25.10.14

O Velho Jagunço e Durrell

Não sei se é a (re)leitura de Durrell que me leva a lembrar-me de Quelé, ou se é a escrita da história de Quelé que me faz lembrar de algumas passagens de Durrell.
Vendo-o olhar, em noite escura, porém sem a presença da lua, a vastidão da caatinga, imaginando que o céu nada mais faz que refletir a fosforescência dos vagalumes que, embaixo, brincavam de imitar a imensidão celeste, é uma destas ocasiões. Da mesma forma que, ao ouvir da descrição de sua aparência física, e particular, como eram as feições de seu rosto; e isto ocorria até com alguns dos seus contemporâneos, ainda vivos, constato o quão é fugaz a permanência de nossas imagens (de todos nós) na memória daqueles que deixamos neste mundo. E ao registrar a tragédia deste personagem em “poder sentir, mas não saber dizer”, sou obrigado a citar que ele, Quelé, tivera vedado o seu acesso àquele mundo, não por falta de sensibilidade, mas por falta de oportunidade, afinal, a pobreza exclui, da mesma forma que a riqueza, via de regra, isola, tornando as pessoas alienadas do meio social geral que os cerca.
Quelé, devo esclarecer, é a personagem principal do romance que estou escrevendo, cujo título é “O Velho Jagunço”.

Araken Vaz Galvão

Valença, BA, 25 de outubro de 2014

1.9.14

Tédio

Cansado, mudou de posição. O peso do seu corpo, que estava apoiado sobre o braço esquerdo, foi passado para o direito. Sabia que estava só, mas isso não era motivo para preocupação, pois era inerente a sua condição e, ultimamente não contara com outra companhia do que a da solidão. O tédio que sentia, talvez fosse dos anos. Estava velho, a sua idade não era medida por séculos, mas sentida por milênios. Sabia que nem sempre era bem visto por seu próprio rebanho, muitos o julgavam preguiçoso. Que trabalhara apenas seis dias e descansara no sétimo. Melhor não houvesse trabalhado um dia sequer – dizia-se, em seus raros momentos de mau humor, pois era tido como muito tolerante e complacente. Estado esse que era atribuído como coisas da velhice, embora aquele fosse um conceito que não deveria ser aplicado a ele.
Começou a sentir sono. Mesmo sabendo que estava só, que não era observado, disso tinha certeza, mesmo assim, olhou à direita e a esquerda. Sabia que dentro de pouco estaria dormitando. Sua face nunca fora vista por nenhum homem. Ao pensar nessa solidão, sentiu o sono aumentar. Quase cochilando, levou o dedo indicador ao nariz – melhor seria dizer: às fossas nasais – e retirou a secreção solidificada, em um gesto que, em outra pessoa, seria considerado anti-higiênico ou que feria os princípios da boa educação, mas que, em pessoa de sua grandeza, tornara-se a única tarefa que executava fazia séculos.  
Isso feito, depois de preparar uma esfera, não muito perfeita, com o que extraíra do nariz, jogou-a a sua volta. Era um novo corpo a mais dos muitos que criara, atirado a esmo no espaço sem fim que a tudo envolvia sem nada a limitar. O sono começou a dominar seus pensamentos e ações. Em um daqueles globos que sistematicamente lançava as secreções sólidas do seu nariz, a esmo no espaço, seres comemoravam a passagem do tempo. Ano Novo – diziam: Feliz Ano Novo. Era uma saudação sem sentido, em seu universo o tempo não contava; só a eternidade.
Fechou os olhos e começou a cochilar de verdade, como o fazem todos os velhos. Em nenhum momento voltou a pensar naquilo que tinha criado. Talvez até sonhasse.
Quem disse que não poderia fazê-lo. Logo ele, criador de sonhos e pesadelos! Afinal, o que havia de errado em sonhar com os homens que o tinham esquecido?


© Araken Vaz Galvão

           Valença, BA, 25 de outubro de 2012. 

19.8.14

Miragem

Nestes últimos tempos, em que passo a maior parte das horas sentado na varanda de minha casa, suportando a decrépita e cansativa ociosidade da minha velhice, muito tenho pensado em Teresa. Não aquela saída da pena de Milan Kundera; melhor, imagino que do teclado mágico do seu computador, mas uma gentil senhorita que, em silêncio da minha timidez, cheguei a amar – diria mesmo que até perdidamente, se não fosse a impropriedade da sintaxe corrompida, pelo lugar-comum – no meu tempo de jovem. E tudo isso sucedeu devido a uma insistente recordação de Olívia, outro de meus amores da juventude.
Teresa, como a imaginei, era uma sertaneja morena, cujos lábios lembravam-me a cor rubra de bonina e sabor do fruto de um cacto de nome popular de facheiro, comum no sertão, porém não tão conhecido como mandacaru ou o xiquexique, por exemplo.
Aliás, quando úmidos, a cor de seus lábios lembrava também o tom avermelhado da polpa do fruto deste vegetal agreste – cuja denominação científica é Facheroa pubiflora –, o qual sucede ocorrer quando se abre bem maduro, de uma forma um tanto erótica (pode-se dizer assim) aguardando que os pássaros, escassos (ou não muito abundantes na caatinga), realizem a disseminação, por meio do milagre da semeadura das suas pequenas sementes. Sua boca, ou melhor, seus lábios – frise-se bem o detalhe –, no caso os de Teresa (ou será que são os de Olívia que me recordo agora?) possuíam a característica de sempre aparentar serem orvalhados, indicando estarem, não diria no ponto de reprodução (por ser grosseiro), mas de estarem – repito – maduros para o amor.  
Seus cabelos, em longos cachos, caiam sobre os seus ombros largos. Sob a blusa fina de algodão, seus pequenos e bem formados seios lembravam os cerros relvados da paisagem de algum país longínquo, visto em um filme já perdido na memória.
Nunca cheguei a conversar com Teresa, sequer estou seguro se ela realmente existiu ou se ora estou a idealizar sua existência devido à solidão da velhice ou por confundir sua imagem etérea com a de Olívia, a minha primeira namorada, a da fase de minha vida, a iniciar-se como adulta.  
Teresa ou Olívia (aquela a quem beijei e muitas vezes apertei em meus braços) recordo-me com muita saudade, nestes últimos tempos, em particular agora, quando até o esforço de caminhar resulta em algo muito próximo a um renguear ridículo. E as lembranças, mesmo as ditosas implicam em sofrimento. Ela, pois, ou uma delas, veio visitar-me aqui neste rincão baiano de Valença, hoje, uma segunda-feira tediosa e insípida.
Assombrou-me aquela presença, além de ter-me assustado por tê-la ouvido falar, e o fez em tom de reproche, acusando-me, de forma implícita, de ser insensível e cruel por não a ter amado no momento oportuno: aquele em que a reprodução não só é possível, mas se faz necessária, condenando-a ao mais terrível dos castigos a que se pode impor uma mulher, negar-lhe (ou impedir-lhe) as revelações da maternidade.
Vi então que ela chorava.
— Não chore Olívia – disse-lhe.
— O meu nome é Teresa – contestou-me soluçando – Veja até onde chega a sua insensibilidade, além de ter me negado a maior ventura a que almeja uma mulher, ainda troca o meu nome. Indicando que está pensando em outra.
Suas palavras doeram-me como uma chicotada. E mais doíam pelo fato de que eu sempre fora sensível às lágrimas femininas (as das crianças também, embora este particular não venha ao caso agora), mesmo àquelas que não são muito sinceras, que são vertidas com o objetivo de apenas conseguir vantagens sentimentais. Em tudo isso pensava, embora me sentisse confuso devido ao fato de saber que aquilo era um sonho, quiçá uma miragem.
Devia estar, por certo, dormindo. A maior prova, possivelmente, devia ser a cabeça caída sobre o peito, a respiração ritmada, ainda que ofegante, como é comum aos velhos, e o compasso com que meu peito arfava, não deixava dúvida de que eu dormia mesmo, ou encontrava-me próximo daquilo que se convencionou chamar de cochilo intermitente dos anciães. Até a pouco romântica baba que me escorria pelas comissuras dos lábios comprovava que eu dormira pensando em Olívia, e que uma Teresa renitente invadira o sonho, tornando – naquele sonho – uma realidade idealizada.
Foi então, como outro sonho nascido do sonho principal, que me veio a certeza de que eu mesmo, quando jovem (e sonhava ser escritor) costumava dizer que os velhos não sonhavam – sonhar era inerente aos jovens –, pois aqueles viviam apenas do passado, revivendo-o em forma de assombração, miragens que os mantinham na ilusão de estarem todavia vivos.
Aquela nítida constatação surgida dentro de um sonho, começava tomar forma de pesadelo. Urge despertar – imaginei pensar. Comecei a fazer um daqueles esforços enormes que se faz em sonho, sentindo-se grande agonia por saber que não se concretiza nenhum movimento, sendo invadido por uma sensação de estar-se morto. E devo ter começado a debater-me, quiçá, a também a resmungar ou gemer, o que seria mais apropriado. Um vento frio – muito frio para os meus ossos já sem tutano – vindo do estuário do rio Una, gelou-me a alma (uma vez que os meus flácidos músculos, a rigor, não mais existiam), e os soluços de Olívia. Não. Não, de Olívia não, de Teresa, sem diminuírem, baixaram um pouco de tom, fazendo-se mais um lamento, bem próximo de um doído queixume.
Descobri que também eu chorava. Melhor: umas furtivas lágrimas escorriam pelas rugas da face. Neste momento, creio, minha mulher cobriu-me com um cobertor de lã, imaginei ela dizer algo como: Vai para cama, e conclui que ela não vira as minhas lágrimas. Ouvi seus passos que se afastavam. Um sabiá que mora a maior parte do tempo no jardim de nossa casa, soltou seu canto mavioso. Abri lentamente os olhos. Olívia/Teresa tinha desaparecido, mas isso apenas supus. O que vi foi um beija-flor, que também habita por ali, adejava frente à corola de uma flor. Sobre o muro, as lagartixas caminhavam, fazendo rápidas paradas, balançando a cabeça, como se concordasse com o meu devaneio.
Lembrei-me então do poeta Fernando Pessoa, mais precisamente dos versos finais do seu poema A Tabacaria: “(...) o universo/ Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, (...)”, no meu caso específico, era apenas o pequeno mundo que me rodeava que se reconstituía, também sem esperança.
Enquanto isso o beija-flor continuava esvoaçando de flor em flor e as lagartixas, de cima do muro, balançavam a cabeça afirmativamente.
 
