaram em 1964) –. Recebi a notícia do suicídio do companheiro Marco Antônio Maranhão, o Marcão, pessoa a quem conheci ligeiramente, ele era marinheiro, mas, entes de tudo um bravo. Tinha sido dirigente da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil[1], creio que seu vice-presidente, participou ativamente no episódio do Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, um dos fatos que serviu de justificativa para o desencadeamento do Golpe de 1964. Preso e condenado fugiu da prisão de armas em punho, atirando. Ativo participante da resistência à ditadura foi preso novamente quando praticava uma ação de requisição de recursos para financiar a luta armada. Saiu do Brasil mediante a troca pelo embaixador da Suíça, que havia sido sequestrado em uma ação que o exilado político (em Montevidéu, Uruguai), Neiva Moreira, chamou de habeas corpus à mão armada. Tendo ido inicialmente para o Chile. Com o golpe naquele país, perdi as informações dos seus passos. Imagino que teria voltado para o Brasil, como a maioria absoluta de todos nós, depois da anistia.
Um pormenor, talvez pouco sabido por muitos é que Marco Antônio era chamado pelo aumentativo, Marcão, porque era negro, e assim o fizeram para diferenciá-lo de Antônio Geraldo da Costa, que era também negro, e chamado de Neguinho.
Este companheiro, diga-se de passagem, foi o último exilado a voltar à Pátria depois de 40 anos de exílio. Este fato foi muito comentado pela imprensa da época.
Como o disse, meu contato com Marcos Antônio foi muito fugaz, ele era figura de destaque no Movimento dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, eu tinha meu papel no Movimento dos Sargentos, com destaque entre os sargentos do Exército. E como tínhamos como princípio, por razões de hierarquia, além do fato de que éramos de Armas diferentes, os contatos se davam quando necessários por canais próprios.
Hoje, dia 19 de março de 2015, recebi de uma abnegada companheira Eli Eliete – célebre por labutar em manter, senão juntos, mas, pelo menos um recebendo notícias do outro –, a mensagem que se segue:
“Estou mais que chocada...
O Marcão, Marco Antônio Maranhão, nosso companheiro, ex-militante do PCBR, suicidou-se. Jogou-se pela janela de um hotel esta madrugada, no Rio.
Ele era um dos 70 presos políticos que chegou ao Chile em janeiro de 71 trocado pelo embaixador suíço.
O Marcão estava cheio de problemas pessoais... Quem o conheceu sabe como ele era explosivo...
Premeditou. Deixou bilhete. Antes, tirou todo o $$$ que tinha no banco e passou para a conta da mulher, Mª Lúcia, mãe do filho...
Tristeza. Lamentamos muitíssimo!
Parece que o corpo será cremado no Caju. Depois enviamos mais detalhes.
Eli.”
Este triste episódio, além de ter-me feito evocar a canção de Ariel Ramírez / Félix Luna, Alfonsina y el Mar – que toda a nossa geração conheceu na voz de Mercedes Souza –, no caso, os versos que dizem: “Sabe deus que angústia te acompanhou/ Que dores antigas calou tua voz”, os quais sinto a necessidade de repeti-los, também me faz lembrar de um jovem estudante – jovem quando esteve preso no quartel do Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, de nome Marcos Medeiros, que também, em igual gesto de desespero, suicidara, na mesma cidade, em cuja memória dediquei duas crônicas em meu livro, “...das Prisões e do Exílio – Crônicas”, recém-lançado[2] .
A crônica que abre o livro é, justamente sobre Marcos Medeiros, em que falo como o conheci e, na segunda crônica, como soube do seu dramático suicídio.
Há, infelizmente, três terríveis coincidências entre os dois. Ambos tinham no prenome a palavra Marcos; ambos foram nomes de destaque na resistência à ditadura; ambos se suicidaram. Além de que ambos merecem o reconhecimento eterno de todos aqueles que amam o Brasil e, portanto, abominam todo e qualquer tipo de golpe. Sejam quais forem os pretextos.
Descanse em paz Marco Antônio Maranhão, Marcão, da mesma forma que temos certeza que Marcos Medeiros encontra-se em paz.
Golpe nunca mais!


Valença, Ba, 19 de março de 2015
© Araken Vaz Galvão




[1] Era presidente desta Associação – pode ser dito, por quem gosta de adjetivos, Gloriosa –, o traidor Anselmo, de alcunha, Cabo, o que não depõe em nada contra o papel que aquela Associação desempenhou pelas melhorias da situação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais e, depois, vários dos seus dirigentes, na luta contra a ditadura. Marco Antônio Maranhão, o Marcão, junto com Antônio Geraldo da Costa, o Neguinho, Amaranto Jorge Moreira e tantos outros.   
[2] Este livro foi publicado graças ao apoio do setor editorial da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), o qual, devido a um engano de edição, saiu o contrário: “Crônicas das Prisões e do Exílio”. Este percalço o é de somenos, porém pareceu-me prudente deixar registo.