Valença, BA, 17 de agosto de 2014
© Araken Vaz Galvão


7.7.14

Sobre o sargento Manuel Raimundo Soares

Sobre o sargento Manuel Raimundo Soares, assassinado pela ditadura e as cartas de que ele enviou da prisão pouco ou nada tenho a dizer, elas são demasiado eloquentes para necessitarem de comentários. Ele fala duas vezes no nome de minha mãe – dona Mira – e agora me pergunto, será que ele queria mandar-me alguma mensagem? Certa feita questionei o Amadeu Felipe – nosso chefe – sobre a possibilidade de empreendermos alguma ação para libertar Soares, afinal eu estivera naquela Ilha quase um ano e a conhecia como a palma de minha mão – como se diz popularmente. Amadeu Felipe, com aquela “frieza” que o próprio Soares muitas vezes assinalara, disse-me – grosso modo (o tempo não me permite lembrar-me exatamente, textualmente, a sua resposta: A maior ajuda que podemos dar a Soares – não será nos desviarmos de nosso objetivo comum, nos metermos em uma ação paralela, com grande perigo de fracassos e novas prisões – é tornar realidade o nosso sonho comum. Se aguçarmos as contradições contra a ditadura o Soares sairá da prisão, será solto. Não desejo, porém, culpar Amadeu Felipe pela nossa inércia: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer,” era um dos nossos lemas. Aliás, desejo – como um dos mais íntimos amigos de Soares – assumir uma boa parte da culpa por nada ter sido feito para tirá-lo daquela prisão, salvando-lhe a vida. Entretanto, devo admitir que o Amadeu Felipe tinha razão. Ademais, o próprio Soares costumava dizer que as cartas que um combatente revolucionário consegue passar de dentro da prisão não pode conter outras informações do que as de amor para seus entes queridos. E que essas cartas deviam ser somente a eles dirigidas.
Uma coisa, porém, acho digno de registro, por mais irrelevante que possa parecer. Não tenho dúvida que a carta era dele por uma simples frase: “a tranqüilidade da certeza”, esta era uma das suas marcas registradas: TRAQUILIDADE DA CERTEZA era esse sentimento que o revolucionário devia sentir em relação à causa que defendia, em relação ao companheiro preso (sabendo que ele não falaria), em relação a não ser abandonado na prisão pelos companheiros. Ao pensar em tudo isso, volto a sentir algo muito próximo ao que disse Miguel Hernandez em um dos seus belos poemas: Mi duele más tu muerte que mi vida(1). Caldas diz ainda que “O calvário de Manoel Raimundo Soares durou até agosto.” Depois dá uma informação que não corresponde exatamente à realidade, diz que “O grupo do qual ele participava já estava na serra do Caparaó quando soube pelo rádio que ele havia morrido.” Talvez Caldas tenha se confundido, na verdade seu desejo fosse dizer que parte dos seus companheiros já estavam no Caparaó. Quando a notícia de sua morte chegou ao Rio eu recebia de Amadeu Felipe a missão de acompanhar Betinha até Porto Alegre e, durante a viagem, já ir preparando o seu espírito para amortecer o impacto da tragédia. Foi a mais ingrata tarefa que recebi na minha vida. Não sei, acho que só me saí bem em parte, pois a deixei, já informada, em mãos segura na capital gaúcha. Depois, não sei se por estar transtornado, por não ter podido assimilar completamente a tragédia ou simplesmente por ser um idiota, andei metendo os pés pelas mãos. Mas não desejo falar sobre isso, já que muitos dos ex-companheiros que tão mal falaram de mim omitiram esse detalhe, silencio e guardo a minha dor para sempre.
Caldas prossegue: “Na prisão, Soares conseguiu a colaboração de vários carcereiros, que nas cartas para a família ele chamava de novos amigos. Escreveu também cartas ao Tribunal Superior Militar, postadas nos correios através desses carcereiros, nas quais denunciava as torturas na prisão da Ilha das Pedras Brancas.
“Quando o Tribunal Militar concedeu o habeas-corpus e mandou soltá-lo, Soares foi levado à tortura para revelar de quem recebia ajuda. Daltro Dornellas, que recebeu (depois, bem mais tarde) do grupo a responsabilidade de cuidar de Betinha, a viúva, conta os últimos momentos de Soares: “Botaram injeção de álcool nele, deram caldo no rio Guaíba, e ele morreu”. Em discurso pronunciado no Congresso Nacional, quando era deputado federal, Daltro Dornellas, dá várias informações em um opúsculo(2) sob o título “Tortura e Morte do Sargento Manuel Raimundo Soares”.
Conheci Manuel Raimundo Soares por volta de 1958, mais ou menos. Com a vitória de Carlos Machado Correia para presidente do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército – CSSE –, vitória em que estive empenhado e que fui um dos artífices. Soares, com a inquietação que o caracterizava, começou a frequentar o Clube e se fez meu amigo. Morávamos no subúrbio da Central, bastante próximos um do outro – ele em Osvaldo Cruz e eu em Marechal Hermes – todas às vezes que ele ia ao clube esperava-me e fazíamos a vigem de volta de trem juntos. A primeira impressão que me ficou dele, era que Soares não falava como um sargento comum, seu linguajar era mais elaborado, usava palavras alheias ao vocabulário dos sargentos. Algumas até em desuso no idioma.
Com o correr dos anos construímos uma sólida amizade e, não tenho porque não dizer que não só ele foi, de certo modo, meu professor em muitas coisas, em particular as relacionadas com cultura e política, como eu fui seu amigo mais íntimo. Embora fosse eloquente, Soares era discreto e até um tanto tímido, não sei se por sua reduzida estatura física, por sua saúde um tanto frágil, ou simplesmente por temperamento, Soares era até muito discreto. Ele servia no Batalhão Escola de Saúde, em Magalhães Bastos – final da Vila Militar – porém não exercia maiores lideranças entre seus pares, pode-se dizer que ele se resguardava e temia bastante os possíveis informantes do Comando, que os há em todo quartel. Soares era escrevente, muito bom datilógrafo e também muito bom em redação, embora os textos que lhe chegavam para datilografar já viessem adrede preparados, Soares nunca cometia erros de ortografia e de concordância, devia até – imagino – sugerir ao chefe imediato a correção de algum “engano(3)” – como se costuma dizer no Exército – coisa que não podia passar despercebido pelos seus superiores hierárquicos. Nossa amizade foi em um crescendo, ele me procurando quase diariamente em minha casa, depois do expediente. Eu era o exato extremo dele, extrovertido, sempre falando pelos cotovelos, e sempre muito alto, sem papas na língua – como diz o vulgo – sem medir o que dizer nem onde dizer. Possuía, porém, bastante liderança no quartel em que servia. Digamos uma liderança suave, relacionada com os problemas do sargento, aqueles que eram discutidos no Clube dos Sargentos, por isso não tive dificuldades de transformar todos os sargentos da minha unidade – cerca de 180 – em sócios do CSSE, quando a média em outros quartéis não passava do 20% do efetivo. Bastante inculto e espalhafatoso, gostava também muito de cinema e aí terminava minha ilustração. Soares quase não lia romances, apenas ensaios; e quase só ouvia música que costumamos chamar de clássica.



(1)  Dói-me mais tua morte que minha vida (tradução livre, conservando apenas o sentido).
(2) D’ORNELLAS’, Daltro Jacques. Tortura e Morte do Sargento Manuel Raimundo Soares (Discurso pronunciado no dia 28 de Maio de 1984), Coordenação de Publicações, Câmara dos Deputados, Separatas de Discursos, Pareceres e Projetos, 47ª Legislatura – 2ª Sessão Legislativa, nº 108, Brasília, 1984.
(3) Entre as máximas reinantes no Exército, além das citadas na página XXX, há um que reza: “Superior não erra, se equivoca. E quando o faz é por culpa exclusiva do subordinado”.

26.5.14

Viver

Tenho dito em várias ocasiões que em dias assim abafados, como os de hoje (comuns no litoral da Bahia, nos meses de março) quando uma inesperada tormenta ameaça cair, sem que isso se concretize cabalmente; em dias em que o calor se faz opressivo; em que o ar se faz pesado e o ato de respirá-lo se torna fatigoso, sou dado a praticar ocultas filosofias – daquelas, talvez, “que nenhum Kant escreveu” –, das que se aproximam bastante da metafísica. No entanto, sou obrigado a reconhecer que não são dignas daquelas comuns aos grandes mestres, pois são mais próximas da chã filosofia daqueles que buscam, como eu, desesperadamente (mas em vão) uma explicação para esse ato insano que é viver.
Mais além de que ele, o ato de viver, seja muito perigoso, vejo-o também bastante desprovido sentido lógico, ademais de ser totalmente carente de espírito lúdico. E, não raro, pergunto-me: quando realmente se começa a viver? No ato da concepção, como querem alguns religiosos? Quando se vem à luz? Á luz baça das salas de parto das modernas maternidades ou do turvo recanto do tugúrio onde nascem os pobres? Ou seria quando se recebe aquela palmada na bunda? Quando se atinge a idade adulta? E essa última interrogação nos leva fatalmente a outra: quando é mesmo que se atinge essa idade?
A vida (ou o ato de viver) é algo tão insensato que quando se sai da infância e se caminha para a chamada idade adulta o jovem, amiúde, enlouquece completamente. É a famosa adolescência, quando se comete os mais completos desatinos – inclusive se ensaia os primeiros atos relacionados com aquele que chamamos (ou imaginamos ser) amor – ocasião em que, quase sempre, se toma as atitudes mais absurdas, algumas próxima à demência, como se estivesse antevendo que o que vem pela frente será terrível.
Aliás, quando digo que “o que vem pela frente será terrível”, não estou usando apenas força de expressão. Se a passagem da infância para a fase mais adulta da vida, é sempre pontilhada de quase tragédias, a vida madura (ainda que não tenha muita certeza em que momento isso ocorre e o que vem a ser isso) é também sempre repleta de surpresas, nem sempre agraváveis, de desencontros, de tropeços e de constantes levantar e partir-se em busca de novos equilíbrios, mas, quase sempre, se indo ao chão novamente. Isto, porém, já é a velhice e esta é uma tragédia patética e sem volta.
Como é difícil – oh infernos! – envelhecer.
Principalmente é difícil envelhecer – sem envilecer – quando se sente à falência dos músculos e se continua sentindo o vigor dos desejos que nos extravasa do coração. E, embora o coração não esteja murcho, outras partes do corpo – mais úteis e prazerosas de se usar – estão irremediavelmente mortas.
Não se engane os desavisado, isso nada tem a ver com essa falácia de “espírito jovem”. De que serve se ter esse “espírito jovem” se já não se tem vigor físico para sustentá-lo? Quando se diz que se é jovem de espírito ou se está enganando ou se está confundindo (no caso, a sim próprio). Por que isso é apenas o desejo que nos arde no coração sonhando com o vigor de órgãos e músculos que nos abandona inexoravelmente. Como é doloroso se desejar amar e já não ter vigor para fazê-lo...
Que não me venham com compensações do tipo “o coração não envelhece”, porque aí reside a maior das desgraças. Porque se o coração envelhecesse, pari passu, com os demais órgãos, em particular, com os outros músculos – e mui especialmente, aqueles ligados ao sexo – a velhice não seria a desgraça tão desgraçada que é.

Valença, BA, 14 outubro de 2009

© Araken Vaz Galvão

Texto, depois de várias vezes retocado, foi lido pelo jornalista Thiago Pimentel por ocasião do lançamento, na Aliança Francesa, Vitória, ES, em 16/05/2014, do livro "Araken Vaz Galvão II – Ensaios ou Quase".

10.5.14

O Sujeito Oculto

Olhava para aquele sujeito de mãos grandes e desajeitadas, possivelmente calosas, de dedos longos e gordos, com unhas sujas, de quem trabalha em ofícios rústicos, e não é muito cuidadoso com esses pormenores relacionados com higiene. Ou não tem tempo e ânimo para se preocupar com esses detalhes por considerá-los prosaicos... Seu rosto era sóbrio, talvez um pouco melancólico, o que nos podia sugerir uma ascendência lusitana; cabeça dolicocéfala, mostrando nas laterais uns tufos de cabelos desgrenhados, um tanto gordurosos, típicos de quem tem a pele oleosa e não pode se banhar com frequência, o que dava, a sua acentuada calvície, o brilho e a solidão da palavra lingüiça, depois de ter perdido o trema. Suas orelhas, um tanto desproporcionais, orelhas de abano – como dizia minha avó –, pendiam a cada lado de sua cabeça, como dois apóstrofes, quiçá duas aspas simples, uma de abertura outra de fechamento... A barba cerrada, por fazer, dava-lhe uma cor azulada ao rosto, aumentando-lhe, no semblante, o ar de desamparo e a sugestão de melancolia. Bastos bigodes, com as pontas viradas, insinuando as interrogações espanholas de início de frase. O cangote era taurino, ombros lagos, arcados como o parêntese, sugeria uma pessoa que só executara, em toda a vida, trabalhos pesados. Sua aparência lembrava um pouco a dos imigrantes portugueses dos anos 50, do século passado – tão discriminados no Rio de Janeiro –, quando Portugal, além de carregar o estigma de todo colonizador, era mais que pobre, era paupérrimo. Talvez daquela suposta origem lusitana viesse aquele ar nostálgico “um pouco daquela tristeza” que constatara antes. Entretanto, em sua simplicidade rústica, aquele sujeito pacato conservava uma postura de dignidade só encontrada nos reis. Ou, pelo menos, naquilo que pensamos que são as majestades.
Foi então que me lembrei do meu velho professor de português, o doutor Aleixo César, ranheta e intransigente, sempre a exigir o respeito inconteste às regras do falar popular, sem esquecer – dizia sempre – das normas cultas. E ao pensar no velho mestre – a quem muito devia –, indaguei-me: Onde estaria o predicado daquele sujeito? Melhor: Onde estariam os predicados dele? Teria ele algum predicativo?
Qual o objeto direto de sua vida? Sua mulher – supondo que tivesse uma –, seus filhos – deduzindo que os tivesse? E os indiretos? Comprar uma casa, um carro, um vídeo geime ou um computador para um dos filhos, uma bicicleta para o outro? Talvez até um vestido longo para a filha que cumpriria 15 anos dentro de alguns meses... O que seria que, direta ou indiretamente, complementava sua vida? Algo relacionado com as situações nominais ou meramente sonhos que, similar as palavras ao serem verbalizadas, o vento levava, e morriam sem deixar morsas?
Havia ainda, em minha mente, algumas questões, todas relacionadas com as exigências do professor Aleixo. Então, pensei: Como ele se expressaria? Como, em sua fala, o seu verbo era conjugado? Se fosse um homem de esquerda – daqueles do meu tempo de jovem – daria preferência aos verbos intransitivos diretos. Poderia até fazer alguma concessão aos intransitivos indiretos. Quem sabe, para radicalizar, os bitransitivos? Ou mesmo os bitransitivos indiretos ou ainda os bitransitivos circunstanciais? Quando estivesse em uma mesa de negociação – no caso de ser sindicalista, como o fora o nosso ex-presidente – talvez fosse reticente, fizesse uso de verbos pronominais ou acidentalmente pronominais. Quem sabe não usaria de verbos irregulares, defectivos, anômalos, abundantes, acurativos, ou adjetivos, sempre com a intenção de defender os interesses dos seus representados? Afinal, não é com palavra por palavra – similar aos grãos que enchem o papo das galinhas – que se constroem pontes e se alcançam os objetivos? Os latinos não diziam verbo ad verbum?
Usaria de um verbo abundante por que poderia necessitar de mais de uma forma para se expressar, ou acidentalmente pronominais por necessitá-los em uma situação peculiar. Ou até mesmo usar dos verbos adjetivos ou atributivos, ainda que estes estivessem em desuso. Anômalos ou defectivos, porque a vida está repleta de defecções e de anomalias. Aumentativos, se fosse uma pessoa exagerada. Ou diminutivos, se gostasse de apequenar as coisas ou a si próprio. Se fosse um sujeito preciso em suas assertivas deveria usar de um verbo acurativo.
Limitar-se-ia, possivelmente por razões de pudor ou timidez, não fazer uso dos verbos copulativos, prender-se-ia a usar os de ligação, mais discretos. Não dispensaria, porém os verbos de opinião, e lançaria mão, talvez, dos verbos declarativos. Os impessoais – impostos pela modéstia – seriam frequentativos.  Nos momentos de ponderação usaria dos verbos reflexivos.
Ainda não sabia seu o nome, daí ponderar como ele se situava frente a uma situação em que fosse exigida uma declaração direta. Será que ele diria: Eu, fulano e beltrano? Ou diria: Fulano, beltrano e eu? Expressar-se-ia talvez, timidamente, disfarçado pelo quase anonimato da mesóclise? Quem sabe afirmaria sua personalidade colocando-se em próclise, negando-se a buscar o abrigo modesto da ênclise? 
Seria um homem substantivo ou adjetivo? Quais artigos seriam de seu interesse? Os pluralizados ou os simples? Como se relacionaria com os números? Teria alguma preferência pelos ordinais ou pelos cardinais? Talvez se apequenasse transformando os adjetivos em advérbios, valendo-se do sufixo mente? Era bem possível que em sua vida nunca houvesse exclamações, somente interrogações, até acompanhadas de reticências.
Estava eu entregue a essas pueris divagações, quando notei que o homem levantava-se e, com passos cam-ba-le-na-tes, e dirigia-se ao balcão. Com gestos torpes, jogou um bolo de dinheiro amassado e, sem esperar alguma atitude do garção, dirigiu-se à saída.
Quando ele chegou à porta do bar é que soube seu nome. O garção, gritou:
— Senhor Anacoluto, telefone! Um momento.
Ele mal parou, virando um pouco a cabeça, as pernas de cambaio formando um perfeito parêntese, o corpo fazendo-o balançar ao ritmo cadente dos quase bêbados.
— Uma senhora, dona Epífora, que diz ser sua esposa, o chama.
Ele retomou o seu caminho com seus passos trôpegos, ajeitando, em um gesto muito pessoal, uma mecha inexistente de cabelos, como se o estivesse incomodando. Depois, com a outra mão fez um sinal, também personalíssimo, que tanto pode ser de enfado, como significado que já tinha ido embora. Ouvi ainda o garção dizer ao telefone.
— Ele acaba de sair.
Entregue a minha costumeira perplexidade, pensei: Qual será, Anacoluto, a metáfora de sua vida? Um silogismo, uma parábola, uma fábula ou uma farsa? Foi então que – como se estivesse saído de um sonho –, lembrei-me de quem eu era e qual era a minha missão ali. Como se algo viera a estalar-se na minha mente, fazendo recordar que aquele era o mais perigoso assassino que a polícia enfrentara nesses últimos anos. A minha missão, por tê-lo conhecido em sua juventude, era, justamente, percorrer os bares buscando identificá-lo. Joguei também uma nota sob o balcão e corri em busca da saída. Deparei-me com o ar quente da noite de verão e com uma inexplicável multidão na rua. Era um grupo de operários do turno noturno de uma fábrica próxima que saía. Meti-me entre eles, esbarrando em alguns e levando encontrões de outros. A massa era compacta, ainda que em movimento. Uma inesperada neblina diminuiu muito a visibilidade já parca naquela rua mal iluminada. O sujeito desaparecera. Foi então que, entre despontado e assombrado, descobri que na gramática estava a explicação. Sim, sim. Na gramática, claro. Como não pensei antes?
Anacoluto não passava de um reles sujeito oculto.

Valença, BA, 29 de abril de 2014
© Araken Vaz Galvão

16.3.14

Sobre o Esquecimento e outras Necessidades Vitais

Para o meu amigo, o escritor
Alfredo Gonçalves de Lima Neto

Certa feita, conjeturando sobre a existência ou não da alma – mas não ocultando completamente a certeza de que não a possuía –, externei a conclusão de a alma(1) (ou seu simples conceito) levava-nos sempre a uma grande confusão, fosse qual fosse o ângulo que abordássemos o tema. Agora, porém, ao ler no livro do José Eduardo Agualusa, “Teoria Geral do Esquecimento”, e ter encontrado uma afirmação instigante sobre as almas, eu – que ocultava a certeza de não a possuir, repito – comecei a ver aquela certeza claudicar.
Devo, porém, fazer um pequeno intervalo para externar minha convicção sobre a completa vanidade existente na tarefa a que se possa impor um escritor ao tentar escrever uma teoria geral sobre o esquecimento, devido ao fato de que dediquei boa parte da minha vida em busca deste objetivo, sem muito – melhor confessar de vez –, sem nenhum sucesso. E hoje, quase no fim da vida, penso que por mais que se escrevam tratados sobre este tema; que se desenhem mapas; que se elaborem guias; que se indiquem direções, jamais se consegue esquecer aquilo que mais se necessita apagar da mente – por mais desesperado que seja o esforço desprendido.  
Essa elucubração deu-se em minha mente antes de ter lido o livro de Agualusa. Ao lê-lo, minhas convicções não mudaram, apenas descobri que o objetivo do escritor angolano era em outro sentido, não aquele que tanto me lancinava, ou seja, não estava relacionada com a necessidade que uma pessoa pudesse ter (e na maioria das vezes, e ao longo de sua vida, o tem) de simplesmente esquecer aquilo que lhe era indispensável; pois acreditava que somente se alcançando aquele objetivo conseguir-se-ia, de verdade e sem mortificação, lograr um pouco de paz para se continuar vivendo sem dores. Sabia que existia o mal de Alzheimer, mas este era uma deformidade genética (creio). Ademais, este método radical imposto de forma cruel pela própria natureza, por ser tão severo, havia momentos em que se podia imaginar se ele não seria a antecipação do próprio inferno nos sendo imposto enquanto tínhamos um resto de vida, quiçá ainda útil, para um tardio arrependimento. Hipótese que, se real, configurar-se-ia em uma maldade ainda mais insana. Por isto me questionava se não seria um absurdo, se seria humanamente plausível, caso minhas constatações estiverem corretas, fazer-nos esquecer daquela forma tão pungente, dolorida e carente de significação para a nossa comum concepção de castigo.
Por outro lado – mesmo com o risco de ser repetitivo –, devo frisar ainda que se esquecer por meio desta terrível enfermidade, a qual – se não me falham as informações, só aparece na velhice (justamente a parte da vida em que já se praticou de tudo, certo ou errado, ficando espaço para se prestar contas e pagar dívidas), até mesmo porque na velhice não se tem futuro, então tudo já é um fato consumado, o que não é nosso, deste autor, o objetivo ­–, por isso não teria validade, para o sentido que se deseja dar a este texto, porque esquecer por esse meio significaria apagar (“deletar”, como diriam os que receberam mamadeira por meios eletrônicos ou virtuais) tudo que, em nossas vidas, fora feito com culpas, pois o esquecimento que desejo realçar – o que desejo insistir na necessidade de descartá-lo – pertence àquele tipo de ações cujas lembranças, são tão nefastas, que nos é imperioso (pero, no mucho, como se diria em espanhol), tirá-las da mente (para o todo e sempre), pelo simples fato de pertencer àquela classe de recordações – que, por alguma razão desconhecida –, necessitamos, de vez em quando, voltar a lembrá-las, ainda que seja apenas para sofrer só mais um pouquinho.
Bem, era um mistério que estava longe da minha capacidade de compreensão. Melhor: uma esfinge que podia devorar o que ainda restava de mim, nesta fase como veem que sei, resta-me ainda muito pouco de vida. Então, melhor seria dizer que o livro de Agualusa é muito bom. Uma leitura muito agradável. Isto feito... Continuar.      
Escrevera aquele autor(2) – cujas sentenças poéticas trazem certos fumos de verdade similar a dos patriarcas religiosos de antão –, que “Deus pesa as almas numa balança. Num dos pratos fica a alma, no outro as lágrimas dos que a choraram. Se ninguém a chorou, a alma desce para o inferno. Se as lágrimas forem suficientes, e suficientemente sentidas, ascende para o céu”.
Esta afirmativa perturbou-me sobremaneira. Mais além de que o escritor angolano deixa implícito, quiçá apenas de forma poética, que acredita na existência de Deus, ademais no das almas, conclusão que surpreende e intriga aos ateus (e também aqueles que não aceitam a existência das almas), como é (melhor seria escrever: são) meu caso, o que me levou a indagar qual o número de pessoas que chorariam por mim, quando do meu passamento. Poderia dizer: desta para o forno crematório.
E ao confessar que desejo este destino para os meus restos mortais (ainda que imagine que imortais, em mim, nunca houve ou haverá), se não estaria, por um possível ato falho de minha, talvez, surrupiando, àquele que os crentes julgam o Criador, o trabalho de mandar-me, com ou sem lágrimas, de vez para o inferno. O quinto dos... Por certo.
Feita, porém, esta pueril divagação, retorno o curso da narrativa.
 Agualusa diz ainda, no parágrafo seguinte que “Vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros.” Já tinha notado que este autor, em outras anteriores passagem do seu livro, tece algumas considerações sobre a alma, porém cito a que mais me intrigou.
E – mudando um pouco de direção – não foram poucas as coisas que me deixaram pasmo. Inclusive deparei-me com algumas palavras, por ele usadas, comuns, não sei se em Portugal ou em Angola, ou ainda, se em ambos os países. Uma delas, a qual logo me identifiquei –, pelo menos senti-me próximo neste momento de minha vida, cujo pessimismo e lamentações tanto preocupam aos meus bons companheiros. Digo desta forma: bons amigos, não por buscar – como sou contumaz em fazer – relação com um filme sobre mafiosos(3), mas por força de expressão, conforme reza o lugar-comum. Bem – dizia –, que com uma delas logo me identifiquei, e esta palavra foi alforreca.
Esta palavra, a qual nunca tinha ouvido falar ou visto escrita, vinda do árabe – como sucede com muitas outras, consequência da longa dominação muçulmana na península Ibérica. Sobre ela constatei, ao consultar o dicionário, que possui dois significados intrigantes: “aquilo que não tem firmeza, solidez ou consistência”. Ou, em forma figurada, “pessoa que tem muitas habilidades, ou (é) competente em muitas atividades”. Esta é, pois, a sua definição como substantivo. Como adjetivo, porém, não diferencia muito: “diz-se de coisa ou material sem firmeza ou sem solidez”. E ainda “diz-se de pessoa com muitas aptidões”.
Com ambas as definições identifiquei-me. Pelo menos me identifiquei devido a esta fase pessimista pela qual estou passando – a qual, sei, somente a superarei, escrevendo, fazendo-o sem nenhum pudor, com a exposição completa das vísceras – e por não ter pejo de colocar, de modo explícito, em tudo aquilo que escrevo, para irritação daqueles meus bons amigos.
A verdade, porém, é que já fui uma pessoa de muitas aptidões – poderia mesmo dizer que, similar ao palhaço da música O Circo, de Sidney Miller(4), já fui tudo –, inclusive desfrutei uma vida bastante variada, tendo conhecido algumas situações bastante aristocráticas; ou exercido outras profissões bastante plebeias, como, por exemplo, ter sido fazendeiro (filho e neto). Mas também office-boy (vulgo mensageiro), ajudante de serralheiro, soldador industrial, militar, revolucionário, vendedor de jornais, artesão, micro-empresário e... Intelectual aposentado. O que mais? Não me lembro. Sei que também fiquei velho e fui perdendo a pertinácia, ou seja, fui ficando, pelo menos fisicamente, “sem firmeza ou sem solidez”.