12.3.15

Feliz Dia do(a) Bibliotecário(a)!

A Fundação Cultural Euzedir e Araken Vaz Galvão - FUNCEA, através dos seus instituidores Araken Vaz Galvão e Euzedir Miranda de Achieta, parabeniza e homenageia pelo dia todas e todos bibliotecárias e bibliotecários do Brasil!!!


3.3.15

Velhas Lembranças




Depois de uma longa crise de memória, a qual atribui a um tratamento complicado que tinha feito, somado aos problemas de idade que, por sua vez, já desgasta as recordações – principal razão da existência da memória – uma manhã destas passadas, despertei quase feliz: lembrava-me de um fragmento de verso do qual desconfiava pertencer a uma canção (folclórica e de ordem similar) que falava em pires e mingau, além de coisas quebradas. Não conseguia atinar de onde vinha aquela recordação e, tampouco, qual seria a razão da insistência da continuação daquele fiapo de lembrança de minha infância.
Passei toda uma semana com aquele fragmento de verso na cabeça, o qual a toda hora surgia na mente, indo e vindo, vindo e indo. Decidi recorrer ao google encontrei a referência abaixo[1]: “Desde aquela época, eu já gostava de cantar: minha voz alta, límpida e afinada – além da boa dicção –, se destacava dentre as dos demais alunos do colégio. Um belo dia, o mesmo Padre Raimundo me convidou pra cantar, com ele ao violão, numa festa de despedida do ano letivo. O nome da música, e dela própria, ainda me lembro: “Quebradeira”. A letra era mais ou menos assim: “Quebra, quebra até cansar, yá yá, quero ver quebrar: quebro o prato da comida, quebro o pires do mingau, quebro o copo da bebida, fica só colher de pau; meto a mão na cristaleira, quebro tudo que tiver, e no fim da quebradeira, eu como é de colher…”.
No mesmo instante, antes mesmo de acabar de ler toda a informação, lembrei-me de toda a canção, só que, na versão que conhecia, a letra era um pouco diferente. Dizia assim: “Quebra, quebra guabiraba, quero ver quebrar. Quebra lá que eu quebro cá, quero ver quebrar. Quebra o prato da comida, quebra o pires do mingau, quebra o copo da bebida, fica só colher de pau; meto a mão na cristaleira, quebro tudo que tiver, e no fim da quebradeira, como é de colher…”. Não sabia, porém, que o nome da canção era “Quebradeira”.
A matéria no google não dizia a origem da música, quem a compusera e fizera a letra. Dou muita importância estes detalhes, pois sem eles a informação muito carecerá de importância.
Foi então que decidi escrever esta nota, já que tinha duas outras músicas (canções) na memória, quem sabe alguém, como eu, não possuía alguma informação. Este tipo de trabalho, embora muitos não valorizem, é fundamental para a preservação de memória popular do nosso povo, em uma época em que tanto se valoriza tudo que vem de fora.
Assim pensando, decidi transcrever o que me lembrava de uma canção que ouvi muitas vezes, quando criança, isto no tempo da II Grande Guerra, quando morava na Fazenda Veneza, do meu avô paterno, na Bahia, ou seja, passei a morar depois que fiquei órfão, na década de 40.
Pensando desta forma, sem muito esforço, comecei a escrever a nota, em que fazia alusão a primeira das letras da canção, cujo título e autor(es) não sei. Esta lembrança também não saía da minha cabeça, isto faz já alguns anos. Da última vez que fiz parte do Conselho Estadual de Cultura, ocasião em que também fui seu presidente, indaguei a alguns membros, mais idosos, porém ninguém conhecia aquela canção. O que me lembro, mais ou menos textual, é o que segue: “É só pra homem Lelê/ é só pra homem Lalá/ É só pra homem/ Mas mulher pode escutar”. Esta parte, que servia também de refrão, continuava com outra, não sei se fazia ou não parte do refrão, o qual dizia: “Balança os cachos Lelê/ Balança os cachos Lalá/ Balança os cachos que te dou vinte mil reis”. Continuava: “Balança os cachos Lelê/ Balança os cachos Lalá/ Balança os cachos, prometi vinte dou dez”.
A segunda parte dizia: “Dom Bacalhau hoje em dia é barão/ Está andando de avião e vai pra toca lá no céu/ Dona Manteiga também mora num sobrado/ Está lá de braços dados com Dom Queijo na janela/ O podre agora se quiser encher a pança/ De pelanca da matança lá da mão do magarefe/ Aquela pelanca o pobre bota pra ferver/ E quando faz o de-comer/ A meninada logo avança/ Uma lufa-lufa enquanto um puxa o outro estufa/ mastigando aquela bucha/ e tome lá pirão na pança”.
Esta, felizmente, não precisei procurar, pois lembrava desde minha infância, quando, lá na fazenda, do meu avô, ouvia no rádio e, por razões desconhecidas, graças a minha memória privilegiada, nunca esqueci. Mas, procurando para dar as informações de praxe, nada encontrei.
Neste fragmento – seguindo o preceito de informar e registrar para que demonstrações da nossa cultura popular não se percam, lembrei que magarefe: substantivo masculino – segundo o Houaiss –, como primeira opção: “indivíduo que abate e esfola as reses nos matadouros; açougueiro, carniceiro”. Como segunda, seria uma derivação, por extensão de sentido, relacionada a um “mau médico, em especial cirurgião inábil”. Por último, também derivação, por extensão de sentido, refere-se ao “indivíduo desonesto, biltre; patife, velhaco”. O mais curioso é que esta profissão, com o modus faciendi – digamos desta forma – que existiu, não existe mais. Quando cheguei a Valença, BA, já faz mais vinte anos passado, existia um Matadouro (muito pouco higiênico, diga-se de passagem) – na saída para Cajaíba – em que as rezes eram abatidas, mediante goles de machado na testa e sangria, o que configurava em um completo estreses do animal, prejudicando a já pouca qualidade da carne. 
Bem, feita a divagação esclarecedora, passo agora, a terceira lembrança. Esta nada encontrei no google, tampouco me lembro de toda a letra. Imagino que ela – como as outras músicas – era cantada por uma daquelas duplas caipira, popularíssimas nos anos 40/50, como Alvarenga e Ranchinho ou Jararaca[2] e Ratinho, que cantavam no rádio, que faziam programas de grande audiência naquela época.
O que me lembro, é apenas o que dizia assim: “Sobe seu José/ Sobe seu José/ Sobe, sobe, sobe que ainda cabem oito em pé/ Eu viajei em pé da cidade ao Catumbi/ Que charivari![3]/ Vi as coisas amarelas/ E quando então completou a lotação/ Ainda veio o trocador chutando nossas canelas”.
Agora, tendo descoberto[4] qual era a palavra que me parecia Periperi – termo, cujo som, eu confundia com aquele logradouro baiano –, e seu significado, ficou mais fácil deduzir qual o sentido do verso, que fala de Catumbi, Bairro do Rio de Janeiro, localizado no final do Sambódromo, tendo ao fundo uma favela, a qual como todas as favelas do Rio de hoje, muito violenta. Por outro lado, como era ainda muito jovem, criança, associava ao bairro do subúrbio de Salvador, meu (e nosso) conhecido.

Valença, Ba, 25 de fevereiro de 2015

© Araken Vaz Galvão



[2] Cujo nome era José Luís Rodrigues Calazans (1896-1977), natural de Alagoas, além de humorista, foi também um talentoso compositor de música popular. Militante do Partido Comunista esteve preso algumas vezes devido sua participação em causas populares.
[3] Termo de origem francesa – possivelmente gíria de lá – que significava muito barulho; tumulto, confusão, algazarra; pode ser associado à música de má qualidade, ruim, cacofonia musical. Hoje, no Brasil (e no Rio) já não se usa ou somente se usa em grupos muito restritos.
[4] Resulta, porém, que esta música, a única que eu não lembrava a letra completa, por esforço da Juscy, fiquei sabendo que é da autoria de Haroldo Lobo (1910-1965), cujo título é “Oito em Pé”, foi gravada por Aracy de Almeida. Para o carnaval de 1942. Créditos, pois, para Juscimare Souza. 

11.2.15

Prefácio à primeira edição d’O Reino deste Mundo

Tradução de João Olavo Saldanha
Com notas explicativas de Araken Vaz Galvão

...Entender-se-á com isso de se transformarem em lobos
que existe uma enfermidade à
qual os médicos chamam mania lupina...

(DE “OS TRABALHOS DE FERSILES E SEGISMUNDA”)