     Valença, BA, 7 de março de 2014

© Araken Vaz Galvão



(1) VAZ GALVÃO, Araken. “O Conto Brasileiro Hoje, Vol. XXIV”, R&G Editores, São Paulo, 2013, pág. 31. É onde está o conto que contém as reflexões sobre a alma.
(2) No capítulo “Um pombo chamado Amor”, págs. 155/160, do livro lançado pela Foz Editora, Rio de Janeiro, 2012. 
(3) Somente à guisa de informações, quiçá inócua, o filme em questão, chamou-se justamente “Os Bons Companheiros (Goodfellas) e foi dirigido por Martin Scorsese no ano de 1990.  
(4) O verso ao qual me refiro desta bela música de Sidney Miller (1945-1980), com o qual sempre me identifiquei, diz: “Faço versos pro palhaço que na vida já foi tudo/ Foi soldado, carpinteiro, seresteiro e vagabundo/ Sem juízo e sem juízo fez feliz a todo mundo/ Mas no fundo não sabia que em seu rosto coloria/ Todo encanto do sorriso que seu povo não sorria”. 

24.2.14

Viver não dói

Viver não dói – encontrei, em meu velho arquivo, na parte de duvidoso material recebido via internet, um texto atribuído(1) a Carlos Drummond de Andrade, com este título – o que me levou a pensar: Só dói quando se vive. Ou seja, quando, ao viver, se ama e, ao se amar, não se é correspondido. Afinal, como diz a canção do meu tempo: “Amar é viver/ é um doce prazer embriagador, invulgar”. Ora, se amar é viver, não se conseguindo dar amor a quem se ama(2), sofre-se. Fora dessa situação, viver realmente não dói. O único problema é que, se o que a canção diz é verdade, a falta de amor muitas vezes causa uma dor dos diabos...
Foi pensando sobre isso, então, que me lembrei da moça da farmácia – aquela que fica na esquina da rua Visconde do Monte Santo e da rua da Fonte do Boi, no Rio Vermelho, em Salvador, na Bahia, minha amada terra. Mas quem fica na dita esquina, claro, é a farmácia. Que nenhum leitor desavisado vá pensar que seja a moça em questão citada quem ali fica, balançando a bolsa – no exercício daquilo que o lugar-comum classifica como o mais antigo dos ofícios –, já que a moça fica apenas dentro do também citado estabelecimento comercial, trabalhando como balconista, e não na referida esquina, ofertando ilusórios instantes de amor, se é que ao se comercializar o sexo a ele seja possível acrescentar algo de sentimento. Assim sendo, ela, além do trabalho atendendo no balcão, tem todo o ar de quem é casada, por estar aparentando gravidez, ainda que isso não signifique nada além de já ter copulado, uma vez que, em nossos dias, para se praticar tal atividade, não mais se necessita dos sagrados laços do matrimônio, que os tempos são outros bem diferentes daqueles existentes quando fui jovem. Mas, dirão meus eventuais leitores, o que a moça – que deve ser uma senhora – tem a ver com a vida doer ou não?
É que fui comprar um medicamento; e me atendeu outra moça, que se atrapalhou ao ler a receita.  Aquela atendente, a que estava grávida, para ajudar  à colega, disse gentilmente:
— É para o coração – completando, para ser bem clara – É um remédio para o coração, não é mesmo, senhor? – Esta última frase evidentemente dirigida a mim.
Naquele dia acidentalmente, estava de bom humor. Tinha saído da reunião semanal do Conselho Estadual de Cultura, Bahia, passara na farmácia, com intenção de ir depois ao supermercado comprar algo para merendar no hotel. E junto com as compras da merenda, tencionava levar também um litro de uísque. Beberia umas duas doses e, no outro dia, traria a sobra para minha casa, onde, no fim de semana, amenizaria o peso da vida que já não dói tanto, porque, com a idade, o que mais me atormenta são as articulações, principalmente as do joelho, ainda que isto também faça parte de vida. Porém, tudo isto são divagações. Estava na farmácia e de bom humor, então lhe respondi:
— O remédio para o coração, senhorita, é o amor – não tinha notado ainda sua incipiente gravidez, por isso não a chamei de senhora – Os remédios são para corrigir os males causados, ao coração, pelo amor.
Ela, e outros dos seus colegas de trabalho, olharam-me com evidente surpresa. “Esse velho é maluco” – devem ter pensando. Ao que fui obrigado a esclarecer, do alto dos meus 74 anos, à guisa de amortecer o impacto de minhas palavras:
— No meu tempo era assim. Não sei nos dias atuais...
 Fez-se um longo segundo de perplexidade. Um outro balconista, esse do sexo masculino, quebrou-o – o silêncio, é claro –, dizendo, um tanto sem propósito:
— Já estão até querendo instituir o dia do sexo, não é mesmo?
— Não estou bem seguro se sexo tem algo a ver com amor, ou vice e versa... – Acrescentei – No entanto, sempre tendo por base o meu tempo, quando todo dia era dia de sexo (e não de índio, salvo se os índios...); bem, fico a matutar o quão desagradável seria a instituição desse único dia...
Sabia que estava falando um português pouco popular, e que grande parte do ar de perplexidade, que via estampada no semblante dos atendentes daquela farmácia, devia-se ao meu linguajar. Porém, minha intenção – filha do meu inesperado bom humor – era justamente usar dele, o linguajar, para caracterizar o meu tempo. Por isso acrescentei;
— Imagino que iriam colocar uma câmara, dessas de segurança, para fiscalizar a observância dos preceitos legais.
Continuava usando construções de sintaxes “jurássicas”, como “fiscalizar a observância dos preceitos legais”, em vez de monitorar a aplicação da lei. Continuei.
— Já pensaram a pessoa estar em sua casa e, de repente, bate à porta um fiscal. “O senhor não tem praticado sexo ultimamente, senhor”. E o cidadão, meio sem jeito, justifica-se: “Bem... Quero dizer... O tempo anda curto. Muito trabalho... Quando se volta à casa tem-se o computador, a internet, os bate-papos virtuais... Os amigos ligam... o celular... Um joguinho, sabe como é...” E o fiscal: “Compreendo perfeitamente, Mas é preciso observar o que prescreve a lei. Dê-se por advertido”.
E o cidadão, muito a contragosto, olha para a mulher, que se encontra assistindo a novela, e diz: “É, meu amor, melhor a gente obedecer, eles podem proibir os jogos on-laine, cortar o nosso crédito do celular e até bloquearem as novelas. Vamos ter que fazer o sacrifício de... Você já tomou banho?”
Mas aí, já me encontrava no táxi, a caminho do hotel, no bairro da Pituba (em Salvador, é claro), com planos de, antes, passar em uma delicatessen, vulgo loja de conveniências, para comprar a bebida que os escoceses legaram ao mundo para que os homens suportem as dores da vida...

Valença, BA, 3 de julho de 2010
© A. Vaz Galvão



(1) Quando digo “atribuído”, é por duas razões: tê-lo recebido pela internet – meio que não me merece muita confiança, por dispensar os revisores antes de publicar) – e por estar com preguiça de ir conferir em suas Obras Completas...
(2) Agora já estou a citar outro poeta, Thiago de Melo: “A maior dor sem foi/ e será sempre/ não se dar amor a quem se ama...”