Em fins de 1943 tive a sorte de visitar o reino de Henri Christophe — as ruínas, tão poéticas, de Sans-Souci; a grandeza imponente da Cidadela La Ferriére[1], intacta apesar dos raios e dos terremotos — e de conhecer a ainda normanda Cidade do Cabo, o Cap Français da antiga colônia, onde uma rua cercada por longuíssimos balcões conduz ao palácio de pedras brancas habitado antigamente por Paulina Bonaparte[2]. Depois de sentir o tão bem propalado sortilégio das terras do Haiti, de ter encontrado as advertências mágicas pelas estradas de terra vermelha da Meseta Central, de ter ouvido os tambores de Petro e Rada[3], fui tentado a aproximar aquela maravilhosa realidade recém-vivida à exaustiva pretensão de suscitar o maravilhoso que caracterizou certa literatura europeia nestes últimos trinta anos. Aquele maravilhoso, revivido através dos velhos clichês da Floresta de Brocelianda[4], dos Cavaleiros da Távola Redonda, do feiticeiro Merlin e do Ciclo do Rei Artur. O maravilhoso, parcamente sugerido por ofícios e deformidades de personagens de feira. Não se cansam nunca os jovens poetas franceses dos mostrengos e palhaços da fête foraine[5], dos quais Rimbaud[6]já se despedira na sua Alquimia do Verbo? O maravilhoso, obtido com truques de prestidigitação, reunindo objetos sem finalidade alguma: a velha e embusteira história do encontro fortuito do guarda-chuva e da máquina de costura em cima de uma mesa de dissecação, gerador das colheres de arminho; os caracóis no táxi chuvoso; a cabeça de leão na pélvis da viúva, exibidos amiúde nas exposições surrealistas. Ou ainda, o maravilhoso em literatura: o rei, da Julieta, de Sade[7]; o supermacho, de Jarry[8], o monge, de Lewis[9], e o tétrico instrumental da novela negra inglesa, com seus fantasmas, sacerdotes emparedados, licantropias e mãos cravadas na porta de um castelo. Mas à força de suscitar o maravilhoso a todo transe, os taumaturgos tornaram-se burocratas. Invocado através de fórmulas arquissabidas – que transformam certas pinturas num monótono armarinho de relógios derretidos, manequins de costureira e vagos monumentos fálicos – o maravilhoso resulta apenas num guarda-chuva, numa lagosta, numa máquina de costura, ou o que seja, sobre unia mesa de dissecação, no interior de um quarto triste ou num deserto de pedras. Aprender códigos de memória é pobreza de imaginação, já dizia Unamuno[10]. E hoje existem códigos para o fantástico, baseados no princípio do burro devorado por um figo, proposto nos Cantos de Maldoror[11] como suprema inversão da realidade, aos quais devemos tantos “meninos ameaçados por rouxinóis” ou “cavalos devorando pássaros”, de André Masson[12]. Entretanto, convém observar que quando André Masson quis desenhar a selva da ilha da Martinica, com o incrível entrelaçamento de suas plantas e a obscena promiscuidade de certas frutas, a maravilhosa verdade do tema devorou o pintor, deixando-o pouco menos que impotente frente ao papel em branco. E foi preciso um pintor da América, o cubano Wilfredo Lam, para nos ensinar a magia da vegetação tropical, a desenfreada Criação de Formas da nossa natureza – com todas suas metamorfoses e simbioses – em quadros monumentais que ocupam hoje uma posição ímpar na pintura contemporânea. Ante a desconcertante pobreza de imaginação de um Tanguy[13], por exemplo, que há vinte e cinco anos pinta as mesmas larvas pétreas sob o mesmo céu cinzento, tenho ganas de repetir aquela frase que enchia de orgulho os surrealistas da primeira fornada: Vous qui ne voyes pás, pensez a ceux qui voient[14]. Ainda existem, porém, muitos adolescentes que encontram prazer em violentar Cadáveres de mulheres recém-mortas (Lautremont[15]), sem se darem conta do maravilhoso que seria violentá-las vivas. Acontece que muitos esquecem – disfarçados de mágicos baratos – que o maravilhoso começa a sê-lo, de maneira inequívoca, quando surge de uma inesperada alteração da realidade (o milagre), de uma, revelação privilegiada da realidade, de um destaque incomum ou singularmente favorecedor das inadvertidas riquezas da realidade, ou de uma ampliação das escalas e categorias da realidade, percebidas com particular intensidade, em virtude de uma exaltação do espírito, que o conduz até um tipo de “estado limite”. Antes de tudo, para sentir o maravilhoso é necessário ter fé. Aqueles que não acreditam em santos não se podem curar com. milagres de santos, como também não podem entrar de corpo, alma e posses no mundo de Amadis de Gaula[16] ou de Tirante, o Branco[17], aqueles que não são quixotescos. Prodigiosamente fidedignas resultavam certas frases de Rutílio, nos Trabalhos de Persiles e Segismunda[18], sobre homens que se transformavam em lobos, porque, na época de Cervantes, em crença geral existirem pessoas atacadas pela mania lupina. E da mesma forma a viagem do personagem, desde Toscana até a Noruega, sobre o manto de uma bruxa. Marco Polo admitia a existência de aves que voavam carregando elefantes nas garras, e Lutero viu o Demônio de frente, em cuja cabeça atirou um tinteiro. Victor Hugo, tão explorado pelos colecionadores de livros sobre o maravilhoso, acreditava em aparições, porque estava seguro de ter falado, em Guernesey[19], com o fantasma de Leopoldina. Para Van Gogh, bastava ter fé no girassol para fixá-lo numa tela. Eis a razão por que o maravilhoso invocado sem fé – como o fizeram os surrealistas durante tantos anos – nunca foi senão uma artimanha literária, tão aborrecida, ao prolongar-se demasiadamente, quanto certa literatura onírica “arranjada” e certos elogios à loucura, tão comuns hoje em dia. Entretanto, nem por isso vamos dar a razão a determinados partidários do regresso ao realismo – termo que adquire, então, um significado gregariamente político – que não fazem senão substituir os truques de prestidigitação pelos lugares-comuns do literato “arrolado”, ou pelo escatológico deleite de certos existencialistas. Mas é indubitável que pouco se pode dizer em defesa dos poetas e artistas que louvam o sadismo sem, praticá-lo, que admiram o supermacho por impotência; que invocam espectros sem acreditar que respondam a seus cânticos; que fundam sociedades secretas, seitas literárias e grupos vagamente filosóficos, com santos, senhas e misteriosas finalidades – nunca alcançadas – sem que sejam capazes de conceberem uma mística válida ou de abandonarem hábitos mesquinhos para se atirarem de corpo e alma na fatalidade de uma crença.
Tudo isso ficou particularmente evidente durante minha permanência no Haiti, quando vivi em contato diário com aquilo que poderíamos chamar de Realidade Maravilhosa. Pisava eu numa terra onde milhares de homens ansiosos pela liberdade acreditaram nos poderes licantrópicos de Mackandal[20], a tal ponto, que essa fé produziu um milagre no dia da sua execução. Conhecia já a história prodigiosa de Bouckman[21], o iniciado jamaicano. Tinha já estado na Cidadela La Ferriére, obra sem antecedentes arquitetônicos, apenas vagamente anunciada nas Prisões Imaginárias, de Piranese[22]. Tinha também respirado a atmosfera criada por Henri Christophe[23], monarca de incrível tenacidade, muito mais surpreendente que todos os reis cruéis inventados pelos surrealistas, muito chegados às tiranias imaginárias, embora nunca padecidas. A cada passo encontrava a Realidade Maravilhosa. Pensava também que essa presença e vigência da Realidade Maravilhosa não era privilégio único do Haiti, senão um patrimônio de toda a América, onde ainda não se concluiu, por exemplo, um inventário de cosmogonias. Encontramos a Realidade Maravilhosa em cada passo das vidas dos homens que assinalaram as datas importantes da história do Continente e que deixaram nomes ainda lembrados: desde aqueles que buscavam a Fonte da Juventude Eterna ou a Áurea Cidade de Manoa[24], até os primeiros rebeldes, aqueles heróis modernos de nossas guerras de independência, de tão mitológica atitude, como aquela Coronela Juana de Azurduy[25]. Sempre me pareceu muito significativo que em 1780 um punhado de espanhóis prudentes, embarcados em Angostura[26], ainda se lançassem em busca do Eldorado; e mais, que na época da Revolução Francesa – Viva a Razão e o Ser Supremo! – Francisco Menéndez[27], de Santiago da Compostela, andasse pelas terras da Patagônia buscando a Cidade Encantada dos Césares! Sintonizando outro aspecto da questão, veríamos, por exemplo, que na Europa Ocidental o folclore de danças perdeu todo o seu caráter de magia e de evocação; e na América, por outro lado, rara é a dança coletiva que não encerre um profundo sentido ritual, criando-se em torno deste, todo um processo iniciado: assim, temos as festas de santos, em Cuba, e a prodigiosa versão dada pêlos negros à festa de. Corpus Christi, que pode ainda ser vista no povoado de São Francisco de Yare, na Venezuela.
Em determinado momento, o herói (no canto sexto do Maldoras), perseguido por toda a polícia do mundo, escapa de um “exército de agentes e espiões” adotando a aparência de diversos animais e jazendo uso de seu poder de transportasse instantaneamente parta Pequim, Madri ou São Petersburgo. Isso é literatura maravilhosa tia sua plenitude. Na América, porém, onde nunca se escreveu nada semelhante, existiu um Mackandal, dotado desses mesmos poderes pela fé de seus contemporâneos, que deu alento, com esse mesmo sortilégio, a uma das sublevações mais estranhas e dramáticas da História. Maldoror – confessa o próprio Ducasse – não passava de um Rocambole poético, e dele não ficou mais que uma escola literária de vida efêmera. De Mackandal, o americano, por outro lado, resta toda uma mitologia, acompanhada de mágicos cânticos, conservados por uma aldeia inteira, e que ainda hoje são cardados nas cerimônias do Vodu. (Também é uma estranha casualidade que Isidoro Ducasse, homem que possuía excepcional instinto do fantástico-poético, tivesse nascido na América e que se jactasse tão enfaticamente, no final de um dos seus cantos, serem de Montevidéu). Ë evidente, pela virgindade da paisagem, pela sua formação, pela ontologia, pela afortunada presença do índio e do negro, pela Revelação que constituiu seu recente descobrimento, pelas fecundas mestiçagens que propiciou, que a América ainda está muito longe de ter esgotado seu caudal de mitologias.
Sem que me propusesse sistematicamente, o texto que se segue responde a essa ordem de preocupações. Nele se narra uma sucessão de fatos extraordinários, ocorridos na ilha de São Domingos, numa época determinada, que não alcança o período de uma vida humana, deixando-se que o maravilhoso emane livremente de unia realidade estritamente seguida em todos os seus detalhes. Porque é mister advertir que o relato que se segue foi estabelecido com base numa documentação extremamente rigorosa, que respeita a verdade histórica dos fatos, dos nomes dos personagens – incluindo os secundários – dos lugares e até das ruas, e que oculta também, sob sua aparente intemporalidade, um minucioso cotejo de datas e cronologias. Entretanto – pela dramática singularidade dos acontecimentos, pela fantástica presença dos personagens que se encontraram em de terminado momento na encruzilhada mágica da Cidade do Cabo (Cabo Français da antiga colônia do Haiti) – tudo é maravilhoso, nessa história impossível de situar na Europa, e que, todavia, é tão real como qualquer jeito exemplar daqueles consignados, para edificação pedagógica, nos manuais escolares. Mas o que é a História da América senão toda uma crônica da Realidade Maravilhosa?
A.      C.
(Alejo Carpentier)