8.2.14

A Baderna e o Batuta

Em 1851 esteve no Brasil uma cantora e dançarina italiana de nome Maria Baderna. Era o que hoje se chama pop star, ou seja, uma dessas cantoras bonitas, de comportamento social inusitado. Baderna, causou muito furor junto à juventude do Rio de Janeiro, tendo como resultado histórico — sim, porque, na ocasião, houve quebra-quebra e outras desordens, similares aos que fazem hoje os atuais rebeldes sem causa (ou aqueles cuja causa é imitar o que a internet e a TV propagam) --  que o seu nome de família tornou-se sinônimo de arruaça e outras... badernas.
O Aurélio, mesmo fornecendo alguma informação sobre essa dançarina, diz que o seu nome, Baderna, está associado a “grupo de rapazes alegres, barulhentos. Súcia, corja. Pândega, estroinice; desordem, confusão, bagunça, bagunçada”, etc.
Por outro lado, em uma rápida vista d'olhos no Google, achamos em alguma matéria ali constante a informação de que “Baderna é uma palavra exclusiva do português brasileiro que significa confusão, desordem, bagunça”, e fornece outros dados históricos. Diz ainda que a celebridade que criou, sem querer, este neologismo, chamava-se “Marietta Maria Baderna (e que era) filha do médico e músico António Baderna (e que) teria buscado o Brasil como exílio em 1849. Talentosa, logo conquistou uma legião de fãs, admiradores tanto de seus passos de dança, quanto de seu espírito rebelde e contestador. Inovadora, ela foi alvo de críticas ao introduzir elementos do lundum (dança afrobrasileira praticada por escravos) entre os passos da dança clássica (isso em) meio a uma sociedade conservadora e escravista”, do II Império.
Diz que o motivo de exílio dela (e, possivelmente, o de sua família) no Brasil, deu-se por razão da ocupação do seu país, a Itália, pela Áustria, frisando que a “(...) sociedade da época, que associou o barulho e a paixão incontida dos fãs a algo ruim”, ou seja, a falta de modos educados. Afirmando ainda, citando o Houaiss, que o termo “baderna está associado aos seus admiradores, chamados de os badernas, que entoavam o nome da musa ao final de suas apresentações”.
Hoje baderna é o ato de praticar desordens, e baderneiros são aqueles que a praticam. E poucos sabem como a baderna começou, ainda que uma expressiva fração dos brasileiros, useiros e vezeiros, não só em fazer baderna, como em falar mal do Brasil, afirme que a baderna é tão antiga quanto o próprio país.
E por falar em baderna, estão ameaçando evocar (mesmo sem saber) a dançarina italiana, para provar ao mundo que somos mesmo baderneiros natos, exercendo-a, esse mister, para diminuir o brilhantismo da próxima Copa, fazendo uma canhestra equação: Saúde, sim; Copa, não. Quando deveria ser: Saúde e Copa.
Antevejo já agora, caso saiamos vitoriosos, os débeis mentais, que pululam nas redes sociais, afirmarem que fomos campeões porque eles ameaçaram depredar o país se não fôssemos; ou, caso não sejamos, que perdemos porque eles – os débeis mentais das redes sociais impediram-no.
Alguma idiotice deste nível deve sair nos blogues, faces e tweets de pessoas faltas de cérebro como as ditas e havidas supostas celebridades televisivas que buscam promover-se pisando no rosto e na dignidade do povo brasileiro, menosprezando e difamando suas realizações e conquistas.    
Lendo esta matéria, lembrei-me deste fenômeno linguístico – o de que um produto (nesse caso, uma marca comercial) ou pessoa tornar-se sinônimo daquilo que representa é comum entre nós e deve ser comum em todo o mundo.
Existia a conhecida (e antiga) lâmina de barbear cuja marca durante muitos anos tornou-se sinônimo de lâmina de barbear. Outro caso emblemático foi o da cerveja Brahma. As pessoas diziam: Vamos tomar umas Brahmas? Era o mesmo que se convidar para se tomar cerveja, qualquer cerveja. Há até uma história relacionada com um desses cartolas que imperavam (e ainda imperam) no futebol brasileiro, cujo nome foge-me à memória - acho que era um presidente folclórico do Corinthians, que em uma festa naquele clube, teria pegado do microfone e dito: Temos que agradecer ao presidente da Antárctica que nos mandou estas Brahmas. Naquele tempo as duas marcas de cerveja eram de empresas diferentes e rivais, que disputavam o mercado palmo a palmo.
Foi então que, ao recordar-me dessas histórias e – por que não? – dessas fatalidades linguísticas, que me lembrei da palavra batuta.
Resulta que, em minha infância em Jequié, era comum se ouvir pessoas fazerem uso deste termo com o sentido que não estava relacionando, para nada, com orquestras e com seus regentes.
Agora, recentemente, recebi de uma amiga um belo e erudito livro, “O Mundo Falava Árabe” – que me mantém extasiado –, tese de doutorado de Beatriz Bissio, hoje residente no Rio de Janeiro, uma pessoa a qual faz já bastante tempo que não a vejo.
Conheci Beatriz no Uruguai, país no qual nasceu, por intermédio de Neiva Moreira (1917-2012), durante os longos tempos de exílio naquele país.
Naquele tempo eu ainda era um jovem (e ainda bastante rústico, por pouco escolarizado) ex-sargento do Exército Brasileiro, perseguido pela ditadura, que sonhava com a revolução latino-americana. Mas, apenas nos conhecíamos, sem nunca termos sido amigos na acepção da palavra, significando isto que nossa relação nunca passou de rápidos contatos, devido à minha relação com seu marido, o político brasileiro Neiva Moreira.
Não sei como estabeleci contato com Beatriz. Talvez tenha recebido alguma mensagem, dessas que são encaminhadas a várias pessoas, e ter visto o nome dela. Devo ter-lhe enviado um e-mail, nascendo o novo contato. Depois ela me solicitou que lhe enviasse um dos meus livros e agora, bem recentemente, recebi um livro dela, sobre o qual já assinalei como sendo uma obra bela e erudita e que estava me extasiando.
É, pois, à raiz deste livro que escrevo esta nota. O trabalho de Beatriz versa sobre o islã medieval, onde encontrei referências a um sábio árabe de nome Ibn Battuta (1304-1368), o que me levou a relacionar a tudo que falei sobre “giletes e cervejas”, pois me lembrei que no sertão, onde nasci, quando ainda criança, era comum usar-se o termo batuta em relação à pessoa sábia, muito inteligente.
Supondo que esta referência poderia estar relacionada com o sábio em questão, pois naquela época ele viveu na península ibérica – então sobre o domínio do islã, pelo menos parte dela –, uma vez que no sertão ainda, mesmo hoje, há alguma sobrevivência de cultura medieval portuguesa, fui consultar o Houaiss, já que em seu dicionário existe indicação da datação das palavras, e lá encontrei, além da impreterível referência ao instrumento com que os maestros regem suas orquestras, como regionalismo de uso informal no Brasil: “que ou aquele que é capaz, hábil, perito em um mister”.
A palavra teria vindo para o português, através do italiano, battuta, em 1565, mas, no caso, relacionado com “bastão delgado, em geral de madeira leve, com que os regentes dirigem as orquestras, bandas, coros, etc.”

Valença, BA, 4 de fevereiro de 2014
                                                                                                        © Araken Vaz Galvão

30.12.13

O Tamanho do Oceano

De origem sertaneja, avistei o mar, nos primeiros anos da década de 40 – significando isto que eu, nascido em 1936, andava por volta dos quatro anos –, pela primeira vez em Alcobaça – pequena e muito antiga (1772) povoação praieira do sul da Bahia, transformada em cidade (1896) –, onde também comecei a conhecer, de modo descontínuo e fragmentário, é certo, os chamados percalços da vida, pois ali faleceu minha avó materna, que praticamente nos criara, a mim e aos meus irmãos. Mas, como era ainda muito pequeno, não guardo nenhuma lembrança particular do infausto. Por outro lado, tampouco me causou impacto a visão daquela massa d’água que, ao vê-la pela primeira vez, as pessoas chamam de imensidão; que o verso de Vinícius de Moraes considerou, com bastante propriedade, que não tinha tamanho.
Era demasiado pequeno – já foi dito e, agora, repetido –, faltava-me compreensão para voos metafísicos estéticos (digamos dessa forma) de maior alcance. Até a minha estatura impedia-me ter uma ideia mais cabal da lonjura da linha do horizonte e, portanto, da sua grandeza. Nem mesmo bem mais tarde, quando aquela aventura louca do meu pai, de mudar-se para Minas Gerais, perseguindo um sonho bem mais insensato de fundar uma cidade, resultara em fracasso – fracasso, aliás, que lhe custara a vida, deixando-me (e aos meus irmãos) órfão – e que, recolhido à fazenda Veneza, no município de Jequié, também na Bahia, do meu avô paterno, tomei conhecimento do verso, emblemático, de Casimiro de Abreu que fala de um “mar (como) um lago sereno”, que minha mãe – uma mulher predestinada a guardar, em sua alma simples de sertaneja, a lembrança do seu passado feliz da juventude, uma vez que, ao sair dos seus anos verdes, sua vida não lhe foi muito propícia –, talvez por sentir, com a viuvez, somente situações consubstanciadas em muita dor e trabalho, por isso não se cansava de recitar (como forma de recordar-se de tempos ditosos), e que eu, ao ouvi-la, mesmo fazendo alguma relação com aquele mar que vira, um dia, em Alcobaça, não sentia nenhuma emoção – porque o mar que conhecera naquela longínqua ocasião, visto do nível da minha visão – não esqueçamos que era muito pequeno – nada tinha de grandioso, tampouco dava ideia de infinito, pois o que eu via não ia muito além da linha da arrebentação e, até onde me lembro, a extensão que minha vista alcançava era uma faixa móvel de água barrenta que ia e vinha, sem nenhuma beleza, salvo talvez, pelas espumas, um tanto cinzentas ou avermelhadas (nem lembro direito este detalhe, porque – descobri mais tarde –, o mar daquela região baiana, carece da cor pura do litoral de Salvador, do Recôncavo e adjacências, sendo mais chegado a cor do mar do norte do Espírito Santo), que as ondas traziam ou formavam, sem que eu sequer desconfiasse que se tratava dos restos mortais (ou imortais, talvez) da Sereiazinha que Andersen, por meio de uma hábil tradução-adaptação de Monteiro Lobato, a qual me faria inundar em lágrimas – isto, tempos depois – a minha alma de pré-adolescente. Porém, isto só se deu – devo frisar bem – quando, órfão, morava na fazenda Veneza, de meu avô paterno.
Mas, naquela ocasião em que estive pela primeira vez frente ao mar (talvez em 1940), vi-o – imagino hoje – como o deve ver um pequeno caranguejo, comum às nossas praias, de nome Ocypode quadrata, que possui várias denominações populares, sendo que a mais usada é guruçá, vinda do tupi (guará-uçá, que possui os nomes populares de aguarauçá, cabeleireiro, siri-fantasma, espia-maré, grauçá, guaruçá, guriçá, cerca-maré, vaza-maré, maruim e sarará, sendo este último nome também está relacionado com alguns mulatos de cor aloirada, talvez pela própria cor do caranguejo, embora o tupinólogo Silveira Bueno diga que a palavra “sarará” está relacionada com uma “formiga que enxameia depois das primeiras chuvas” – tanajura, seria? –, “de cor arruivada, fulva”), que perambula pelas areias, cavando suas tocas com uma rapidez impressionante, ostentando dois olhinhos saltados, capazes de fazerem lembrar a uma pessoa adulta, e relativamente escolarizada, dois minúsculos e agitados periscópios, sempre a observar em todas as direções, cujo alcance – imagino –, deve ser obstaculizado por quaisquer montinhos de areia mais elevados, não devia ser muito maior do que alcance da minha visão naquela época.
Ao pensar no limitado alcance do horizonte do guruçá, lembro-me agora – em 2012, sentado à frente a um bar no largo do Porto da Barra, em Salvador – que, muitos anos antes (por certo por volta de 1990), de ter assistido o filme que Akira Kurosawa dirigiu em 1971, quando estava fortemente deprimido – tendo, inclusive, tentado suicídio, ao concluí-lo, por aquela ocasião –, cujo título original (e comercial, pelo menos em DVD), foi Dodes’Ka--Den, onde existia uma situação similar. Nela penso agora, em particular, aqui, no Porto da Barra, era uma sequência em que duas crianças correm, por entre uma vegetação de altas gramíneas – para conhecer a novidade que, para elas, era o trem –, guiados apenas pelo barulho. Mas ao chegarem ao pequeno corredor descampado próximo à linha férrea, deparam-se com o trem passando em alta velocidade, lhes permitido ver – devido às suas reduzidas estaturas – apenas as rodas, ângulo pelo qual a genialidade do diretor fez filmar a cena. E ao lembrar-me do menino que era nos idos dos anos 40, do século XX, vendo apenas a lâmina de água barrenta, ocasionalmente trazendo espuma, de aspecto sujo, lambendo a fímbria de areia, associo com a visão que imagino ter o guruçá e, por meio dele, ao que as crianças viram naquela belíssima sequência do filme de Kurosawa, o qual é responsável por todas essas associações, encontro a justificativa para não ter visto, e entendido, a vastidão do mar.
No entanto, hoje, 26 de dezembro de 2013, passado o Natal, enquanto minha mulher e eu deleitávamo-nos da insossa solidão da velhice e aguardamos o dia da chegada dos nossos netos capixabas – a neta carioca, filha da minha segunda filha, infelizmente não veio –, relendo este fragmento do meu livro (de recordações da infância) cujo título é Vestígios de uma Vida, ainda sendo escrito, cujo destino deverá ser a publicação, como crônica no jornal local Valença Agora, sou assaltado pela dúvida se a sequência lembrada (linhas passadas) é mesmo do filme de Kurosawa ou de outro, também clássico, do mestre indiano Satyajin Ray, possivelmente no primeiro filme de sua magnífica Trilogia de Apu.
Devo conferir antes de enviar ao amigo João Benicio, de RG Editores Ltda., pois ele, com a amabilidade que o caracteriza, está a pedir-me um conto para a sua coleção O Conto Brasileiro Hoje, que desta vez vou participar com uma crônica.

Araken Vaz Galvão

21.12.13

Viagem à Fronteira

Era rebelde. Sendo mais preciso, poder-se-ia dizer que era, não só rebelde, mas bastante radical. Criado em família católica, não muito praticante, tinha sido batizado, como todos os seus irmãos. Sua mãe comemorava o Natal, a moda sertaneja, Com simplicidade e parcimônia. Mas isso eram apenas lembranças dos tempos de menino.
A rebeldia chegara com a adolescência, ali por volta dos 18 anos. Frases como a “religião é o ópio do povo” – ouvira, aprendera e decorara e passara a fazer parte do seu vocabulário. Esse, e outros aprendizados, guardara em segredo, afinal, não desejava magoar a sua mãe. Mas, secretamente gostava da festa. A ceia de Natal, como era chamada.
Todos em volta da mesa – a mãe, postada à soleira da porta da cozinha, observá-los, sentindo uma felicidade muda no barulho de sua ninhada, pronta para destroçar a galinha recheada com farofa, que fora comprada viva na feira. Os perus, tão fáceis de serem cevados e sacrificados na roça, ainda não eram populares nos subúrbios do Rio de Janeiro, para onde sua família agora vivia.
Por essa época, junto com a máxima que ligava a religião ao ópio, aprendera outras, que falavam ser o “dever do revolucionário era fazer a revolução”. Sim, porque, por esse tempo, considerava-se dessa estirpe. Sabia também que “a violência era a parteira da História” e que “o poder político saía do cano do fuzil”. Foram esses aprendizados que o levaram à luta armada e – depois de uma série de percalços – às prisões e ao exílio.
Exílio, tempo de solidão. Mas também de reflexão. E, consequentemente, tempo de amadurecimento. Foi por essa época que ele redescobriu o Natal. Não como um ritual religioso – pois, continuava descrente –, mas pela confraternização implícita da festa.
Em um ano daquele longo exílio, um amigo, também exilado, o convidou para acompanhá-lo à fronteira, para fazer algumas compras. Era um risco enorme. Sabia que havia um grande número de esbirros da ditadura que caçavam os “subversivos” e que ficavam também vigiando os que procuravam sair do país.
O seu amigo escolhera a cidade uruguaia de Rivera, para arriscar-se do outro lado da fronteira, em Livramento. Tudo correu sem percalços, a ida, a volta. As compras que fizera, coisa do Brasil, que a saudade tornara idealizadas, foram: castanha de caju, guaraná, bombom sonho de valsa, charque, feijão e cachaça para a caipirinha.
Tomou a iniciativa de fazer uma “ceia” de Natal para si próprio. Comprou limão, gelo – não tinha geladeira – envolveu-o em jornal e serragem. As castanhas eram o tira-gosto. A ceia seria feijão com jabá. Em um velho estrado improvisou um divã, onde se estendeu, apoiando as costas de encontro à parede; arrimou uma mesinha e começou a beber. Em determinado momento, lembrou-se da infância, das tertúlias – sempre criticadas por ele, afinal, “a religião era o ópio do povo” – que sua mãe realizava.
Não soube se por efeito da embriaguez ou da saudade, começou a repetir, entre lágrimas, primeiro em voz baixa, depois, boquejando em um tom um pouco mais alto, olhando para a porta da cozinha da sua casa: Feliz Natal, mãe! Feliz Natal!
O pranto se fez mais forte. Despertou no dia seguinte – sem saber a que horas pegara no sono –, com uma tremenda ressaca. O guaraná diminuiu o gosto ruim da boca.  
Tinha esquecido de comer o feijão com a carne do sertão.

Valença, BA, 1º de novembro de 2011
© Araken Vaz Galvão

24.11.13

O Mito de Ariane

Sei que o conceito de mito, mesmo sendo muito elástico, é do conhecimento geral. E, embora, um dos papéis do jornalista seja o de educar, além de bem informar, longe de este modesto cronista desejar pousar de professor para os leitores do nosso jornal, pois sou apenas, como o disse o compositor popular, um eterno aprendiz.
No entanto é mister falar que os mitos são elementos subjetivos básicos na formação de quaisquer sociedades. Alguns são belos, fruto da instigante imaginação de muitas gerações; outros são a consequência de superstição e até da pouca escolaridade. Entre nós, em Valença, existem alguns que se enquadraria perfeitamente nestes casos. Um deles é a forma geral de colocar no gênero masculino o nome da localidade praieira Guaibim, mesmo já se sabendo que esta palavra, vinda do tupi, significa velha. Apenas velha, no caso no feminino. O outro é dizer que a emancipação política da nossa cidade – em um erro que até o nosso Valença Agora é contumaz em cair e recair –, deu-se quando ela foi elevada a condição de cidade, em 10 de julho de 1849, na realidade, nossa emancipação política, deu-se ainda no tempo de Brasil-Colônia, em 23 de janeiro de 1799, quando foi elevada a condição de vila. Pois – e nunca canso de dizer – no tempo de Brasil-Colônia as vilas tinham autonomia. Em 1849, repito, Valença, já emancipada, foi elevada a condição de cidade. Não adianta repetir, o mito continua. E, ao que parece, nada (ou quase nada) se pode fazer para destruir ou modificar os mitos. Deste fato nasce a insistência com que os meios de comunicação – as redes de TVs – sejam pródigos em criar mitos, os quais, na maioria das vezes, são falsos mitos.  
Agora, depois de ter falado de mitos nascidos da ignorância, vamos a outro, nascido de uma bela imaginação. O mito de Ariane. Este instigante mito interessa-me sobremodo, particularmente agora, devido ao fio – poderia mesmo dizer que “o liga a uma situação peculiar, senão única” –, uma vez que estamos sempre ligados, desde o cordão umbilical, a algo. Há sempre um fio que nos liga a alguém ou a alguma coisa.
Embora existam várias versões, algumas com desfechos diferentes, não raros com detalhes contraditórios, o fundamental do Mito de Ariane (Ariadne ou Ariadna, segundo algumas grafias), naquilo que interessa para este texto, dá notícia de que ela era filha de Minos, rei de Creta(1), que teria se apaixonado por Teseu, cujo nome significa “homem porte por excelência” – que foi um herói proto-histórico, já que não existem provas que ele teria realmente existido, ainda que alguns historiadores opinem que ele teria governado Atenas, entre 1234 a 1204 a C. –, segundo se vê na Wikipédia.
Seria longo reproduzir aqui as peripécias vividas por Tiseu, basta-nos, porém, saber que ele seguiu para Creta, disposto a entrar no labirinto onde vivia o Minotauro e matá-lo. Tendo tido sucesso nesta empreitada devido à ajuda de Ariane, a qual encontrou uma solução simples para que ele saísse do Labirinto – uma vez que era notório que se entrando lá, nunca se saia –, exigindo apenas, para ajudá-lo que ele se cassasse com ela. A solução consistiu em dar a Tiseu um novelo de lã (o fio de Ariane, até hoje falado, ainda que pouco conhecido em pormenores), que ele iria desenrolando ao entrar(2), bastando acompanhar o fio ao voltar, onde ela se encontrava pronta para exigir o pagamento pelo serviço prestado. Sabendo que irá, uma vez por ele desposada, prestar outros serviços bem mais interessantes e saborosos.  
Ao escrever, usando uma forma até de certa forma jocosa, sobre Ariane esperando Teseu sair do labirinto, lembro-me de um texto de um escritor espanhol Jorge Semprun(3) (1923-2011), sobre uma situação similar, só que vista do ponto de vista masculino: “Dezessete anos antes, em Roma, ele atravessara o espaço que o separava de Franca. Mas é sempre a mesma coisa. Atravessa-se sempre um espaço: uma rua, um salão, uma galeria de arte, uma floresta, o oceano: a vida, para ir em direção às mulheres. Caminha-se sempre do mesmo modo, com uma idêntica esperança, uma perturbação idêntica: a mesma.”  
Tiseu entrou no Labirinto, matou o Minotauro, voltou seguindo o fio, e partiu levando Ariane. Poder-se-ia agora dizer, usando do verso da música popular – e voltando, não seguindo o fio de Ariane, mas a pisar o chão firme da nossa terra, e da nossa narrativa hoje em dia –, que a notícia carece de exatidão. Não pelas razões contidas na letra da referida música, mas por existir – como já foi dito acima – várias versões sobre o que ocorreu a continuação. Mas estas versões, para nós, neste momento, carecem de utilidade, porque o que nos interessa é a simbologia contida na alusão ao fio.
Embora já tenha feito alusão ao cordão umbilical – este fio que, ao nos ter protegido e ligado à vida enclausurada do ventre materno, ao ser cortado, ligar-nos-á para sempre a uma família, a qual passará a ser, de forma inexorável, o elo que nos mantém preso a outra forma de vida –, por isso sou tentado a fazer agora uma analogia com outro importante mito grego, no caso o de Odisseu(4). Melhor, o de Penélope, posto que esta, esperando a volta do marido, não se sabe por ter apenas esperança de que ele não estivesse morto ou tão-somente o desejo de que ele surgisse assim, do nada, tece uma manta durante o dia, a qual, à noite, desmancha todo o trabalho realizado.
Até parecia que, sentada em sua casa, tecendo durante o dia, mas desfazendo, durante a noite, o trabalho realizado, no simples gesto de puxar o fio, para desmanchar a urdidura que, uma vez concluída, a uniria fatalmente a outro homem. Simbolicamente, seria como se Penélope estivesse, não apenas ganhando tempo, como se diz popularmente, para não ter que optar por nenhum dos pretendentes, mas puxando de volta, por aquele tênue fio, o seu marido de volta. Ou seja, fazendo o tempo correr até que ele voltasse.

Valença, BA, 14 de novembro de 2013



(1) Ilha grega, situada no Mediterrâneo, quase à entrada do mar Egeu.
(2) Não deixa de haver semelhança entre este ardil e outro existente, só que em uma história infantil, João e Maria (Hansel e Gretel), neste caso, as duas crianças usam o expediente de jogar pedaços de pão para demarcar o caminho. Só que os passarinhos comem-no, com as consequência que todos conhecemos.
(3) A Montanha Branca, Nova Fronteira, Tradução de Edison Darci Herdt, em 1987, pág. 78.
(4) Referência a um dos heróis da guerra de Tróia, Odisseu, cujo nome latino popularizou-se como Ulisses, cuja mulher, Penélope, para não escolher nenhum dos inúmeros pretendentes a se casar com ela, os quais ela prometera aceitá-los assim que terminasse de tecer a referida manta, usava do ardil de desfazer a noite o que tecera durante o dia.  