[1] Impressionante fortaleza situada ao norte do Haiti, próxima ao antigo Cabo Francês, hoje Cabo Haitiano, construída, por ordem do rei Henri Christophe. Sua edificação durou 15 anos, e foram empregados cerca de 20 mil trabalhadores escravos (escravizados depois de terem sido libertados pela revolução dos negros haitianos, da qual Henri Christophe foi um dos líderes). É considerada patrimônio da Humanidade (Informação da Wikepedia).
[2] Maria Paola Buonaparte (1780-1825), mais conhecida como Pauline ou Paulina Bonaparte, era irmã de Napoleão Bonaparte. Casada com Charles Leclerc, general de Napoleão, nomeado governador de São Domingos, aonde veio a falecer de febre amarela em 1 de novembro de 1802. Pauline e seu filho voltaram à França.
[3] Referência a um tipo de tambor comum às músicas do Haiti. Está relacionando a uma família de espíritos (loa) existente no Vudu deste mesmo Haiti. Rada (loa Rada), ou seja, espírito dessa mesma religião. Petro e Rada (sua irmã) entidade das mais importantes, entre as várias “nações” em que estão divididas essas divindades.
[4] Situado no departamento de Ille y Vilaine, na região de Bretaña, a uns 30 km ao sudoeste de Rennes, esse bosque é um lugar relacionado com as lendas celtas, pois muitos episódios das novelas escritas sobre esse assunto passam ali ou a ali se referem. O bosque de Brocelianda poderia ser classificado – e essa talvez tenha sido a intenção irônica de Carpentier – como a Morada de Fadas.
[5] O mesmo que festa popular ou feira. Podendo ser traduzido também por arraial, relacionando-a com as nossas festas de São João, do nordeste, no caso. (Tradução de Nicole Jugnet).
[6] Referência ao famoso e controverso poeta simbolista francês, Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891), dublê de gênio literário e traficante de armas. Rimbaud bem representa o paradigma à tese de que o “poeta, assim, vive e é sua poesia – pensamento em voga ainda hoje segundo algumas escolas”. Amado por vários importantes intelectuais do século XX, entre eles o estadunidense Henry Miller e o nosso Paulo Leminski que afirmou, não sem bastante propriedade, que Rimbaud, tivesse vivido em nossa (dele, de Leminski) época, seria roqueiro. A sua figura encaixa-se perfeitamente a expressão francesa enfant terrible. Alquimia do Verbo foi uma revista ligada a esse poeta.
[7] Personagem de uma das obras do Marquês de Sade – Donatien Alphonse François de Sade (1740-1814), conhecido por esse cognome – uma das mais polêmicas figuras da literatura francesa século XVIII. Trata-se de obras que enfocam situações eróticas, de sadismo (nome do qual de onde vem o termo), libertinagem nas relações sexuais.
[8] Referência a Alfred Jarry (1873-1907), autor da peça teatral, que foi coqueluche no pós-guerra, por obra e graça dos surrealistas, trata-se de uma referência ao “Ubu rei”, cuja estreia deu-se em 1896. (Essa última informação é da Wikepedia).
[9] Referência ao ator, cujo nome completo foi Matthew Gregory Lewis, d’O Monge, livro considerado importante para a literatura fantástica do século XIX, publicado no final do século XVIII. Nessa obra, segundo estudiosos, há influência de Cazotte (Os Amores do Diabo), de Diderot (A Religiosa), de Goethe (O Fausto), (O Visionário e de Pedrinho de Spietz (Informação da Wikepedia).
[10] Miguel de Unamuno (1864-1936), filósofo e escritor espanhol. O mais importante pensador da geração de 1898 (o sentido trágico da vida), sua obra traduz o esforço em dar sentido à existência humana, sem renunciar a qualquer de seus aspectos e na busca da certeza da imortalidade. Foi Unamuno que travou o famoso enfrentamento com o general fascista (franquistas), na Universidade de Salamanca, em torno de “viva la Muerte”.
[11] Referência a’Os Cantos de Maldoror é um livro poético, escrito entre 1868 e 1869 (mas publicado bastante mais tarde), pelo Conde de Lautréamont, pseudônimo de Isadore Ducasse, poeta francês de origem uruguaia. É considerada uma das obras seminais da literatura fantástica, ainda que o seu universo estranho e mórbido seja de difícil classificação. (Informação da Wikepedia).
[12] Referência a um pintor de vanguarda francês, de origem germânica. Masson lutou pela França durante a Primeira Guerra Mundial e foi gravemente ferido. Esteve ligado aos surrealistas, grupo que logo abandonou, voltando a eles se unir no fim da década de 30, Século XX, ocasião em que produziu trabalhos com um tema violento ou erótico, e fazendo uma série de pinturas em reação à Guerra Civil Espanhola. “Sob o alemão ocupação da França durante a Segunda Guerra Mundial, seu trabalho foi condenado pelo nazismo como degenerado”. Preso, “Masson escapou do regime nazista em um navio para a ilha francesa da Martinica,de onde ele seguiu para os Estados Unidos”. Este país foi novamente preso por terem encontrado, escondido em sua bagagem, seus desenhos eróticos, os quais teriam sido rasgados frente ao artista. Masson influenciou importantes artistas abstratos dos Estados Unidos, como Jackson Pollock. Era meio-irmão, o psicanalista Jacques Lacan (Informação da Wikepedia).
[13] Estaria Carpentier fazendo alusão ao Retrato de Père Tanguy, uma obra de Vincent van Gogh, pintada em 1887/8? Este retrato foi pintado em três versões, no final do período parisiense de Van Gogh. Julien Tanguy era um comerciante de tintas, conhecido como Père Tanguy. Tanguy era um socialista respeitado pelos artistas, havia participado da Comuna de Paris e além de vender material de pintura a preços muito baixos e a crédito, possuia uma pequena galeria ao lado de sua loja. Tanguy foi uma das figuras-chave do modernismo, pois sua galeria, ainda que desconhecida do grande público, reuniu obras artistas como Van Gogh, Seurat, Gauguin e Cézanne, considerados os percursores do século XX (Informação da Wikepedia).
[14] Tradução: “Vocês que não vêem, pensem naqueles que vêem” (Tradução de Nicole Jugnet).
[15] Conde de LAUTREAMONT, pseudônimo do poeta Isidore Lucien Ducasse, nascido (Montevidéu, 4 de Abril de 1846 – Paris, 24 de Novembro de 1870) foi, pois, um poeta uruguaio que viveu na França. É considerado um precursor do Surrealismo (Informação da Wikepedia).
[16] Referência a uma importante obra “do ciclo de novelas de cavalaria da Península Ibérica do século XVI. Apesar de se saber que a obra existe desde, pelo menos, o século XIV, a versão definitiva mais antiga, atualmente conhecida, é a de Garci Rodríguez de Montalvo, impressa em língua castelhana em 1508 e denominada ‘Los quatro libros de Amadís de Gaula’. Tudo indica, contudo que a versão original era portuguesa, e muito anterior” (Informação da Wikepedia).
[17] Tirante o Branco, em catalão Tirant lo Blanch, é um romance épico escrito pelo cavaleiro valenciano Joanot Martorell e publicado em Valência em 1490. Antes de sua publicação, a obra foi supostamente terminada por Martí Joan de Galba ainda que haja dúvidas sobre a extensão de sua participação. É uma das obras medievais mais conhecidas da literatura catalã, e tem um importante papel na evolução do romance ocidental devido a sua influência sobre Miguel de Cervantes. (Informação da Wikepedia).
[18] Última obra de Miguel de Cervantes, famoso autor do Dom Quixote. Pertence ao subgênero do romance bizantino. Foi para Cervantes sua melhor obra, apesar de que a crítica aceita unicamente o Dom Quixote como sua magnum opus. Nela escreveu sua dedicatória ao Conde de Lemos em 19 de abril de 1616, quatro dias antes de falecer (Informação da Wikepedia).
[19] Referência a um grupo de ilhas do Canal da Mancha, cuja administração está dividida entre a França e a Inglaterra.
[20] Líder do Maroon Haitiano em Saint-Domingue. Ele era um africano que é por vezes descrito como sacerdote vodu haitiano, ou houngan. Algumas fontes descrevem-no como um muçulmano, levando alguns pesquisadores a especular que ele era de Senegal, Mali, ou Guiné. No entanto, ele não era nem cristão, nem muçulmano. A associação de Mackandal com “magia negra” parece ser uma consequência de seu uso de veneno, derivados de plantas naturais. Traído por um dos seus, foi capturado e queimado vivo em 1788 na praça pública de Cap-Français, atual Cap-Haïtien. O escritor cubano Alejo Carpentier retrata a figura legendária de Mackandal em um de seus romances, “O Reino deste Mundo” (1949), no qual se identifica o “real maravilhoso” do escritor (Informação da Wikepedia).