3.11.13

A Vírgula – Mínima Enciclopédia

Certa feita foi encontrar-me com um editor em Salvador, por indicação de um velho amigo, daqui, de Valença, BA, descobri de pronto que este, o editor, era um cidadão, se não forte – como se dizia em meu tempo de jovem –, bastante encorpado. Sendo, de certa forma, um homem grande regendo uma editora pequena. Não que na dimensão do seu empreendimento exista algum preconceito ou desejo de diminuí-lo, afinal, na Bahia só existem editoras daquela grandeza, pois não há das médias nem das grandes. Logo, a sua só poderia ser pequena. Ademais, ao falar em pequenas, vem a mente o lugar-comum grato a minha avó, relacionado com os bons perfumes estarem sempre em frascos minúsculos. Não vou, tampouco, achincalhá-lo por ele ter sido muito pouco educado comigo, ainda que, por ser verdade, guardo-lhe ainda certa mágoa. Mas isso não deve ser levado em conta porque sou, além de velho (e os velhos costumam ser ranzinzas), bastante rancoroso e, também, muito orgulhoso. E o gesto pouco delicado dele não se prendeu ao fato de ter-me dito, logo de entrada, que publicava livros somente à custa do autor, declaração que me surpreendeu, porque isso todos faziam, não sendo novidade. Inclusive eu, sem ser editor, poderia fazer a mesma coisa, em relação aos meus livros, sem necessitar a interferência de terceiros.
Bem, visitava o editor – dizia – e ele descobriu de pronto, em meu texto de quase 300 páginas, uma vírgula fora do lugar, erro que cometo amiúde, por mais que me esforce e por mais que pague a revisores. Descobriu-a e não disse algo assim como: “Vai precisar de uma revisão”. Ou: “Houve um lapso aqui, esta vírgula está mal colocada”. Ele, como um colega de escola, aqueles que tivemos na faixa dos doze, quatorze anos, fez uma daquelas gozações típicas de quem deseja humilhar, como, por exemplo, “não se separa o sujeito do predicado”. Fato que, como pode ser visto, não me esqueci. E agora, passados uns dez anos, ao relembrá-lo, penso em algumas más palavras em relação a sua genitora.
Hoje, ao iniciar essa apresentação, pensei em Graciliano Ramos: “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos mexer”.
Embora vendo que a citação, mesmo sendo muito irônica, não se enquadra à situação que vivi, citou-a, mesmo não podendo dizer onde a li, como sempre faço, porque se trata de algo que anotei em um dos poucos cadernos que escapou comigo, quando fugi da prisão de presos políticos, na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, no final da década de 60. Além do mais, se a benéfica tirania da gramática, esteja ainda presente na situação que ora narro, a polícia política já não impera com o mesmo poder. Em seu lugar, aqui e ali, surgem editores exercendo o papel de beleguim.
Além dessa mágoa pueril, guardo ainda desse editor a lembrança de uma frase sua, cujo sentido, grosso modo, era: “Um autor que escreve livros que nem ficam em pé.” Mas, em relação a livro ficar ou não de pé, falarei depois. Por ora desejo, com essa longa divagação, registrar a atitude do cantor e compositor de modas de violas, não sei se do interior de São Paulo ou de um dos estados de Mato Grosso, Almir Sater, de quem agora me lembrei. Esse jovem artista, por ser bem apessoado – como se dizia em meu tempo de jovem, em relação aos homens –, faz-me também pensar em mim mesmo, pois na minha juventude, ou seja, nos meus tempos de glória ou suposta. E deixando de lado a modéstia, devo dizer que tive, naquele tempo áureo, certa semelhança física com ele, ainda que ele seja bem mais jovem do que eu e, possivelmente, bem mais talentoso.
Lembrando-me disso, imagino como Almir Sater deve ser assediado pelas mulheres – e lá se vai à modéstia para o brejo (já que falo de cantor de música da roça) outra vez –, pois sempre me dei bem nesse terreno. E como aquele tempo passou, resta-me (ao diabo outra vez a modéstia!) apenas dizer: Que saudade.
Bem, continuando. A TV foi-lhe entrevistar Sater por causa do sucesso da canção, cujo nome era “Chalana”, usada como tema, de novela (se não trai a memória) “Pantanal”, que ele cantava. Ao felicitá-lo pela beleza da música, ele respondeu, grosso modo, que não tivera a ventura de escrevê-la. E deu o nome do autor: Carlos Zen.
Agora, para escrever essa apresentação, fui a Internet de vi que Carlos Zen teve um parceiro, Arlindo Pinto, não citado na ocasião por Sater.
Pensei em todas essas coisas porque estou preparando a impressão de um livro com alguns dos meus ensaios, o qual fará parte de uma coleção, uma espécie de “Obras Completas” – romances, contos, crônicas –, às minhas expensas, é claro. Esse ambicioso objetivo prende-se ao fato que já fiz 75 anos e, dentro de mais uns quinze dias, com alguma sorte, a vida acrescentará um novo ano a uma existência assaz atribulada. Afinal, ninguém vive mais de sete décadas impunemente, e começo a sentir que se aproxima a hora da minha partida. Por isso estava preparando esse livro, cujo título, pretensiosamente, é “Araken Vaz Galvão – Ensaios ou quase...”, onde reúno algumas reflexões sobre coisas que vi e vivi, em particular, sobre os livros que sempre me acompanharam, sem os quais ela, a vida, ter-me-ia sido “invivível”, quando constatei que esse livro em preparação, não ficaria de pé. Sua lombada, quando pronto – se consegui editá-lo – terá menos de 10 milímetros. E essa constatação fez-me lembrar do encontro com aquele editor.
Toda essa concatenação de lembranças levou-me ao escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986), e particularmente pensei em seu maravilhoso livro “Pedro Páramo”, 128 páginas, em um formato de 11X17 cm. Um livro pequeno, portanto. No entanto é uma das obras mais brilhantes da literatura hispano-americana do século XX.
Ao lembrar-me daquele editor – e resolver, de uma vez por todas, acertar nossas velhas contas –, pensei na nobreza de caráter de Almir Sater – lembrei-me até de parte da bela canção que, por ele, soube ser de Carlos Zen (e Arlindo Pinto). Lembrei-me também de alguns versos daquela canção. E imaginei que não faltará muito para uma chalana levar-me, sem que essa partida venha a causar algum desequilíbrio ao mundo.
Talvez por isso descubra agora que ao desejar, de forma ardente, publicar, ainda em vida, minhas “Obras Completas”, constate também que esse desejo particularmente prende-se a ilusão de que, mesmo partindo, não partirei por completo. Permanecerei presente em tudo que escrevi. Obras as quais, espero, todas elas – mais de vinte e seis –, ao serem colocadas juntas em uma estante, fiquem de pé.   