[21] Dutty Boukman (Boukman Dutty) (Morreu em 1791) foi um jamaicano houngan nascido, ou padre haitiano que conduziu uma cerimônia religiosa no Haiti em que um pacto foi afirmado a liberdade; esta cerimônia é considerada um catalisador para a revolta dos escravos que marcou o início da Revolução Haitiana. Era um escravo autodidata nasceu na ilha da Jamaica, seu primeiro nome da ilha significa “homem livro”, seu sobrenome significa “sujo”. He was later sold by his British master to a French plantation owner after he attempted to teach other Jamaican slaves to read, who put him to work as a commandeur (slave driver) and, later, a coach driver.Mais tarde ele foi vendido por seus senhores britânicos a um mestre francês, proprietário de uma plantação; depois que ele tentou ensinar outros escravos da Jamaica para ler (Informação da Wikepedia).
[22] Referência a Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), artista italiano, famoso pelas suas imaginativas e atmosféricas gravuras de prisões em água-forte. Suas ‘Prisões Imaginárias’ “consistem numa série de 16 gravuras onde figuram enormes subterrâneos e escadarias monumentais – estruturas labirínticas de dimensões épicas, mas aparentemente vazias de propósito ou função. Usando esse meu estilo existe também o artista holandês Maurits Cornelis Escher, talvez até mais conhecido do grande público, entre nós.
[23] Henrique do Haiti, nascido Christopher Henry (Henri Cristophe), auto-proclamado rei do Haiti (1767-1820). Militar de carreira detinha a patente de general do exército haitiano quando tornou-se presidente, em 17 de fevereiro de 1807. Proclamou-se rei em 26 de março de 1811. Cometeu suicídio em 8 de outubro de 1820. Participou ativamente do processo de independência do país, unindo-se aos líderes Alexandre Pétion e Jean-Jacques Dessalines contra o então império francês. Quando, da independência haitiana, em 1804, os escravos foram libertos. Sua figura e sua história foram usadas como um dos personagens principais do romance de Alejo Carpentier, “O Reino deste Mundo”. Henrique construiu para si seis castelos, oito palácios e a gigantesca Citadelle Laferrière. (Grande parte dessa informação foi extraída da Wikepedia).
[24] Um dos nomes do El Dorado – cujo significado, em espanhol, é a forma reduzida da expressão “o homem dourado”, devido que a lenda que cercou a quimera da existência dessa fabulosa cidade, rezar que o seu rei tinha por hábito espojar-se em ouro em pó) – país mítico que se acreditou está localizado no Deserto de Sonora no México; na região das nascentes do Rio Amazonas, ou ainda em algum ponto da América Central ou do Planalto das Guianas, região entre a Venezuela, a Guiana e o Brasil, no atual estado de Roraima. Nesse costume bizarro – espojar-se em ouro – o tio Patinhas deve ter se inspirado.
[25] Fue una patriota guerrillera del Alto Perú (actual Bolivia), nacida (La Plata (hoy Sucre), 12 de julio de 1780 – 25 de mayo de 1862), que acompañó a su esposo Manuel Ascencio Padilla en el liderazgo de la Republiqueta de La Laguna en las luchas por la emancipación en el Virreinato del Río de la Plata. Nació en La Plata, actual Sucre, Provincia de Oropeza, Departamento de Chuquisaca y murió en la misma ciudad el 25 de mayo de 1862. Con la muerte de su esposo asumió la comandancia de las guerrillas que conformaban la luego denominada Republiqueta de La Laguna, por lo que es honrada su memoria en la Argentina y en Bolivia. Hablaba el castellano y quechua. El año de su nacimiento la ciudad de La Paz fue sitiada por Tupaj Katari y Bartolina Sisa, alzados en armas en apoyo a Túpac Amaru (Informação da Wikepedia).
[26] Referência a uma cidade da província de Neuquén, Patagônia, na Argentina.
[27] Cidade dos Césares ou Trapalanda é um dos vários nomes da mítica Manoa ou El Dorado, que também recebeu o nome Paitíti ou Candire, da mesma forma que sua localização foi suposta em várias partes da América. Carpentier afirma que Menéndez teria sido um dos aventureiros que a procurara.