Valença, BA, 3 de maio de 2012

© Araken Vaz Galvão 

24.10.13

Considerações sobre a palavra Gaúcho

Não faz muito tempo, premido por encontrar o real significado de algumas palavras em português que expressassem de forma cabal aquilo que estava dito em espanhol, com o preciso sentido enunciado da forma em que estava escrito, deparei-me com sérios obstáculos. Isso me levou a escrever algo relacionado com problemas de tradução(1). Realçando o quão difícil era essa tarefa. Dizia mesmo que, ao executá-la, era preciso não só se encontrar o significado de cada palavra, mas também o sentimento nela embutido ao ser enunciada, ou seja, o sentido – muitas vezes popular – dado por quem a escreveu ou a falou. Minha divagação nascera à raiz de uma mensagem recebida de um amigo, a qual, junto aos votos de Feliz Ano Novo, vinha também a frase, à guisa de pórtico, que dizia: “Lo único que uno trajo a la tierra fue el tiempo de estar vivo.” Era para anunciar o início do ano de 2004, e sugeria que a sentença era do poeta venezuelano Eugenio Montejo.
Na oportunidade, por mera diversão, ao tentar uma tradução, deparei-me com aqueles obstáculos. A expressão espanhola “lo único” – é igual a “o único” –, mas nesta frase significava “a única coisa”. Por esta via a tradução seria: A única coisa que... A palavra uno, em espanhol – igual a um –, nem sempre significa a forma escrita do algarismo 1 ou numeral cardinal um. Nessa sentença, por exemplo, significava uma pessoa, um ser humano, alguém indeterminado. Por este caminho a tradução poderia ser: A única coisa que uma pessoa... Mais um problema. Trajo, do verbo traer (terceira pessoa, singular; pretérito indefinido indicativo, em espanhol), o que deveria corresponder à terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo trazer. Vejamos agora como ficaria a sentença em português: “A única coisa que uma pessoa trouxe à terra (ao mundo) foi o tempo de estar vivo”. O tempo do verbo poderia mudar, mais apropriadamente, para “traz”.
Naquele ensejo, perguntei: Será que alguém escreveria algo assim em português? Ou será que não ficaria melhor: “A única coisa que se traz ao mundo (quando se nasce) é o tempo de viver?” Entretanto, assim escrito a frase perderia todo o efeito de impacto. Além de muito pouco ter a ver com a expressão original.
Naquele momento, ter levantado apenas aqueles pormenores relacionados com as dificuldades inerentes às traduções, satisfazia-me. No entanto, hoje, em função do real significado do termo gaúcho – gentílico no Rio Grande do Sul e categoria social, quase um grupo étnico, na Argentina e no Uruguai – sentir a necessidade de voltar ao tema.
Agora, recentemente, em função do significado daquele termo – sua possível etimologia –, andei consultando o meu amigo, o poeta riograndense, Jean Scharlau, o qual, por ser muito conectado à internet, indicou-me alguns ganchos – também chamados, em “internetês”, de link(2) –, que sugeriram, sem convencer-me completamente, algumas inúmeras possibilidades de significações.
Gaúcho – em espanhol a palavra é paroxítona, ou seja, a sílaba tônica cai sobre o a e não sobre o u – podia ter sua origem em um termo comum às ilhas Canária, já que os casais que o Rei de Espanha mandou trazer para fundar a cidade de Montevidéu eram daquela ilha. Para os que viam naquela palavra os sinais etimológicos, vindos das ilhas Canárias, identificavam-no com Garruchos ou Gahuchos, lá relacionados com o labrego, o homem rústico do campo, algo assim como, em São Paulo e outros Estados do sudoeste do Brasil seriam os caipiras, e aqui na Bahia, o matuto. Essa informação(3) escudava-se nos apontamentos de Saint Hilaire, datados de 1820, em que eram mencionados “esses homens sem religião nem moral, na maioria índios ou mestiços que os portugueses designavam” daquela forma. Não havia dúvida que o termo gaúcho, até quase a metade do século dezenove, era usado de modo depreciativo, “aplicado aos mestiços de espanhol e português com as índias guaranis e tapes missioneiras” (4).
Mesmo considerando que a origem do nome seja bastante antiga, remontando ao século XVI, há quem diga também que essa origem seja um verdadeiro mistério, daí que muitos vão buscar explicações em diversas áreas. Algumas curiosas, como a que diz que por volta dos “[...] anos de mil setecentos (...), os habitantes do pampa era denominados como guascas, que significava tira de couro cru. Essa palavra é utilizada até hoje para se referir ao índio corajoso” (na verdade a algum descendente, porque índios naquela região não há mais), caracterizando as vezes uma pessoa de modos rústicos ou “grossa” – como se diz popularmente. Outra pista informativa leva-nos ao “historiador argentino Emilio Coni” – que aceita a opção da origem relacionada com gaudério – afirmando que, “por volta de 1770 surgiu o termo gaudério, aplicado aos ‘aventureiros paulistas que desertavam das tropas regulares para se tornarem coureadores e ladrões de gado’.” Coni diz mesmo, de forma peremptória, “que a expressão ‘gaúcho’ (tornara-se) corrente nos documentos a partir daquele ano, como sinônimo de gaudério e também para designar os ladrões de gado que atuavam nos dois lados da fronteira”.
Não havia dúvida, pois, que, para muitos, esse homem indômito – filho de brancos (espanhóis ou portugueses e, mui raramente, de algum escravo fugido), que conquistou vastas extensões da parte sul do nosso subcontinente, cujas vocações guerreiras, bem como a habilidade nas artes equestres ou na sua versão militar, mais conhecida como cavalaria, só encontrava paralelo entre os cossacos(5), fosse relacionado com o termo gaudério, significando este, entre outras coisas, vagabundo, no sentido de que o ser nada mais era do que ser andarilho, ou seja, ser uma espécie de cachorro sem dono, cão errante, “aquele que acompanha qualquer pessoa, abandonando-a logo para seguir outra”, segundo registra o Aurélio, configurando um significado nada nobre, para justificar o surgimento de um homem altaneiro e, incontestavelmente, bravo.
Havia ainda(6) “outra corrente, liderada pelo professor Fernando Assunção”, que recorria “à palavra francesa gauche, que significa esquerdo e, por extensão, tudo o que não é direito.” Afirmando que “o galicismo espanhol gaucho, aplicado em Geometria e Arquitetura” significava “aquilo que está fora de nível; e o primitivo gaúcho era considerado, dentro da superfície ou do plano social, como um defeito da raça espanhola”.
Mais além de que essa suposição, por excesso de eurocentrismo, chegue a ser um pouco risível, encontramos outra, talvez mais fundamentada, que se escora nos estudos linguísticos aplicados a idiomas que não chegaram a possuir alfabeto, como foram as línguas ameríndias, pois afirma que os guaranis não possuíam o som consonantal da letra correspondente ao h aspirado, que é usando naquela ciência, mais ou menos – para os leigos – como rr ou ere duplo. Essa informação encontra-se no livro do importante folclorista gaúcho, Barbosa Lessa(7),  “Rodeio dos Ventos”, que “aponta duas correntes: Uma, do falecido professor Buenaventura Caviglio, reporta-se ao instrumento garrocha, espécie de foice com que outrora cortavam o jarrete dos bois durante as caçadas de couro; garrucho seria o homem portador de garrocha; e como os guaranis não conheciam o som rr, passaram a dizer guahucho”, a qual não deixa de ser curiosa, ainda que o comum dos mortais não encontre, ali, nenhum som parecido com ere duplo.      
O mesmo Barbosa Lessa afirma que o termo tanto pode ter vindo do “quéchua ou do árabe ‘chaucho’ (um tipo de chicote para controlar manadas de animais)”. Afirma ainda que “[...] o primeiro registro da palavra se deu em 1787, quando o matemático português Dr. José de Saldanha [...]” usou-o no “[...] registro (que) deu em uma nota de rodapé em seu relatório de trabalho. O termo originou-se na língua indígena da descrição de pessoas de hábitos nômades, criminosos, brancos pobres, escravos fugidos ou índios aculturados que não possuíam terras e vendiam sua força de trabalho a criadores de gado nas regiões de ocorrência de campos naturais do vale do Rio da Prata, entre os quais o pampa, planície do vale do Rio da Prata e com pequena ocorrência no oeste do estado do Rio Grande do Sul, limitada, a oeste, pela cordilheira dos Andes.” Há que diga(8), porém, que, “[...] como a maioria dos brasileiros, (os gaúchos) são descendentes de uma mistura de europeus, índios e africanos, mas com algumas peculiaridades. O estudo apontou que os ancestrais europeus dos gaúchos seriam principalmente espanhóis e não portugueses. Isto porque a região foi por muito tempo disputada entre Portugal e Espanha e só foi transferida da Espanha para Portugal em 1750. O estudo também revelou um alto grau de ancestralidade indígena nos gaúchos pelo lado materno (52% de linhagens ameríndias), maior do que o dos brasileiros em geral. O estudo também detectou 11% de linhagens africanas pelo lado materno. Desta forma, os gaúchos são fruto sobretudo da miscigenação entre homens ibéricos com mulheres indígenas e, em menor medida, com africanas”.
Tendo chegado a essas informações, encontramos(9) ainda que “Alguns autores afirmassem que o termo gaúcho vinha do Guarani”. E significaria “homem que canta triste”, aludindo provavelmente à “cantilena arrastada dos minuanos” – índios que habitavam aquela região. Entretanto, algumas fontes, depois de dizerem que essa explicação não satisfazia a “maioria dos autores rio-grandenses”, aventava a explicação de que ela “seria uma corruptela da palavra Huagchu, de origem quéchua(10), traduzida por guacho, que significa órfão e designaria os filhos de índia com branco português ou espanhol, ‘registrados nos livros de batismo dos curas missioneiros simplesmente como filho de fulano com uma china das Missões’.” Sendo que fulano entrava ali como forma de ocultar o nome do pai, o qual desejava permanecer incógnito. E “uma china das Missões”, nada mais era do que uma forma de se nominar genericamente as índias ou mestiças, podendo ser, em alguns casos, o mesmo que puta.
Ao chegarmos ao termo quéchua, huagchu, nos aproximamos também do escritor e ensaísta argentino Marcos Aguinis (n. em 1925), ou do seu livro “El atroz encanto de ser argentinos”, que também adota essa teoria(11) de que aquela palavra significava bastardo. Conforme podemos ler: “El gaucho es controversial. Desapareció por causa de las levas forzosas, su sistemática y a menudo injusta persecución, y el alambrado implacable de la llanura donde ejercía su libertad. Excepto algunos casos puntuales como los gauchos de Güemes, la sociedad de entonces los consideraba producto de la paternidad irresponsable y adictos a la violación de la ley. Entre las diversas etimologías que se disputan el mérito de haber gestado su nombre, parece que la más acertada –y dolorosa– es guacho (del quechua: bastardo, hijo de puta)”.
Tendo uma origem tão controvertida, da qual nem mesmo os especialistas do Rio Grande conseguiram chegar a um consenso, não seria de causar espécie que o historiador argentino, ao ver falar em “filhos de índia com branco português ou espanhol” e que essas crianças tinham suas origens registradas nos livros de batismo “como filho de fulano com uma china das Missões” e se considerarmos que “china” pode ser também sinônimo de prostituta, começamos a compreender porque ele deduziu que “parecia a hipótese mais acertada –y dolorosa– era guacho (vinda do quíchua: bastardo, filho da puta”, o que pode levar-se a deduzir que histórica e etimologicamente, todos os “gaúchos” eram (podiam ser) bastardos, ou seja (o diz ele), filhos da puta. Esquecendo-se que o termo quíchua huagchu aplicava-se aos órfãos, não podendo se referir aos filhos das prostitutas porque, ademais, entre aqueles povos – que criaram o Incanato – não existia prostituição. Pelo menos não existia da forma tradicional que conhecemos e que teve (e tem) através dos séculos forte papel econômico. Logo, não podia existir entre eles filhos da puta, nem o termo para classificá-los. O que pode ter ocorrido é que o termo quíchua que se aplicava aos órfãos ou aos que ocasionalmente eram gerados extra-matrimônio – sem que isso implicasse em prostituição de suas mães –, pudesse aplicar-se a algum eventual bastardo(12), por isso, então, passara a se empregar também em relação aos inúmeros filhos de brancos com índias, fosse por meio de violência ou por remuneração. Porém isso se dera depois da colonização. E a palavra quíchua, huagchu, porém, existia na língua daquele povo antes da chegada dos espanhóis.
Entre as muitas etimologias para a palavra gaúcho, o mesmo amigo Jean Scharlau mandou-me uma, extraída de fonte(13) em espanhol, que afirma ser esse termo comum a algumas línguas sul-americanas, tendo em todas elas significados próximos. Em Aimará seria huajcha, o mesmo que órfão; em quíchua seria huaccha, o mesmo que pobre ou órfão; em mapudungun, seria huachu, o mesmo que filho ilegítimo. Diz o autor que a palavra gaúcho poderia ter sido criada por qualquer dessas línguas. Porém, ela deve ter vindo mesmo por meio do quíchua porque foram esses povos que primeiro travaram contato com os espanhóis. Diz ainda que, segundo Joan Corominas(14), esta palavra provem mesmo do quíchua uájcha, significando pobre, indigente, órfão. Tendo o diminutivo de uaj, que quer dizer estrangeiro. Como curiosidade, há um comentário(15) que diz que, no Equador, a palavra deu origem a guacho, o mesmo que órfão; e a guáchara, que significa viúva. É dito ainda que os bilhetes de loteria são chamados popularmente de guachitos. Deduzindo-se que são os filhinhos da viúva, podendo deduzir-se ainda que algumas mulheres pobres (e viúvas) vendem esses bilhetes para sustentar seus filhos. Por outro lado, é justo esclarecer que há algumas evidentes diferenças de grafia entre as palavras citadas neste parágrafo, como, por exemplo, huajcha e uájcha, é que os lingüistas de fala inglesa e alemã ainda não chegaram a um consenso sobre qual a forma correta de escrevê-la(16). Coisa natural, se levarmos em conta o tamanho da fogueira de vaidades que existe nas diferentes academias.
Aliás, sempre que penso nessa palavra vinda de um idioma hoje tão remoto, associo-a – quiçá por ato falho – a outra que acabou incorporando-se a alguns idiomas latinos, com propriedades bem diferentes das originais. Refiro-me a fidalgo, palavra surgido no século XVIII, cuja etimologia leva-nos a filho d’algo, ou seja, a filho de alguém muito importante, no caso, por possuir muito dinheiro, ou seja, ouro. E esse alguém muito importante poderia ser uma pessoa da burguesia ascendente, mas sem sangue azul, que enriquecera. Dessa forma, essa palavra, acabou por designar aqueles que possuíam títulos de nobreza, herdados de seus antepassados ou concedidos pelo rei. Ou seja, passou a denominar os próprios nobres, os aristocratas. Assim colocado, lembro-me também da bela metáfora do compositor Chico Buarque de Holanda, quando diz: “Saudade é o revés do parto”. E sou levado a pegar carona em sua figura, dizendo que huagchu é uma espécie antítese ao revés (ou seu antônimo), já que significaria filho de alguém que não se sabe quem é. E que, tampouco, era importante.
  

Valença, BA, 18 de fevereiro de 2012
© Araken Vaz Galvão




(1) Publicado em “Trivio” crônicas, edição do Autor, Valença, BA, 2010, pág. 163. A crônica em questão, escrita 02-05-2010, chamou-se precisamente “Problemas de Tradução”.
(2) Vejo agora no Aurélio – digo-o a título de curiosidade – que essa palavra é a redução de hyperlink, – termo do inglês da internet – que poderia ser traduzido por elo (no sentido de remitir a outro texto) ou vínculo. Infelizmente o Aurélio não fornece o plural. Engraçado é que o termo gancho serviria perfeitamente para substituí-lo, se não houvesse, entre nós, tanta ânsia em se falar inglês.
(3) Informação recolhida na Internet, onde cita apenas como tendo a sua “origem: História Ilustrada do Rio Grande do Sul – CEEE”. 
(5) Grupo étnico da estepe russa, hábeis soldados de cavalaria, famosos como força repressora do Tzar.
(6) (http://razoesdobocabraba.blogspot.com/2011/03/origem-da-palavra-gaucho.html)
(7) Cujo nome completo era Luiz Carlos Barbosa Lessa.
(8) http://pt.wikipedia.org/wiki/Ga%C3%BAcho
(10) Idioma andino, inclusive falado por povos de parte da Argentina, no caso aqueles povos que foram dominados pelos Incas, já que esta era a língua daquele Império. 
(11) AGUINIS, Marcos. “El atroz encanto de ser argentinos”, Planeta, Buenos Aires, 2001, pp. 57.
(12) Sabe-se que entre aqueles povos a união carnal – chamemos assim – dava-se de forma espontânea, sem o ritual coercitivo existente entre os colonizadores. Em outras palavras, se a união não vingasse, os cônjuges separavam-se, voltando a ficar ambos na mesma situação existente antes da união, sem que fossem chamados de “separados” ou algo similar. A provisão dos filhos que por ventura houvesse seria arcada pela comunidade, sem nenhuma discriminação. Isso é, pelo menos, o que dizem os antropólogos andinos. 
(13) Informação em espanhol: F:\GUACHO.mht
(14) Breve Diccionario Etimológico de la Lengua Castellana, mas não sita outros dados identificadores, como editora, lugar onde foi impresso, nem o ano.
(15) A mensagem é assinada por Ivan Noboa Tapia.  
(16) As línguas ameríndias – em particular as dos Andes – os lingüista atuais não conseguiram sequer chegar a um acordo sobre qual a forma correta (ou mais prática) de grafá-la. No caso de uma das principais, a falada no Incanato, se por um lado alguns a escrevem quíchua, outros a escrevem quéchua. Caso similar ocorre com o nome da capital dos Incas, encontra-se Cusco, Cuzco e até Qosqo. Não seria, pois, de se estranhar que algo similar não ocorresse também com a grafia de outras palavras. (Informação contida em uma dessas mensagens que nos chegam de pessoas desconhecidas, não se sabe como, que fala de “Projeto Fábula no Atacama”, onde há um texto em que se realça essa confusão na forma de escrever a mesma palvra, dependendo na nacionalidade de quem a escreve, atribuído a Urda Alice Klueger, dizendo apenas que ela é uma “historiadora do Vale do Itajaí”. Dessa forma, em falta de outros dados, deixo aqui o que tenho como crédito a quem de direito).